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Em Benveniste (1995; 1989) encontra-se a teoria a respeito do aparelho

formal da enunciação e da conseqüente subjetividade da linguagem, bem como

a distinção entre discurso e história, ou seja, entre o sistema lingüístico enunciativo, vinculado à enunciação, e o sistema lingüístico enuncivo, ligado ao enunciado. Todos estes conceitos serão abordados em ordem peculiar à presente tese. Consoante o autor em destaque, o objeto da lingüística é a língua considerada em si mesma, despida, pois, de todas as questões conexas ou acessórias. Tal alvo analítico, a língua, é dado a conhecer por sistema baseado na peculiaridade de seus elementos – traços formalmente representados por fonemas e morfemas diferentes, mas solidários entre si.

Estes elementos restam ordenados em séries e mostram em cada língua arranjos particulares. Tais ordenações são conformadoras da estrutura da língua e por ela conformadas, sob um prisma e, sob outro, a estrutura da língua implica a ordenação dos elementos lingüísticos e sua capacidade de associação ou substituição, diz o estudioso francês.

enunciação e de enunciado. A primeira é vista como a colocação em uso do sistema lingüístico, de tal uso resultando a comunicação intersubjetiva. O segundo é tido como produto que resta da enunciação e, pois, é nele que se encontra a sua manifestação.

Como se pode perceber, pela enunciação se efetiva o procedimento de discretização dos elementos lingüísticos e por intermédio da segmentação do enunciado se torna possível chegar ao elemento tido como discreto, isolado, visto per se. Ademais, partindo das lições de Saussure acerca da linguagem, da língua, do signo e do símbolo que o reveste, Benveniste (1995; 1989) busca estudar de modo relacional tais entes e a cultura enquanto produto social. Exatamente por isso, o autor realiza suas pesquisas sobre a linguagem, considerando a cultura socialmente desenvolvida e o indivíduo que a usa e delimita, além de ser por ela delimitado enquanto ser imerso em determinado contexto circunstancial, a partir da língua vista como fio condutor, liame que perpassa aos aludidos elementos considerados sistemicamente.

Ocupa-se Benveniste (1989; 1995), ademais, do aspecto formal e daquele substantivo do sistema lingüístico. Para ele, a forma lingüística é estruturalmente definida como sendo: a) uma unidade de globalidade constituída por partes que se apresentam num arranjo formal, o qual obedece a certos princípios perenes; b) uma estrutura, porque suas partes constitutivo-integrantes exercem uma função, restando tais partes agrupadas em níveis distintos, cuja ordenação obedece a critérios hierárquicos.

Não é só. No que tange ao aspecto substantivo do aludido sistema, há que se lidar com significações e funções. Assim, a linguagem e, pois, cada língua natural tem por função permitir ao ser humano a realização da faculdade de simbolizar entendida em sentido amplo como a prerrogativa de se representar os mundos fenomênico e ideal por intermédio de construções de signos. Esclareça-

se, outrossim, que se houver mudança histórica de função afeta ao emprego da linguagem, esta restará vinculada a novo paradigma sócio-cultural.

Em adição, é preciso lembrar com Benveniste (1989) implicar a língua na efetivação de relação intersubjetiva. Por outros termos, o arquétipo do pensamento é configurado pela relação entre o indivíduo e a língua. Assim, esta é responsável pelo pensar subjetivo, mas o é enquanto construída intersubjetivamente. Ademais, diga-se, cada uso subjetivo da língua ao mesmo tempo em que formata o pensamento individual pode gerar a modelagem do ente utilizado.

Sendo a linguagem vista como relacional, Benveniste (1989; 1995) também se dedica à abordagem de muitos dos vínculos dotados de polaridade dúplice. Por conseguinte, ele vê a linguagem enquanto instrumento de mediação do homem consigo mesmo, com o mundo circundante e com seus congêneres. De igual modo, vê as inúmeras dualidades lingüísticas – tais como aquelas entre som e sentido, o indivíduo e a sociedade e a identidade e a não-identidade – como decorrentes do fato segundo o qual a linguagem, na condição de objeto de estudo, é sempre um objeto duplo.

Benveniste (1995) também vê o signo enquanto dotado do atributo arbitrariedade. Para ele, todo signo é arbitrário por remeter para aquilo que ele não é, porque pretende apenas representar ou dar a conhecer. Mais: porque arbitrário, o signo é sempre convencional, restando efetivado de maneira intersubjetiva, além de cambiável, apesar de perene. Em adição, é mister não se olvidar ser o signo necessário culturalmente e indissociável da cultura.

Outrossim, Benveniste (1995) se ocupa da problemática do homem posto na língua por sua utilização desta. Adentra, deste modo, à questão da subjetividade lingüística fundada no ego – expresso e determinado pelo status da pessoa –, o qual resta dado a conhecer pelo exercício da língua.

que o tempo presente é o ponto de partida de toda enunciação, prestando-se o passado à concretização da idéia de momentos idos e o futuro à efetivação da noção de algo por vir, dos anseios e das perspectivas vislumbradas. Portanto, o emprego dos tempos verbais objetiva à geração do sentido de fluidez e da situação temporal. Igualmente, deve-se ter em mente que a modificação do tempo verbal no ato enunciativo implica prévia alteração subjetiva de natureza temporal. Mais: O uso das formas verbais – termos ou locuções – explicita no enunciado surgido o aparelho formal desta com o auxílio preponderante dos pronomes.

Surge, pois, a teorização de Benveniste (1989) acerca do aparelho formal da enunciação como estrutura veiculadora e efetivadora de um eu/tu (ego) referindo-se a um ele, num aqui e agora (hic et nunc), os quais, respectiva e implicitamente, implicam a existência de termos como aí, ali, lá, acolá e antes,

então e depois, todos carregados com seus distintos efeitos de sentido. O aparelho formal da enunciação é o veículo da subjetivização lingüística e, portanto, o arquétipo indiretamente ensejador da categoria da pessoa.

Tem-se, em decorrência, a pessoa – constituída pelo eu/tu – relacionável à não-pessoa – o ele. Daí serem o eu stricto sensu a pessoa subjetiva e o tu a pessoa não-subjetiva, porquanto construída culturalmente. Pode-se, ainda, afirmar que o eu é sempre produto social. Mais: o eu e o tu são únicos, concretizando-se a cada enunciação, bem como reversíveis entre si, não possuindo o ele tais características, já que se efetiva não na enunciação, de natureza intrapessoal, mas, sim, na comunicação, de caráter interpessoal. Não é só. Infere-se consistir o nós na junção de um eu com um não-eu – tu ou ele. Já o

vós implica a junção do tu com o ele(s) ou significa a pluralização do tu. Por seu turno, o eles consiste na pluralização do ele.

Igualmente, deve-se abordar, de maneira resumida, a questão da relação entre a forma e o sentido na linguagem e, em conseqüência, a polarização entre

o que Benveniste (1989) denomina Semiótica e Semântica. Para ele, a Semiótica tem por função lingüística o significar e a Semântica o comunicar. Mais: enquanto a Semiótica se caracteriza como uma propriedade da língua, a Semântica é o resultado da língua posta em ação pelo locutor. Assim, o signo é para ele semiótico e a frase – logo, o texto, dir-se-ia hoje – é a expressão semântica por excelência. O signo é de cunho geral; a frase, de caráter particular. O primeiro exprime a realidade intrínseca da língua; a segunda, a realidade extrínseca à língua.

Mais: de acordo com Benveniste (1989) há distinção entre significado e sentido. O primeiro é geral e conceitual, restando latente na condição de repertório lingüístico do qual podem ser extraídos diferentes sentidos. O segundo, por outro lado, nada mais é do que a peculiarização, a delimitação conceitual de um signo no momento de sua utilização concreta.