Como foi referido anteriormente, os transformistas têm o costume de se especializar em determinadas cantoras ou repertório. Por exemplo, Larrue especializou- se na Whitney Houston, Krystal na Isabel Pantoja, e mais recentemente Swan no grupo português Da Vinci. Esta especialização faz com que o transformista passe a ser o detentor informal daquele repertório, numa espécie de exclusividade que é reconhecida pelos transformistas e pelo seu público. “Ninguém paga direitos de autor perante uma música ou um artista, porém existe muito respeito”, refere Lázaro Ferro “Shantal de Cuba”, “quando penso em fazer um medley que inclui uma música que alguém do Finalmente costuma fazer, eu aviso sempre a pessoa em questão; pergunto se há problema. Já aconteceu com a Samantha, por exemplo”149. Vítor Hugo confirma estas ideias:
“Eles não fazem um número nosso. Só se pedirem autorização. Os poucos que tentaram fizeram-no muito mal. Para eles conseguirem sucesso com um número nosso eles têm de nos superar, senão nem vale a pena sequer subirem ao palco ... só envergonham a cara deles. As pessoas que estão a assistir sabem, por exemplo, que é a Jenny quem faz de Whitney Houston, mais ninguém. O público está habituado a ver-nos a fazer um número e depois alguém no “Lugar às Novas” tenta faze-lo também; coitados, saem ridicularizados do palco”150.
Ricardo Tavares “Norma Swan” apresenta uma perspetiva semelhante. Sendo ele um dos responsáveis pela organização dos alinhamentos do “Lugar às Novas”, Tavares adverte os transformistas para os riscos de fazerem uma música que pertença a um dos elementos da casa:
“Há pessoas que chegam lá e fazem as nossas músicas; depois os clientes começam a gozar porque sabem que as músicas são nossas. Às segundas-feiras sou eu quem define a ordem do “Lugar às Novas”. Eu aviso logo... se a música que algum de vocês fizer for de alguém da casa, das duas uma: ou corta-se e a pessoa fica no palco sem música, ou entramos,
149
Entrevista a Lázaro Shantal “Shantal de Cuba”, transformista (Lugar às Novas) (23 de maio de 2013 na Praça Martim Moniz, Lisboa, 16:20).
150
Entrevista a Vítor Hugo Sousa, bailarino no Finalmente Club (21 de maio de 2013 no café Wine & Pisco, Rossio, Lisboa, 17:15).
vestimos a roupa e fazemos nós. Ainda não aconteceu, mas já avisamos que pode acontecer. Porque somos nós que temos o trabalho de procurar as músicas, investimos montes de dinheiro em vestidos, os acessórios, tudo. É muito trabalhoso. Nós estudamos a música, perdemos tempo com ensaios, seja em casa seja no Finalmente. A música torna-se nossa.151”
Acrescentando-se a estes argumentos, João Velosa “Nyma Charlles” chama a atenção para a importância de criar novos estilos ou interpretar cantoras ou canções pouco habituais no espetáculo de transformismo. Para o transformista, é nesta inovação que reside a chave para o sucesso individual dos artistas e do futuro do transformismo como área artística promissora. É neste sentido que fazer um boneco que existe ou que já está estabelecido pode consistir num problema, prejudicando a imagem dos transformistas que a fazem, como nota Velosa:
“Se alguém chegar e quiser fazer um número meu, que faça. O problema é que as pessoas estão habituadas a verem-me fazer esse número e ao fazerem-no no mesmo espaço em frente ao mesmo público, quer dizer, acabam por cair no ridículo. Eu costumo dizer: ou façam melhor do que eu, ou não façam. Nós temos essa regra entre nós: não fazer os números uns dos outros. O que a Jenny faz eu não faço, o que a Samantha faz eu não faço. E no geral isto acontece também de fora para dentro, eu acho que as pessoas respeitam. Imagina alguém que vai ao “Lugar às Novas” e faz algo que nós fazemos ... As pessoas identificam quem? Nós. Quando estás habituado a um produto que é constantemente apresentado pela mesma pessoa, chegas a uma altura em que não vês mais ninguém fazer aquele produto. Ou seja, eles só se prejudicam se o fizerem. Não é benéfico para ninguém. Nem para nós. Porque quem quer ingressar nesta profissão, que cada vez está mais restrita, e com menos trabalho, tem que se destacar. Para o fazerem têm de utilizar um bocado de personalidade e da sua criatividade. Agora se forem a usar a minha criatividade e personalidade, pá, para um já temos em bom, não precisamos de outro. Para mim o que se destaca é a diferença. Se fossemos todos iguais, ninguém se destacava. É por situações como esta que o espetáculo sério de transformismo pode vir a morrer.152”
Em suma, existe um reconhecimento coletivo no que se reporta à exclusividade do repertório por parte dos transformistas e do seu público. Ao apresentar-se em público com um determinado número, o transformista torna-se assim no titular desse mesmo produto. Não de trata de uma apropriação legal mas sim informal, na medida em que os transformistas não auferem de qualquer compensação de direitos de autor em relação à
151
Entrevista a Ricardo Tavares “Norma Swan”, transformista no Finalmente Club (19 de maio de 2013 nos Armazéns do Chiado, Chiado, Lisboa, 16:40).
152
Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).
música e à imagem dos artistas que imitam e apresentam em palco. Esta apropriação é justificada já no processo de montagem dos números, num investimento através do qual os transformistas perdem muito tempo para ensaiar, e dinheiro em roupa e adereços. Estas ideias são usadas para legitimar a associação exclusiva de um número a um transformista, e todos aqueles que não respeitarem estas regras poderão ser punidos, podendo a sua performance ser interrompida pelos DJ’s residentes ou transformistas, criando assim um impasse que todos querem evitar. Afinal, segundo os transformistas e o seu público, só a Jenny Larrue é que pode fazer de Whitney Houston e só Deborah Krystal é que pode fazer de Isabel Pantoja; quem pode fazer a música “I’m in Love” é apenas a Norma Swan e quem dá a cara pelo “Las Vegas” é o Vítor Hugo. Mais ninguém o pode fazer.