O projeto ANG/035/FAO/EC motivou esta tese e ocorreu entre 2007 e 2009 em três províncias angolanas. Teve como Objetivo de Desenvolvimento, Ver reforçada a descentralização da posse de terra e as instituições de gestão de recursos naturais, bem como a implementação participativa de intervenções sensíveis ao gênero em áreas selecionadas das províncias de Benguela, Huíla e Lubango.
Foram estabelecidos objetivos, resultados imediatos e atividades cujas linhas principais serão descritas como elemento empírico trazido ao estudo e que precederão os conceitos resultantes da pesquisa que realizei em campo.
Em decorrência do Objetivo de Desenvolvimento, o Objetivo de Comunicação Estratégica foi o de criar condições para que as atividades do projeto fossem amplamente divulgadas contribuindo, através da visibilidade, para facilitar o trabalho no terreno, com um forte componente de empoderamento das mulheres (PUGNALONI, 2007).
As mulheres são consideradas nos projetos humanitários como atores42 principais, pois está demonstrado que elas investem os recursos que lhes são atribuídos inteiramente no provento da família. A igualdade dos direitos e a plena participação das mulheres em todas as esferas da vida social constituem uma necessidade para o desenvolvimento total de um país, para o bem-estar do mundo e para a causa da paz.43 É importante incluir as mulheres especificamente entre os rights holders, caso contrário é possível que elas permaneçam totalmente fora dos programas, mesmo os bem projetados (YUNNUS, 2008). O Nobel da Paz de
2006 estabeleceu as mulheres como público prioritário para a concessão de crédito no Greemen Bank.44 por saberem administrar muito bem a escassez. Mas nem
42 O termo ator refere-se a um agente concreto, localizado em determinado contexto. Designa qualquer indivíduo ou grupo social/institucional, interessado no desenvolvimento de um território. Os atores podem ser definidos como as partes que serão direta ou indiretamente afetadas de forma positiva ou negativa, pelas decisões adotadas. Configuram-se na “porta de entrada” que permitirá a identificação e compreensão das problemáticas territoriais em uma determinada área, por meio de uma análise histórica. Os atores podem ser agrupados em tipologias ou classes de acordo com critérios de identificação tais como: gênero, relações de poder e estratégias, objetivos e interesses ante questões examinadas. (FAO, Comunicação, diálogo, conciliação. Roma, FAO) 43 Declaração da ONU sobre a Eliminação da Discriminação contra as mulheres.
44 O Greemen Bank e o conceito de microcrédito foram criados no final da década de 1970 por Yunnus, com um capital inicial de 27 dólares e 5 estagiários como staff. É hoje uma empresa social, outro conceito que ele propaga, pois reinveste todo o lucro em seu próprio crescimento. Em 2008, havia realizado empréstimos da
sempre foi assim, pois elas não se viam como merecedoras e capazes de fazer bom uso do dinheiro, lembra Yunnus. Isto devido aos milênios de tradição em sociedades machistas que delimitavam esse domínio como masculino. Apesar de ser bastante comum nas comunidades pobres que a renda do marido, ao invés de ser aplicada ao custeio da família, seja gasta em mesas de bares.
“Quando visitamos pela primeira vez as mulheres pobres das aldeias de Bangladesh para lhes oferecer crédito, elas ficaram com medo de aceitar o dinheiro e disseram que não tinham ideia de como usá-lo de maneira prática. Essas mulheres tinham muitas habilidades. Contudo, tinham acumulado tanto medo e insegurança durante anos e anos de exposição a atitudes sociais repressivas, que nem sequer conheciam os próprios talentos. [...] Em pouco tempo, as mulheres perceberam que possuíam habilidades suficientes para usar o capital oferecido a fim de ganhar dinheiro” (YUNNUS, 2008, p. 125).
A mesma idéia de empoderamento das mulheres é compartilhada pelas Nações Unidas, especialmente pela FAO. O projeto Terra teve como rights holders na certificação de posse de terras prioritariamente as mulheres45. A FAO constatou que historicamente as mulheres não vendem as propriedades e garantem a continuidade da posse para assegurarem o bem-estar da família. É a mulher a protagonista para que a vida prevaleça, vingue, triunfe, mesmo em condições inóspitas como na guerra. Ou no que a paz reservará a ela e aos seus se o país vencer ou capitular. É a mulher que protege a prole, luta por ela, deixa de comer para alimentá-la. Que busca força em seu interior onde já não existe força alguma. A não ser a que ela deve passar às vidas por ela geradas. E, assim, um ser frágil, porque sensível, mesmo na fraqueza deve parecer uma fortaleza. A mulher, essência da vida, deve cuidar para que a vida gerada desabroche e se desenvolva e proteger essa vida iniciante. Como enobrece Puntel (2010, p.221-222)
[...] não se faz acontecer a vida sem a luta, sem a fadiga, sem o suor, sem a tristeza, sem as lágrimas... a mulher faz, também, acontecer a vida, construindo-a, conquistando-a, tecendo-a no silêncio ou na felicidade de se doar... até que um novo ser exista, renasça, cresça,
ordem de 7 bilhões de dólares às mulheres pobres de Bangladesh sem nenhuma garantia legal, numa média de empréstimos individuais de no máximo de 32 dólares. A sua taxa histórica de inadimplência é de 2,8% das operações realizadas nos anos de existência do Greemen Bank. (Yunnus, 2008).
45 Ver no Anexo B fotografias e declarações colhidas na Primeira Conferência das Comunidades San de Angola, ocorrida em 2007. Nele aparece uma descendente San exibindo o seu certificado de posse de terra.
ame, se doe, se integre, seja feliz! Assim, a mulher, geradora de vida, luta para que a vida triunfe; luta para que a dignidade da vida seja respeitada; luta para que os direitos da pessoa humana sejam igualitários e a discriminação não prevaleça.
Fotografia 36 – O futuro sobre as costas
Quanto às suas estratégias e ações a principal foi a de que o Projeto Terra se constituísse em seu próprio agente de comunicação. Ao invés aguardar que os meios de comunicação cedessem espaço para notícias relativas ao andamento do projeto, importantes para o esclarecimento da opinião pública, foi proposto serem firmados acordos com os veículos estatais e privados (monopólio estatal) para a criação de programas de serviço – portanto de utilidade pública46 – passando a
46 Entende-se por programa de utilidade pública, no contexto, o que proporcionasse a resolução de problemas de domínio público e de cidadania. Informações sobre procedimentos legais e técnicos, direitos e deveres. Além disto, que incluísse a possibilidade de desenvolver o senso crítico, o direito de reivindicar e a mobilização das comunidades.
equipe a ter domínio, através do acordo prévio, sobre o conteúdo e a periodicidade da informação e construindo um espaço de comunicação popular. Essa como afirma Peruzzo (2004), contribui para a democratização da sociedade e a conquista da cidadania, pois ensina a participar politicamente, a apresentar a sua canção e o seu desejo de mudança, a denunciar condições indignas, a aprender a exigir seus direitos. E conseguirá a comunicação realizar esses propósitos quando inserida na dinâmica dos movimentos que trabalham com as comunidades, no caso a FAO e as ONGs locais de segurança alimentar. Nessa ação foi pensada a comunicação como parte de um movimento para a emancipação a ser estimulada nos habitantes das comunidades tradicionais rurais. O objetivo seria o de fomentar a comunicação entre eles, e deles para si próprios, com o apoio dos especialistas em comunicação e em segurança alimentar. Além da participação na comunicação seria importante o empoderamento e a criação/fortalecimento do sentido de pertencimento, enfraquecido ou mesmo perdido durante a guerra.
Foi previsto que os programas de rádio contassem com a participação de representantes das comunidades a serem envolvidas na produção e gravação, para possibilitar maior acesso popular aos órgãos de comunicação e a participação da coletividade nas decisões sobre a programação47. O que era normalmente restrito aos meios de comunicação locais estatais em sua maioria. E que, ao final do projeto, esses programas passassem a ser produzidos e apresentados exclusivamente pelos co-participes já então capacitados em um processo de autogestão que pressupõe um papel ativo nas decisões sobre a programação e sobre assuntos comunitários.
A recomendação para o primeiro dos sete resultados imediatos foi a criação de um canal próprio de comunicação para garantir à equipe autonomia, domínio sobre o conteúdo, domínio sobre a veiculação e para contribuir na conquista da credibilidade e o apoio comunitário nas fases de implantação e de desenvolvimento do projeto
Na sequência o planejamento previu aperfeiçoar o uso dos canais de comunicação existentes para conquistar a confiança dos jornalistas, comunidades tradicionais e ONGs, que seriam os parceiros na iniciativa. Foi recomendado garantir 47 Berthold Brecht afirmou há cerca de oitenta anos que “o rádio seria o meio de comunicação mais maravilhoso que se pode imaginar na vida pública, uma imensa rede, e o seria se fosse capaz não só de emitir, mas também de receber, de permitir ao ouvinte ouvir a também falar e, assim em lugar de se isolar, facilitar-lhe-ia o contato” (Bertohold Brecht, Teoria do rádio, Gesammelte Werke, 1932 apud MacBride).
um fluxo contínuo de informação, nacional e internacionalmente, divulgando periodicamente as atividades realizadas em artigos ou matérias jornalísticas por serem de interesse público e de interesse da comunidade internacional.
Uma meta importante recomendada foi conquistar a atenção da imprensa com um sistema contínuo de distribuição de conteúdo e programas co-produzidos [equipe/atores locais], para garantir a informação às comunidades tradicionais. Importante também seria estabelecer um fluxo adicional de comunicação - cerca de 24% da população rural possui rádio - compatível com a cultura das comunidades tradicionais utilizando os recursos de comunicação alternativos e próprios da Comunicação para o Desenvolvimento como o teatro, a música, filme e a rede de comunicação dos líderes religiosos.
Outra necessidade foi a de garantir a visibilidade ao financiador em todos os materiais e veiculações sobre o projeto48 e estabelecer uma comunicação regular com a imprensa, encaminhando informações sobre os avanços obtidos.
Como o Projeto Terra possuía um caráter metodológico inovador e foi um projeto piloto exitoso, futuramente deverá ser referência, recomendou-se maximizar o apoio da imprensa e, com isto, a difusão das informações sobre a legalização de terra, sobre a intervenção da FAO e a própria metodologia do projeto, além da visibilidade do doador. Foi prevista a parceria com as redes de comunicação do país, com ONGs, OSCs e com as lideranças religiosas para assim fazer com que a informação chegasse às comunidades tradicionais e a parte significativa dos atores envolvidos num momento importante como o foi o da delimitação, certificação de posse e legalização da ocupação das terras em Angola.
Os públicos delimitados internacionalmente foram: a opinião pública internacional e os países doadores da União Européia. Como rights holders angolanos estavam estabelecidos no Projeto Terra colaboradores das administrações locais de nível provincial, municipal e comunal envolvidos com questões relativas ao direito à terra, investimentos agro-econômicos, administração de terras e gestão de recursos envolvidos no processo de limitação de terra e certificação de posse.
48 A partir de 2007 o material de divulgação dos projetos financiados pela Comunidade Européia deveriam ter claramente expresso o valor investido pelos doadores.
Como rights holders a ser sensibilizados pela comunicação estavam as comunidades e lideranças tradicionais, comunidade de retornados e migrantes, grandes proprietários e pequenos proprietários. Os atores institucionais deveriam ser sensibilizados para participar da formação e do processo de legalização de terras. Os atores da comunidade deveriam ser sensibilizados a participar do processo para garantir seus direitos. As ONGs e OSCs atuantes em direito a terra, segurança alimentar e desenvolvimento rural foram selecionadas, pois eram parceiras naturais, atuantes no terreno junto às comunidades tradicionais, com laços de confiança já estabelecidos.
Fotografia 37 – Jogos perigosos
4.3 Do uso da Comunicação para o Desenvolvimento nas OI e ONGs