Na visão da ANT, uma ação não é executada sob o controle e consciência total do agente. A ação é o resultado de uma série de encontros e desencontros, surpresas, incertezas, influências. Ao tentar entender relações que compõem o social, o cientista social se depara com a tarefa de explicar, descrever as ações executadas pelos atores.
Certamente que, a partir da experiência própria, a maior parte das pessoas concordaria que as ações humanas resultam de influências diversas, que vão além da própria consciência do agentes. Nas palavras do próprio Latour, “as ações são tomadas de outros e compartilhadas com as massas (...) misteriosamente (...) não estamos sozinhos no mundo.” (LATOUR 2005, p. 45). O que difere a abordagem da ANT, nesse aspecto, é que ela não considera que o que molda a ação são categorias como cultura, sociedade, estrutura, rejeitando-se a simples rotulação da ação como algo simplesmente “social.”
O uso do termo ator traz consigo toda a complexidade do mundo teatral, no qual é difícil se distinguir se uma ação é do ator ou da personagem que ele encarna, ou o quanto a reação da platéia, da iluminação, da temperatura, os outros atores, influenciam, mediam ou não aquela ação. “A ação é emprestada, distribuída, sugerida, influenciada, dominada, traída, traduzida” (Latour 2005, p. 46). No trabalho seminal de 1986, no qual introduziu a idéia de
ator-rede, Callon (CALLON, 1986b) já fazia alusão a esse caráter do termo ator, afirmando ainda que, para uma rede social se estabilizar, os atores têm que aceitar os seus papéis dentro daquela rede.
Para lidar com a incerteza acerca de quem, ou do que origina a ação, o cientista social que siga a abordagem da ANT deve encarar as hesitações, incertezas e enigmas trazidos pelos atores como os fundamentos para que ele entenda o que os leva a agir. Deve resistir a fazer associações imediatas entre a fala do ator e categorias pré-estabelecidas, devendo ter a coragem de não substituir expressões coloquiais e particulares dos atores, porém comumente precisas, por outras categorias já conhecidas ou catalogadas (LATOUR, 2005).
O ponto anterior é um dos principais aspectos que diferenciam a abordagem da ANT da sociologia tradicional. Latour (2005) faz uma comparação interessante entre a sociologia tradicional e a física. Para o autor, quando a física pressupõe que a gravidade é constante, quando, na realidade, sabe-se que ela não o é, essa simplificação é feita e um fato relevante, mas que tornaria por demais complexo um determinado estudo de mecânica, é escondido. Na ciência social, por outro lado, quando é feita uma simplificação de modo a se supor que a ação de um determinado ator pode ser enquadrada em uma categoria catalogada em uma linguagem dominada pelo cientista-pesquisador, na verdade, se está indo além. Não se está meramente simplificando um detalhe muito complexo, mas sim substituindo, dissimulando a grande questão que a ciência social deveria investigar, que é a ação daquele ator, para dar lugar a uma forma aparentemente mais científica de análise. Noutras palavras, ao substituir a palavra dos atores por uma categoria de análise, o cientista social estaria substituindo o objeto do seu estudo por outro, se distanciando do fenômeno que tenta explicar (LATOUR, 2005).
Nesse aspecto, Latour (2005) critica especialmente a sociologia crítica, por seu compromisso maior com a emancipação do que com os fatos, o que a levaria a substituir as falas dos atores por entidades invisíveis, sobre as quais as pessoas não falaram ou negaram.
Para o autor, as abordagens críticas revelariam cientistas sociais mais comprometidos com a transformação social do que com a sua explicação, que, por sua vez, é o que mais interessa na abordagem da ANT.12
A outra razão que levaria o cientista social a optar pela simplificação está na proliferação das possibilidades em relação às ações e da dificuldade associada ao seu estudo. Latour (2005) defende a idéia de que, melhor do que determinar, de forma a priori, quem age, ou quais grupos existem, ou que ações são tomadas e suas razões, é examinar as controvérsias acerca das ações, sem categorias previamente definidas. John Law (1986) reconhece a dificuldade de se descobrir os atores da rede e a necessidade de simplificação, mas não dá pistas além de afirmar que os atores relevantes são aqueles que fazem sua presença ser sentida na rede, que têm ação. Em acordo com Latour, afirma que as controvérsias facilitam a análise, por serem os momentos nos quais a composição da rede, a percepção do que determina a ação, se torna mais saliente, mais fácil de ser percebida.
Para mapear as controvérsias que cercam ações, Latour (2005) propõe a busca por algumas características fundamentais, que todas as ações possuem, a saber: produto da ação; figuração; oposições da ação e, por fim, uma teoria da ação.
Em relação ao produto, o ponto é que todas as ações relevantes deixam algum rastro, algum produto, provocam alguma transformação. Se uma determinada ação é mencionada pelo cientista, ele deve ser capaz de listar fatos observáveis que sejam traços da sua ocorrência.
Em relação à figuração, que é um termo técnico definido pela ANT (LATOUR, 2005, p. 53), o autor argumenta que aquilo que estiver realizando uma ação sempre pode ser caracterizado com alguma forma ou imagem, não importando quão vaga ela seja. A figuração
12 Não se supõe que a transformação social não seja uma causa relevante. A causa da transformação social, em si, não é criticada. Por
exemplo, ao rejeitar a dicotomia entre objetividade e subjetividade, Bruno Latour critica a objetividade como sendo um instrumento, um mito para combater e governar as massas (PECI, 2004). A crítica à abordagem crítica está na forma de se fazer ciência, no seu distanciamento do que deveria ser o objetivo maior da investigação científica, que é o de entender o fenômeno em análise.
permite que uma forma seja dada a quem está realizando a ação, que é denominado como actante. Em uma dada ação, o actante pode ser um traço estrutural (como o patrimonialismo) ou uma corporação (como a Microsoft ou um país como o Brasil) , um indivíduo (como o Bill Gates) ou um agregado de indivíduos (como alguns oficiais do exército ou um grupo de empresários). Na ANT, nenhum é mais realista que o outro, mais concreto que o outro, mas todos levam a um melhor entendimento da formação de grupos (LATOUR, 2005).
Ainda no mapeamento das controvérsias que cercam as ações, um terceiro traço importante é o das críticas e possibilidades de ações alternativas que surgem das falas dos atores. Ouvindo tais críticas e alternativas, o cientista pode entender melhor o processo de formação de grupos e estabelecimento de ações.
Por último, o cientista social também deve ser capaz de detectar, a partir dos atores, as teorias de ação por eles identificadas. Para Latour, essa é mais uma diferença significativa entre a ANT e a sociologia tradicional, já que essa não pressupõe que os atores sejam reflexivos e capazes de teorizar sobre as ações. A Tabela 4, a seguir, resume os elementos que configuram uma ação.
Tabela 4: características das ações que compõem o social
Conceito da ANT Explicação
Produto Os resultados oriundos de uma determinada ação. Se uma ação existe, é mencionada pelo pesquisador, ele deve ser capaz de identificar seus produtos, seu rastro observável;
Figuração Deve ser possível associar uma imagem, uma forma, à ação, identificando-se as entidades responsáveis por elas, os atores; Oposições Deve ser possível associar reações, críticas, manifestações de
oposição à ação, enfim, controvérsias geradas pela ação; Teoria da Ação Os atores que promovem uma determinada ação,
normalmente, têm uma explicação, uma teoria própria que explica por que agiram de determinada maneira.
Fonte: Latour (2005)
A segunda fonte de incerteza, ao estabelecer que as ações são determinadas externamente, leva à questão de que o grande problema de estudo para a ciência social deveria
ser o da compreensão de como se deve agir para se fazer com que alguém faça algo. Na abordagem da ANT, as explicações para isso são desenvolvidas com muitos mediadores, isto é, com outros atores capazes de ação, e poucos intermediários ou entidades incapazes de ação (LATOUR, 2005).
As explicações partem de poucas –ou nenhuma– causalidades automáticas e com o reconhecimento de que os diferentes atores, tanto o que faz o outro fazer algo, quanto o que faz esse algo, têm capacidade de ação, são mediadores e não meros intermediários. O ponto é complexo e vai ser melhor esclarecido adiante, mas Latour (2005) o resume com a metáfora a partir do fato de que diferentes puppeteers (artistas de marionetes, titereteiros) raramente afirmam ter total controle sobre seus puppets (as marionetes em si, títeres), relatando que, muitas vezes, não têm certeza de quem está agindo e como, ou se suas marionetes têm personalidade própria.