primeira (...) As palavras subordinantes chamam-se termos antecedentes, e as subordinadas chamam-se termos consequentes. (p. 121)
Sotero dos Reis – Preposição é uma parte invariável da oração que exprime uma relação entre duas palavras, ou entre um termo antecedente e outro conseqüente, ligando o segundo ao primeiro. (p. 159)
Segundo Fávero (1996, p. 235), ao analisar a preposição na obra de Soares Barbosa, temos:
Como a preposição indica uma idéia geral e ‘simplicíssima’, ela deve ser uma palavra curta, monossilábica, indeclinável, invariável, simples, primitiva e como exprime uma relação e toda relação tem necessariamente pelo menos dois termos, ela requer uma idéia antecedente (sempre incompleta) e uma conseqüente que complementa a primeira.
Portanto, como bem diz Molina (op. cit.: p. 403) em relação a E. Carlos Pereira, podemos dizer que NMA também se ampara no modelo das gramáticas filosóficas para explicar tal conteúdo, pois, para além da definição, se apoia no mestre português para dizer
Ob. Na verdade, acrescento agora, o número de preposições existentes em nosso idioma é pequeno (Soares Barbosa chega a contar apenas 16 propriamente ditas115); daí resulta ora o emprego de preposições
diferentes com idêntico sentido, ora o de uma preposição com significados diferentes. (p. 262)
G. Conjunção (capítulo XXIX)
Como já fizera com outras classes gramaticais (advérbio, por exemplo), o assunto referente à classe das conjunções é tratado com muita minúcia pelo autor, bem como as explicações e os exemplos. São muitas as notas e observações, além de antecipações de assuntos que serão tratados na Sintaxe, caso, por exemplo, da definição de período e de proposição.
Antes disso, entretanto, o autor assim conceitua o termo:
435 – A conjunção é palavra conetiva; é, porem, conetiva proposicional (266)
Em seu continuum gramatical, recorre, literalmente, a Carneiro Ribeiro (op. cit.:
115 O próprio Soares Barbosa (op. cit.: p. 221) fala em 40 preposições, mas as reduz para 16 por
considerar que muitas, na verdade, eram nomes ou advérbios. Em NMA, entretanto, como era esperado, contabilizamos 26 (divididas em preposições propriamente ditas e em locuções
prepositivas. A saber: a, ante, após, até, com, contra, conforme, consoante, de, desde, durante, em, entre, exceto, mediante, para, por, per, salvante, sem, sobre, sob, salvo, segundo, tirante e trás). Hodiernamente, são chamadas de essenciais e/ou acidentais (Cf. Bechara, Gramática Escolar da
241) para dizer que
As conjunções fazem do discurso um todo harmônico e um símbolo dessa unidade que existe no espírito entre nossas idéias e nossos pensamentos, uns relativamente aos outros; elas ligam as proposições umas às outras, constituindo os períodos; estes encadeiam-se uns com os outros, tecendo o discurso, o qual, sem esses elementos conetivos, que lhe servem de liga e cimento, perderia seu verdadeiro caráter (p. 266)
Molina (op. cit.: pp. 406 e 407) assevera que não havia consenso entre os gramáticos quanto ao papel da conjunção, já que muitos tinham dificuldade em diferenciar advérbio, conjunção e preposição.
Por fim, semelhante à divisão feita por E. Carlos Pereira (op. cit.: 123), NMA divide as conjunções em:
H. Interjeição (capítulo XXX)
Sabemos que muitos autores não consideravam a interjeição uma classe gramatical (Carneiro Ribeiro, por exemplo), considerando-a, apenas, um mero grito e não uma palavra116.
NMA a considera uma classe gramatical, apesar de tratá-la como um brado que exprime um pensamento. Vejamos:
116 Segundo Molina (op. cit.: p. 409), as interjeições foram vistas por muitos estudiosos da gramática
histórico-comparativa como a “gênese de toda linguagem humana, pois supunham que nos primeiros agrupamentos sociais era por meio de gritos que os seres se comunicavam”.
COORDENATIVAS SUBORDINATIVAS
Aproximativas Temporais
Disjuntivas (ou alternativas) Condicionais (ou hipotéticas)
Adversativas Causais
Continuativas (ou transitivas) Finais
Conclusivas (ilativas) Modais
Explicativas Concessivas
Consecutiva Correlativas Integrantes CONJUNÇÕES
449 – Interjeição é um brado, ou, muitas vezes, um grito, que exprime não já uma idéia, mas um pensamento; a interjeição vem a ser a expressão sintética do pensamento, podendo desdobrar-se numa oração. (p. 280)
Por fim, por se tratar de uma classe de manifestação súbita e repentina, diz que pouco há o que dizer a respeito. Assim, divide-a a fim de mostrar a sua significação e recorre, literalmente, a Said Ali para dizer que
De todas as exclamações nenhuma se apresenta com uso tão frequente e sentido tão variado como a interjeição oh!. Basta modificar o tom de voz para cada caso particular e ela denotará alegria, tristeza, pavor, nojo, espanto, admiração, dor, piedade etc (Said Ali) – (p. 280)
4.5 – Sintaxe – estudo das palavras combinadas 4.5.1 Preliminares
A Sintaxe, representando 33% da Metódica, está dividida do seguinte modo e com as seguintes definições:
Noções gerais - diz que a palavra exerce duas funções – léxica e sintática (= lógica)
e que “muitos dos ensinamentos que as gramáticas costumam apresentar na sintaxe eu já expús, para maior proveito do aluno, na própria lexeologia; resta-nos agora estudar”. (p. 304).
1ª parte – a proposição e seus termos: generalidades da proposição, apresenta a
definição de proposição e nas notas a etimologia das palavras “proposição”, “oração” e “sentença”.
A designação “proposição” é uma estrutura recorrente na tradição gramatical filosófica. E. Carlos Pereira (fonte recorrente de NMA) também se utiliza dos mesmos termos (cf.: op. cit.: p. 157).
com outro” (p. 326).
Para tanto, o autor mostra os processos sintáticos vinculados à concordância, à regência e à colocação.
3ª parte – período gramatical, encontramos o estudo do período gramatical em
relação à forma, ao sentido, à função, aos membros além do capítulo denominado “Particularidades Sintáticas”.
É no capítulo Sintaxe que NMA, por conta da proposta de método, realiza análise pormenorizada a respeito de uma das grandes dificuldades gramaticais em língua portuguesa: a questão da relação de concordância no uso do infinitivo pessoal117.
É aqui que vemos, claramente, o autor dialogando com grandes referências em assuntos gramaticais: Soares Barbosa e Frederico Diez.
NMA apresenta o assunto e aos poucos vai inserindo as visões desses dois autores. O fato importante é que ele diz que as regras dos grandes mestres e as dele não dão conta de todos os dilemas a respeito do assunto e, assim, propõe não só o bom senso, mas o uso, a clareza e o ouvido como instrumentos para a resolução dos possíveis problemas. Na nota a seguir, apresenta a dificuldade do problema e prepara o leitor/aluno para a inserção das teorias dos dois grandes mestres: Soares Barbosa e Frederico Diez.
Vejamos:
(...) 583 – É verdadeiramente desconcertante para o professor de português o problema do infinito pessoal; tropeços enormes encontram-se para própria exposição e explanação do assunto, quanto mais para a fixação, não digo de regras, mas de normas que possam guiar o aluno. Volver gramáticas é, para o caso, trabalho árduo e, para muitos, inútil. Tal a barafunda de certas gramáticas, que o leitor chega a conclusões desesperadoras e, muitas vezes, falsas e nocivas. (p. 417) 586 – Foi Soares Barbosa o primeiro gramático que tentou regular o problema da flexão do infinitivo (...) - Gramática Filosófica – 1803 (p. 419)
588 – Aparece então outra regra, 33 anos depois da de Soares Barbosa,
117 A denominação usada por NMA é infinito pessoal e faz parte do capítulo “Particularidades
Sintáticas”. O capítulo surge por conta das peculiaridades em torno da relação concordância e uso do
infinitivo e pelo fato de NMA não ter tratado do assunto na parte correspondente aos assuntos da Lexeologia, pois para ele seria demasiado inútil “deixar o aluno suspenso em determinada questão gramatical, para fazê-lo outra vez estudar, depois de meses de intervalo, a mesma questão sob o aspecto sintático”. (p. 477)
formulada por Frederico Diez em sua “Grammatik der Romanischen Sprachen” (Gramática das Línguas Românicas - 1836-1844). (p. 421- 2)
É muito significativo notar que NMA confronta a visão dos dois mestres no intuito de revelar que cada um, a sua época, tentou dirimir as dificuldades do assunto, porém as proposições dos autores não foram suficientes, pois ele próprio percebe que a construção do infinito pessoal deve se basear na seguinte questão: “Sempre, portanto, que se chocarem as regras de Soares Barbosa com a de Frederico Diez, servir-nos-á de árbitro, não digo só o bom senso, mas o uso, a clareza, o ouvido” (p. 424).
No entanto, orienta seus alunos para a existência de normas secundárias118 que
servirão de apoio para a melhor compreensão do assunto.
Ao elaborar as normas, o autor promove um descontinuum quanto à tradição dos mestres que lhe serviram de apoio e diz que o bom senso e o uso serão a base para a explicação da matéria.
Em seguida, constrói suas explicações a respeito do que é, como se estrutura e quais são os principais casos de ocorrência do infinito pessoal. São eles:
1) A Conjugação Perifrástica – a existência de dois verbos (um no infinitivo e o
outro flexionado) formando uma locução verbal. Quando ocorrer a conjugação perifrástica, deveremos ter a clareza de que a estrutura é, na verdade, uma expressão única e, assim, não é possível a flexão do verbo que não é o principal. Expressões como “Desejamos comprarmos” deverá ser substituída por “Desejamos comprar”.
2) Oração Infinitivo-Latina – primeiramente vale recordar que a oração
infinitivo-latina faz referência à possibilidade de construirmos determinadas orações fazendo com que o sujeito não seja substituído apenas por pronomes retos, uma vez que há casos em que os pronomes oblíquos desempenham essa função. Exemplo: Deixaram-ME sentar. O pronome ME exerce a função de sujeito do verbo sentar.119
118 Normas secundárias são aquelas que explicam e justificam centenas de exemplos que contrariam os dois citados mestres (p. 424). Vale ressaltar: NMA alerta que a construção de normas secundárias estará subordinada às regras de Soares Barbosa e às de Frederico Diez.
119 Tais construções são denominadas latinismos sintáticos, ou seja, “pelo fato de nessas orações aparecer a forma oblíqua o pronome, não nos devemos deixar enganar na sua análise, atribuindo-lhe função
3) Preposição+Infinito – é a possibilidade de o infinitivo regido de preposição
constituir-se como um complemento de substantivo ou adjetivo, ficando, portanto, na forma impessoal. Exemplo: fadados a passar.
4) Posição – Distância - quando um infinitivo preposicionado preceder ao verbo
regente ou se distanciar dele, há possibilidade de flexão (exemplo retirado da Gramática Metódica (p. 428): “Para se CONSOLAREM, os infelizes dormiam tranquilos”)
As quatro estruturas anteriormente caracterizadas são construções em que nitidamente NMA circula entre o descontinuum e o continuum gramatical, por conta de afirmar que nem sempre as regras dos referendados mestres (Soares Barbosa e Diez) dão conta de sanar todas as dúvidas quanto ao infinitivo-pessoal.
Por fim, o capítulo Sintaxe revela o quanto a visão de NMA estava tradicionalmente coadunada com os autores que o antecederam e serviram de referência. Ao mesmo tempo, o autor não hesita em romper com essas visões quando percebe que a tradição não dá conta de explicar o que ele denomina de “fatos de uma língua”.
4.6 – Partes finais
4.6.1 Apêndice literário (capítulo XLII)
O último capítulo da Metódica trata dos tópicos relacionados ao estilo – definido como “maneira peculiar, individual, de expressar cada escritor os seus pensamentos” (p. 448) - à literatura, ao gênero literário, à versificação, à métrica, à cadência e à rima.
Quanto ao gênero, há uma divisão e, em seguida, a construção de um quadro sinóptico. O fato de deixar para o último capítulo o que ele denominou de “apêndice literário”, parece ser, hodiernamente, uma prática comum.
Bechara, (Gramática Escolar, p. 668), por exemplo, em quatro capítulos (a saber: Noções elementares de estilística, Noções elementares de versificação, Breve
história externa da Língua Portuguesa, Compreensão e Interpretação), trata dos
respectivos assuntos como algo “Para além da gramática” (denominação utilizada na
objetiva. Trata-se, exclusivamente, de um latinismo sintático, onde as subordinadas substantivas levam o verbo para o infinito, com o respectivo sujeito no caso acusativo” (p. 310).