Procuramos utilizar o método da autoconfrontação cruzada proposto por Faïta (2005) com a finalidade de recuperar a trajetória mental do aluno estagiário em uma atividade passada por meio de um estímulo visual para que o sujeito da pesquisa pudesse deflagrar a memória sobre sua ação. Buscamos, assim, um acesso ao pensamento consciente construído durante a atividade docente.
É importante que façamos uma síntese do método da autoconfrontação para que possamos compreender o porquê de esta técnica ser tão importante no estudo das práticas didáticas, justificando, assim, a sua utilização como ferramenta para coleta e análise dos dados.
Segundo Vieira (2003), nos anos 60, surgiram alguns estudos que relacionavam a linguagem com o comportamento humano. Na escola de ergonomia anglo-saxônica, estudos faziam referência à situação de confrontar um trabalhador com o seu discurso como um dos meios de mobilizar transformações na situação de trabalho. Nos anos 70, pensando a confrontação como uma forma de gerar mudanças no ambiente de trabalho e no contexto social, surgiram as instruções ao sósia. Esse processo tinha como objetivo aumentar o conhecimento do trabalhador sobre sua atividade. Desta forma, o trabalhador passaria instruções de seu trabalho a um substituto, de forma que ninguém pudesse perceber a substituição.
Como procuramos estudar o comportamento do professor em formação em sala de aula, tivemos conhecimento das pesquisas no âmbito da ergonomia da atividade. Esta disciplina estuda o comportamento do homem no contexto real do trabalho, realizando uma análise centrada no trabalho efetivo, com o propósito de compreender a enorme variabilidade de maneiras de se realizar uma dada tarefa. A ergonomia se apóia, principalmente, nos conceitos de “trabalho prescrito” e “trabalho realizado”.
Nos anos 80, surgem na França alguns padrões para a autoconfrontação. As autoconfrontações são realizadas através do material que é coletado em observações da situação e em entrevistas que propõem questões sobre ações e comunicações, dando-se enfoque a sentimentos e intenções. Graças à autoconfrontação, formas de dizer muito características aparecem e provocam um discurso específico.
Nos anos 90, Faïta propõe o método da autoconfrontação cruzada que parte da autoconfrontação simples. Nesta, temos o momento em que o trabalhador procura descrever sua situação de trabalho para o especialista do trabalho (em se tratando da nossa pesquisa, o especialista é o mestrando). Sendo assim, temos somente duas pessoas envolvidas neste método. A partir daí, dá-se a autoconfrontação cruzada, quando a gravação das autoconfrontações simples é socializada entre esse trabalhador e um colega de trabalho (entre um professor e outro professor, citando um exemplo relacionado à nossa pesquisa). Esse momento é resultante do trabalho anterior, originado na autoconfrontação simples, na qual é
necessário escolher as situações que constituem o objeto de análise com o objetivo de levar para a autoconfrontação cruzada.
Na autoconfrontação simples (a utilizada por nós nesta pesquisa), temos a realização de uma filmagem ou gravação do trabalhador durante a realização de sua tarefa. Após essa etapa, pesquisador e trabalhador assistem juntos ao vídeo. Haverá um diálogo que parte do pesquisador sobre as ações e tarefas realizadas pelo trabalhador. Há, assim, uma relação dialógica com o objeto (a atividade filmada) e com o outro (o pesquisador).
Um ponto importante na autoconfrontação é que essa metodologia permite a análise de uma dimensão do trabalho, o trabalho real, que permanece invisível. A análise dos diálogos produzida por esse método nos possibilita fazer constatações dos trabalhadores a respeito de realizações que não puderam ser feitas, dos impedimentos dessas realizações e dos sentimentos gerados por conta desses impedimentos. Consideramos que o ponto crucial da nossa pesquisa consiste justamente no momento em que o professor em formação tece comentários sobre a sua própria prática. Buscamos nos ater aos aspectos de relação de poder que poderia haver do professor universitário com o aluno estagiário. Partimos de perguntas pré-estabelecidas com o objetivo de compreender melhor a ação do professor em formação.
A metodologia da autoconfrontação permite compreender melhor tanto a ação dos sujeitos quanto o gênero profissional. O gênero profissional representa, segundo Souza e Silva (2004), os conceitos que um dado grupo de trabalhadores reconhece como constituintes de uma determinada atividade, o que os torna membros de um mesmo grupo, o que eles conhecem como deveres de sua atividade profissional e que não precisam ser relembradas na execução das tarefas. No caso dos professores, permite compreender o trabalho do professor possibilitando transformações e fazendo com que essas transformações possam ser mais duráveis, uma vez que surgem dos coletivos de trabalho.
Com as aulas devidamente gravadas, nos encontramos novamente com o estagiário com o propósito de assistir às aulas registradas. Durante a exibição do vídeo fomos propondo comentários acerca da prática realizada pelo estagiário. Todo esse segundo processo de coleta
de dados também foi registrado em áudio e vídeo, da mesma forma que fizemos na gravação das aulas.
Partindo desses dados, fizemos um estudo das reações do estagiário frente às suas próprias ações no momento da prática docente. Com o objetivo de auxiliar neste estudo, fizemos algumas perguntas no momento da autoconfrontação a fim de possibilitar ao estagiário uma reflexão sobre a sua prática em sala de aula:
1. Qual a importância da disciplina de Estágio na sua prática docente? 2. Fale sobre a autonomia que você tem neste curso de francês.
3. Como você avalia uma possível influência do seu estudo anterior em curso de idiomas na sua prática docente?
4. Como você avalia o material didático utilizado no curso (livros, cd, DVD etc.)?
Cada encontro para a realização da autoconfrontação durou em torno de uma hora. Selecionamos pontos importantes em que a fala do professor estagiário remetia a outras vozes (social ou institucional etc.). Entendemos que a análise de como o professor estagiário teve a sua primeira experiência docente em LF nos ajudou a compreender de que forma o gênero profissional professor é entendido por eles. Fizemos perguntas como: como se deu o primeiro contato com a língua francesa? Como foi a sua primeira experiência como professor de francês?
Veremos na análise dos dados que todos os quatro estagiários envolvidos na pesquisa iniciaram sua carreira profissional antes mesmo de concluir o curso superior em LF39.