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O mapa a seguir mostra em tom escuro a ilha e a área continental do município de São Vicente, foco desta pesquisa. Deixa evidente a diferença de tamanho entre as duas regiões, pois a ilha é quatro vezes menor que o continente.

Figura 15

Área geográfica da Baixada Santista com os limites de São Vicente : fonte: Caderno da Cidade.

No século XXI, os órgãos públicos de São Vicente, ao verem a necessidade de medidas que rompessem o isolamento dos habitantes que lá residem, voltam-se para o outro lado da cidade, para a área continental do município, e procuram atender as exigências de moradia e infra-estrutura que a população solicita.

69 “Pela forma que as regiões metropolitanas foram constituídas, somente os grandes interesses podem merecer soluções estruturais, duráveis, enquanto para os outros, deixados ao deus-dará, os remédios são apenas funcionais, tópicos, provisórios”. (Milton Santos, 2002: 121).

Depois da Ponte dos Barreiros, criou-se uma outra São Vicente, que se configurou como uma região de oposição à ilha pela própria localização e pelos contrastes de cultura. Foi um período de povoamento e organização territorial, deixados a deus-dará como cita o autor acima.

A Ponte dos Barreiros, como é conhecida pelos moradores da cidade, liga o continente e a ilha e foi construída sobre o canal dos Barreiros, um braço de mar que abriga uma região de manguezais. Demorou cerca de seis anos para ficar pronta e foi inaugurada em 1995 com o nome de Ponte A Tribuna, em homenagem ao jornal santista que relatava as dificuldades dos moradores da região continental para chegar à ilha de São Vicente.

Figura 16

70 Nos anos que antecederam o término da ponte, entre 1984 e 1994, os moradores dependiam do TIM (Transporte Intermunicipal), um trem que fazia a travessia por cima do canal, onde hoje se encontra a ponte. Atualmente, essa linha férrea não transporta passageiros, mas somente cargas. Outra forma de chegar à região era de ônibus, dando a volta pela cidade de Praia Grande até a curva do S e utilizando a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega.

A acessibilidade criada pela rodovia não foi suficiente para impulsionar uma ocupação da região em larga escala, pelo menos até o final da década de oitenta. O processo de ocupação deu-se via abertura de loteamentos, pela dinâmica do mercado imobiliário, relacionado com o desenvolvimento das atividades econômicas regionais.

Os interesses dos supostos proprietários da terra e a especulação imobiliária uniram-se à demanda de habitações por parte da população com baixa renda, o que fez crescer o número de domicílios ao longo dos últimos anos do fim do século passado. A área continental constitui hoje um espaço possível para a população, porque o da ilha saturou-se pelo desenvolvimento já ocorrido. Lefèbvre (2001: p. 125) afirma que para “orientar o crescimento do desenvolvimento, portanto na direção da sociedade urbana, isso quer dizer, antes de mais nada: prospectar as novas necessidades, sabendo que tais necessidades são descobertas no decorrer de sua emergência e que elas se revelam no decorrer da prospecção.”

O povoamento da área continental teve início em 1910, com a ocupação daquela imensa área, com 117 Km² de terras e deu-se por conta da estrada de ferro Southern São Paulo Railway, que antecedeu a estrada de ferro Sorocabana e iniciou a construção da linha Santos-Juquiá.

71 Em 1926, o Governo do Estado de São Paulo comprou todo o patrimônio da Southern e, no ano seguinte, deu início à linha Mairinque-Santos, construída a partir do Km 19 da linha Santos-Juquiá e que entrava pela área continental da cidade de São Vicente.

Nos abairramentos do continente, observamos que todos os bairros ficam próximo às linhas férreas e à Rodovia Pe. Manoel da Nóbrega, que são as vias de acesso para a região. Os bairros foram assim constituídos e demarcados pela prefeitura porque na época o trem era o único meio de transporte para região.

Na região continental de São Vicente, o contraste cria reflexos e sentidos expressivos de uma população que traz consigo uma cultura originária do norte e nordeste do país, de onde migraram para tentar se adaptar à cidade litorânea, embora não estejam próximos ao mar. A cidade principalmente a cidade grande, é o lócus de todas essas confrontações, por ser também o lugar essencial do afrontamento das forças desencadeadas no processo violento da mudança. (Milton Santos, 2002: p. 124).

Recorrendo a Margarida Limena (2001: 269) “nas utopias urbanas contemporâneas, a cidade se transforma em um atributo atemporal, refutando, as bases de cem anos atrás, em que se assentavam as experiências urbanas sem, no entanto, desvencilhar-se das ambigüidades então presentes”.

Vemos que os habitantes da parte continental de São Vicente utilizam uma estratégia de sobrevivência baseada naquilo que lhes foi transmitido, pelas gerações anteriores, como um atributo atemporal de suas experiências urbanas. Quando instalados, esses moradores passam a adquirir hábitos, costumes e práticas do local em que se encontram como o uso de celular, antena parabólica, computador.

72 A ambição pelo consumo é uma das marcas dessa dinâmica de vida e mostra aquilo que é representativo para o morador da cidade. Segundo Denise Jodelet in: Bader Sawaia (org.). As artimanhas da exclusão (1999: 89), “as representações sociais são construções do ser humano que adquirem caráter expressivo, são elaborações de sujeitos sociais sobre objetos socialmente valorizados”.

Embora estejam próximos à zona urbanizada de São Vicente, com seus inúmeros prédios, inclusive à beira mar, os habitantes da região continental sofrem o efeito da exclusão, um processo acelerado porque, na ilha, não há espaço de moradia que lhes seja acessível.

A região do continente começou a ser povoada em meados de 1930 e, em 2007, soma 150 mil habitantes, uma aceleração populacional significativa. Para Milton Santos (2000: 38) o espaço territorial é o fator determinante que permite a união e a fixação das pessoas na cidade: “as acelerações são momentos culminantes da História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo. Se o lugar nos engana, é por conta do mundo, nessas condições, o que globaliza separa; é o local que permite a união”.

Desde 1930 tem-se notícias de famílias se alojando nessa região, mas o grande aumento se deu a partir da década de 1980. Antes existia apenas alguns aglomerados de moradias próximas à Rodovia Padre Manoel da Nóbrega (SP-55), eixo de ligação da via Anchieta com o litoral sul paulista.

No início, tímidos povoamentos e as famílias que se fixaram no lugar não dispunham de água encanada, rede de esgoto e luz elétrica. Muitas delas ainda residem na mesma casa e foram realizando melhorias.

73 As terras da área continental antes pertenciam ao Ministério da Agricultura, depois ao Estado de São Paulo, após 1996, devido à proposta da administração da época, ligada ao Partido Socialista Brasileiro, o PSB, os moradores tiveram a posse da terra. A administração pretendia que cada bairro possuísse um gerente morador e administrador incumbido de organizá-lo, instituindo o abairramento. Por quatro anos isso foi feito, mas pelas brigas pelo poder entre os regionais, como eram chamados, o processo não teve continuidade.

O abairramento dessa região não se localiza nas demarcações realizadas pela prefeitura. Os limites das três comunidades estão dentro de bairros, mas não são entendidas dessa forma pelos moradores. Cada bairro ou comunidade sem abairramento começa e termina de acordo com suas próprias demarcações, que muitas vezes são totalmente diferentes das da prefeitura.

A história dos bairros registrada pela prefeitura é oposta ao que os moradores contam, deixando indefinida a real constituição e ocupação do local, que tem como maior atrativo a possibilidade da aquisição da casa própria. É nesse campo social atravessado por contradições de representações que a história social das pessoas que residem na área continental se produz.

As formas de organização social dessas comunidades são entrelaçadas pela religião, moral, família e educação. A formação dos bairros da região continental de São Vicente expressa esse sentimento de reciprocidade, porque seus moradores sentem-se acolhidos pelo local. Tudo se passa como se, ao atravessarem a ponte, encontrassem o aconchego, a segurança de estarem em seu ambiente e longe dos perigos da cidade.

74 A cidade da qual Milton Santos se refere é a grande cidade, “é – e o será ainda por muito tempo – a escala ou o ponto final das migrações generalizadas, ao mesmo tempo em que não são criados novos empregos e que as preocupações de ordem social não são prioritárias. O resultado pode ser previsto a agravação da chamada crise urbana.” (2002: 124).

A seguir, descrevemos os dez abairramentos que constam na prefeitura e os três que não constam. Nossa intenção é mostrar seus limites territoriais e a formação populacional. Algumas fotos revelam os locais característicos de cada bairro.

Benzer Belgeler