Apesar de a Lei Complementar nº 109/01 não trazer uma definição do termo patrocinadora, é possível, a partir de uma análise sistemática do feixe de normas que regulamenta o regime de previdência privada, extrair-se um conceito.
Notadamente, a Lei Complementar nº 109/01 refere-se ao termo patrocinadora tão-somente quando trata dos planos de benefícios administrados por entidades fechadas de previdência privada. Por sua vez, analisando as normas infralegais de competência dos respectivos órgãos reguladores, também observamos que a expressão patrocinadora sempre aparece relacionada aos planos administrados por entidades fechadas.
Dessas observações extraímos o seguinte conceito de patrocinadora: é a pessoa jurídica que contrata o plano de concessão de benefícios previdenciários, administrado por entidade fechada de previdência complementar, em favor de seus empregados e dirigentes e que o custeia, integral ou parcialmente.
Em se tratando de plano administrado por entidade aberta de previdência complementar, a pessoa jurídica que firma contrato de previdência, em benefício de seus empregados e dirigentes, e o financia total ou parcialmente, é denominada
instituidora. Embora o termo não seja mencionado pela Lei Complementar nº 109/01, vem definido pelas normas infralegais, tal como a Resolução CNSP nº 139/05200.
Nos planos fechados de previdência privada, a patrocinadora é necessariamente contribuinte do plano. Nos planos abertos, a pessoa jurídica contratante poderá não contribuir para o custeio do plano, hipótese em que é denominada como
averbadora201, sendo responsável, tão-somente, pelo desconto das contribuições do participante da folha de salários, repassando-as à entidade de previdência administradora do plano.
Assim, além da relação jurídica, conforme já exposto, formada entre participante e entidade de previdência, há também uma relação jurídica entre a pessoa jurídica, seja patrocinadora, instituidora ou averbadora, e a entidade de previdência. Paralelamente, há também uma relação entre a pessoa jurídica proponente e o participante do plano, vínculo necessário para a contratação do plano coletivo de previdência privada.
Da relação jurídica formada entre a patrocinadora, ou instituidora, e a entidade de previdência surge ao plano de previdência uma obrigação de dar (realizar as contribuições acordadas), e, em contrapartida, à entidade surge a obrigação de exigir as contribuições pactuadas.
200 O art. 5º, inciso XVIII, da Resolução CNSP nº 139/05, define Instituidora como a “pessoa jurídica que
propõe a contratação de plano coletivo e que está investida de poderes de representação, exclusivamente para contratá-lo com a EAPC, e que participa, total ou parcialmente, do custeio”.
201 O art. 5º, inciso II, da Resolução CNSP nº 139/05, define Averbadora como a “pessoa jurídica que propõe
a contratação de plano coletivo, ficando investida de poderes de representação, exclusivamente para contratá- lo com a EAPC, sem participar do custeio”.
Não é demais dizer que a preocupação quanto à definição da natureza dessas contribuições efetuadas pela patrocinadora, ou instituidora, ao plano de previdência privada, em benefício de seus empregados e dirigentes, é de longa data.
Com efeito, o Decreto-Lei nº 2.296/86, que introduziu regras destinadas a estimular a formação de poupança de longo prazo por intermédio de programas de previdência complementar, estabeleceu, em seu artigo 2º, que as contribuições efetuadas pela pessoa jurídica, em favor de seus empregados e dirigentes, “não serão consideradas integrantes da remuneração dos beneficiários para efeitos
trabalhistas, previdenciários e de contribuição sindical, nem integrarão a base de cálculo para as contribuição do FGTS”.
Dispositivo semelhante foi previsto pela Lei Complementar nº 109/01202, que determinou que as contribuições para planos coletivos de previdência complementar, efetuadas pela empresa patrocinadora ou instituidora, não integram o contrato de trabalho ou a remuneração dos empregados e dirigentes vinculados ao plano. Posteriormente, a Lei nº 10.243, de 19 de junho de 2001, que deu nova redação a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, reconheceu que não integram o salário do empregado os aportes em planos de previdência privada, realizados pelo empregador.
Tais dispositivos vêm em consonância com a reforma previdenciária iniciada com a Emenda Constitucional nº 20/98 e, com o evidente objetivo de estimular a prática de concessão de plano de previdência privada pelo empregador, a Emenda Constitucional nº 20, publicada em 1998, deu nova redação ao artigo 202 da Constituição Federal, esclarecendo que as contribuições para a previdência privada complementar realizadas pelo empregador não integram o contrato de trabalho, resolvendo a partir daí qualquer discussão a respeito da natureza de tais contribuições, vejamos.
“Art. 202. (...)
§ 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições
202
“Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes.”
contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)” (destacamos)
Caso as contribuições para a previdência privada integrassem o salário do empregado, haveria sempre o receio dos empregadores de que, uma vez concedido o plano de previdência privada a seus funcionários, jamais poderiam retirá-lo, obrigando-se a custeá-lo até que houvesse o rompimento do vínculo empregatício.
Diante disso, pode-se inferir que o modelo jurídico brasileiro afastou de uma vez por todas do conceito de salário as contribuições efetuadas pelos empregadores a planos de previdência privada em benefício de seus empregados, já que a Emenda Constitucional foi expressa ao determinar que tais contribuições não integram o contrato de trabalho, estimulando, com isso, a prática dessa faculdade.