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A Teoria da Fonologia Natural, fundamentada nas ideias de Stampe (1969, 1973; DONEGAN & STAMPE, 1979), centraliza a noção de processo fonológico. Durante muito tempo, essa teoria fundamentou as pesquisas sobre a aquisição fonológica. Assim, durante a aquisição fonológica ocorre a supressão ou restrição de processos fonológicos que ainda estão presentes na fala da criança.

Nesta perspectiva entende-se que os seres humanos nascem com um sistema inato de processos fonológicos naturais, como a redução de encontros consonantais (REC) e a plosivização de fricativas, que vão sendo gradativamente

suprimidos até resultar o sistema adulto. Portanto, os processos fonológicos são reflexos das restrições naturais da capacidade humana em relação à fala de que resultam simplificações sistemáticas das formas adultas. O processo fonológico, quando presente na fala da criança, facilita aspectos que sejam complexos a ela quanto ao planejamento, à articulação e ao ato motor. São respostas naturais a forças fonéticas implícitas na capacidade humana para a fala (DONEGAN & STAMPE, 1979).

Os processos fonológicos naturais, inatos e universais, devem ser suprimidos pelo falante à medida que ele entra em contato com sua língua e que ele se desenvolve. Porém, muitas vezes a criança apresenta dificuldades para superar esses processos fonológicos, o que pode ocasionar desvios em sua fala ocasionados pela persistência de processos fonológicos primitivos.

Segundo Yavas, Hernandorena & Lamprecht (1991), a grande vantagem em se descrever a fala das crianças através da Teoria da Fonologia Natural é a possibilidade de mostrar claramente a relação entre as formas adultas e infantis. Para os autores, pode-se determinar a percentagem de ocorrência dos sons, de graus de inteligibilidade, de distanciamento do sistema-alvo a ser adquirido e de identificação de características incomuns ou idiossincráticas, a partir da análise dos processos fonológicos.

Diversos estudos foram feitos nesta linha em referência à descrição da fonologia com desvios em falantes do Inglês (INGRAM, 1976, 1981; SHRIBERG & KWIATKOWSKI, 1980; McREYNOLDS & ELBERT, 1981; GRUNWELL, 1981, 1985; HODSON & PADEN, 1983; STOEL-GAMMON & DUNN, 1985, entre outros).

Na literatura, são três os tipos mais citados de processos fonológicos, os de estrutura silábica que alteram a estrutura silábica da palavra, seguindo a tendência geral a reduzir as sílabas à estrutura consoante vogal (CV); os de substituição em que há a mudança de um som por outro de outra classe, às vezes atingindo uma classe toda de sons; e os de assimilação, segundo o qual os sons mudam, tornando- se similares ao que vem antes ou depois dele (INGRAM, 1976; STOEL-GAMMON & DUNN, 1985).

Entre os processos fonológicos mais utilizados em casos de DFE, Ingram

(1976) refere nove: REC, plosivização, despalatização, frontalização,

encontro consonantal, assimilação velar. Além desses, há ainda o registro de processos fonológicos únicos, idiossincráticos.

Hodson & Paden (1983) apontam: REC, eliminação da estridência, desvio de líquidas, assimilação, posteriorização, eliminação da consoante final, redução de sílaba, sonorização pré-vocálica, substituição glotal. Além desses, são citados outros processos fonológicos raros que conferem uma fala ininteligível.

Para Stoel-Gammon & Dunn (1985), os processos fonológicos mais notados no DFE são os seguintes: REC, eliminação da consoante final, eliminação da sílaba fraca, plosivização, frontalização da velar, frontalização da palatal, simplificação de líquidas, assimilação, sonorização.

Com respeito aos processos fonológicos utilizados por crianças com DFE, no Brasil, pesquisas têm sido realizadas desde a década de 80, envolvendo crianças de diferentes faixas etárias, com o intuito de conhecer os “caminhos” trilhados por essas crianças durante o processo de aquisição.

Lamprecht (1986), com quatro crianças com DFE e idades entre 7:1 e 9:2, encontrou 30 processos fonológicos nas consoantes e 6 nas vogais. Os processos fonológicos mais frequentes, segundo a autora, foram: dessonorização de obstruinte inicial, REC, anteriorização de palatal, substituição de líquida, semivocalização de líquida, vocalização final de palatal, apagamento de líquida final e apagamento de fricativa final. Para Lamprecht (op.cit.), a quantidade de processos fonológicos na fala de uma criança pode estar relacionada diretamente com a gravidade do distúrbio que apresenta.

Yavas (1988) destacou aqueles processos fonológicos mais comumente observados na aquisição fonológica do Português Brasileiro (PB) e pôde indicar a cronologia de desenvolvimento dos processos fonológicos (ver YAVAS & LAMPRECHT, 1990). Esse estudo é uma referência quanto aos processos fonológicos a serem suprimidos e à média de idade em que isso ocorre.

Yavas & Lamprecht (1990) encontraram em quatro crianças falantes do PB com DFE, de 7 a 9 anos de idade, os seguintes processos fonológicos: REC, apagamento de líquida final, dessonorização de obstruintes, anteriorização de obstruintes palatais e substituição de líquidas. Com respeito ao período de ocorrência de processos fonológicos, constataram que a) a REC é um processo fonológico tardio, isto é, que se estende por mais tempo, inclusive no desenvolvimento fonológico típico, podendo ocorrer até os 5:0 anos de idade; b) a

dessonorização de obstruintes está presente na fala desviante e na típica além dos 5:0 anos; c) o apagamento de líquida final e a anteriorização de fricativa palatal opera até, por volta, dos 4:0 anos; d) os processos fonológicos de substituição de líquidas, semivocalização de líquidas e apagamento de sílaba átona ocorre até 3:6 de idade; e) o apagamento de fricativa final ocorre até os 3:3 e o apagamento de líquida intervocálica até os 3:0 anos; e f) o apagamento de líquida inicial, a plosivização, a assimilação e a sonorização intervocálica ocorrem até, por volta, dos 2:0 a 2:6 anos de idade da criança.

No estudo de Yavas & Lamprecht (op.cit.), o processo fonológico de REC foi o único a ocorrer sem exceções em todos os sujeitos, o que demonstra que seu desaparecimento é tardio mesmo no desenvolvimento fonológico típico. Além disso, entre os 12 processos fonológicos considerados “normais”, os de substituição prevaleceram em todos os sujeitos.

Yavas, Hernandorena & Lamprecht (1991) encontraram os seguintes processos fonológicos de estrutura silábica em crianças falantes do PB com DFE: REC, apagamento de sílaba átona, apagamento de fricativa final, apagamento de líquida final, apagamento de líquida intervocálica, apagamento de líquida inicial, metátese, epêntese. Para os processos fonológicos de substituição: dessonorização, anteriorização, substituição de líquida, semivocalização de líquida, plosivização, posteriorização, assimilação, sonorização pré-vocálica. Nos DFE os autores encontraram processos fonológicos não observados no desenvolvimento fonológico típico: nasalização de líquida, africação, desafricação, plosivização de líquida, semivocalização de nasal. Para os mesmos autores, muitas vezes, os DFE são físicos, relacionados às dificuldades articulatórias.

Hernandorena (1995) relaciona as substituições mais comuns no PB resumidas nos processos fonológicos de dessonorização, anteriorização de fricativas palatais e plosivas velares, posteriorização de fricativas alveolares para palatais, substituição de líquidas, sobretudo /r/ por /l/ e // por /l/, e semivocalização de /l/, /r/ e //.

Segundo Lamprecht (1995), a dessonorização de obstruintes é o processo fonológico de substituição que pode persistir por um tempo maior na aquisição típica do sistema fonológico do PB, até os 4:2 em algumas crianças. A supressão desse processo fonológico é determinada por fatores internos ao segmento (modo e ponto

de articulação) e por fatores externos ao segmento (natureza do segmento seguinte e o acento). Para Lamprecht (op.cit.), a possibilidade de aquisição tardia do traço [sonoro] por algumas crianças não significa que elas tenham um DFE, nem representa um dano grave à inteligibilidade.

Wertzner et al. (2001), em uma pesquisa com 22 sujeitos com distúrbio fonológico, concluíram que cinco processos fonológicos foram mais determinantes para a caracterização do distúrbio fonológico: ensurdecimento de plosivas, ensurdecimento de fricativas, frontalização de palatal, simplificação do encontro consonantal, simplificação de líquidas.

Ramos et al. (2005), que trabalharam com 49 crianças com desvios fonológicos, na faixa etária de 5 a 10 anos, constataram que o perfil fonológico encontrado na amostra investigada combina com o descrito na literatura como final de aquisição fonológica. Além disso, os autores observaram que os processos fonológicos mais prevalentes foram os que envolvem a classe das líquidas, sobretudo o rótico alveolar simples (/r/), e as estruturas silábicas complexas, como o final de sílaba (coda) e os encontros consonantais.1

Keske-Soares, Blanco e Mota (2004) classificaram os processos fonológicos em incomuns e comuns. Os processos fonológicos comuns foram divididos em iniciais e atrasados. Os processos fonológicos considerados incomuns foram: glotalização, semivocalização de plosiva ou nasal, preferência sistemática por um som, fricatização, plosivização de líquida, anteriorização de líquida, fricativa aspirada substituída por líquida, nasalização de plosiva, substituição de nasal e nasalização. Os processos fonológicos considerados comuns e iniciais foram: posteriorização, anteriorização de plosiva, plosivização, dessonorização, desafricação e africação. Os processos fonológicos considerados comuns e atrasados foram: anteriorização de fricativa, sonorização, semivocalização de líquida, substituição de líquida e REC.

Nessas pesquisas, percebe-se a predominância dos processos fonológicos de REC, dessonorização, processos fonológicos envolvendo a classe das líquidas, anteriorização de fricativas palatais e eliminação de consoante final.

Mais recentemente, em uma pesquisa envolvendo crianças com desenvolvimento fonológico típico, Ferrante et al. (2009) verificaram o uso dos

1

Vale ressaltar que Lamprecht (op.cit.) faz o uso do termo “desvio fonológico evolutivo”, Wertzner (op.cit.) utiliza “distúrbio fonológico” ou “transtorno fonológico” e Ramos (op.cit.) “desvio fonológico”. Nesta pesquisa, optou-se pelo uso da terminologia “desvio fonológico evolutivo” (DFE). Somente na fundamentação teórica serão mantidos os termos adotados por cada autor.

processos fonológicos por 240 crianças, de ambos os sexos com idades entre 3:0 e 8:0 anos. Os autores constataram que, a partir da faixa etária de 4:0 anos, o mínimo de processos fonológicos utilizados foi zero e o número máximo diminuiu gradativamente de acordo com o aumento da faixa etária. Os três processos fonológicos mais utilizados na faixa etária de 3:0 a 3:11 foram: REC, lateralização e apagamento de consoante final. Na faixa etária de 4:0 a 4:11, os três processos fonológicos mais utilizados foram os mesmos da faixa etária de 3:0 anos. Já na faixa etária de 5:0 a 5:11, o processo fonológico de lateralização foi o mais utilizado, seguido de REC e apagamento de consoante final. Dos 6:0 a 6:11, a REC foi o processo fonológico mais utilizado, seguido da metátese, e, observou-se que, nesta faixa etária, doze dos 20 processos fonológicos pesquisados, não foram utilizados. Na faixa etária de 7:0 a 7:11, apenas cinco (epêntese, REC, metátese, apagamento de consoante final e assimilação) dos 20 processos fonológicos foram observados, com médias de ocorrências abaixo de 0,5%. Para os autores, as maiores dificuldades encontradas pelas crianças concentram-se na produção das líquidas e nas estruturas silábicas mais complexas (CVC e CCV).

Do exposto, infere-se que tanto as crianças com desenvolvimento fonológico típico quanto aquelas com DFE possuem maiores dificuldades nas produções de líquidas e de estruturas silábicas mais complexas. Há a prevalência de processos fonológicos de substituição, sendo os de estrutura silábica, como a REC, um dos mais tardios em seu desaparecimento, mesmo no desenvolvimento fonológico típico. Ainda, o processo fonológico de REC é o de maior ocorrência na literatura em casos de DFE. No geral, as crianças apresentam REC associado a outros processos fonológicos operantes.

Benzer Belgeler