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É possível dizer que o tema relativo à perversão foi passando por sucessivas e importantes alterações ao longo da obra freudiana. É Janine Chasseguet-Smirgel (1984/1991) quem nos mostra que há três momentos significativos da teorização da perversão por Freud.

O primeiro deles diz respeito à ideia de que “a neurose é o negativo da perversão” (Freud, 1905, p. 80), articulação proposta nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Ao formular tal axioma, Freud pretende dizer que a neurose e a perversão não estariam tão apartadas em relação ao universo fantasmático como se supunha. Freud revela que as fantasias de cunho perverso, ou seja, com um colorido sádico e/ou masoquista estão presentes em neuróticos e perversos com um único diferencial: nos neuróticos elas seriam recalcadas, enquanto nos perversos seriam atuadas. Ainda em relação aos Três Ensaios, é importante salientar que Freud busca defender que a perversão resultaria de uma fixação infantil em um estagio pré-genital da organização libidinal, ou seja, ela decorreria de uma impossibilidade da

corrente genital da sexualidade se impor sobre as demais. Tal compreensão se modifica no segundo momento crucial em relação à perversão na obra freudiana.

Esse segundo contexto diz respeito à formulação do complexo de Édipo e ao fato de Freud colocá-lo como gênese não só das neuroses, mas também da perversão, ideia que pode ser encontrada no artigo “Batem numa criança” (1919). Este foi à sua época um texto inovador, e, ainda nos dias de hoje, pode ser visto como um trabalho controverso. Para a sua elaboração, Freud fez um amplo trabalho de articulação entre teoria e clínica. É possível dizer que o pai da psicanálise, já inculcado com o problema representado pelo masoquismo, refina a sua escuta e passa a perceber em certos relatos de fantasia de seus pacientes elementos que poderiam lhe auxiliar a desvendar o complexo arranjo perverso. Ainda que o autor admita que tenha se focado no relato de fantasia de apenas seis pacientes (cifra de baixíssima relevância em termos estatísticos), ele argumenta que contou com inúmeros outros casos clínicos que o auxiliaram na elaboração desse trabalho.

Freud parte de uma observação clínica aparentemente simples, a saber, a existência corrente de uma fantasia de que “batem numa criança” em relatos de pacientes que buscam tratamento para uma histeria ou uma neurose obsessiva. A partir de tal observação, Freud irá desenvolver toda uma gramática da fantasia, distinguindo os diferentes sujeitos e objetos que a integram, bem como as modificações a que estão sujeitas, tanto em relação ao gênero do sujeito e o objeto, como também no que concerne aos tempos verbais (voz ativa, passiva e reflexiva). Freud defende, dessa maneira, a existência de três tempos no que tange à fantasia de surra (em relação às mudanças nas fantasias de surra, Freud limita suas descrições às mulheres):

1. “meu pai bate na criança/ meu pai bate na criança que eu odeio.” A criança que apanha nunca é quem fantasia. Não há uma definição inequívoca quanto à natureza da fantasia, ou seja, se é de caráter sádico ou masoquista;

2. “sou castigada por meu pai”. Possui caráter indubitavelmente masoquista, constituindo- se como a fantasia mais importante e mais prenhe de consequências. Não chegaria jamais a ser lembrada, sendo uma construção possibilitada apenas pelo trabalho analítico;

3. neste terceiro tempo não haveria uma axioma. A pessoa que bate nunca é o pai e a pessoa que fantasia não aparece. Geralmente são várias as crianças que apanham, e o sexo predominante é o masculino. A característica essencial dessa fantasia é uma forte e inequívoca excitação sexual que serve ao fim masturbatório.

Quanto ao teor e ao significado dos diferentes tempos, Freud os elabora da seguinte forma:

1. “meu pai não ama esse outro, ama somente a mim”. Neste caso a fantasia satisfaz o ciúme da criança e possui íntima relação com a sua vida amorosa. Já se observaria o domínio da genitalidade e, como causalidade, o Complexo de Édipo;

2. “não, ele não me ama, pois bate em você” torna-se expressão direta da consciência de culpa ligada aos desejos incestuosos. Aqui esses desejos são reprimidos e confiados ao inconsciente. A fantasia tornou-se masoquista em função da consciência de culpa;

3. embora pareça ter se tornado sádica, sua satisfação é de cunho masoquista, pois todas as crianças indefinidas são subistitutos dela mesma.

Toda essa gramática da fantasia adquire diferentes desdobramentos, no entanto, ela permite a Freud importantes conclusões no tocante aos mecanismos repressivos, ao Complexo de Édipo e à gênese do masoquismo.

O terceiro modelo compreensivo da perversão é-nos de especial interesse, uma vez que se relaciona ao conceito referente à Verleugnung (recusa) que será discutido mais adiante. Contudo, o ponto mais importante em relação a esse modelo compreensivo é o fetichismo. Este também é o título de um artigo de 1927 no qual Freud elabora a ideia de que o fetichismo é um substituto para o pênis da mãe. A existência do pênis materno se articula como uma ideia na qual a criança acredita até o momento em que se depara com a realidade da castração da mãe. Dessa maneira, diante de uma percepção terrificante, do vislumbre de uma realidade que põe sua onipotência em risco, a criança pode se valer de um mecanismo que busca se contrapor ao choque por ela sentido, qual seja, o mecanismo da recusa (Verleugnung). Desse modo, a percepção real se mantém, enquanto a afirmação inconsciente de que o pênis materno continua a existir faz com que a sua representação se desloque para outro objeto – o fetiche. Este significa “o triunfo sobre a ameaça de castração e uma proteção contra ela” (Freud, 1927/1976, p. 181). O fetiche acaba adquirindo, portanto, um papel nodal no gozo perverso.

Embora a ideia relativa à recusa como o mecanismo de defesa privilegiado na perversão tenha sido de grande valia na metapsicologia, ela impôs um questionamento que não poderia ser desconsiderado: como é possível reconhecer e negar, simultaneamente, a castração? A resposta para tal indagação é construída no artigo inacabado de Freud, “A divisão do ego no processo de defesa” (1938/1940). Neste, Freud revela que a contradição acima pode se manter

quando ocorre uma divisão do ego (splitting), fazendo com que este funcione em dois registros diferentes e antagônicos, sem que um anule ou influencie o outro:

[o ego] responde ao conflito por duas reações contrárias, ambas válidas e eficazes. Por um lado, com o auxílio de certos mecanismos, rejeita a realidade e recusa-se a aceitar qualquer proibição; pelo outro, no mesmo alento, reconhece o perigo da realidade, assume o medo desse perigo como um sintoma patológico e subsequentemente tenta desfazer-se do medo.... Ambas as partes na disputa obtêm sua cota: permite-se que a pulsão conserve sua satisfação e mostra-se um respeito apropriado pela realidade. Mas tudo tem de ser pago de uma maneira ou de outra, e esse sucesso é alcançado ao preço de uma fenda no ego, a qual nunca se cura, mas aumenta à medida que o tempo passa. (Freud, 1927/1976, p. 309)

Assim, seria possível manter uma atitude que se ajusta à pulsão e outra que se ajusta à realidade. Desse modo, é imprescindível que o leitor compreenda que a recusa resulta na divisão do ego. Mais do que é isso, é fundamental destacarmos o fato de que Freud compreende, ainda que tardiamente, que a recusa não é uma forma de defesa exclusiva à perversão: ela também se faz presente na neurose e na psicose. É em “Fetichismo”(1927) que Freud aceita essa extensão, dizendo que a recusa era muito menos rara do que ele supunha: “Também comecei a suspeitar que ocorrências [da recusa] na infância de maneira alguma são raras, e acreditei ter sido culpado de um erro em minha caracterização da neurose e da psicose” (p. 183). O erro, portanto, relaciona-se ao fato de Freud acreditar que a recusa estava apartada do domínio da neurose e da psicose. Freud, de certo modo, se retrata e complementa dizendo que haveria apenas uma diferença quantitativa no que tange a um maior ou menor grau de distanciamento do ego da realidade.27

Mais adiante, retomaremos a questão referente à recusa a fim de melhor compreendermos a ideia que será em seguida exposta e elaborada, a saber, o uso de defesas perversas na psicose.

4.2 Introdução à discussão elaborada por Jean Claude Maleval:

A partir de Maleval, principalmente por intermédio de seu trabalho intitulado “Suplencia perversa en un sujeto psicótico” (2010), buscaremos defender a hipótese de que muitos casos que são concebidos e tratados como casos de psicopatia são, na verdade, casos de psicose.

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Em Perversão (2000/2008), Flávio Carvalho Ferraz realiza um valioso levantamento bibliográfico relativo à perversão, localizando todos os momentos em que o tema surge na obra freudiana. Ferraz também traz as colaborações de autores pós-freudianos, como Robert Stoller, Joyce McDougall, Janine Chasseguet-Smirgel e Masud Khan.Também é muito valiosa a trilha talhada por Patrick Valas em seu livro Freud e a Perversão (1990), trabalho que, assim como o de Shine, condensa e situa os principais momentos nos quais Freud fala a respeito da perversão.

Benzer Belgeler