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BİLGİ-ÎMAN-AKIL İLİŞKİSİ

VIII. EPİSTEMOLOJİK OLARAK ÎMAN AÇISINDAN SÜJE-OBJE ANALİZİ

2.4. BİLGİ-ÎMAN-AKIL İLİŞKİSİ

urante o período em que exerceu as funções de procurador criminal interino – 1924-1926 – Sobral enveredara por um caminho que viria a se tornar uma de suas marcas registradas. Jamais evitava o debate público. Quando atacado, quer nos jornais, quer na tribuna do Legislativo, quer na arena do Judiciário, procurava invariavelmente responder de pronto. Nos tempos do presidente Bernardes, os pe​ riódicos de oposição da capital, destacando-se o Correio da Manhã, O Jornal e O Globo, criticavam-no duramente. Seu zelo como procurador criminal interino era interpretado como atos de um tirano. Afirmavam que era contumaz na prática da desídia; isto é, o procurador era negligente, e isso acabava interferindo no andamento dos processos, tornando-os forçosamente morosos. Enquanto Sobral demorava a enviar o processo acusatório para os devidos juízes, os presos “mofavam” nas cadeias. Havia também aqueles que afirmavam que a inércia do procurador era proposital. Um meio ilegal de manter opositores do governo presos, especialmente nos casos em que se acreditava que a decisão dos magistrados favoreceriam os réus.

Sobral jamais deixava as críticas sem resposta. Defendia-se por meio de longas cartas endereçadas aos adversários ou fazia publicar os reptos nos jornais, especialmente em O Paiz, periódico que apoiava o governo Bernardes. Podia, inclusive, entrar em polêmica pública com juízes.

O principal alvo de procurador criminal era o combate às conspirações. Segundo o Código Criminal de 1890, era entendido como conspiração um conluio que reunisse pelo menos 20

pessoas. Em fins de 1924, foi aberto o processo contra os integrantes do caso que ficou conhecido como “Conspiração Protógenes”. Sobral arrolou na lista de conspiradores 100 homens. Dentre eles, oficiais da Marinha de Guerra, alguns oficiais do Exército Brasileiro, um deputado, José Baptista de Azevedo Lima, e vários civis. Estes, sob a liderança do capitão de mar e guerra Protógenes Pereira Guimarães, pretendiam promover levantes no Distrito Federal em apoio à sublevação em andamento na cidade de São Paulo. O plano foi descoberto pela polícia, vários implicados foram presos, e coube ao procurador criminal consubstanciar a denúncia. Sobral, na peça acusatória, arrolou 44 acusados, para os quais acreditou que reunira provas concretas. Para cada um deles, pediu sentença de cinco anos de prisão.

Em março de 1926, o juiz da Primeira Vara, Olímpio de Sá e Albuquerque, entendeu que a denúncia da procuradoria criminal carecia de substância, estabelecendo, portanto, uma fraca acusação contra os réus. Absolveu todos os 44 acusados que deveriam naturalmente ser soltos. O governo Bernardes, no entanto, escorado no estado de sítio, manteve todos os acusados presos. Para o governo, a situação excepcional permitia-lhe o argumento legal para desafiar a ordem do magistrado. Para a oposição, a desobediência à sentença judicial era mais uma prova da tirania sem limites que campeava no país.

Sobral Pinto, por seu turno, recorreu ao Supremo Tribunal Federal e proclamou aos quatro ventos que a decisão do juiz Sá e Albuquerque era ridícula e que deveria ser revogada. O juiz, por seu lado, tornou pública por meio da imprensa uma mensagem que enviara ao Supremo justificando sua decisão. Nela o magistrado afirmava que sua sentença não era de forma alguma superficial, que os testemunhos obtidos pelo governo careciam de qualquer valor moral e protestou quanto à linguagem áspera usada pelo procurador criminal. Sobral contra-atacou por meio de uma longa carta, cuja cópia também forneceu à imprensa, reafirmando a substância da acusação e denunciando a linguagem brutal usada pelo magistrado.19 O resultado da querela, para gáudio

dos adversários do governo Bernardes, foi que o Supremo Tribunal Federal acompanhou a posição do juiz Sá e Albuquerque, entendendo que não havia provas contra os conspiradores do Caso Protógenes. Todos os 44 réus foram absolvidos.

Sobral levou a cabo também uma denúncia contra 74 oficiais do Exército, acusados de praticar atos rebeldes no Distrito Federal e no Mato Grosso, mas que haviam, por pertencerem a colunas rebeladas que se deslocavam pelo território nacional, cometido crimes em diferentes lugares. Nesses

casos, sentia-se particularmente irado, pois, dentre os réus, estavam os responsáveis pela morte de um padre e de mais 13 pessoas em Piancó, no estado da Paraíba – executados por integrantes da Coluna Prestes –, e de quatro capatazes assassinados sob o pretexto de maltratarem trabalhadores rurais. Esta execução foi efetuada por membros da chamada “Coluna da Morte” liderada pelo tenente rebelado da Força Pública do Estado de São Paulo, João Cabanas. Durante o processo, Sobral manifestou seu inconformismo contra o estado de coisas intolerável causado pelas rebeliões endêmicas de militares e seus associados contra a ordem constitucional. Classificava-as como crimes de lesa-pátria e de lesa-humanidade. Reclamava ainda que, caso os rebeldes fossem absolvidos de seus crimes, isso consolidaria no Brasil uma situação jurídica absurda, em que os réus graduados e protegidos podiam sair impunes, não importando o que fizessem, enquanto que os rigores da lei só atingiriam os infelizes e miseráveis. O procurador pediu para os réus a pena máxima. Só no mês de fevereiro de 1928 saíram as sentenças dos casos. O juiz Sá e Albuquerque absolveu 21 réus, e 53 receberam o grau mínimo de reclusão – um ano e quatro meses.

A imprensa oposicionista não cessava de desancar o procurador. Em O Jornal, seu proprietário, Assis Chateaubriand, denunciava as inclinações reacionárias de Sobral. Além disso, mantinha viva a acusação de desídia, afirmando que Sobral atrasava o andamento dos processos por meses, fazendo com que os acusados, por vezes, ficassem encarcerados mais tempo do que caso fossem condenados. O problema é que o Supremo Tribunal Federal acabou votando por unanimidade uma censura contra o procurador criminal por levar tempo em demasia para apresentar os casos aos juízes. A oposição comemorou, pois percebia que a atitude do Supremo confirmava suas denúncias. Sobral, por seu turno, não se deixou abater. Dizia que seu papel como procurador criminal era inatacável e, sem um pingo de modéstia, uma glória para as hostes católicas.20

Em novembro de 1926, no apagar das luzes de seu mandato presidencial, Bernardes efetivou Sobral no cargo de procurador criminal. Vários amigos do procurador, a “colônia da elite mineira” residente na cidade, aliados do governo Bernardes e católicos praticantes como Sobral decidiram organizar um banquete para 300 convidados na sede do Automóvel Club para homenageá-lo. O Brasil daquela época seguia de perto o estilo da Terceira República francesa, 1870-1940, cuja elite considerava que praticamente tudo servia de pretexto para se organizar banquetes. Entre os vinhos, farta comida e ao som do tilintar dos talheres e das taças, discursos intermináveis eram proferidos, fosse para desfiar longos elogios ao homenageado, fosse para invectivar causticamente os

adversários. Isso sem falar da chance que o banquete ensejava de servir como palco para o exibicionismo dos oradores.

Sobral decidiu que não queria nada daquilo. Resolveu comemorar sua nomeação de um modo muito mais austero. Segundo ele, queria evitar cenas de hipocrisia e servilismo. Preferiu reunir apenas 15 de seus amigos mais chegados. Primeiro, acompanhado pelos amigos, depositou flores na sepultura de seu pai, Príamo, momento em que demonstrou profunda emoção. Em seguida, marcharam todos para um lanche de confraternização na Confeitaria Colombo no centro da capital, na rua Gonçalves Dias.

Os rebuliços e as francas inimizades que enfrentava na procuradoria criminal perfaziam o tipo de desafio que agradava Sobral. Seu trabalho permitia que privasse da proximidade do presidente da República e do ministro da Justiça. Nos processos, travava combate contra os luminares da advocacia da Primeira República; figuras como Targino Ribeiro, Justo Mendes de Moraes, Levi Carneiro etc., que atuavam na defesa dos réus. Enfrentava juízes e discutia com ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada mau para um profissional de Direito vivendo a primeira parte de sua carreira.

19. DULLES, John W.F. Op. cit., pp. 30-31.

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Benzer Belgeler