B. YAZLIK SEBZE YETİŞTİRİCİLİĞİ
11. Bezelye Yetiştiriciliği
A reflexão acerca da multiplicidade de posicionamentos pela definição do termo desastre pode ter como ponto de partida a observação da institucionalidade brasileira designada oficialmente para entendê-lo, nominá-lo, e, assim, para sobre ele atuar, o que aqui denominaremos de autoridades em desastres. Primeiramente, objetivo partir daquilo que o senso comum, nos termos de Martins (2008) entende por “autoridade”. Antes disso, no entanto, vejamos como o autor trabalha a própria noção de conhecimento de senso comum.
A crise das grandes certezas, das grandes estruturas da riqueza e poder e, dos grandes esquemas teóricos, esboça desafios para a vida, para a ciência e, mais especificamente desafia a renovação do pensamento sociológico. Nesse ensejo, afirma Martins, é que se propõe a questão do conhecimento de senso comum na vida cotidiana. O senso comum, e com ele o mundo da vida cotidiana, é desqualificado pela perspectiva erudita, porque banal, destituído de verdade, porque fonte de equívocos e distorções (p. 52). No entanto, o autor propõe justamente a reflexão sociológica que permita o entendimento de que
(...) o senso comum é comum não porque seja banal ou mero e exterior conhecimento. Mas, porque é conhecimento compartilhado entre os sujeitos da relação social. Nela o significado a precede, pois é condição de seu estabelecimento e ocorrência. Sem significado compartilhado não há interação. Além disso, não há possibilidade de que os participantes da interação se imponham significados, já que o significado é reciprocamente experimentado pelos sujeitos. (...) Portanto, mais do que uma coleção de significados compartilhados, o senso comum decorre da partilha, entre atores, de um mesmo método de significados. Os significados são reinventados continuamente em vez de serem continuamente copiados. As situações de anomia e desordem são resolvidas pelo próprio homem comum justamente porque ele dispõe, de um meio para interpretar situações (e ações) sem sentido, podendo, em questão de segundos, remendar as fraturas da situação social (p. 54-55).
Ao qualificar esse tipo de conhecimento, tal reflexão nos facilita a aproximação do que o senso comum pode entender por “autoridade”. Como a autoridade em desastre se faz representar e é elaborada pelo conhecimento de
senso comum? Supomos que ela diga respeito não apenas a pessoas e às posições por elas ocupadas nos diferentes escalões e cargos das três esferas de governo, mas também àqueles que fazem a interlocução com o meio social a partir de outros lugares privilegiados - dentre eles, a ciência. Esses lugares que se projetam como “privilegiados” nas instâncias públicas – e nas privadas com as quais estabelecem interlocução -, e também no âmbito do saber científico, são tidos como portadores de uma interpretação sobre o mundo que é mais “qualificada”, se tornando, pois, “lugar de autoridade” - e, como supomos, lugar de poder.
Sendo assim, nos interessa apresentar o conjunto do qual fazem parte agentes do meio científico, meio técnico e da gestão pública, performances estas embasadas por diversas formações. Institucionalmente, poderiam ser identificadas por aqueles que atuam no âmbito científico/formativo, técnico/executivo e no meio político/administrativo, representados por uma gama de cientistas, peritos, especialistas, técnicos, profissionais, a exemplo dos engenheiros (nas suas diversas especialidades), geólogos, geógrafos, analistas ambientais, urbanistas, assistentes sociais, psicólogos, advogados, administradores, dentre outros, associados ao desempenho em contextos de desastres. No imaginário social, alguns serão mais facilmente identificados na sua associação com os desastres, enquanto outros, apesar de inseridos no bojo da peritagem e da gestão, conformarão uma relação mais indireta com o mesmo.
O corpo das autoridades se apresenta subdividido por diferentes áreas do conhecimento, suas diversas concepções, objetos, racionalidades e princípios, interferindo na leitura e ação sobre o desastre. É inevitável pensar a forma que o Brasil, dentre as várias nações, adotou para lidar com os desastres, qual seja, a institucionalização da Defesa Civil e a noção de sistema (envolvendo os três níveis do governo) que a constitui, abrindo um leque de representantes quando da tentativa de compreendê-la. A Defesa Civil deveria ser um tema transversal às políticas públicas (VALENCIO, 2009), dentre elas, as de saúde, moradia, educação, transporte, que incidem na reprodução e realidade sociais17. É importante entender, no entanto, que a experiência brasileira revela não existir uma padronização na
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A PNPDEC deve integrar-se às políticas de ordenamento territorial, desenvolvimento urbano, saúde, meio ambiente, mudanças climáticas, gestão de recursos hídricos, geologia, infraestrutura, educação, ciência e tecnologia e às demais políticas setoriais, tendo em vista a promoção do desenvolvimento sustentável (Lei 12.608/2012).
forma das defesas civis municipais se constituírem, apesar de assim prever a legislação18. Então, é possível encontrar formações exclusivamente voluntárias, militares, técnicas ou o misto dessas representações, ou ainda a mistura apenas parcial delas. Sua constituição pode incluir os porta-vozes militares, das técnicas ou incluí-los apenas em “momentos de crise”, respaldados pelo conhecimento científico originado prioritariamente das ciências exatas e da “natureza”. Destaca-se, nesse âmbito, a forte presença da racionalidade militarizada que está na origem do SNPDC e que nunca o abandonou. E quais são os reflexos disso? A Defesa Civil revela uma clara concepção de ordem social que é autoritária. Isso permite supor que essas autoridades estão numa posição que não permite a “barganha”, imprimindo nesses processos e relações a visão unilateralizada de tomada de decisão, ou a vocalização única. A análise de Valencio (2009) aponta elementos dessa relação:
É necessário consolidar a convivência do meio civil e militar em bases de confiança mútua sem precisar se relacionar, um com o outro, como algoz, como herói tampouco como vítima. A parceria com o meio militar no tema de desastres é bem vinda e deve ser promovida como parte constitutiva do diálogo de saberes e estratégias, na busca de sinergia em prol de um bem comum. Contudo, a ruptura de mais de duas décadas na convivência em bases democráticas criou necessidades de refazimento das regras de uma interação respeitosa aos direitos consagrados, de serenidade no encaminhamento de soluções negociadas, consoantes ao novo contexto político-institucional de amadurecimento gradual das arenas democráticas representativas e participativas. A natureza essencialmente hierárquica das instituições das Forças Armadas – o que é igualmente verdadeiro junto a corporações de segurança pública – é inerentemente avessa
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O Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil - SINPDEC é constituído pelos órgãos e entidades da administração pública federal, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e pelas entidades públicas e privadas de atuação significativa na área de proteção e defesa civil, sob a centralização da Secretaria Nacional de Defesa Civil, órgão do Ministério da Integração Nacional: órgão consultivo, Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil - CONPDEC; órgão central, Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional, responsável por coordenar o planejamento, articulação e execução dos programas, projetos e ações de proteção e defesa civil; órgãos regionais de proteção e defesa civil responsáveis pela articulação, coordenação e execução do SINPDEC em nível regional; órgãos estaduais e do Distrito Federal de proteção e defesa civil responsáveis pela articulação, coordenação e execução do SINPDEC em nível estadual; órgãos municipais de proteção e defesa civil responsáveis pela articulação, coordenação e execução do SINPDEC em nível municipal; órgãos setoriais dos 3 (três) âmbitos de governo abrangem os órgãos, envolvidos na ação da Defesa Civil.O SINPDEC poderá mobilizar a sociedade civil para atuar em situação de emergência ou estado de calamidade pública, coordenando o apoio logístico para o desenvolvimento das ações de proteção e defesa civil.
http://www.mi.gov.br/defesacivil/sinpdec/organizacao;jsessionid=8F3C5CB765A210B52A058EE6B AE7CD49.lr1. Acesso em 21 de dezembro de 2012.
à simetria que as negociações em bases democráticas exigem. Sendo assim, é temerário, em termos sócio-políticos que, à frente de instituições civis, haja sujeitos que tensionam abertamente com a racionalidade civil, desqualificam ou menosprezam os cidadãos a quem servem e, por vezes, insuflam intolerâncias no meio civil, indispondo grupos sociais afluentes e camadas médias contra os que já sofrem continuados abusos frente a seus direitos, o que vimos assistir em relação, especialmente, a operações nas favelas e nos discursos contestatórios à autodeterminação de indígenas no que concerne ao controle de territórios demarcados para estes povos. (p. 8).
A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012) “abrange as ações de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação voltadas à proteção e defesa civil”. Ao definir a instituição, a PNPDC afirmará que a Defesa Civil se caracteriza por um conjunto de ações preventivas, de socorro, assistenciais e recuperativas destinadas a evitar desastres e minimizar seus impactos para a população e restabelecer a normalidade social. Ainda na perspectiva normativa, se pode buscar a resposta para o que seria desastre.
(...) é o resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem sobre um cenário vulnerável, causando grave perturbação ao funcionamento de uma comunidade ou sociedade envolvendo extensivas perdas e danos humanos, materiais, econômicos ou ambientais, que excede a sua capacidade de lidar com o problema usando meios próprios19.
Essas definições registram alterações na legislação atinente à defesa civil brasileira, ocorridas em 2012, impulsionadas pelos grandes eventos registrados por todo o país, ampliando a nominação de “defesa civil” para “proteção e defesa civil”, incluindo a perspectiva de “cenário vulnerável”, entre outros, num esforço de remeter à ideia de avanço e qualificação normativa e institucional.
Refletir sobre o Sistema de Proteção e Defesa Civil, seus integrantes e suas propostas interventivas frente aos desastres implica não só tratar do sentido das mudanças no escopo da legislação, mas entender, principalmente, os preceitos que a norteiam historicamente, e a forma como seus agentes vêm ensejando práticas
19 Instrução Normativa 1 de 24 de agosto 2012, do Ministério da Integração Nacional. Publicada em 30 de agosto de 2012 no Diário Oficial da União.
frente à recorrência dos desastres no país – tendo suas próprias insuficiências institucionais como provocação, certo que geram polêmica e manifestações hostis diversas.
Recuperamos narrativas que permitem o conhecimento de algumas características da Defesa Civil de Teresópolis/RJ (ANEXO 2)20, experiência que certamente está próxima da realidade de muitos outros municípios brasileiros e que permitem a ampliação desta reflexão:
Aqui essa Defesa Civil nunca teve formação, nunca teve concurso aqui pra agente de Defesa Civil, ninguém aqui do município é formado em Defesa Civil, ninguém! Então, tem gente que trabalhava no aterro sanitário, da obra tem muito, então assim, são pessoas
coletadas de outras secretarias que formam a Defesa Civil municipal. A formação da Defesa Civil municipal são pessoas com boa vontade, pessoas que se dedicam completamente, mas não têm formação. É um efetivo de 15 pessoas que na multidão de voluntários, da organização do corpo de bombeiros que vem com
muita gente, eles somem. Então, a Defesa Civil trabalhava basicamente com planejamento, mas na hora da resposta, ela some (Entrevistado 12 – Secretaria do Meio Ambiente/PMT) [grifo nosso]
Teresópolis tem certo histórico de Defesa Civil, muito mais até do
que de Meio Ambiente. A Defesa Civil tem uma história mais antiga, as pessoas têm essa questão um pouco enraizada (...). A maioria é
de nível de 2º grau. Defesa Civil e Meio Ambiente eram 92
funcionários. Na verdade, pouco antes das chuvas nós recebemos ‘parques e jardins’ também e passamos pra 120 funcionários. A Defesa Civil especificamente tinha 40 e poucos funcionários, sendo que 90% de nível médio, 5% de nível elementar e 5% de nível
técnico. A gente normalmente contratava agregando pessoal
reformado do Corpo de Bombeiros ou voluntários que fizeram curso da Defesa Civil e se destacaram em algum momento, daí passavam a compor equipe. Tinha geógrafo, geólogo e engenheiro contratados no quadro da Defesa Civil. Como funcionava o sistema? A Defesa Civil tinha o plano de contingência. Pra cada tipo de problema você tem um determinado nível de impacto e isso vai me exigir que eu tenha algumas ações. Nessas ações: nível 1, a DC é responsável e consegue tocar, ok; nível 2, eu já preciso acionar alguns entes do município mesmo: saúde, educação, serviços públicos (retirada de material, resgate); nível 3, prefeitura não agüenta, preciso do apoio
20 Diz respeito ao art. 1º, inciso V (Fica a Secretaria Municipal de Defesa Civil incorporada a Secretaria
Municipal de Meio Ambiente, que passará a se chamar Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil) da Lei Complementar Nº 0133 de 31/10/2009, que altera a Estrutura Administrativa Básica da Prefeitura Municipal de Teresópolis, estabelecida pela Lei Municipal nº 1.441/1993, e dá outras providências. Fonte: www.camarateresopolis.rj.gov.br/leis/index.php/leis-municipais/leis- municipais-por-assunto. Acesso em 19 dezembro 2012.
do governo do Estado, então, a DC Estadual é acionada e essa aciona seus entes do Estado: habitação, obras públicas; e o nível 4, é o que aconteceu aqui: ninguém segura e tem que acionar a União também e daí vem exército, marinha, força nacional, todo mundo pra ajudar. Então: primeiro só DC, depois prefeitura, depois prefeitura e Estado e por fim, a União. A gente tem esse nível de acionamento. E aí, cada DC na sua linha de atuação consegue fazer seus contatos: às vezes, com uma ONG, com a Cruz Vermelha, por exemplo, um grupo de voluntários e assim vai organizando o trabalho (Entrevistado 19 – Defesa Civil/PMT). [grifo nosso]
Eu estive em Teresópolis, agora em 2008, e não tinha nenhum
corpo técnico especializado. As pessoas que mais se
preocupavam estavam na Defesa Civil, e eu diria que eram um ou dois profissionais: uma engenheira agrônoma, que não era
concursada, mas contratada, e que era quem tinha a melhor visão
sobre o problema na Prefeitura de Teresópolis. Ela não tinha
estabilidade como profissional e em função disso, durou pouco
tempo. Ela contribuiu bastante em fazer nascer o Plano Municipal de Redução de Risco que, por mais que seja discutível a sua metodologia de elaboração e seu resultado, já é um grande avanço pra tratar esse tipo de problema. A gente faz um retrato da situação, retrato em preto e branco com diversas deficiências sobre o problema no município, mas é um grande avanço. Isso lá se deve a um trabalho individual dessa profissional que viu a oportunidade de contribuir para o município. Pouco tempo depois do término desse trabalho, essa profissional saiu (...). Foi uma perda muito grande! Eu estou dando um exemplo de que não tinha uma equipe técnica
no município preparada pra lidar com esse tipo de problema, por mais que não fosse especializada. O trabalho dela provavelmente
não deve ter sido entregue pra ninguém, deve ter sido engavetado. (...) Além disso, o tema não foi levado a diante. Minha troca lá na época foi com essa engenheira, um outro engenheiro que também estava lá e com o coordenador da Defesa Civil, que faleceu logo depois. Não havia outros. Então, esse despreparo na gestão do
risco pela Prefeitura de Teresópolis, eu acho um diferencial em
relação aos outros municípios da Região Serrana. (...) Em Petrópolis, por exemplo, foi contratada em 1990 via concurso público, uma boa equipe de engenheiros geotécnicos e geólogos, uns 10 ao todo. Eram pessoas já com experiência em geotecnia, muitos com mestrado em geotecnia e também geólogos com mestrado em geologia de engenharia. A equipe era bastante satisfatória pra Petrópolis e a gente trabalhou muito com isso. A prefeitura ficou melhor preparada. (...) Teresópolis não se preocupava quase
nada com esse problema. Acho que posso dizer que a prefeitura de
Petrópolis tem mais conhecimento e acúmulo sobre o tema do que a de Teresópolis: eu falo tanto de uma ocupação mais desordenada,
como de uma prefeitura mais despreparada em Teresópolis.
(Entrevistado 33 – Geotecnia/UFRJ). [grifo nosso]
O conjunto da expressão institucional brasileira voltada para o gerenciamento dos desastres se apresenta como uma diversidade de formas referendadas no
aparato legal, que, no entanto, gera fazeres e intencionalidades, não só diversas como pouco consolidadas como ação protetiva. Essas variações, como já mencionado, e o fazer daí decorrente, têm contribuído para o comprometimento de sua legitimidade frente à opinião pública – experiência registrada no município de Teresópolis/RJ, marcado por processos fortemente conservadores e por uma crise política administrativa sensivelmente aguçada pelo desastre.21 Primeiramente, deve- se registrar que, quando falamos de defesa civil, estamos tratando de relações sociais estabelecidas historicamente, referidas, entre outros, a territórios e lógicas de produção e controle social sobre lugares e grupos, bem ou mal definidos. Porém, alterações de terminologias (como foi empreendido na legislação em 2012) não são suficientes para alterar a noção de ordem social. Os processos organizacionais e humanos que orientam o conhecimento normativo e técnico em Defesa Civil são difíceis de desaprender, afirma Valencio (2006). Cabe, pois, problematizar termos como “restabelecimento da normalidade do cenário” (idem, 2009), “proteção civil” e também o que é denominado “cenário vulnerável”.
Diante da vulnerabilidade socioeconômica estrutural, os eventos extremos relacionados às mudanças climáticas tenderão a transformar a frágil inserção espacial de determinados grupos em desterritorialização definitiva ao que cabe problematizar o termo
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“Prefeito de Teresópolis, Jorge Mario, é cassado por unanimidade pela Câmara. Vereadores de Teresópolis aprovaram, na noite desta terça-feira, a cassação de Jorge Mario Sedlacek, prefeito afastado após denúncias de desvios de verbas destinadas à recuperação dos bairros afetados pelas enxurradas de janeiro. (...) Em agosto, eles já haviam decidido afastar o prefeito por 90 dias. (...) Jorge Mario — que era do PT, foi expulso do partido e hoje não tem legenda — é suspeito de envolvimento num suposto esquema de corrupção e pagamento de propina . (...) A investigação do MPF, sob sigilo de Justiça, apontou ainda irregularidades em licitações. Segundo denunciante, na semana das enxurradas — ocorridas em 12 de janeiro —, empresários e secretários se reuniram num gabinete da prefeitura, para dividir os contratos sem licitação e os recursos federais. O dinheiro, um total R$ 100 milhões, foi enviado ao Estado do Rio pelo Ministério da Integração Nacional. (...) Diante das irregularidades, a Controladoria Geral da União (CGU) determinou o bloqueio da conta da prefeitura de Teresópolis. A CGU também passou a exigir o ressarcimento de R$ 7 milhões transferidos para a cidade. Após o afastamento do prefeito, assumiu o vice-prefeito Roberto Pinto, que morreu de infarto apenas dois dias após a posse. Num momento político conturbado, a cidade empossou seu terceiro prefeito no período de menos de uma semana: Arlei, então presidente da Câmara de Vereadores. Em agosto, foram encontradas sete mil caixas de remédios — a maioria com validade vencida — num sótão na sede da Secretaria de Saúde da cidade. Na ocasião, o delegado Marcos Cipriano disse que os produtos, espalhados pelo chão e armazenados em caixas de papelão, seriam distribuídos às unidades de saúde do município. Denúncias de irregularidades e suspeitas de corrupção também atingiram Nova Friburgo, o município que mais sofreu, em área urbana, com o temporal, tendo recebido R$ 10 milhões — a maior fatia das verbas federais enviadas às cidades da região. Até agora, o MPF na cidade já instaurou mais de dez inquéritos civis públicos e promete outros. Disponível em http://extra.globo.com/noticias/rio/prefeito-de-teresopolis-jorge-mario-cassado- por-unanimidade-pela-camara-3057341.html. Acesso em 21 de janeiro de 2013.
normalidade do cenário na medida em que a normalidade designará um tecido de relações de classe já esgarçado e o termo cenário designará uma base biofísica inviável à ocupação. Ou seja, o cenário mostrar-se-á de difícil recuperação e as relações que o esteiam de difícil restabelecimento (p. 31).
No entanto, as primeiras evidenciações esboçadas nas narrativas feitas pelas autoridades (palavras, expressões ou frases que receberam destaque em negrito - recurso que usaremos no decorrer do conjunto das análises), denunciam a condição de despreparo e precariedade do sistema de proteção no exercício de gerenciamento do desastre. Evidencia-se a desqualificação dos quadros que constituem a defesa civil, realidade que integra grande parte dessa fração institucional brasileira e que neste estudo assim se apresenta: quadros constituídos de servidores de formação elementar ou predominantemente média, “coletados” de diversos setores do âmbito público, sem formação especializada, sem preparo na “gestão do risco”, com vínculos temporários de trabalho e orientados pela perspectiva valorativa da “boa vontade” e “dedicação completa”. Esses elementos se confrontam com a noção de controle e ordem social que impregna tais instituições, racionalidades e retóricas decorrentes, gerando certa contradição entre as estratégias discursivas e a eficácia da intervenção.