2.3. Beyin Tümörlerinin Temelleri
2.3.4. Beyin tümörü tipleri
Com efeito, quando um país bem organizado reconhece que vai caminho errado, quando, apesar de sábias e refletidas leis, e das mais belas instituições que a razão aconselha, e em despeito de germens fecundos de prosperidade e engrandecimento, não consegue o bem-estar e a felicidade que todos almejam; em desespero de causa, volvem-se os espíritos para a instrução e a educação da mocidade, que encerra em si os destinos das gerações vindouras, e então como que uma revelação se produz; aparece a convicção de que os males que afligem a sociedade resultam da falta de cultura intelectual, da ignorância da maioria dos cidadãos, da consciência obscura dos deveres de cada um, da má direção da juventude, da rotina e estado estacionário dos métodos de ensino, da incerteza dos princípios morais e das crenças religiosas; é então também que a indiferença sucede o entusiasmo, o espírito público pronuncia-se, a reforma do ensino público torna- se uma necessidade que todos sentem e todos reclamam, e o legislador tem consciência de sua missão.
1
Nesta segunda parte pretendo fazer um trabalho mais descritivo do que analítico. A meta é reconstruir a história da educação imperial a partir das fontes primárias2. Nesse percurso ganham destaque as medidas legais de iniciativa do Estado, tais como: regulamentos, decretos, leis, instruções, avisos, projetos, portarias, entre outros. Também serão considerados, como fontes primárias nesta narrativa os relatórios dos Ministros dos Negócios do Império, dos presidentes de províncias, dos inspetores de instrução pública, de pareceres de comissões e os
1
MUNICÍPIO da Corte. Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária. Relatório do Inspetor Geral Eusébio de Queirós Coutinho Mattoso Câmara, de 15 de fevereiro de 1856.
2
Os trabalhos que se destacam em análises nesta perspectiva são: ALMEIDA, José Ricardo Pires de. História da
Instrução Pública no Brasil (1500-1889): História e Legislação. São Paulo/Brasília: EDUC/INEP, 1989. MOACYR,
Primitivo. A instrução e o Império (subsídios para a História da educação no Brasil). São Paulo: Nacional, 1937. 2 Vol. e MOACYR, Primitivo. A instrução e as Províncias (subsídios para a História da educação no Brasil). São Paulo: Nacional, 1939 e 1940. 3 Vol. Dentre os mais recentes podemos considerar, também. NISKIER, Arnaldo.
Educação Brasileira: 500 anos de história 1500-2000. 2 ed. Rio de Janeiro: Edições Consultor, 1996. Mas sem
dúvida, Primitivo Moacyr é o melhor exemplo. Infelizmente suas obras encontram-se esgotadas e disponíveis em poucas bibliotecas. Preocupado em deixar as fontes falar, o autor não se ateve a referenciá-las corretamente dificultando, assim o retorno às fontes pelos pesquisadores interessados em aprofundar estudos sobre algum tema, ou período.
autores do século XIX. Ao fazer tal relato, quero facilitar a comparação entre as medidas aplicadas na Corte e nas províncias do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Paraná, ou seja, localizar no tempo e espaço as várias iniciativas no campo educacional e demonstrar a circularidade de idéias. Por isso, cada unidade administrativa que compõe o objeto de estudo terá sua história contada separadamente. Uma análise comparativa mais detalhada de alguns tópicos será feita na terceira parte. Inicio pela Corte, ou Município Neutro.
Porém, antes disso é necessário fazer uma breve reflexão de caráter mais geral referente ao papel do Estado, enquanto agente responsável pela política de instrução pública.
É idéia dominante entre os historiadores da educação, que o Estado passou, de fato, a interferir, ou tomar para si a tarefa da instrução pública, a partir da segunda metade do século XVIII. Influenciado pelo iluminismo, pelo cientificismo emergente e pela ascensão burguesa inicia-se um processo de laicização da educação. Uma das grandes batalhas naquele período foi travada contra a Companhia de Jesus. Os jesuítas foram expulsos da França, Espanha e Portugal. Neste último, em 1759, com o Marquês de Pombal. Em todos os países, a lacuna deixada pelos jesuítas passou lentamente a ser preenchida pelo Estado. Portugal criou as aulas régias e o imposto denominado de “subsídio literário” para custear os estudos públicos.
Mas o grande impulso dado à ação estatal se deu a partir dos ideais estabelecidos pelos revolucionários de 1789. Luzuriaga afirma: “Pode-se dizer que só com a Revolução Francesa começa a educação nacional; e ainda que não pudesse realizá-la, deixa, todavia assentadas as bases de seu posterior desenvolvimento”.3 Os revolucionários conseguiram dar um caráter cívico e patriótico a educação, transformando-a num direito dos cidadãos. Durkheim definiu muito bem aquele momento, quando escreveu:
A efervescência revolucionária foi eminentemente criadora de idéias novas; para essas idéias, porém, a Revolução não soube criar órgãos que lhes dessem vida, instituições que as realizassem. Quer porque essas concepções eram amiúde desmedidas, quer porque as instituições não podem ser improvisadas, não são extraídas do nada e, destruídas as do antigo regime, faziam falta os materiais indispensáveis às necessárias reconstruções, quer por uma ou outra dessas razões, a Revolução proclamou princípios teóricos antes de torná- los realidade.4
A Revolução Francesa colocou a questão da educação em destaque no plano ideal. Os conceitos de educação pública, gratuita, laica, obrigatória e universal, passaram a ser empregados
3
LUZURIAGA, Lorenzo. História da educação pública. São Paulo: Nacional, 1959, p. 40.
4
entre os políticos e administradores de várias partes do mundo, porém até a sua plena execução e expansão, ou universalização decorreu uma distância muito grande. De modo que se pode perceber que “pelo fim do século XIX, alguma forma de educação pública havia sido organizada, praticamente, em todos os países independentes do mundo civilizado”.5 Em uns mais em outros menos, mas o fato concreto é que nenhum país do mundo conseguiu disseminar plenamente a instrução elementar entre a população, ou seja, a universalização completa, até o final do século XIX.6
No Brasil o processo de estatização da instrução pública foi, ainda mais lento que na grande maioria dos países europeus, devido às suas características econômicas, políticas, geográficas, sociais e culturais, já destacadas nos capítulos precedentes, todavia ela também aconteceu, e não se pode afirmar de forma alguma, que não houve ação do Estado. E é essa ação estatal que pretendo demonstrar.
A chegada de D. João VI ao Brasil, em 1808 trouxe um novo estímulo para a ainda colônia de Portugal. A instalação da corte no Brasil proporcionou mudanças significativas nas condições do país. Com a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional houve um fluxo maior de capitais, pessoas e idéias. Várias instituições foram criadas ou fortalecidas, possibilitando, assim a constituição de uma nacionalidade brasileira. Depois da queda de Napoleão, iniciaram-se as pressões de Portugal para que o regente retornasse à Metrópole. Internamente ganhou força a luta pela Independência, mas as medidas relacionadas com a instrução pública por parte do Estado foram mínimas. No entanto, em 1821 as Cortes Gerais Extraordinária e Constituintes da Nação Portuguesa “considerando a necessidade de facilitar por todos os modos a instrução da mocidade no indispensável estudo das primeiras letras” e diante do fato de que “não é possível desde já estabelecer, como convém, Escolas em todos os lugares deste Reino por conta da Fazenda Pública; e Querendo assegurar a liberdade que todo o cidadão tem de fazer o devido uso dos seus talentos”, decretaram a seguinte lei:
5
EBY, Frederick. História da educação moderna Séc. XVI / Séc. XX: teoria, organização e prática educacionais. 5 ed. Porto Alegre: Globo, 1978, p. 473.
6
Sobre o tema Cf. LUZURIAGA, L. Op. Cit. p. 40-52.; EBY, F. Op. Cit. p. 462-473; CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: Unesp, 1999, p. 492-498.; ALVES, Gilberto Luiz. A produção da escola pública
contemporânea. Campinas / Campo Grande: Autores Associados / Editora da UFMS, 2001, p. 129-142.;
MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 11 ed. São Paulo: Cortez, 2004, p. 245-249 e 269-310.
Que da publicação deste em diante seja livre a qualquer cidadão o ensino, e abertura de Escolas de primeiras letras, em qualquer parte deste Reino, quer seja gratuitamente, quer por ajuste dos interessados, sem dependência de exame, ou de alguma licença. A Regência do Reino o tenha assim entendido, e faça executar.7
Assim, por iniciativa individual, várias escolas foram abertas em diversas cidades do Brasil. Depois da formalização da Independência e de uma certa estabilidade política, a instrução pública passou a ser mais discutida, e algumas medidas foram sendo implementadas, por iniciativa do Estado.
Como vimos no primeiro capítulo, Pedro I convocou eleições para eleger os representantes da Nação, que deveriam elaborar uma constituição, ainda antes do anúncio formal da independência. Os cidadãos eleitos deveriam discutir e aprovar um conjunto de leis, que dariam o rumo ao País, entretanto, enquanto a constituinte não se iniciava, o Imperador D. Pedro I baixou algumas medidas para organizar uma estrutura educativa no Brasil. Pode-se destacar as seguintes: em 29 de janeiro de 1823, foi concedido autorização para o senhor “Nicolau Diniz José Reynaud” para “estabelecer uma aula de ensino mútuo na Corte”.8 Alguns dias depois, em 1º de março, o imperador almejando uma melhor preparação de seus súditos, especialmente os militares decidiu:
Hei por bem mandar criar nesta Corte uma Escola de primeiras letras, na qual se ensinará pelo método do ensino mútuo, sendo em beneficio, não somente dos militares do Exército, mas de todos as classes dos meus súditos que queiram aproveitar-se de tão vantajoso estabelecimento.9
E logo depois, em 29 de abril baixou-se um outro decreto do Ministério da Guerra, onde determinava que as corporações militares das províncias deveriam enviar,
(...) para esta Corte um ou dois indivíduos tirados da Tropa de Linha, sejam da classe dos Oficiais Inferiores, sejam dos soldados, que tenham a necessária e conveniente aptidão, para aprenderem o mencionado método, e poderem voltando a sua Província dar lições
7
BRASIL – REINO. Decreto de 30 de junho de 1821. Permite a qualquer cidadão o ensino, e abertura de escola de primeiras letras, independente de exame e licença. Coleção das Leis do Brasil de 1821 – Parte I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1889, p. 18.
8 BRASIL. Decisão do Ministério dos Negócios do Império n. 11 de 29 de janeiro de 1823. Permite o
estabelecimento de uma aula de ensino mútuo nesta Corte. Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1823. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887, p. 7.
9
BRASIL. Decreto de 1º de março de 1823. Cria ema Escola de primeiras letras, pelo método do Ensino Mútuo para instrução das corporações militares. Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1823. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887, p. 41-2.
não só aos sues Irmãos de Armas, mas ainda às outras classes de cidadãos.10
Não foi possível saber se aquela iniciativa deu os resultados esperados, mas a medida mostrou uma preocupação da Coroa com a difusão do ensino mútuo, ou método Lancaster. A política de difusão de escolas pelo método lancasteriano foi reforçada na fala do Trono, por ocasião da abertura dos trabalhos da Assembléia Geral Constituinte, na sessão de 3 de maio de 1823. O Imperador se expressou nos seguintes termos:
Tenho promovido os estudos públicos, quanto é possível, porém necessita-se para isto de uma legislação particular. (...) aumentou-se o número das Escolas, e algum tanto o ordenado de seus mestres, permitindo-se além disto haver um cem número delas particulares; Conhecendo a vantagem do Ensino mútuo também Fiz abrir uma Escola pelo método Lancasteriano.11
Quando o Imperador falou de “um cem número delas particulares” estava se referindo às várias escolas espalhadas pelo Brasil, em virtude da liberdade de ensino concedida pela lei citada anteriormente. A lei sobre a liberdade de ensino de 1821 foi, juntamente com várias outras, declaradas em vigor por decisão do Imperador e da Assembléia Geral Legislativa e Constituinte, em 20 de outubro de 1823.12 Como constatou Pires de Almeida, “em virtude desta lei, todo cidadão poderia abrir uma escola elementar, sem obrigação de exame, nem licença ou autorização. Era, como mostramos, uma benévola, mas funesta resolução se fosse exeqüível”.13
A questão da instrução pública foi amplamente debatida na Assembléia Constituinte. Nos ensinos menores as discussões se concentraram na elaboração de um tratado sobre a educação da mocidade, e no ensino superior os debates giraram em torno da proposta de criação de duas universidades no Brasil, uma no Norte e outra no Sul. O projeto de constituição apresentado para discussão em 30 de agosto de 1823, continha 272 artigos. O título XIII era
10
BRASIL. Decreto n. 69 do Ministério da Guerra de 29 de abril de 1823. Manda tirar dos corpos de linha das províncias um ou dois indivíduos para freqüentarem nesta Corte as escolas do ensino mútuo pelo método de Lancaster. Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1823. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887, p. 52.
11
BRASIL. Assembléia Geral, Constituinte e Legislativa (1823). Diário da Assembléia Geral Constituinte e
Legislativa do Império do Brasil – 1823. Vol. I. Brasília: Senado Federal, 2003, p. 17.
12
BRASIL. Lei de 20 de outubro de 1823. Declara em vigor a legislação pela qual se regia o Brasil até 25 de abril de 1821 e bem assim as leis promulgadas pelo senhor D. Pedro, como Regente e imperador daquela data em diante, e os decretos das Cortes portuguesas que são especificados. Leis da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa de 1823. Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1823 – Parte II. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887, p. 7-9.
13
ALMEIDA, José Ricardo Pires de. História da Instrução Pública no Brasil (1500-1889): História e Legislação. São Paulo/Brasília: EDUC/INEP, 1989, p. 57. A crítica demonstra que Pires de Almeida, não era partidário da liberdade de ensino.
destinado à instrução pública, estabelecimentos de caridade, casas de correção e trabalho. A parte dedicada à instrução correspondia aos artigos 250 a 255. Os três primeiros estabeleciam o seguinte:
Art. 250. Haverá no Império escolas primárias em cada Termo, ginásios em cada Comarca, e universidades nos mais apropriados locais.
Art. 251. Leis Regulamentares marcarão o número e constituição desses úteis estabelecimentos.
Art. 252. É livre a cada Cidadão abrir Aulas para o ensino público, contanto que responda pelos abusos.14
No entanto o projeto não chegou a ser discutido plenamente, pois, logo depois a Assembléia foi dissolvida pelo Imperador. A nova Constituição outorgada em 25 de março de 1824 dedicou pouco espaço à instrução pública, apenas definiu no seu artigo 179 inciso XXXII – “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos” e no XXXIII dá a entender que haveria “Colégios e universidades onde serão ensinados os elementos das Ciências, Belas-Artes e Letras”.15 Ao comparar o projeto elaborado pelos constituintes com a Constituição outorgada, percebe-se duas diferenças significativas: primeira; o projeto de constituição não estabelecia instrução primária gratuita, enquanto a Constituição garantiu tal direito aos cidadãos, e isso significou um avanço considerável. segunda; o projeto garantia a liberdade de ensino, permitindo a qualquer cidadão o direito de abrir escola, enquanto a Constituição não se manifestou sobre a matéria. O mesmo direito de liberdade de ensino, também não foi garantido pela Lei de 15 de outubro de 1827, que regulamentou a instrução pública no Brasil.16 Mas, como a Constituição não revogou a maior parte da legislação em vigor, a liberdade de ensino estava garantida.
14
BRASIL. Assembléia Geral, Constituinte e Legislativa (1823). Diário da Assembléia Geral Constituinte e
Legislativa do Império do Brasil – 1823. Vol. II. Brasília: Senado Federal, 2003, p. 699. Uma análise detalhada dos
debates, sobre instrução pública, entre a Assembléia Constituinte de 1823 e o Ato Adicional foi feita por XAVIER, Maria Elizabete. Poder político e educação de elite. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1985. A autora preocupada em compreender a autonomia do pensamento pedagógico brasileiro tomou como referencial para fazer a análise um modelo externo de base marxista distanciando-se do contexto específico. A vista disso, a obra passa a idéia de uma elite homogênea, lutando contra uma classe proletária inexistente.
15
BRASIL. Constituição de 1824. In: NOGUEIRA, Octaciano. Constituições brasileiras: 1824. Brasília: Senado Federal e MCT, 2001, p. 105-6.
16
BRASIL. Lei de 15 de outubro de 1827. Manda criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1827 – primeira parte. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional 1878, p. 71-73. A lei resultou de uma intensa discussão na Assembléia Geral Legislativa, até ser aprovada. Ao todo eram 17 artigos. A integra da Lei de 15 de outubro de 1827 encontra-se publica em MOACYR, Primitivo. A Instrução e o Império. Vol. Op. Cit p. 189-191, num texto único sem artigos. A versão apresentada por Moacyr foi reproduzida por XAVIER, M. E. Poder político e educação de elite. 3ed. São Paulo: Cortez / Autores Associados, 1985, p. 53-4. Também foi reproduzida na íntegra com separação em artigos por LIMA, Lauro de Oliveira. Estória da educação no Brasil: de Pombal a Passarinho. 2 ed. rev. e aument. Rio de Janeiro: Editora
A lei de 15 de outubro de 1827 determinou, no seu artigo 1º, que seriam criadas escolas de primeiras letras “em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos”. Tais escolas seriam regidas, de acordo com o artigo 4º, pelo método mútuo ou lancasteriano, em todos os lugares que fossem possíveis. Já o artigo 11º possibilitava ao presidente a criação de escolas femininas nas cidades mais populosas.
O processo de implementação da lei de 1827, não foi automático, ele se deu de forma burocratizada, em virtude de que as medidas adotadas pelas províncias só tinham validade depois que fossem aprovadas pela Assembléia Geral e o Imperador, como já foi demonstrado no capítulo precedente, sobre o Ato Adicional. No caso da Corte, o processo era mais ágil, pois estava junto do poder decisório. Ao rastrear as medidas adotadas para a execução da lei de 1827 na Corte, encontrei dois documentos do ano de 1829 bastante significativos, que vale a pena destacar. O primeiro deles estava relacionado a criação, por parte do Estado, de uma escola feminina pública (possivelmente a primeira) do Brasil para atender as necessidades das famílias da Corte.17 O segundo se referia a organização de um regulamento, com o objetivo de uniformizar o ensino. O Ministro José Clemente Pereira argumentou que era “indispensável regular convenientemente a instrução da mocidade nas Escolas de primeiras letras, tanto pelo sistema Lancaster, como pelo antigo”. Por isso, nomeou a comissão composta de 5 professores, os quais tinham como objetivo principal “organizar um projeto de regulamento para as referidas escolas, e ordenar compêndios, pelos quais metodicamente se ensinem as matérias declaradas no artigo sexto da Lei” de 15 de outubro de 1827.18 Não foi possível verificar se a referida comissão chegou a preparar o regulamento solicitado. Tudo indica que não, pois outros historiadores, também não têm citado tal medida.
Em 3 de maio de 1830, D. Pedro I, ao falar para os parlamentares na abertura dos trabalhos legislativos, afirmou que:
Brasília, (s. d.) p. 105-107. E recentemente foi publicada em TAMBARA, Elomar e ARRIADA, Eduardo (Orgs).
Coletânea de Leis sobre o ensino primário e secundário no período imperial brasileiro: Lei de Instrução – 1827;
Reforma Couto Ferraz – 1854; Reforma Leôncio de Carvalho – 1879. Pelotas-RS: Seiva, 2005, p. 23-27. Uma análise mais detalhada desta lei será feita na terceira parte do trabalho.
17 BRASIL. Decreto do Ministério dos Negócios do Império de 09 de março de 1829. Cria uma cadeira de primeiras
letras para meninas nesta Corte. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1829 – Parte II. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1877, p. 256.
18
BRASIL. Decreto do Ministério dos Negócios do Império de 19 de novembro de 1829. Cria uma comissão encarregada de organizar um projeto de regulamento para as escolas de primeiras letras. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1829 – Parte II. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1877, p. 321.
A educação da mocidade, que tem constantemente sido objeto de minha Imperial solicitude, requer toda a vossa atenção. É mister que os princípios da Religião Católica, Apostólica Romana, que professamos, e que os preceitos da moral cristã sejam cuidadosamente ensinados, e praticados nas escolas elementares em todo o Império.19
Em virtude disso, poucos dias depois, a Câmara aprovou medidas relacionadas à instrução pública nas províncias. Na Corte, o Imperador se mostrava preocupado com a causa da instrução e, assim aprovou a iniciativa da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional nos seguintes termos:
Tendo a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional feito subir à Minha Augusta Presença o projeto, que havia formado, de estabelecer nesta Corte Escolas Normais de