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C. Beslenme ve Sağlık İlişkisi

2. Beslenmede Farklı İçeceklerin Tüketimi

Por se tratar do restabelecimento de um direito à gestão social insere-se nas discussões sobre cidadania, em discussões, portanto, em torno da igualdade e da liberdade (MARSHALL, 1967). Conforme coloca Marshall (1967), a cidadania surgiu da emergência desses valores e dos movimentos históricos que se deram na busca de tais valores. As constantes disputas entre uma burguesia que se torna conservadora e uma classe proletária que ganha força política garante, progressivamente, direitos. Esses são de três tipos: civil, político e social, e cada uma dessas esferas orientadas pelos mesmos princípios de igualdade e liberdade. Assim, segundo Marshall (1967, p. 63), “o elemento civil é composto dos direitos necessários à liberdade individual”. Para o autor (1967, p. 63), “por elemento político se deve entender o direito de participar no exercício do poder político, como um membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo”, e, por último, “o elemento social se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (MARSHAL, 1967, p. 63).

A análise histórica proposta por Marshall (1967) deixa clara a dimensão jurídica de nossa sociedade ao entender a progressão dos fatos históricos relacionados à cidadania como o avanço dos direitos, o que se aproxima da abordagem de Milton Santos (1998), como será, mais à frente, apreciado. No que tange a este trabalho, o elemento político é o mais relevante como referencial, dada a natureza da temática. Tal elemento torna-se ainda mais interessante diante da particularidade do caso brasileiro.

Segundo José Murilo de Carvalho (2005), a trajetória com que esses direitos se estabeleceram foram distintos da trajetória inglesa, que se inicia com o avanço às liberdades individuais, isto é, com o estabelecimento dos direitos civis, que conduziram em seguida ao estabelecimento dos direitos políticos e esses, por sua vez, nas lutas por igualdade social, conduziram aos direitos sociais. No Brasil, a trajetória é bastante diferente: “Aqui, primeiro vieram os direitos sociais, implantados em período de suspensão dos direitos políticos e de redução dos direitos civis por um ditador que se tornou popular. Depois vieram os direitos políticos, de maneira também bizarra” (CARVALHO, 2005, p. 219).

É evidente que existem diversos caminhos para a cidadania. No entanto, as consequências são bastante diferentes. Se as lutas por direitos iniciam, como na Inglaterra, pelos direitos civis; e para a garantia destes desenvolvem-se os direitos políticos, as instituições tendem a ter uma estrutura mais descentralizada, com a instituição das três esferas de poder ─ legislativo, executivo e judiciário ─ com força similar, assegurados os direitos de participar das decisões, ainda que de maneira indireta pela eleição dos membros. Se, ao contrário, desenvolvem-se, primeiro, os direitos sociais, em um momento de recessão dos outros, é fortalecida uma visão centralizadora, cuja confiança é depositada no executivo (CARVALHO, 2005). Assim, segundo este autor, no Brasil, a preocupação com a representação política é substituída pelas expectativas com relação à ação do Estado. Esse “é sempre visto como todo-poderoso, na pior hipótese como repressor e cobrador de impostos; na melhor, como um distribuidor paternalista de empregos e favores” (CARVALHO, 2005, p. 221).

Para Carvalho (2005), o Brasil nunca contou com uma sociedade civil suficientemente organizada capaz de participar da política, ao invés disso, construiu-se uma cultura política baseada na crença cega ao Estado onipresente. “A ausência de ampla organização autônoma da sociedade faz com que os interesses corporativos consigam prevalecer. A representação política não funciona para resolver os grandes problemas da maior parte da população” (CARVALHO, 2005, p. 223). O resultado é a criação de “uma esquizofrenia política: os eleitores desprezam os políticos, mas continuam votando neles na esperança de benefícios pessoas” (CARVALHO, 2005, p. 224). A visão voltada para um Estado centralizador inibe, portanto, o avanço de outros direitos de cidadania, com destaque para os políticos, conforme se estabelecem relações de clientela entre os grupos da sociedade civil e o Estado. Por essa razão, estudar a

gestão social como parte do paradigma da cidadania é fundamental, pois pode ser vista como um intermédio nas relações sociais entre o Estado e a sociedade, em um território cujas decisões são fortemente centralizadas e a representação política é fraca. O que se agrava a partir da década de 1990, com o “ajuste neoliberal” (SOARES, 2001) e o ataque frontal às instituições do Estado, na pregação ao Estado mínimo. O argumento liberal é claro, o Estado é visto como um mal necessário, e deve ter atribuições mínimas, isto é, com exceção de alguns setores é o mercado quem deve assumir o controle da vida social; ao Estado, cabe apenas socorrer em situações emergenciais as desigualdades geradas pelo mercado, não é aleatório que este período foi marcado pela privatização de estatais, pela redução dos serviços públicos básicos, tal qual saúde e educação que também irão se privatizar. O Estado aparece como o grande vilão da humanidade.

Fazia-se, portanto, necessário rediscutir o papel da sociedade civil e do Estado nesse cenário conturbado em que o discurso único era limitado. É preciso ainda ressaltar que o Brasil vinha de um momento de transformações políticas intensas, a Constituição de 1988 consolidava-se, a representação política, embora fraca, era garantida, além disso, direitos sociais ficavam estabelecidos por diversos setores e eram garantidos também direitos civis. Ainda, assim, o discurso do Estado mínimo transforma-se em prática apenas quatro anos depois, com a eleição de Collor. Repensar o papel da administração pública e sua relação com a política e a sociedade civil entra, por conseguinte, na agenda dos estudos acadêmicos.