Tarih/Saat
2-BESLENME-METABOLİK DURUM
Em um material, me repassado por uma educadora de rua, que esta recebeu em uma formação ocorrida há poucos anos, de apenas uma página em folha ofício, texto digitado do tipo de simples impresso de computador, intitulado de Modelo de Articulação, aparece, sem nenhum preâmbulo, o que se sugere pela leitura como sendo a estrutura de articulação dos educadores de rua de Fortaleza:
1 – Assembleia geral dos educadores sociais de rua, que conforme o mesmo documento tem por:
Interinstitucional.
Convocação: a cargo da Equipe Interinstitucional.
Função: instância máxima para deliberar acerca de questões fundamentais atinentes ao trabalho articulado; avaliar a caminhada conjunta e princípios, diretrizes e metodologia, etc. (EI, s/d).
2 – Equipe Interinstitucional função:
- providenciar a carteira de educador social,
- zelar pela continuidade e fidelidade das decisões do Fórum dos educadores sociais que trabalham em prol de crianças e adolescentes que vivem na rua
- articular-se com o Núcleo de Articulação (EI, s/d).
3 – Núcleo de Articulação
Sobre este último reservarei as informações que lhes são relativas, presentes no referido material para a seção que dedicarei a abordagem dessa instância em particular, que é a próxima na sequência expositiva. De todo o modo estas são as instâncias organizativas dos educadores sociais de rua da Equipe Interinstitucional, que possuem, como venho demonstrando, uma organização própria em paralelo a dos educadores sociais em geral, o que não identifiquei no caso dos educadores que atuam em espaços institucionais.
Não reuni muitas informações sobre a Assembleia de educadores, eles raramente mencionaram tal espaço. Soube apenas de uma no período desta pesquisa, que trataria de um processo de mobilização em torno da reivindicação de reajuste salarial, que teria ocorrido por volta de junho ou julho de 2010. Contudo, esta foi responsável por medidas importantes como ter tomado parte da constituição do Núcleo de Articulação e deliberado sobre a criação da AESC.
A Equipe Interinstitucional
A Equipe Interinstitucional de Abordagem de Rua (EI)34 constitui-se como o espaço de
convergência de organizações governamentais (OGs) e não governamentais (ONGs), visando o planejamento, controle e execução de políticas públicas voltadas para o segmento da criança e do adolescente em situação de moradia nas ruas. Segundo seu regimento ela,
tem o objetivo de agir conjunta e diretamente com crianças e adolescentes em situação de moradia de rua no município de Fortaleza visando à promoção e a defesa de seus direitos segundo os preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (REGIMENTO INTERNO, 2008).
Em seu blog desenvolve mais essas finalidades, dividindo-as em objetivos gerais e específicos que relacionei abaixo.
34 Experiências similares são encontradas no Rio de Janeiro/RJ por meio da Rede Rio Criança, criada em 2001; em
Tabela 4 – Objetivos da Equipe Interinstitucional de Abordagem de Rua
Objetivos gerais Conhecer a realidade da criança e do adolescente criando laços de confiança e amizade, resgatando a sua autoestima para despertar- lhes o desejo de sair da rua com o objetivo de construir junto com
eles seu projeto de vida.
A partir de um compromisso de uma consciência crítica, tendo em vista à transformação da realidade injusta e excludente despertar a criança e o adolescente para um futuro digno com direitos e deveres de todo o cidadão baseando-se no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Objetivos específicos Compreender e respeitar as fases inerentes aos processos em que as crianças e os adolescentes se encontram (contatos, amizade, e encaminhamentos) e, a partir do conhecimento de seu projeto de vida encontrar com eles encaminhamentos diversos.
A partir da realidade da criança e do adolescente procurar conhecer a família e suas condições de vida e tentar com eles reativar os elos afetivos.
Trabalhar a autoestima da criança e do adolescente, através da arte e da cultura com a finalidade de desenvolver os aspectos físicos,
psicológicos e sociais.
Perante os atos de violência física e moral à criança e ao adolescente, buscar apoio aos órgãos que trabalham no atendimento e na defesa dos direitos da criança e do adolescente.
Fonte: equipeinter.blogspot.com
A EI é nasce em 1995 depois da morte do menino em situação de moradia na rua conhecido como Pinguelinho, assassinado em 1993 por outros adolescentes moradores de rua por ter invadido o “território” deles (Xavier, 2009, p. 13). Sua criação se dá por decisão de uma Assembleia dos Educadores Sociais de Rua, na sede do COMDICA, atendendo também a provocação deste para resolver os problemas presentes nas ações dirigidas ao trabalho de rua.
trabalho umas das outras por ofertarem diferentes encaminhamentos para os mesmos assistidos que, inclusive, às vezes tiravam proveito da falta de conhecimento mútuo das entidades sobre o trabalho que cada uma realizava e ambos os fatos somados, além das diferenças de metodologia e abordagem, ocasionavam um clima hostil entre as organizações, particularmente entre as ONGs e OGs e entre Estado e Município.
– Por que antes a gente não sabia o que os meninos (“Fora da Rua”) faziam e nem eles sabiam o que nós fazíamos como educador. Mas a gente criticava porque eles levavam os meninos pros abrigos, aí tiravam eles das ruas, que os meninos muitas vezes diziam, que inventavam histórias que eles forçavam, colocavam dentro do carro e a gente acreditava muito nessa história, né (Ariadne, PE).
– Trabalhava com um educador da FUNCI, ali era um inimigo meu (Educador 1, ONG, referindo- se a quando foi educador do PCFRDE).
– Era inimigo (Ariadne, PE).
– ‘Esse coisa quer te prejudicar, quer fazer um relatório que... Cuidado com ele que qualquer vacilo nosso aqui, ele tá fazendo um relatório’ (Educador 1, ex-PCFRDE, ONG).
A EI é constituída por onze instituições públicas e da sociedade civil organizada. Entre as organizações governamentais (OGs) estão tanto o Governo do Estado do Ceará, através de sua Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS), via sua equipe educadores de rua, na época pertencendo ao Programa Fora da Rua Dentro da Escola, hoje pertencente ao Centro de Referência de Assistência Social, além do Espaço Viva Gente – que curiosamente deixou de constar no blog da Equipe sendo substituído pelo Projeto De Volta Pra Casa – e; a Prefeitura Municipal de Fortaleza, por intermédio da Coordenadoria da Criança e do Adolescente da Fundação da Criança e da Família Cidadã (FUNCI) e Ponte de Encontro. As organizações não-governamentais (ONGs) participantes são a Associação Comunitária de Ajuda Mútua do Pirambu - ACAMP, Associação O Pequeno Nazareno, Associação Barraca da Amizade, Associação Curumins, Casa do Menor São Miguel Arcanjo, Pastoral do Menor da Arquidiocese Fortaleza/Regional, Sociedade da Redenção, Movimento de Saúde Mental do Bom Jardim. Atualmente, conforme o blog da EI e outras fontes, também passaram a integrar a Equipe a Associação Santo Dias, a Casa de Meu Pai, PDA Sonho de Criança – Integrasol. Cada instituição tem cadeira com poder de voto.
Tabela 5 – Representação visual das entidades membro da EI Associação Barraca da Amizade Espaço Ponte de Encontro – Fundação da Criança e da Família Cidadã (FUNCI) Associação Beneficente O Pequeno Nazareno CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social, antigo PCFRDE) Espaço Viva Gente –
Albergue – Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social (STDS) Associação Curumins Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim (MSMCBJ) Associação Santos Dias Pastoral do Menor Casa do Menor São Miguel Arcanjo
PDA Sonho de Criança –
Conselho de Integração Social
(Integrasol)
Localização das Instituições Participantes da EI no Mapa de Fortaleza35
Fonte: Blog do Núcleo de Articulação.
Essa articulação em rede possui uma Coordenação colegiada na qual se alternam três entidades, sempre se buscando entre elas garantir pelo menos um poder público e na época da pesquisa ocupavam acento nela representantes da Associação Barraca da Amizade, Associação O Pequeno Nazareno e a Coordenadoria da Criança e do adolescente - FUNCI.
Segundo a proposta pedagógica da EI (2008), assessora os educadores de abordagem de rua das entidades que a compõem, organizados no Núcleo de Articulação de Educadores Sociais de Rua, espaço que aglutina os educadores das entidades componentes para a combinação de esforços nos encaminhamentos, partilha de informações, parcerias na rua e traçar algum nível de padronização dos procedimentos, respeitadas as diferenças de metodologia de abordagem de cada instituição.
Um exemplo da assessoria que a EI presta aos educadores e desse esforço de uniformização
35 Fortaleza é retratada no mapa conforme a divisão administrativa da cidade em Regionais, criada e utilizada pela
no atendimento são as chamadas formações como uma realizada em 28 de novembro de 2006 que apontou o que parece ter sido a sua última proposta de metodologia de abordagem para os educadores de suas entidades membros Outro exemplo dessa tentativa de padronização é a ficha única de abordagem tecida para uso de todos os educadores de rua da Equipe. Contudo, as OGs utilizavam ficha própria em lugar desta, mas que requerem os mesmos dados básicos, pois a da EI solicita mais informações que as da ficha do Ponte de Encontro, por exemplo.
O papel da ficha de abordagem, seja qual for o seu modelo, é o de suprir um banco de dados eletrônico da Equipe que agrega as informações de todas as abordagens feitas pelas instituições participantes denominado Banco de Dados de Acompanhamento de Crianças e Adolescentes em Situação de Moradia de Rua. Cada organização tem um educador que possui a senha para acessar o sistema e repassar os dados das fichas para sua versão eletrônica.
A Equipe Interinstitucional, portanto significa a criação de um espaço de interação e diálogo entre as diferentes concepções de atendimento e combinação de esforços que resultou na unificação, centralização e disponibilização das informações sobre os assistidos (banco de dados), estabelecimento de levantamentos periódicos para a atualização do mapeamento e diagnóstico da população atendida (censos ou diagnósticos que são conhecidos como a pesquisa da EI), além da cobertura combinada de áreas da cidade pelos educadores de rua.
Todavia, existem impasses e percalços a serem ainda superados, como a aparente relutância do Governo do Estado em integrar a Equipe, para além de sua participação relatada como pró-forma por participantes da Equipe, a recente redução de educadores de rua ou mesmo de recursos operativos nos programas que possuem mais estrutura, no caso os públicos e a dificuldade financeira das entidades não estatais.
Núcleo de Articulação
O Núcleo de Articulação dos Educadores Sociais de Rua (NA) é constituído pelos educadores sociais de rua das entidades membro da Equipe Interinstitucional e possui status de instância- membro da Equipe Interinstitucional, ou seja, além de ser um nível dessa articulação em rede, ocupa “cadeira” dentro dessa estrutura, possui voto, como as instituições que a compõem, leia- se, na verdade, os educadores de rua da EI como conjunto possuem assento e poder de voto.
Conforme o material “Modelo de articulação” o núcleo é constituído por um (a) educador (a) de cada entidade de atendimento representada na Equipe Interinstitucional, possui como periodicidade o que o próprio núcleo decidir – recentemente soube que se reuniam semanalmente às quintas-feiras.
seguindo um mesmo padrão de estética e qualidade que demonstram investimento nesse acessório. No folder do Núcleo este se define como uma rede, que reúne os educadores sociais que representam OG’s e ONG’s que atuam com crianças e adolescentes em situação de moradia nas ruas da cidade de Fortaleza. Este só vai citar a Equipe Interinstitucional no espaço final da última folha de rosto do impresso, como o primeiro parceiro que aparece. Também o material da EI cita o Núcleo apenas dessa forma. A Equipe parece alimentar a autonomia que seu Núcleo vai construindo como um núcleo que é primeiramente dos educadores.
Nesse mesmo folder do NA, suas finalidades são definidas como
Desenvolver uma abordagem unificada, realizando atendimento às crianças e adolescentes em situação de moradia nas ruas, através de um sistema de rede (articulando órgãos governamentais e não-governamentais).
Garantir complementaridade de ações que possibilitem a construção de novos projetos de vida com as crianças e adolescentes em situação de moradia nas ruas (NA, 2006).
No entanto, as atribuições do NA, ainda segundo o “Modelo de articulação”, aparecem de outra forma, como se tratando de
- organizar o trabalho de abordagem, - rever os locais de trabalho,
- repassar informações concretas sobre dados importantes, acontecimentos, recorte ocorridos na rua,
-chegada de novas crianças à rua. Encaminhamentos de outras, etc., - convocar o fórum dos educadores sociais que trabalham na rua, -articular-se com a equipe interinstitucional (EI,2006).
Esta passagem descreve a função do Núcleo de forma bem diferente do que se encontra em seu folder como seus objetivos, que são nele descritos de forma mais genérica para um público de fora, enquanto que o documento “Modelo”, destinando-se para os de dentro, termina por esmiuçar em termos práticos o que tais objetivos significam na operacionalização de seu trabalho, conforme, certamente, o que a realidade com que tais profissionais se defrontam exige desse trabalho articulado, em que este pode facilitar sua ação, o que dá certa compreensão de que tipos de dificuldades tal investimento busca debelar. Penso que a “função” do grupo tal como é relatada no documento interno referido se diferencia por ter, possivelmente, buscado tratar mais do que no folder foi abordado sob o nome de “atividades”, mas que esse material interno o fez de forma mais pormenorizada para atender a demandas daquele momento, para um fim mais imediato.
O folder supracitado descreve que o NA surgiu em 1997 quando educadores sociais de rua perceberam que as ações desarticuladas de abordagem de rua, fortaleciam a permanência das crianças e adolescentes nas ruas, ao invés de garantir seus direitos e conclui que uma nova
organização baseada na articulação dos trabalhos, mobilizou um atendimento unificado e uma maior eficácia na promoção dos direitos humanos das crianças e adolescentes.
Esse mesmo impresso enumera as seguintes ações promovidas por esse grupo:
Tabela 6 – Atividades desenvolvidas pelo Núcleo de Articulação de Educadores de Rua
ATIVIDADES
Articulação com as instituições que compõem o Núcleo para o desenvolvimento de ações conjuntas com crianças e adolescentes em situação de moradia nas ruas;
Desenvolvimento de capacitações sobre os temas relacionados à criança e ao adolescente a partir de parcerias formadas com instituições, universidades e entidades de cooperação internacional; Proposição e participação em ações públicas em defesa e promoção dos direitos das crianças e adolescentes.
Fonte: Núcleo de Articulação, folder.
O Núcleo de Articulação realiza seminários, aparentemente de ano a ano, e pude perceber nesses eventos as seguintes atribuições: repasse e atualização de informes e experiências, debate, formação, socialização no sentido corrente da palavra, confraternização, articulação e encaminhamento.