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Os professores, tanto do meio rural quanto da área urbana, sinalizam a frágil participação dos pais na vida escolar de seus filhos e atribui a essa fragilidade um desafio à prática docente, conforme falas que se seguem:

A falta de compromisso dos pais com a educação. (P14UfI).

Pais irresponsáveis que não ajudam na educação não querem contribuir com que estão ao seu alcance. (P16RfI).

As famílias só participam quando são solicitadas e os pais dos alunos mais problemáticos geralmente não participam das atividades escolares. (P10UfII). A maioria das famílias não participa das atividades diárias da criança, deixando toda responsabilidade para o professor e a escola. (P20Ri).

Há famílias que participam com seus filhos das atividades escolares, mas a maioria das famílias fogem de escolas, algumas já declara que não consegue se entender com os próprios filhos. (P21UfI).

As famílias participam pouco algumas só participam de algumas reuniões predominando a presença apenas das mães nas reuniões. (P12UfI).

Apenas aparecem nas reuniões de pais e mestre para saber o porque de tais notas. (P22UfI).

Associam a falta de interação familiar na educação escolar dos filhos enquanto empecilho à prática docente já que para eles os pais deixam a responsabilidade da educação apenas a cargo da escola e do professor. A participação dessas famílias se dá apenas nas reuniões de pais e mestres. Mas, quanto aos pais dos alunos considerados por eles problemáticos, estes não participam e quando há participação, a predominância é das mães que revelam aos professores a dificuldade de se entender com seus próprios filhos, o que dificulta para os professores ainda mais a tarefa de ensiná-los na escola.

Capelatto (2007, p.61), diz que “hoje, a escola percebe que não pode viver sem a família e a família percebe que não pode viver sem a escola”. Neste sentido, compreendemos que a escola é um complemento da família, a união entre ambas deve acontecer e não apenas nos momentos dos professores darem as notas dos alunos ou chamá-los atenção por causa do comportamento, mas trazê-los para dentro das escolas discutindo temas, dando informações e conquistando espaço junto aos pais (CAPELATTO, 2007).

Neste sentido, Paro (1997) também argumenta a integração entre família e escola, ao dizer que

a escola deve utilizar todas as oportunidades de contato com os pais, para passar informações relevantes sobre seus objetivos, recursos, problemas e também sobre as questões pedagógicas. Só assim, a família irá se sentir comprometida com a melhoria da qualidade escolar e com o desenvolvimento de seu filho como ser humano. (PARO, 1997, p.30).

O autor defende um tipo de escola que utilize estratégias que favoreçam a aproximação entre família e escola. Concordamos que quando a escola oportuniza formas de contato entre as duas instâncias, a família se sentirá mais comprometida com a educação dos filhos.

Os professores associam ainda à participação frágil das famílias ao comportamento dos alunos dentro do espaço escolar, segundo evidenciamos nos relatos:

A maioria dos alunos demonstra-se sem educação e muito agressivos uns com os outros. (P35UfI).

Crianças sem limites em casa; Crianças sem educação (em parte); atrevidas. (P24Ui).

Alunos mal orientados em casa e que vem sem estímulo para estudar. (P16RfI). O comportamento dos alunos está um pouco conturbado pelo fato de alguns estarem um pouco violentos e agredirem física e moralmente. (P20Ri).

A maioria vem de casa agressiva. Daí as brincadeiras, a preguiça, a falta de respeito na escola é muito comum. (P27UfII).

A grande maioria apresenta comportamento que dificulta muito o trabalho tanto do professor como dos demais funcionários desta escola. (P18fII).

Eles são rebeldes (não todos), xingam, brigam com os colegas, ameaçam professores. (P28UfII).

Os professores percebem o fundamental trabalho em conjunto da família e da escola enquanto instituições bases que merecem se articular. A família com a função de educar moralmente as atitudes e os hábitos do sujeito e a escola, através do professor, tornar o conhecimento sistematizado. Acreditam que quando a família não desenvolve seu papel em casa e não une se à escola, é reproduzido no âmbito escolar a indisciplina, a falta de compromisso, a desobediência, a agressividade, a rebeldia e o desinteresse dos alunos, o que para eles gera outro limite na prática docente.

Destacam que o comportamento, o respeito e a dedicação dos alunos de outras épocas são diferentes dos de hoje, cujos valores estão sendo perdidos. É comum os professores associar que a falta de preparo dos pais em lidar com seus filhos e educá-los dificulta a formação dos alunos, o que acaba levando à escola os princípios adquiridos em casa.

Mas, percebemos no município que a família não participa por não conhecer seus direitos, outros porque não sabem como, ou ainda há os que até tentam, mas se isola, pois nas poucas experiências de aproximação não foram bem acolhidos e se retraíram e outros porque de fato se omitem de suas responsabilidades.

Diante deste contexto, retomamos a LDB (Art. 12, inciso VI e VII) que determina a escola em repensar estratégias que motivem e reintegrem as famílias nas atividades escolares e os pais têm o direito de estar ciente do processo pedagógico da escola, bem como ser informado sobre a execução das propostas pedagógicas das escolas.

b) A prática educativa de ontem e de hoje

Comparar a educação de antigamente com a educação de hoje é recorrente nos dois grupos de professores, rural e urbano. Existe uma ampla defesa das práticas educativas exercidas antigamente, conforme visto em suas falas:

Apesar do tradicionalismo antes se aprendia. Hoje com tantas inovações os alunos aprendem menos. (P11Ui).

Na educação escolar de antes os alunos se preocupavam mais em aprender, tinham medo de ser reprovado. Na educação de agora, oferece mais oportunidades ao aluno, e este, se preocupa menos com sua aprendizagem, portanto, atualmente a educação (sistema educacional) oferece mais e cobra menos ao aluno. (P12UfI).

Em se tratando da educação de antigamente, os professores apontam que apesar do tradicionalismo os alunos aprendiam. Em contrapartida, a educação de hoje, mesmo com todo o dinamismo, inovações e avanços o processo ensino-aprendizagem não acontece de modo significativo, porque para eles o sistema oferece diversas oportunidades, mas não cobra o bastante.

As dificuldades vivenciadas nas escolas despertam nos professores a necessidade de normas educativas dentro do espaço escolar, conforme se apresenta nos fragmentos que se seguem:

Faltam regras mais rígidas para o corpo discente por parte da direção e equipe técnica. (P10UfII).

A escola falta autoridades de alguns funcionários. Creio que falta mais punições, como exemplo de castigos. (P18UfII).

Faltam limites com os alunos. (P19UfII). Faltam regras claras para os alunos. (P30UfII).

Os professores parecem primar por regras mais rígidas e limites para os alunos, principalmente por parte da direção e da coordenação. Ao tomar a indisciplina como pré- requisito básico para a ação docente, quase sempre se preocupa em disciplinar os hábitos dos alunos por preferirem obedientes e em silêncio para poderem exercer a prática docente. Neste sentido, segundo Wallon (1975), o que se procura é,

obter a tranqüilidade, o silêncio, a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas nem fora delas que as possa distrair dos exercícios passados pelo professor, nem fazer sombra à sua palavra. (WALLON, 1975, p.379).

Neste contexto das escolas do município e suas salas de aulas, a disciplina parece está associada a ser rigoroso. Uma das professoras partilhava sobre como haver progresso sem ordem, ou seja, para a escola progredir precisava mais de ordem, pois o que muitas vezes dificulta o trabalho do professor em sala de aula é a falta de organização e ordem dentro da escola.

Quando se referia à ordem, a professora mencionava que não era uma ordem sob pena de castigar os alunos ajoelhados numa coroa de frade2, mas organizar o trabalho escolar a

partir de normas que todos cumpram. Neste sentido, La Taille (1996) analisa que

crianças precisam sim aderir a regras e estas somente podem vir de seus educadores, pais ou professores. Os limites implicados por estas regras não devem ser apenas interpretados no seu sentido negativo: o que não poderia ser feito ou ultrapassado. Devem também ser entendidos no seu sentido positivo: o limite situa, dá consciência

de posição ocupada dentro de algum espaço social – a família, a escola, e a

sociedade como um todo. (LA TAILLE, 1996, p.09).

A autora sinaliza a importância de regras e limites dentro do espaço escolar, defendendo que a escola representada pelo gestor e coordenador junto aos professores e a família precisa de regras e normas que orientem seu funcionamento e a convivência entre os diferentes elementos que nelas atuam. Nesta perspectiva, as normas deixam de assumir instrumentos de simples punição e passa a ser compreendida como condição necessária ao crescimento da escola.

A concepção de La Taille (1996) concorda com o pensamento de Capelatto (2007), cujo este atribui importância ao ato de dar limites ao sujeito, e este limite deve ser considerado uma atitude de cuidado e não um ato agressivo e autoritário. As pessoas confundem os limites com a raiva e a agressividade, entretanto para o autor o limite é considerado uma imposição do cuidado do educador (CAPELATTO, 2007).

Entramos em uma turma de 14 alunos do 1° ano do ensino fundamental, na faixa etária de 07 e 08 anos de idade. A professora falava de alguns alunos desobedientes, tímidos, interessados, outros mais concentrados e alguns agitados.

Ao desabafar, a professora revelava que não aguentava certos tipos de comportamento e que nem a família conseguia solucionar. Enquanto as crianças faziam suas tarefas, a professora demonstrava seriedade em suas práticas. Sentada em uma cadeira no final da sala atendia individualmente as crianças com atividades distintas, demonstrando interesse em atender ao nível de conhecimento específico de cada aluno.

Na mesa, no final da sala chamavam os alunos um a um e neste momento, a professora de cabeça baixa, esfregava os olhos com as mãos e as colocava na testa demonstrando impaciência e cansaço. Manifestou que o seu limite fora ultrapassado ao dizer ‘’não é fácil, já está chegando o meu limite, o tempo de parar’’. A dimensão afetiva é presente neste momento

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Espécie de planta nativa das regiões semiáridas do nordeste, de tamanho pequena com formato arredondado que possui espinhos pontiagudos.

da prática docente, incorporada através do cansaço e do desânimo visíveis em seus gestos e palavras.

Ao reivindicar práticas mais rigorosas, os professores tinham em mente que os alunos teriam mais respeito, dedicação e compromisso ao passo que aprendiam e a escola progredia. Consideram que as práticas educativas atuais são bastante tolerantes e permissivas aos alunos, os consentido fazer o que desejam e sem limites. Essa afirmação é evidenciada nas falas que se seguem,

Sobre o comportamento, antes o regimento era mais rigoroso, o aluno tinha mais respeito com o professor, pois poderia ser repreendido pelos pais e pela escola. Hoje existem políticas que tornam a repressão à indisciplina muito flexível, o aluno não teme mais o castigo e não obedece mais os pais. (P31UfII)

A educação de antes na sala de aula era mais rigorosa do que a de hoje. Hoje está muito liberal o comportamento dos alunos. Fazem o que querem e ninguém pode dizer nada. (P22UfI)

Antes as escolas mantinham a educação de forma rígida e rigorosa, hoje as escolas são sem rigidez. (P32RfI)

É que as práticas pedagógicas eram mais rigorosas e que os alunos tinham mais respeito com os professores. (P20Ri)

Os professores anseiam que estejam à frente das atividades escolares, uma direção e coordenação que busque unir-se com os professores para estabelecer normas rígidas a serem cumpridas pelos alunos, desde o uso do fardamento até o comportamento em sala de aula. Afinal, quando se pensa em uma escola nesta perspectiva de ordem rigorosa e exigente, os professores acreditam que os alunos estabeleçam relação de respeito uns com os outros e aprendam significativamente.

Benzer Belgeler