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3. IGBT TABANLI ÜÇ FAZ DOĞRULTUCU BENZETİMİ

3.2 Benzetim Çıktıları

A análise de gênero demanda também a análise das relações de poder. Para essa tarefa, a pesquisa se serviu principalmente do conceito do filósofo Paul-Michel Foucault (1926-1984) sobre o poder, que entendeu esse fenômeno:

Como a multiplicidade das correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, por meio de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e

contradições que as isolam entre si, enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. 26

É pretensão sistematizar o pensamento de Foucault, porque ele não foi um filósofo clássico. 27 Foucault trabalhou temas pertencentes aos campos da história, psicologia, medicina e filosofia. Deleuze o chamava de pensador sísmico. No entanto, a partir de suas obras produzidas nas décadas de 1960 a 1980, é possível construir o seguinte quadro:

ANOS TEMA OBRAS PROJETO PESQUISA

1960 SABER História da Loucura (61). O Nascimento da Clínica (63). As Palavras e as Coisas (66). A Arqueologia do Saber (69). Arqueologia do Saber. Como os saberes aparecem e se transformam? 1970 PODER A Ordem do Discurso (70). Vigiar e Punir (75). A Vontade de Saber (76). Genealogia do Poder.

Por que os saberes existem e se transformam?

1980 SUJEITO O Uso dos Prazeres (84). O Cuidado de Si (84). Arqueo- Genealogia do Sujeito. Como os seres humanos se transformam a si mesmos em sujeitos?

Quadro no. 1: Foucault e suas obras.

Observa-se que o tema saber-poder é um eixo importante para Foucault. Porém, em seu ensaio Pourquoi étudier le pouvoir: La question du sujet Foucault afirmou que o tema geral de suas pesquisas foi, na verdade, o sujeito. 28

Não obstante, ele ofereceu importante contribuição para o campo político, quando propôs analisar o poder a partir das relações sociais. Compreendeu o poder não como algo que se possui ou não, mas como algo que se exerce, como uma relação de forças, que permeia toda a rede de relacionamentos sociais. Imanente às relações humanas, o poder não pode ser situado em superestruturas como pensa o marxismo. As relações de poder emanam das relações sociais. Propôs, com esse conceito, uma microfísica do poder.

O poder não é uma substância que está diluída de forma homogênea na sociedade, como afirma uma teoria do poder. Uma suposta distribuição homogênea do poder levaria à afirmação de que, na prática, haveria poder em todo lugar e isso

26 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. Maria T. da C. Albuquerque e J. A. G. Albuquerque. 16ª. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 88-89.

27 STRATHERN, Paul. Foucault (1926-1984) em 90 minutos. Trad. Cassio Boechat. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2003, p. 7.

28 FOUCAULT, Michel. Pourquoi étudier le pouvoir: La question du sujet Pourquoi étudier le

seria o mesmo que afirmar que na verdade não haveria poder em lugar nenhum. Outra teoria afirma que há lugares onde o poder existe (poder positivo) e lugares onde é ausente (poder negativo). Nesse caso, teríamos a teoria da “soma zero”, onde na soma dos poderes positivos e negativos (ausência de poder) resultaria naquilo que regularia e promoveria um equilíbrio social. Foucault discordou dessas teorias, ao contrapor seu conceito de que o poder está disseminado pela sociedade, não de forma homogênea, mas onipresente como uma ampla rede muito bem tecida. “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares”. 29

Foucault estabeleceu os pontos importantes que são exigidos para uma análise das relações de poder: 30

1. O sistema de diferenciações: determinadas por lei ou por tradições (status, privilégio), diferenças econômicas, culturais e lingüísticas, diferenças no saber fazer (know how), etc.

2. Os tipos de objetivos traçados por aqueles que dominam: privilégios, benefícios, autoridade estatutária, etc.

3. Os meios de fazer existir as relações de poder: pelas armas, pelo discurso, pela economia (desigualdades), por métodos de controle e vigilância, pelo uso de recursos tecnológicos, etc.

4. Formas de institucionalização: tradição, estruturas legais, costume ou moda, através do ensino ou da disciplina, etc.

5. Níveis de racionalização: efetividade dos instrumentos usados no jogo das relações de poder, a certeza dos resultados, a relação custo-benefício.

Observa-se que esses pontos que estabelecem a análise das relações de poder, revelam que o exercício do poder é algo elaborado e, portanto, intencional, estratégico. O poder também está envolvido na produção e no uso do saber.

O saber, por sua vez, sempre tem um propósito: a dominação. Por isso, há uma íntima ligação entre poder e saber. O poder é o exercício do saber. O saber, ou a produção da verdade, acaba por estabelecer e determinar as relações de poder, através dos discursos dominantes que sujeitam outros saberes, não científicos, não qualificados.

29 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber, p. 89.

30 SILVEIRA, Rafael Alcadipani da. Michel Foucault: poder e análise das organizações. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

A proposta do método genealógico de Foucault, que analisa a relação entre o poder e saber, oferece uma libertação dos saberes sujeitados, inscritos na “hierarquia de poderes próprios da ciência”:

Trata-se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia depurá- los, hierarquizá-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência detida por alguns.31

Foucault usa a idéia de insurreição dos saberes contra os efeitos de poder observados em um discurso científico e dominante. As relações de poder derivam desse conflito de saberes e produzem formas de resistência, de contra-poder, cujo desenvolvimento histórico se observa nos diversos níveis das relações sociais: a oposição do poder do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, da psiquiatria sobre a loucura, da medicina sobre o povo. Mas não são lutas que apenas se opõem às autoridades dominadoras. Essas lutas são transversais, sem fronteiras de nacionalidade, que têm como objetivo os efeitos próprios do poder. São lutas que se opõem aos privilégios que têm os detentores do conhecimento científico, dogmático.

Percebe-se a valiosa contribuição de Foucault para o pensamento e a teolo gia feministas: na desconstrução do discurso patriarcal e androcêntrico pelo método genealógico do poder, cria-se o caminho para a libertação e ativação dos saberes sujeitados das mulheres na direção da construção da história das mulheres. 32

A genealogia seria portanto, com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência, um empreendimento para libertar da sujeição os saberes históricos, isto é, torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico, unitário, formal e científico. 33

O projeto genealógico é, portanto, um projeto de libertação dos saberes sujeitados, não qualificados, que confere com os objetivos de uma teologia feminista da libertação.

Susan Bordo nos ofereceu um método para uma apropriação feminista dos conceitos de Foucault, que foi aproveitado em essência nesta pesquisa:

[...] temos primeiro que abandonar a idéia de que o poder é algo possuído por um grupo e dirigido contra outro e pensar, em vez disso, na rede de práticas, instituições e tecnologias que sustentam posições de

31 FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. Org. Manoel Barros da Motta. Trad. Elisa Monteiro, Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. (Coleção Ditos e Escritos, V), p. 171-172.

32 Sobre a contribuição de Foucault para a história das mulheres cf. PERROT, Michele. As mulheres e

os silêncios da história. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 489-503.

dominância e subordinação dentro de um âmbito particular. Em segundo lugar, necessitamos de uma análise adequada para descrever um poder cujos mecanismos centrais não são repressivos mas constitutivos: “um poder gerando forças, fazendo-as crescer e organizando-as, ao invés de um poder dedicado a impedi-las, subjugando-as ou destruindo-as”. [...] Em terceiro lugar, precisamos de um discurso que nos possibilite detectar a “recuperação” da rebeldia potencial, um discurso que, enquanto insiste na necessidade da análise “objetiva” das relações de poder, da hierarquia social, do recuo político etc., nos permita, não obstante, confrontar os mecanismos pelos quais o sujeito se torna às vezes enredado, conivente com forças que sustentam sua própria opressão. 34

Benzer Belgeler