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A terceira e última fase da pesquisa possui como característica importante a descrição e a indução. Esta fase consiste na análise e interpretação dos dados coletados em que “o pesquisador faz uso de uma grande quantidade de dados descritivos: situações, pessoas, ambientes, depoimentos, diálogos, que são por ele reconstruídos em forma de palavras ou transcrições literais” (ANDRÉ, 2008, p. 29). A análise dos dados depende de diversos fatores, entre eles, “a natureza dos dados coletados, a extensão da amostra, os instrumentos de pesquisa e os pressupostos teóricos que nortearam a investigação” (GIL, 2002, p. 133). Em nossa pesquisa, obtemos um grande volume de dados proveniente das transcrições do caderno

de notas, da observação direta, observação participante, das entrevistas, do diário de campo, jornais, livros e artigos científicos. Esses dados foram submetidos a um processo de preparação, que consiste em “identificar as diferentes amostras de informação a serem analisadas. Para isto recomenda-se uma leitura de todos os materiais e tomar uma primeira decisão sobre quais deles efetivamente estão de acordo com os objetivos da pesquisa” (MOARES, 1999, p. 5).

Para esta autora, o material contido na amostra precisa ser representativo e relevante aos objetivos da análise. Também é necessário envolver, de acordo com a autora, o espaço investigado de modo mais amplo. Em seguida, iniciamos “o processo de codificação dos materiais estabelecendo um código que possibilite identificar rapidamente cada elemento da amostra de depoimentos ou documentos a serem analisados” (MOARES, 1999, p. 5). De acordo com a autora, o código pode ser composto de números ou letras que contribuirão para que o pesquisador se oriente ao retornar a um dado específico quando assim for necessário. Segundo a autora, mesmo que existam certos documentos que serão analisados por meio da análise de conteúdo, eles precisam se preparados e transformados para compor os dados a serem apreciados pela análise de conteúdo. Neste sentido, de acordo com a autora, os dados não se configuram necessariamente dados, eles precisam ser preparados devidamente para tal. Após a preparação dos dados de nossa pesquisa estes foram submetidos ao processo de unitarização que consiste em fazer uma releitura de maneira cuidadosa dos materiais,

[...] com a finalidade de definir a unidade de análise. Também denominada “unidade de registro” ou “ unidade de significado”, a unidade de análise é o elemento unitário de conteúdo a ser submetido posteriormente à classificação. Toda categorização ou classificação, necessita definir o elemento ou indivíduo unitário a ser classificado. Na análise de conteúdo denominamos este elemento de unidade de análise. (MOARES, 1999, p. 6)

De acordo com esta autora, é o pesquisador quem define a natureza das unidades de análise. Segundo a autora, as unidades podem ser compostas por palavras, frases, temas ou até documentos em sua constituição integral. Desta maneira, para a escolha das unidades de análise integrantes de um universo de dados iniciais “pode-se manter os documentos ou mensagens em sua forma íntegra ou pode-se dividi-los em unidades menores. A decisão sobre o que será a unidade é dependente da natureza do problema, dos objetivos da pesquisa e do tipo de materiais a serem analisados” (MOARES, 1999, p. 6). O próximo passo desta fase da pesquisa se deu pela releitura de todos os materiais para localizar neles as unidades de análise. Com isso, de acordo com a autora, é possível codificar cada unidade para estabelecer códigos

adicionais que serão integrados ao sistema de codificação que foi formulado anteriormente. Ao finalizar este procedimento, obtemos distintas mensagens fragmentadas em elementos menores, na qual, teremos cada um deles reconhecido por um código que indica a unidade da amostra da qual origina-se, “e dentro desta, a ordem sequencial em que aparece. Assim, por exemplo, se um documento da amostra recebeu o código “1”, as diferentes unidades de análise deste documento poderão receber os códigos “1.1”, “1.2”, ‘1.3” e assim por diante. ” (MOARES, 1999, p. 5).

Em seguida, isolamos cada uma das unidades de análise para submetê-las à classificação. De acordo com esta autora, o processo de isolamento das unidades de análise demanda seguidamente a reescrita ou a reelaboração, para que as mesmas sejam assimiladas fora do cenário original onde se encontravam. No decurso de

[...] transformação de dados brutos em unidades de análise é importante ter em conta que estas devem representar conjuntos de informações que tenham um significado completo em si mesmas. Devem poder ser interpretadas sem auxílio de nenhuma informação adicional. Isto é importante, já que estas unidades nas fases posteriores da análise, serão tratadas fora do contexto da mensagem original, integrando-se dentro de novos conjuntos de informações e, então, deverão poder ser compreendidas e interpretadas mantendo-se o significado original. (MOARES, 1999, p. 5).

É necessário ressaltar, de acordo com a autora, que o processo de fragmentação de um texto implica em perda de parte do dado do material coletado. A interpretação representará sempre uma concepção do pesquisador. No entanto, “na medida em que se tem consciência de que não existe uma leitura objetiva e completa de um texto, esta perda de informação pode ser justificada pelo aprofundamento em compreensão que a análise possibilita” (MOARES, 1999, p. 6). Toda via, segundo a autora, mesmo que seja desejável e relevante procurar definir as unidades de análise, de maneira a possuírem uma significação completa nelas mesmas,

[...] também é uma prática da análise de conteúdo definir, juntamente com estas unidades, um outro tipo de unidade de conteúdo, a unidade de contexto. É uma unidade, de modo geral mais ampla do que a de análise, que serve de referência a esta, fixando limites contextuais para interpretá-la. Cada unidade de contexto, geralmente, contém diversas unidades de registro. (MOARES, 1999, p. 6).

A autora justifica a ideia de unidades de contexto fundamentada na convicção evidente de que, mesmo que consiga fragmentar um texto em unidades de significado independentes, as unidades de análise, de qualquer modo, perdem significado neste processo. Em razão disso, segundo a autora, é relevante conseguir retornar constantemente ao texto de onde cada

unidade de análise originou-se, para que seja possível explorar de maneira mais ampla todo o seu significado. Após identificados e codificados todas as unidades de análise, passamos para a próxima fase desta pesquisa, a categorização. Quando se trata de uma grande quantidade de materiais, como é o caso desta pesquisa, recomenda-se, de acordo com Moraes (1999), que se inicie com o trabalho de unitarização apenas com uma parte do material. A seguir, segundo a autora, se faz uma primeira aplicação de categorização, regressando posteriormente à unitarização para completar o trabalho. De acordo com a autora, esta dinâmica é notadamente verídica, a partir do momento que as categorias são definidas a começar do material em estudo e sempre que o respectivo conceito de unidade de análise é produzido a começar do conteúdo pesquisado. Desta forma, o pesquisador desenvolve uma importante etapa desta fase da pesquisa, a redução de dados. Em seguida, o próximo passo em nossa análise foi a categorização.

A categorização é um procedimento de agrupar dados considerando a parte comum existente entre eles. Classifica-se por semelhança ou analogia, segundo critérios previamente estabelecidos ou definidos no processo. Estes critérios podem ser semânticos, originando categorias temáticas. Podem ser sintáticos definindo-se categorias a partir de verbos, adjetivos, substantivos, etc. As categorias podem ainda ser constituídas a partir de critérios léxicos, com ênfase nas palavras e seus sentidos ou podem ser fundadas em critérios expressivos focalizando em problemas de linguagem. Cada conjunto de categorias, entretanto, deve fundamentar-se em apenas um destes critérios. (MOARES, 1999, p. 6).

De acordo com esta autora, a categorização dever ser também compreendida em seu sentido como um procedimento de redução de dados. Segundo a autora, as categorias constituem o produto de um esforço de síntese de uma comunicação, que destaca neste processo seus enfoques mais relevantes. Sendo assim, podemos dizer que a categorização é, por conseguinte, um procedimento “de classificação dos elementos de uma mensagem seguindo determinados critérios. Ela facilita a análise da informação, mas deve fundamentar- se numa definição precisa do problema, dos objetivos e dos elementos utilizados na análise de conteúdo (MOARES, 1999, p. 6). Para Gil (2002), a categorização,

[...] consiste na organização dos dados de forma que o pesquisador consiga tomar decisões e tirar conclusões a partir deles. Isso requer a construção de um conjunto de categorias descritivas, que podem ser fundamentadas no referencial teórico da pesquisa. Nem sempre, porém, essas categorias podem ser definidas de imediato. Para se chegar a elas, é preciso ler e reler o material obtido até que se tenha o domínio de seu conteúdo para, em seguida, contrastá-lo com o referencial teórico. Essas leituras sucessivas possibilitam a divisão do material em seus elementos componentes, sem perder de vista sua relação com os demais componentes. Outro ponto importante nesta etapa é a consideração tanto do conteúdo manifesto quanto do conteúdo latente do material. (GIL, 2002, p. 134)

De acordo com este autor, é necessário, por conseguinte, que a análise não se delimite ao que está explícito no material, todavia que busque revelar conteúdos implícitos, dimensões contraditórias e ainda tópicos silenciados. O grupo inicial de categorias, segundo este autor, é revisto e alterado progressivamente, com a finalidade de conseguir ideais mais abrangentes e pertinentes. Nesta pesquisa, assim que definimos as categorias e detectamos o material constituinte de cada uma delas, conduzimos a divulgação do resultado do trabalho. A descrição, segundo Moraes (1999) é a primeira etapa desta comunicação. Em cada uma das categorias de nosso trabalho, produzimos um texto síntese em que expressava “o conjunto de significados presentes nas diversas unidades de análise incluídas em cada uma delas. Geralmente é recomendável que se faça uso intensivo de “citações diretas” dos dados originais” (MOARES, 1999, p. 8).

Nesta fase, segundo a autora, devemos tomar cuidado, pois ainda não se configura no momento interpretativo, mesmo que haja descrições progressivamente abrangentes, de acordo com os níveis de categorização. De maneira geral, de acordo com a autora, a composição desta descrição, será estabelecida pelo sistema de categorias formado através da análise. A fase da descrição, segundo a autora, é o momento de grande relevância na análise de conteúdo. É a hora de exprimir os significados descobertos e sentidos nas mensagens analisadas. Não adianta empregar “muito tempo e esforço na constituição de um conjunto de categorias significativo e válido, se no momento de apresentar os resultados não se tiver os mesmos cuidados” (MOARES, 1999, p. 8). Geralmente, de acordo com a autora, será por meio do texto produzido como resultado da análise que seremos capazes de compreender a validade do estudo e de seus resultados. No entanto, uma análise de conteúdo consistente não pode se limitar à mera descrição. De acordo com a autora, é necessário que se procure ir além, ou seja, assimile um entendimento de maior profundidade do conteúdo das mensagens por meio da indução e interpretação. O termo interpretação, segundo a autora, está associado ao movimento de procura de compreensão. Sendo assim, qualquer leitura de um texto se configura numa interpretação. No entanto, o analista de conteúdo executa com “com maior profundidade este esforço de interpretação e o faz não só sobre conteúdos manifestos pelos autores, como também sobre os latentes, sejam eles ocultados consciente ou inconscientemente pelos autores” (MOARES, 1999, p. 9). Na ação interpretativa, de acordo com a autora, pode-se evidenciar duas vertentes. A primeira está relacionada a estudos contendo uma fundamentação teórica visivelmente explicitada a priori. Nesses estudos a interpretação é feita através de uma exploração dos significados expressos nas categorias da

análise numa contrastação com esta fundamentação (MOARES, 1999, p. 9). Na segunda vertente,

[...] a teoria é construída com base nos dados e nas categorias da análise. A teoria emerge das informações e das categorias. Neste caso a própria construção da teoria é uma interpretação. Teorização, interpretação e compreensão constituem um movimento circular em que a cada retomada do ciclo se procura atingir maior profundidade na análise.(MOARES, 1999, p. 9)

Segundo a autora, seja qual for a vertente, “seja a partir de um fundamento teórico definido a priori, seja a partir da produção de teoria a partir dos materiais em análise, a interpretação constitui um passo imprescindível em toda a análise de conteúdo, especialmente naquelas de natureza qualitativa” (MOARES, 1999, p. 9). O próximo e último passo da nossa pesquisa foi a redação do relatório, ou seja, o texto final que apresenta os resultados. Como este trabalho é proveniente de um estudo de campo, o texto não foi conduzido por meio de relatórios padronizados, tendo em vista que, num estudo de campo, segundo Gil (2002), o pesquisador possui maior liberdade para mostrar seus resultados. De acordo com o autor, o fato de os estudos de campo buscarem a descrição com certa profundidade de populações e fenômenos no intuito de relatar sobre os fatores que exercem influência na ocorrência dessas características, “os relatórios de campo apresentam frequentemente grande número de páginas. Convém, no entanto, que o pesquisador esteja consciente de certos requisitos exigidos na redação científica, tais como a clareza, a concisão, a precisão e a objetividade (GIL, 2002, p. 135). Foi com base neste contexto que redigimos o texto final contendo os apontamentos e as nossas considerações.

Benzer Belgeler