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O título do trabalho “Novas formas de mediação da informação” da autoria de Mercadante (1995), publicado na Transinformação, sugere de antemão a existência de formas já tradicionais ou usuais de mediação da informação e o ineditismo de outras. Sem deixar claro quais seriam as primeiras, ou seja, em que consistiria a mediação da informação no campo, do ponto de vista teórico ou empírico, o autor indica a emergência de formas de acesso alternativas ligadas aos serviços de compartilhamento de recursos bibliográficos entre instituições e ao processo da expansão tecnológica que alterou o armazenamento, a busca e o acesso às informações.

Neste trabalho nota-se a noção de mediação sendo utilizado de modo a designar diferentes processos de intermediação, de facilitação, de provimento do acesso

169 à informação- o que inclui da catalogação e classificação até a disseminação- funções basais das bibliotecas e centros de documentação.

As novas formas de mediação têm a marca da potencialidade de utilização dos recursos tecnológicos que permitem, segundo o autor: a) o tratamento de volumes de informação mais rápida e precisamente; b) o armazenamento de modo mais lógico de grandes volumes de informação; c) a recuperação de informações de forma mais racional e lógica; d) a seleção de informações otimizando o tempo do usuário; e) a administração do volume de informações voltada ao oferecimento de bons serviços a custos razoáveis (MERCADANTE, 1995, p.34).

Não obstante aos benefícios trazidos pelas novas tecnologias, o autor inaugura sua fala em tom de preocupação:

as mudanças estão chegando tão grandes, tão rápidas, e a angústia de entender, acertar, e ir adiante parece que toma de certa forma toda a classe de profissionais que trabalha com informação, e principalmente aqueles que estão à frente de bibliotecas e centros de documentação, responsáveis por decisões institucionais (MERCADANTE, 1995, p.33).

Este bibliotecário, ansioso diante de tantas mudanças, é impelido a ser “suficientemente habilitado e com responsabilidade para facilitar o uso da informação em qualquer dos suportes” (MERCADANTE, 1995, p.37).

E a mudança insiste para que este profissional se torne um administrador, aquele com “capacidade de gerenciar, [...] assegurando o conhecimento e a utilização de novos potenciais pela sua comunidade, [...] adicionando valor à informação” (MERCADANTE, 1995, p.38). As “novas mediações da informação” deverão, portanto, ser orientadas por um novo modelo de organização documental proposto pelos bibliotecários.

A mediação aparecerá no trabalho “Linguagens documentárias, instrumentos de mediação e comunicação”, publicado por Lara (1997) na Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, também no cerne dos processos biblioteconômicos de organização e acesso à informação. Nele, a autora entende as linguagens documentárias como formas de mediação, porque encerram, antes, processos de representação.

A representação é entendida a partir de Peirce (1977) para quem “representar significa estar numa relação com o outro, que, para certos propósitos, é considerado por alguma mente como se fosse o outro” (PEIRCE, 1977, p.61 apud LARA, 1997, p.72).

170 O texto não aborda “mediação da informação”, e sim mediação. Situada nos processos de representação, de codificação e decodificação de conteúdos informacionais, a mediação, em sua abordagem, pressupõe uma relação entre “de um lado, o objeto que se quer representar; de outro, um sujeito que deve interpretar essa relação” (LARA, 1997, p.73).

A mediação sustenta-se, pois, em sistemas de significação determinados, o que faz com que a recuperação de informações, dependa da disponibilidade de acesso às estruturas de significação (LARA, 1997).

Esta visão ampara-se na função dos sistemas simbólicos, cujo caráter mediador, torna possível a representação e a experiência da realidade. As linguagens documentárias compreendem, portanto, formas de mediação, de expressão condensada de determinados conteúdos, a partir dos quais é possível a recuperação do documento em sua totalidade. Desempenham papel de mediadoras, pois funcionam como sistemas simbólicos que liga registro-documento e usuário-informação.

O artigo “Paradigma tecnológico e representações sociais dos bibliotecários sobre seu perfil e suas práticas no contexto da Sociedade da Informação”, publicado na revista Informação e Sociedade por Morigi e Pavan (2005), discutirá as novas formas de interação entre as pessoas, decorrentes da utilização das tecnologias de informação e comunicação na vida cotidiana, a qual redimensionou as funções e os papéis sociais.

O estudo45 objetivou verificar como são percebidas as novas formas de sociabilidade pelos bibliotecários, analisando nas relações entre tais profissionais e os usuários, as mudanças decorrentes do emprego das tecnologias de informação e comunicação, estas consideradas como mediadoras no jogo da sociabilidade.

Partindo da consideração do cenário contemporâneo no qual as relações sociais são “impactadas” pelo uso das tecnologias, os autores assinalam que:

a utilização de tais tecnologias cria e recria novas formas de interação, novas identidades, novos hábitos sociais, enfim, novas formas de sociabilidade. As relações sociais já não ocorrem, necessariamente, pelo contato face a face entre os indivíduos. Elas passaram a ser mediadas pelo computador, independentes de espaço e tempo definidos. Informação e conhecimento tornaram-se variáveis imprescindíveis para o cidadão neste novo tempo que se estabelece, denominado das mais variadas formas, como era da informação, sociedade pós-industrial, era do virtual ou sociedade da informação e do conhecimento (MORIGI; PAVAN, 2005, p.1).

45

Estudo quantitativo e qualitativo realizado junto aos bibliotecários que atuam em bibliotecas universitárias na rede pública e privada do município de Porto Alegre-RS.

171 Para os autores, as novas formas de interação advindas da sociedade demarcada pela economia baseada no conhecimento, pelo novo papel das finanças e pela sociabilidade articulada em rede (frentes que definem a Sociedade da Informação) criaram “novas formas de sociabilidade e novas identidades, mediadas pelas redes midiáticas globalizadas” (MORIGI; PAVAN, 2005, p.02).

A mediação, termo para o qual não há designação teórica, semântica ou conceitual, caracteriza a dinâmica das tecnologias de informação e as formas de comunicação que se interpõem nas relações sociais, as quais, na contemporaneidade sofreram um esvaziamento do contato face-a-face.

Desse modo:

as novas “convivências” advindas da mediação tecnológica têm ampliado a rede de relações entre as pessoas e construído laços afetivos entre elas. O uso das ferramentas disponíveis na Internet abriu a possibilidade de as pessoas se “conhecerem” e estabelecerem relacionamentos sem qualquer contato físico anterior. Essa prática, cada vez mais comum, vem modificando os hábitos, os comportamentos, tornando mais complexas as formas de interação social entre os indivíduos e produzindo novas formas de sociabilidade entre eles (MORIGI; PAVAN, 2005, p.5).

O estudo concluiu que os bibliotecários percebem nitidamente as novas formas de sociabilidade no seu ambiente de trabalho, considerando a tecnologia um fator de interferência na relação com os usuários. Identificou-se também a existência de zonas de conflito, de diversas ordens, introduzidas pela mediação das tecnologias de informação e comunicação nas bibliotecas universitárias, já que o conflito é imanente à própria dinâmica social.

As tecnologias são vistas como as mediadoras, na medida em que promovem a articulação, o contato entre duas ou mais realidades, alterando não apenas as relações entre bibliotecários e usuários como também entre os próprios profissionais.

A abordagem do encontro entre diferentes espaços e culturas por meio das tecnologias de informação e comunicação é tema do debate de Freire (2006) no artigo “Acesso à informação e identidade cultural: entre o global e o local”, publicado na revista Ciência da Informação.

Este trabalho, que buscou dotar participantes de um programa de inclusão digital de “elementos da mediação entre a cultura global e a local” (FREIRE, 2006) já fora analisado quando da investigação dos trabalhos apresentados pelo grupo Mediação,

172 Circulação e Uso da Informação em Encontros Nacionais de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB).

Conforme indicamos, a autora emprega o termo mediação, para o qual não há discussão teórica e conceitual, designando a interface entre diferentes códigos culturais que transitam entre a cultura local e global, sendo as tecnologias de informação os elementos dinamizadores deste processo de interconexão e comunicação.

Benzer Belgeler