Ao analisarmos as relações estabelecidas no nível temático da narrativa fílmica, percebemos que a ideia de simulação e dissimulação da realidade são aspectos recorrentes na trama. Há por parte dos personagens um desejo de evasão da própria realidade. Inicialmente negam essa realidade. Posteriormente, constroem um espaço imaginário, fictício, fruto da imaginação. Um mundo de aparências onde não possam sofrer as consequências dos seus atos. O espaço hostil das grandes cidades é reapresentado no filme B&S através dos espaços fechados, dos escritórios e apartamentos e também através das ruas em que pessoas se cruzam sem nem mesmo se olharem. Nesses espaços, destacam-se as superfícies espelhadas ou envidraçadas cujas imagens refletidas nos remetem à cópia e ao duplo.
Nesse ambiente de solidão, a narrativa autobiográfica do passado de Gustavo Flávio se constitui um simulacro, uma forma de evasão do cotidiano, fuga dos problemas que o afligem no presente. Sua mente criativa o faz construir ficcionalmente seu passado. A referência dessa recriação não é apenas o real, mas principalmente o imaginário e o ficcional. A história criada por Gustavo Flávio referencia narrativas de ficção científica em que conhecimentos científicos se juntam àqueles próprios ao universo da cultura popular e da religião. Não se pode acreditar que a história narrada por Gustavo Flávio corresponda de fato a sua autobiografia – mesmo sabendo que no ato de recordar está inclusa a seletividade e a análise das informações vivenciadas. Acreditamos tratar-se de um simulacro, um espaço-tempo imaginário constituído conscientemente pelo narrador-escritor com o objetivo de transformar a sua autobiografia em uma história fantástica e interessante. Uma narrativa que mascare sua verdadeira história, um cotidiano monótono e sem encantos. Sua funcionalidade relaciona-se também ao desejo de dissimular sua participação na morte de Delfina Delamare. A segunda trama, a história do presente, tem por referência a primeira história, a do passado, mas a
história do passado só é relembrada ou escrita em função dos acontecimentos do presente, constituindo um processo de autorreferenciamento, um espelhamento em que já não se distingue o verdadeiro do falso, o natural do artificial, o real do imaginário.
Vejamos como se realiza a constituição do universo artificial, pautado por imagens dissimuladas, cenários construídos, pela falsidade, traição, duplicidade, aparências, máscaras e desejo de evasão dos personagens da trama fílmica B&S: Gustavo Flávio nos relata que em sua juventude, Maurício Estrucho simula a própria morte através do uso de um composto capaz de levá-lo a um estado de catalepsia profunda que o deixa com a aparência de um morto; Eugênio Delamare dissimula sua participação na fraude, ignorando qualquer irregularidade na morte do Sr. Estrucho; Ivan Canabrava também simula a própria morte com o objetivo de comprovar a simulação realizada por Maurício Estrucho; Quando Ivan Canabrava entrega a Eugênio Delamare seu próprio atestado de óbito, documento que comprovaria a fraude ocorrida na Panamericana de Seguros, o empresário finge que está a favor de Ivan e lhe oferece uma promoção. Mas, de fato, de acordo com o narrador, Eugênio Delamare suborna o médico que atestou a morte de Ivan Canabrava e mata Ceresso, o cientista que preparou o composto capaz de provocar a catalepsia, e que possivelmente atuaria como testemunha de todos os acontecimentos a favor de Ivan; no presente, Gustavo Flávio mente para Minolta e a polícia, ao acusar Eugênio Delamare como o responsável pela morte da esposa, dissimulando, assim, sua própria participação; Eugênio Delamare deseja mascarar o resultado do laudo sobre a morte de sua esposa e, com esse propósito, tenta em vão subornar o inspetor Guedes e contrata Agenor, que finge ser o autor da morte de Delfina Delamare através de uma falsa tentativa de assalto; Delfina Delamare trai o marido com o escritor Gustavo Flávio; quando descobre que está doente, Delfina deseja fugir dessa realidade através da morte, mas não tem coragem de se matar. Assim, pede a seu amante, o escritor Gustavo Flávio, que a mate com um tiro no coração, a fim de simular um suicídio; essa sua ideia tem como referência o enredo de um dos livros do próprio Gustavo Flávio chamado Trápola. Delfina afirma que nesse romance a heroína se mata com um tiro no coração. Nesse caso, temos também mais uma autorreferência e uma duplicação; a morte de Delfina tem a aparência de um suicídio, mas posteriormente essa conclusão é descartada; o inspetor Guedes finge ser o advogado de Eugênio Delamare, Drº Jorge Delfim, a fim de descobrir os planos do empresário em relação a Gustavo Flávio; além desses fatos, a própria história do passado de Gustavo Flávio é uma história fantástica que deixa sempre a dúvida se foi vivida realmente por Ivan Canabrava ou se é apenas mais uma ficção ou simulação, produto de sua imaginação fantasiosa. Essa hipótese pode ser corroborada pelo fato de que a única testemunha que vê
Clara Estrucho alimentar o defundo, Minolta, estava emocionalmente desestruturada, pois acabara de perder sua prima, vítima de um acidente de moto e ainda está alcoolizada, portanto, poderia estar tendo uma visão distorcida da realidade. No presente, Gustavo Flávio não comenta sobre o assunto com nenhum outro personagem. Na carta que escreve para Minolta, Gustavo Flávio lhe diz que está escrevendo um livro sobre o sapo Bufo Marinus, indicando que há muitos espécimes na área de sua pousada e que falará também sobre o cientista Spallanzani. Não há nenhuma referência que comprove que eles partilharam de fato a aventura que ele afirma ter compartilhado. Quando o inspetor Guedes pede ao delegado Ferreira que dê proteção a Gustavo Flávio, este lhe diz que o próprio escritor falou que não havia conseguido nenhuma prova contra Eugênio Delamare. Assim, o enredo fílmico é mais aberto e permite que o espectador o interprete sob as duas perspectivas: a ideia de que Gustavo Flávio está escrevendo uma autobiografia baseada nas memórias “reais de sua juventude” ou a ideia de que Gustavo Flávio está escrevendo uma pseudoautobiografia ou uma autoficção que tem como referência suas leituras ficcionais. Nos dois casos, temos uma história dentro de outra história, histórias que remetem a outras ad infinitum, imagens duplicadas que problematizam a própria natureza dupla do cinema, meio que constrói histórias a partir da duplicação das imagens. Assim, a perspectiva metaficcional se constitui no filme B&S através da interposição estabelecida entre o real e o imaginário, o verdadeiro e o falso e o pressuposto de que o imaginário constrói realidades.
A forma da narrativa fílmica B&S alia o gênero ficção científica ou gênero fantástico ao gênero policial noir. No entanto, a formação da narrativa de ficção científica ou gênero fantástico presente no filme B&S comporta também, por sua vez, uma trama policial. Observamos, assim, que a mistura dos gêneros, recurso constante no texto-fonte, também é transmutado no texto fílmico.
Em Simulacros e Simulação, Jean Baudrillard avalia que “simular é fazer parecer real uma coisa que não é”, enquanto dissimular “é fingir não ter o que se tem”, o primeiro referindo-se a uma presença e o segundo a uma ausência (cf. 1991, p. 9). Assim, enquanto a dissimulação deixa intacto o princípio de realidade, a simulação põe em discussão a diferença entre o verdadeiro e o falso, o real e o imaginário. De acordo com Baudrillard, por ter se transformado em uma imagem, a realidade deixou de existir, e quando passa a não ter mais nenhuma relação com a realidade, se instaura a ideia e o domínio do simulacro. Nesse caso, não estaríamos mais no mundo da aparência, mas da simulação e do simulacro (BAUDRILLARD, 1991, p. 8-9).
Os conceitos de Baudrillard acerca de simulação e simulacro nos ajudam a compreender o comportamento assumido pelo escritor Gustavo Flávio. Seu trabalho como escritor depende de sua capacidade imaginativa e também da sua capacidade de reelaboração da realidade. Ao desenvolver uma trama cujo narrador é um escritor, um artista, alguém que reelabora a realidade e a ficcionaliza, Rubem Fonseca e também o diretor Flávio Tambelline, que mantém essa configuração no filme, buscam a instauração de um espaço de incertezas e ambiguidades, um convite à reflexão sobre o sentido do real e do ficcional, o modo como o discurso verbal e também o imagético constroem o real, o conceito de verdadeiro e falso. Muitas vezes, em ambos os textos, o que parece verdadeiro é falso, enquanto o que tem aparência de falso é verdadeiro. O leitor/espectador perde suas referências e certezas nesse universo de simulações e aparências. O personagem fílmico Gustavo Flávio afirma para o delegado Guedes, de forma bastante enfática e segura, que foi Eugênio Delamare quem matou Delfina. Ele é tão enfático em sua afirmação, corroborada pela atuação do ator que o interpreta no filme, José Mayer, que sua expressão tranquila e firme nos leva não só a identificarmo-nos com sua imagem de injustiçado, mas também a acreditar indubitavelmente em suas palavras quando diz: “– O marido é o culpado! Ele matou Delfina e tenho medo de que me mate também!”. Ao final, quando Guedes lhe expõe toda a verdade, Gustavo Flávio olha para Guedes e lhe diz: “– Todo escritor gostaria de ter você como personagem!”. Essa frase é significativa na medida em que revela que o pensamento de Gustavo Flávio se constitui a partir de sua consciência de escritor. Seu ofício está de tal modo inserido em sua vida que já não consegue estabelecer os limites entre ficção e realidade e, em muitos momentos, tenta construir por via do discurso aquilo que não faz parte de sua realidade, mas que gostaria que fizesse. Sob essa perspectiva, os personagens literário e fílmico assumem o mesmo posicionamento: ambos tentam construir uma realidade através do discurso verbal e imagético. No romance, ao ser questionado por Guedes em relação a sua afirmação de que Delfina Delamare estava bonita e elegante como sempre, embora só a tivesse visto por duas vezes, Gustavo Flávio responde a Guedes, informando que,
[...] a cabeça de um escritor talvez seja diferente das cabeças que o senhor está acostumado a vasculhar. Para um escritor a palavra escrita é a realidade. Li tantas vezes nas colunas sociais que Delfina Delamare estava bonita e elegante como sempre que não tive dúvidas em incorporar, como se fosse uma percepção própria, esse clichê alheio. Nós escritores trabalhamos bem com estereótipos verbais, a realidade só existe se houver uma palavra que a defina (FONSECA, 1991, p. 19, grifos nossos).
Esse modo característico de percepção do mundo é comum tanto ao personagem Gustavo Flávio do romance como o do filme. A diferença entre eles é que no romance se tem um maior número de ações que espelham esse comportamento imaginativo, além de um discurso crítico que também corrobora essa percepção. A perspectiva temática, proposta pelo personagem-escritor acerca do real e imaginário se configura formalmente na narrativa fílmica por meio da mudança espaço-temporal cuja transposição opera interrupções no fluxo narrativo, “despertando” o espectador ao chamar sua atenção para o caráter de realidade construída da própria imagem fílmica e também através das duplicações de imagens que nos remetem ao não-natural, ao falso e artificial. Compreendemos o processo de duplicação como uma metáfora para o ilusionismo da imagem cinematográfica, que por meio do movimento constitui essa aparência de realidade.