SİYASİ MUHALEFET
3. Belene Toplama Kampı (1985-86)
3.1. Belene Toplama Kampı’nın Açılma Süreci ve Kamp Tutukluları
Atualmente, o cotidiano dos brasileiros é acometido pelos altos índices de violência urbana. As causas de tal problema, além do âmbito social, estão no próprio espaço urbano, principalmente onde a abstenção do governo e a decadência dos seus serviços são evidentes - geralmente, nas áreas em que a infraestrutura urbana de equipamentos e oferta de trabalho são precários. Somam-se a esses fatores, a impessoalidade das relações nas grandes metrópoles, a desestruturação familiar, o crescimento do tráfico de drogas, bem como a “obsolescência” dos centros urbanos.
A representação da violência urbana indica um complexo de práticas que são consideradas ameaças a duas condições básicas de segurança existencial – “integridade física e garantia patrimonial” (SILVA, p.58, 2004). Para Silva (2004), entre as principais causas do sentimento de insegurança estão o enfraquecimento da capacidade de controle social por parte das agências estatais, o esgarçamento da ordem pública, devido ao mau funcionamento de suas garantias externas, a expansão e organização da criminalidade, bem como a ampliação do recurso à violência como meio de obtenção de interesses.
Neste contexto, as classes sociais menos favorecidas por estarem mais expostas aos problemas de ordem socioeconômica – a falta de emprego regular, a dependência de drogas ilícitas, a habitabilidade com altas taxas de criminalidade, entre outros – encontram dificuldades de inserção na sociedade e, por isso, apresentam maior número de indivíduos relacionado a algum tipo de crime, do que qualquer outra classe social.
Outra amostra da violência urbana brasileira que vem crescendo nos últimos anos é aquela atribuída aos policiais, principalmente os da incorporação militar18. A falta de credibilidade
18 O desvio de conduta destes policiais se manifesta através de crimes como chacinas, sequestro, abuso de
autoridade, grupos de extermínios, entre outros. As causas para este comportamento são inúmeras, vão desde a falta de treinamento específico, desvalorização profissional, até falta de acompanhamento psicológico e punição dentro da própria incorporação.
neste órgão público, cuja função é proteger a população, tem contribuído para o aumento da insegurança e da procura por proteção particular.
A ocorrência e o tipo de crimes são determinados de acordo com as suas motivações. Em entrevista a Lima (2004), o cientista político Túlio Khan19, cita que os tipos de crimes estão relacionados aos locais onde ocorrem, podendo ser contra o patrimônio ou contra a vida de algum individuo:
“Roubos e furtos em geral acontecem em bairros de classe média alta, por exemplo. ‘Nesse tipo de crime existe relação direta com os níveis de riqueza e não com os de pobreza, como geralmente é dito’. Segundo ele, ao fazer um levantamento dos locais de maior incidência de roubos e furtos, observa-se que são áreas com maior circulação ou acúmulos de bens, regiões com alta concentração de riqueza. Já homicídios ocorrem, em maior número, nos bairros pobres e as motivações são passionais ou relacionadas ao tráfico de drogas em sua maioria.” (LIMA,2004)
Segundo Caldeira (2000), o medo e a busca pela manutenção da segurança (tanto patrimonial como pessoal) contribuem cada vez mais para a prática de privatização do espaço e, também, consequentemente, para o aumento do número de condomínios horizontais. Assim, relacionando-se a este contexto, o perfil da insegurança urbana tem apresentado diferentes naturezas de crime, tanto no âmbito público como no particular. Os crimes mais corriqueiros são aqueles praticados na esfera pública e assumem, geralmente, duas formas de ocorrência.
O primeiro caso são os crimes realizados distantes dos condomínios, geralmente em áreas centrais e nos arredores mais próximos, e são os que influenciam a percepção de que morar em áreas centrais é perigoso. Outra prática de crime na esfera pública são os ocorridos nas adjacências dos condomínios, em ruas que tangenciam o perímetro particular ou nos arredores mais próximos. Em menor escala, existem também os crimes praticados na esfera particular, ou seja, no interior dos condomínios.
Viver na cidade contemporânea, sobretudo nas metrópoles, significa realizar percursos ou atividades cotidianas, como ir ao trabalho, ao supermercado, à universidade ou à escola, praticar algum esporte ao ar livre ou qualquer outra atividade, sempre atento ao que ocorre em seu entorno. O retorno ao lar, após um dia corriqueiro, produz a sensação de que se
19 E também atual coordenador de análise e planejamento de Secretaria de Segurança Pública do Estado de
está, enfim, a salvo. Porém, estar em casa20 não significa estar plenamente seguro em
relação ao que se encontra lá fora. Não permitir que o lar seja invadido e/ou roubado requer que o local onde se mora esteja amparado por uma série de itens de segurança como grades, portões eletrônicos e câmeras - citados por muitos críticos como ornamentos que ressaltam um novo estilo: a arquitetura do medo21.
Devido à vulnerabilidade das casas, atualmente, não existe demanda considerável para esta forma de moradia e os indivíduos que ainda as habitam, na maioria dos casos, querem mudar para outra tipologia habitacional mais segura.
A mobilidade residencial retratada pela migração “casa-apartamento” teve início em meados do século XX, porém sua intensificação se deu a partir da década de 1980, por vários fatores, dentre eles, maior segurança22. Entretanto, com o passar do tempo, os criminosos foram se especializando em invasões a este tipo de habitação e em burlar os seus itens de segurança - os edifícios de apartamento já não se apresentavam tão seguros diante da nova faceta da violência e se viram na necessidade de incorporar novas tecnologias de segurança. Ao mesmo tempo, firma-se a opção de morar em condomínios horizontais, uma solução que permitia o retorno à casa com proteção superior aos de edifícios de apartamento.
“Os condomínios fechados atraem os moradores de apartamentos que acreditavam ser essa a habitação mais segura e veem neles uma forma de voltar a morar em casas”(PEREIRA e TRAMONTANTO, 1999,
p.30)
Originalmente, estes empreendimentos surgiram como estratégia para os empreiteiros que, não querendo disponibilizar área para o setor público, burlavam as leis municipais e estaduais que faziam tal exigência. Surgiam assim, os empreendimentos imobiliários
20 A palavra “casa” refere-se, neste caso, à tipologia residencial unifamiliar isolada no lote.
21 Termo utilizado para designar as feições que a cidade vem assumindo diante da violência. Para Feiguin e
Lima ( a “arquitetura do medo” é manifestada através dos muros altos, cercas em volta das residências, alarmes e sofisticados sistemas de segurança, pontualmente correlacionados a outros fenômenos, como o crescimento das empresas privadas de vigilância, fuga para as regiões mais periféricas da cidade, entre outros.
22 Ao contrário do que ocorreu em outros países em que a verticalização surgiu como solução técnica
necessária para a demanda habitacional, no Brasil, o edifício de apartamentos emerge como moradia das ascendentes classes médias, como símbolo do bom gosto, do luxo, da distinção e do moderno. Nas últimas décadas, porém, os fatores que atraíram os moradores para os edifícios de apartamento são a área de lazer expandida, os serviços de manutenção, maior oferta no mercado imobiliário e a percepção de maior segurança.
“privé”, que tiveram um certo declínio na década de 1970, em detrimento do “boom” imobiliário vertical, mas devido ao atual contexto da violência, voltaram a se proliferar com maior intensidade. A princípio, assumiam conotação de conjuntos habitacionais direcionadas às moradias típicas de classe média. Porém, ao longo dos anos, e no decorrer da valorização imobiliária, passaram a ser direcionados ao estrato social com maior poder aquisitivo e com outros tipos de interesse.23
Recentemente, vários estudos identificaram que o sentimento de segurança dos moradores de condomínio está fortemente relacionado à presença das barreiras físicas (BLAKELY e SNYDER, 1999; GÜZEY e ÖZCAN, 2010; CALDEIRA, 2000; BECKER, 2005; RAPOSO, 2008). Arantes (2009) ao estudar os condomínios horizontais na cidade de Salvador - BA, a partir de entrevistas aos seus moradores, cita:
“O ‘lá fora’ representa a cidade, espaço do desconhecido, do caos, perigo, criminalidade e violência. Já o ‘aqui dentro’ representa a tranquilidade advinda de uma gestão privada da segurança, que, por sua vez, é fundamentada em uma visão liberal a partir da qual se entende que, se o Estado não oferece garantias de acesso a determinado bens e ou serviço, cada cidadão tem o direito de buscá-lo individualmente, de forma privada [...]”
Assim, as garantias que todos os cidadãos deveriam possuir, a segurança, por exemplo, passam a entrar no “rol” de artefatos comercializados possíveis apenas para os consumidores que tem condições de comprá-los e mantê-los. É neste contexto, juntamente com a vulnerabilidade social e a nova lógica de mercado, que cresce a procura por espaços
23 A origem e as fases do processo de proliferação dos condomínios horizontais serão melhor explanadas no
capitulo II - Condomínios horizontais: origem e contexto.
Figura 02. Barreiras físicas do condomínio Vila Real, em João Pessoa-PB. Figura 03. Condomínio Bosque das Orquídeas, em João Pessoa-PB. Fonte: Acervo pessoal, 2011.
que representam a incorporação de um novo estilo de vida, relacionado aos novos comportamentos de consumo.
O condomínio, enquanto “produto”, atrai seus consumidores não apenas por suas características internas, mas pelo acesso a vários benefícios e valores simbólicos, tais como o “verde”, a privacidade, o status e a privatização dos serviços de segurança. A segurança é um dos itens diferenciais que é comercializado e incluído no pacote que compõe os ideais e a imagem do condomínio. Segundo Dacanal e Guimarães (2005) a mídia, que relata diariamente os crimes e violência na cidade, juntamente com o marketing imobiliário, que se aproveita destes noticiários e também da fragilidade humana quando exposta à criminalidade e à violência, propiciam o aumento de territórios fortificados.
A percepção de “estar seguro” dentro de um condomínio horizontal decorre da compilação de vários mecanismos de segurança. Este aparato consiste, geralmente, na presença de barreiras físicas, em forma de muros ou grades circundando todo o perímetro, cercas elétricas, vigilância 24 horas através de vigias monitorados em várias guaritas posicionadas estrategicamente, câmeras de circuito interno, portaria e cancelas com controle rigoroso de permissão de entrada e saída, crachás para visitantes, adesivos nos carros, além de regimentos internos rigorosos. Outro fator que consolida esta percepção é a presença da vizinhança, que juntamente com as exigências impostas pelos regimentos internos como a proibição de muros, limites sobre cercas e podas periódicas da vegetação, facilitam a vigilância sobre a movimentação rotineira do condomínio.
Figura 04. Guarita de entrada do condomínio Forest Ville na Região Metropolitana de São Paulo. Figura 05. Vigilância motorizada do condomínio Forest Ville. Fonte: <http://cajamar.olx.com.br/condominio-fechado- a-apenas-20-minutos-de-sao-paulo-iid-107173510> Acessado em 15 de julho de 2011.
A insegurança nas adjacências dos condomínios ocorre – incluem-se aqui os bairros que os acomodam e as ruas públicas que os tangenciam -, geralmente, por que as áreas especuladas para acomodação destes empreendimentos são setores com grandes vazios urbanos, extensas áreas verdes privadas e baixa densidade urbana que acabam transformando-as em regiões com certa periculosidade.
Outro fator que aumenta a insegurança urbana nos entornos dos condomínios é a própria configuração física destes empreendimentos. Segundo Becker (2005) a paisagem urbana, antes reproduzida por fachadas, lotes e arruamentos tradicionais, vem sendo substituída por enclaves cuja configuração se dá através de barreiras físicas contínuas que restringem e minimizam o acesso ao espaço público. Os transeuntes que desejam passar pelas ruas públicas tangentes aos condomínios sentem-se inseguros, pois a ausência de janelas e/ou portas e a falta de vizinhança inibem a utilização da rua e facilitam a ocorrência de certos atentados. Para Jacobs (2000) um espaço para ser considerado seguro, deve conter edificações voltadas para a rua, onde os moradores seriam os vigias e “proprietários naturais da rua” (2000, p.36).
A questão da segurança interna – o espaço intramuros – também é um aspecto relatado em vários estudos (BECKER, 2005; CALDEIRA, 2000; LIMA, 2004; LYNCH, 1988; PEREIRA e TRAMONTANO, 1999; BHERING, 2002). A forma mais frequente e relativamente recente é aquela cometida por quadrilhas de assaltantes especializadas em roubos e furtos, que capazes de superar a segurança dos condomínios, transportam, em escala reduzida, a temida violência urbana para as áreas privadas fortificadas.
Outra queixa são os crimes cometidos por residentes dos próprios condomínios, geralmente relatados como delitos de baixa periculosidade como vandalismo, transgressões relacionadas ao desrespeito contra outros moradores, contra normas do regimento interno e instalações dos imóveis ou também relacionados ao trânsito de veículos. Todavia este tipo de ocorrência é sempre acobertado, exceto os poucos casos de crimes hediondos, que são os únicos que viram notícias públicas.
“Estudos que vêm investigando o interior de condomínios fechados, sob o foco social e político, apontam para problemas de segurança interna, que podem advir da administração privada, que repercute numa legislação privada, desvinculada da pública, e que, resguardadas as devidas proporções, pode reproduzir os conflitos existentes nas ruas públicas.” (BECKER, 2005, p. 37)
Contudo, apesar de alguns registros de crimes intramuros, as pessoas se consideram menos vulneráveis morando em condomínios, preferindo, portanto, a menor exposição residencial possível. No entanto, na tentativa de se proteger dos problemas da cidade, com o fechamento de uma determinada amostra populacional, contendo indivíduos com características sociais e econômicas semelhantes, cria-se uma microssociedade, que resguardando as devidas proporções, acaba sendo o reflexo das práticas sociais comuns à cidade formal.