Neste trabalho usou-se, como mecanismo operacional para mensurar a intensidade ou frequência de acompanhamento da mídia, o número de reportagens publicadas que citam o nome das companhias abertas brasileiras na versão impressa do jornal Valor Econômico, uma joint venture que tem controle compartilhado pelos grupos Globo e Folha. O veículo é o 18º maior do país entre os jornais diários, segundo dados da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e, entre os 50 de maior circulação auditada, o único com foco principal em economia. A tiragem média ficou em torno de 60 mil exemplares diários durante esse período (ANJ, 2015).
O espaço temporal para a frequência das publicações impressas, utilizada como proxy de exposição/transparência/divulgação, foi o trimestre, isto devido à compatibilização com as variáveis de controle, que são trimestrais, e foram obtidas no sistema da Economatica.
Convém ressaltar um ponto quanto à escolha da utilização das publicações impressas. Tal termo, impressas, não significa que o alcance e penetração das notícias estejam restritos à tiragem média de 60 mil exemplares diários durante esse período. A versão impressa do jornal pode ser vista pelo site www.valor.com.br, que possui visualizações, em bases trimestrais, de visitantes únicos superando 2,5 milhões de pessoas, que podem ou não ser coincidentes com os leitores da versão em papel, já que as senhas de acesso costumam ser compartilhadas dentro de empresas que possuem assinatura.
O levantamento do número de publicações foi feito manualmente considerando os 20 trimestres no período que vai de janeiro de 2010 a dezembro de 2014. Não foram utilizados dados anteriores a 2010, pois a base de dados do site do jornal, por onde foi feita a pesquisa, foi alterada durante o quarto trimestre de 2009. Assim, para garantir resultados consistentes, optou-se por iniciar a coleta a partir das publicações de 1º de janeiro de 2010.
A população das empresas que entrou na base da pesquisa foi determinada por conveniência. A ideia era assegurar que o trabalho tivesse como base empresas relevantes para os investidores e que, ao mesmo tempo, viabilizassem a pesquisa, já que empresas sem um mínimo de dispersão acionária ou que têm ações muito pouco negociadas prejudicariam a acurácia do cálculo das variáveis dependentes de preço e liquidez em bolsa que foram analisadas no presente trabalho. Ao mesmo tempo, não se quis restringir a pesquisa às empresas
do Ibovespa, principal índice da bolsa local, para que o numero de companhias não fosse muito reduzido.
Optou-se então por selecionar, como ponto de partida, todas as companhias abertas que, no primeiro quadrimestre de 2015, integravam pelo menos um índice de ações entre os 21 calculados e divulgados regularmente pela BM&FBovespa, que são divididos em cinco grupos, conforme se vê na Tabela 2.
Tabela 2. Lista dos índices de ações considerados para montagem da amostra
Grupos de índices Nome do índice
Índices Amplos
Índice Bovespa - Ibovespa Índice Brasil 50 - IBrX 50 Índice Brasil 100 - IBrX 100 Índice Brasil Amplo - IBrA
Índices Setoriais
Índice BM&FBOVESPA Energia Elétrica - IEE Índice BM&FBOVESPA Industrial - INDX Índice BM&FBOVESPA Consumo - ICON Índice BM&FBOVESPA Imobiliário - IMOB Índice BM&FBOVESPA Financeiro - IFNC
Índice BM&FBOVESPA Materiais Básicos - IMAT Índice BM&FBOVESPA Utilidade Pública - UTIL Índices de Sustentabilidade Índice de Sustentabilidade Empresarial - ISE
Índice Carbono Eficiente - ICO2 Índices de Governança
Índice de Ações com Governança Corporativa Diferenciada - IGCX Índice Governança Corporativa Trade - IGCT
Índice Governança Corporativa – Novo Mercado - IGC-NM Índice de Ações com Tag Along Diferenciado - ITAG Índices de Segmento
Índice BM&FBOVESPA MidLarge Cap - MLCX Índice BM&FBOVESPA Small Cap - SMLL Índice Valor BM&FBOVESPA – 2ª Linha - IVBX 2 Índice BM&FBOVESPA Dividendos - IDIV
Fonte: BM&FBovespa, adaptado pelo autor
Ao se fazer essa busca e o cruzamento entre os diversos índices, chegou-se a 178 companhias. Entretanto, a população foi reduzida logo em seguida por três razões.
O primeiro filtro objetivou retirar holdings pertencentes a cadeias societárias de grupos cuja empresa operacional que representasse substancialmente seus negócios já estivesse
contemplada na população, como a Metalúrgica Gerdau e a Cosan Ltd, permanecendo Gerdau S.A. e Cosan S.A. Por esse critério, foram retiradas cinco empresas.
O segundo corte buscou eliminar da população empresas com nomes de palavras comumente encontradas em matérias jornalísticas, como nomes de cidades, sobrenomes, variantes de tempos verbais, homônimos, entre outros. Nessa fase foram retiradas as 19 empresas descritas a seguir que trariam ruído na captura dos dados para a análise: ALL, Anima, Panamericano, BM&FBovespa, Fleury, Gol, Lojas Americanas, Lopes, Natura, Porto Seguro, Positivo, Renova, Rossi, Saraiva, Ser, Telefonica, Tempo, TIM e Vale.
Por fim, Ourofino e Smiles foram retiradas por terem se listado muito recentemente, o que gerava a existência de muitos missing values para as duas companhias.
Tabela 3. Composição da amostra
Característica Número de empresas
Companhias que integravam algum índice calculado pela
BM&FBovespa no primeiro quadrimestre de 2015 178
Holdings já representadas por empresas operacionais (5)
Nomes que dificultaram busca no site (19)
Empresas com listagem muito recente (2)
Amostra final 152
Nota: A tabela final com as 152 empresas está no Capítulo 3 Fonte: Autor
Ao fim, portanto, a base da pesquisa teve 152 companhias abertas do país. Juntas, elas tinham valor de mercado de R$ 1,803 trilhão no fim de marco de 2015, o que representava 81% da capitalização total da bolsa brasileira naquela mesma data. Já a soma dos ativos totais das empresas selecionadas alcançava R$ 6,811 trilhões também ao fim do primeiro trimestre de 2015, ou 83% do total das companhias abertas brasileiras com ações listadas. Há que se ressaltar que, por interesse do pesquisador, foram mantidas na amostra as instituições financeiras, já que os grandes bancos do país estão entre as empresas mais acompanhadas pela mídia.
O uso apenas do jornal Valor Econômico como base para pesquisa pode levantar dúvidas e questões sobre a hipótese de se encontrar resultados diferentes se outros veículos também fossem incluídos no trabalho. Caso a metodologia a ser usada fosse de estudo de evento, este seria um problema grave, já que uma ação pode ter retorno anormal como consequência de uma
informação que foi divulgada em um veículo de imprensa, mas não em outro naquele determinado dia.
Contudo, esse não é um fator de limitação muito relevante quando se analisa a frequência de publicações ao longo dos trimestres, já que os principais jornais tradicionais de grande circulação do país seguem padrão de cobertura com orientação similar. Em outras palavras, se Petrobras, Vale, Itaú e Bradesco estão entre as empresas mais citadas no Valor, assim também ocorre em Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e o O Globo.
Fang & Peress (2009), ao fazerem questionamento similar em seu trabalho realizado nos Estados Unidos, notaram essa redundância de cobertura. Mas para que não haja dúvida de que essa repetição de orientação de veículos concorrentes também existe no Brasil, foram coletados manualmente dados de frequência de citação de 109 do total de 152 de empresas analisadas no estudo, no período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2014 – sem a quebra por trimestre feita apenas no Valor – tanto no site da Folha de S.Paulo como na página do jornal O Estado de São Paulo na internet. A diferença do número de empresas se explica pela forma como a busca é feita em cada site, o que dificultou o uso do mesmo critério de pesquisa. No sistema de busca da Folha, foi possível selecionar apenas as matérias que saíram na versão impressa do jornal, o que não ocorreu no Estado, o que também compromete a comparação dos números em termos absolutos. Ainda assim, os índices de correlação identificados foram bastante elevados, sempre acima de 90%, e podem ser observados na matriz que aparece na Tabela 4.
Tabela 4. Correlação na frequência de cobertura
Valor Folha Estado
Valor 1,0000
Folha 0,9246 1,0000
Estado 0,9397 0,9716 1,0000
Nota: Matriz avalia correlação entre frequência de citação de empresas nos jornais Valor, Folha e Estado, com base em pesquisa nos sites.
Fonte: Autor
Diante da composição dos números levantados, o meio adequado para o tratamento estatístico é o denominado Dados em Painel, que se demonstra apropriado quando os dados estão distribuídos ao longo de diversos períodos de tempo (Fávero et al, 2009), visto que, nessa
metodologia, a mesma unidade de corte transversal (uma família, uma empresa, um estado) é acompanhada ao longo do tempo. Em síntese, os Dados em Painel têm uma dimensão espacial e outra temporal (Gujarati, 2006).
No caso deste trabalho, há uma série temporal de 20 trimestres com dados em corte transversal de 152 companhias. Portanto, trata-se de um painel curto, com número de indivíduos maior que o número de períodos, num total máximo de 3.040 observações, mas que na prática se tornam 3.024 para a variável de interesse diante de missing values de empresas que foram constituídas durante o período de análise.
Em uma segunda etapa, após a verificação de alta correlação da variável de interesse “Publicações” com a variável de controle “Tamanho”, acima das correlações com as variáveis dependentes, o que é um possível indício de multicolineariedade, utilizou-se a própria variável de controle altamente correlacionada como elemento definidor para segmentar a população em quartis e analisar os grupos individualmente.