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Com relação às veredas e caminhos, boa parte se dirigia para o Médio São Francisco e adjacências; dali rumaram para os sertões mais distantes. Espinha dorsal da ocupação daqueles sertões, por ali passaram os caminhos de maior trânsito do gado e de indivíduos, com variadas ambições. Nesse processo, em pouco tempo a região, se não foi totalmente conquistada, pelo menos, foi reconhecida por muitos capitães mores, mestres de campo, dentre outros.

Situado na confluência dos caminhos do gado que rumavam a Salvador e interligavam a capital a outros sertões – especialmente, os de Pernambuco, Piauí e ao sul do Ceará –, o Médio São Francisco, logo se tornou estratégico, de modo que ali foram se estruturando os primeiros núcleos de povoamento não índios dos sertões das Capitanias do Norte. Erivaldo Fagundes Neves argumenta que se desconhece qual fora a primeira fazenda estabelecida naqueles espaços, “sabe-se, apenas, que o movimento de conquista

150 Ibidem., p. 71. 151 Id. Ibid., 172.

152 Martinho de Nantes não voltou mais a conversar com o governador, e recomendou que um Clérigo de

Salvador o intercedesse por ele junto ao governador. E feito, o seu irmão de fé conseguiu que o governador reconsiderasse e mantivesse sua palavra de proteger e ajudar as Missões do Médio São Francisco.

e ocupação desses territórios aos indígenas deslocou-se do norte para o sul, pela margem direita do grande rio”.153

No centro e no nordeste baiano, concentraram-se os principais caminhos que se abriam para a conquista e colonização das demais terras sertanejas das capitanias de Pernambuco, Piauí e Siará Grande. Essa penetração iniciou sistematicamente a partir da segunda metade do século XVII e atingiu seu ápice no início do século seguinte.

Um contingente constituído por pobres livres, aventureiros, militares, índios aliados, dentre outros, vai exercendo pressão sobre as populações indígenas ditas “bárbaras”, resultando cada vez mais em seus deslocamentos, onde a maioria foi condenada a transitar na zona fronteiriça da dita sociedade “civilizada”, sendo por sua vez alvo de extermínio por parte dos colonos, e pelos religiosos, que os forçavam a pedir paz e auxílio nas várias Missões que ficavam ao longo das margens do rio São Francisco. Jeremoabo foi um dos primeiros e importantes povoados edificados nos domínios territoriais da Casa da Torre. Localizado na confluência de um dos três caminhos que partiam do Recôncavo baiano. Essa localidade, além de ser conhecida pelos grandes conflitos ali existentes, era passagem dos caminhos do gado que desciam para Salvador, vindos dos sertões da Capitania do Ceará, Piauí e Pernambuco. O pároco daquela Freguesia, Padre Januário José de Sousa Pereira, em 1757, registrou que

[...] em todo Estado do Brazil não há Freguezia de peior nome, que esta de Jeremuabo, de tal sorte, que seu nome, he ouvido com temor em todos as partes. Os naturais, e moradores saindo para fora negão a pátria, a Freguezia, e os nãos por temor de seus malefícios. Os passageiros, que se veem obrigados a passar por ella com seus combyos, gados, e cavallaias, que de outros sertões escem principalmente de Jaguaribe, certão de Pernambuco, e do Piagui, o fazem com tal receio, como se houvessem de atravessar por terra de inimigos ou gentio bravo [...].154

Esses caminhos tiveram importância não apenas para a ocupação do espaço circunscrito àquela Freguesia; isso porque através daqueles caminhos era possível, atravessando para a margem esquerda do rio, comunicar-se com outras capitanias, inclusive a do Ceará Grande. Na observação de Capistrano de Abreu:

Um destes caminho antes de fixar-se, e assim não é fácil apurar qual foi seu primeiro rumo. Frei Martin de Nantes, missionário capuchinho que mais de uma vez cumpriu a jornada entre 1672 e 1683, apenas indica três pontos por onde passava: a aldeia de Canabrava, hoje Pombal, e águas do Itapecuru, Jeremoabo em águas do Vazabarris, e uma passagem no rio de São Francisco, abaixo das Ilhas Pambu e Uracapa. No princípio do século XIX a passagem era em Ibó, a pouca distância de Cabrobó. Uma delas serviam-se os correios

153 NEVES, Erivaldo Fagundes. Op. Cit., p. 262-263.

154 Relação da Freguezia de São João Baptista de Jerimuabo do certão de cima, do Arcebispado da Bahia,

pelo padre Januário Jose de Sousa, Parocho encomendado da mesma Freguezia. In: Anais da Biblioteca Nacional.Vol. XXXI. Ano. 1909, p. 231.

que transitavam entre a capital da Bahia e a do Ceará no governo de Francisco Alberto Rubim.155

Os três pontos de que fala Capistrano de Abreu logo se transformaram em importantes caminhos. Na observação de Santos, “esse deve ter sido o primeiro itinerário com o Recôncavo baiano e o São Francisco”156, onde mais tarde passaram a transitar militares, colonos, boiadas, índios. Nos pousos que estrategicamente eram escolhidos para descanso das intensas e causticantes jornadas, foram se constituindo locais de apoio para a conquista de outras localidades. Dessas destacaram-se Jacobina, no sertão central; Nossa Senhora de Nazaré do Itapecuru; Jeremoabo (já citado), mais a leste, e Juazeiro, na porção central na curva do rio São Francisco. Esses núcleos urbanos foram se constituindo no elo entre as várias partes dos sertões da capitania baiana e das demais capitanias do Norte, naquele período.157

Jacobina, a 90 léguas de Salvador, confirmou-se como principal povoação do sertão central baiano. Ficava na confluência do trânsito das boiadas que por ele se poderia atingir quase todos aqueles sertões, e isso “porque as boyadas destes Ryos vão qualificadas para a Bahia, e por lhes ficar melhor caminho pelas Jacobinas, por onde passão, & descansão. Assim como ahi também parão, & descansão as que as vezes vem de mais longe”158. Os vastos territórios que estavam sob sua jurisdição possibilitavam muitas outras atividades econômicas, o que proporcionou um adensamento populacional bastante considerável para aqueles sertões; Aires de Casal argumenta que:

A Comarca de Jacobina, que toma nome de sua cabeça, compreende toda a parte ocidental da Provincia. A maior parte consta de caatinga, e chernecas áridas, e insusceptíveis de gênero algun de agricultura, servindo só para criar gado: as serras de elevação considerável são raras, e as matas só onde o terreno é gordo, e de substância; nelas se fazem as lavouras da mandioca, milho, canas- de-açúcar, legumes, hortaliças, e os algodões.159

Esses primeiros sinais de urbanidade foram imprescindíveis para viabilizar cada vez mais a valorização econômica daqueles espaços e a exploração de novos territórios adjacentes. Quando a seca e os repentinos ataques de índios não os afetavam

155 ABREU, Capistrano de. Op. Cit., p.244

156 SANTOS, Marcio Roberto dos. Fronteiras do sertão baiano: 1640-1750. (Tese). São Paulo: USP,

2010, p. 164

157 SANTOS, Marcio Roberto dos. Op. Cit., p.173.

158 ANTONIL. Op. Cit., p.185. Sobre as origens de Jacobina, ver: SILVA, Fabiana da. O Trem das Grotas:

A ferrovia Leste brasileiro e seu impacto social em Jacobina (1920-1945). Santo Antonio de Jesus: Bahia. UNEB, 2009, p. 45-46 e VIEIRA FILHO, Raphael Rodrigues. Negros em Jacobina (Bahia) no século XIX. São Paulo: HUCITEC, 2006, p. 39.

159 CASAL, Manuel Aires de. A Comarca de Jacobina. In: Corografia Brasílica ou a Relação Historico-

demasiadamente, muitos deles cresciam e se multiplicavam de forma rápida e consistente. Na jurisdição dessa povoação foram construídas importantes Missões, em sua maioria de índios Kariri que, depois, transformaram-se em freguesias; dentre elas, Natuba, Cana Braba, Sorobabel. Segundo Silva:

para a parte do poente e no fim da Freguesia em distância da Matriz dez legoa na opinião dos moradores, se acha hua aldeia de índios denominados e regidos pelo Reverendos Padres da Companhia de Jesus chamada Natuba, e outra chamada Canabraba dos mesmos padres em distancia de 14 legoas pouco mais ou menos: e vizinha da dita igreja Matriz duas legoas fica outra Missão, ou aldeia e Indios dominados pelos Religiossos Franciscanos e todas com muito boas, e bem ornadas Igrejas onde acontecem todos os sacramentos.160

O terceiro caminho, o dos sertões de cima, era ramo de muitos outros, cujo percurso principal partia de Cachoeira (no recôncavo) e, depois de ziguezaguear pelos sertões, chegava em Jacobina. Dali, numa quase linha “reta”, alcançava-se um lugar de passagem denominada Missão de Juazeiro, onde se cruzava com o caminho que vinha diretamente do Recôncavo. Sobre essas aberturas que levavam e traziam gente e gado, memórias e experiências, Capistrano de Abreu considerou que

À medida que o gado ia subindo o São Francisco, o caminho de Jeremoabo ia perdendo as comodidades que antes oferecia; e impunha-se a criação de novos caminhos, os de Jacobina, Itapecuru e outros, substituindo hoje em sua missão histórica pela estrada de ferro de São Francisco. O caminho de Joazeiro ilustra uma página lapidar o venerando Martius, que por ele seguiu viagem para o Maranhão. De passagem se note que o caminho de juazeiro se conta entre o menos antigo da Bahia antes via de vazão que penetração.161

Juazeiro foi a primeira Missão de maioria Kariri na curva do curso do Médio São Francisco. Dado ao intenso fluxo de passagem dos colonos para os sertões do Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará, logo se transformou num importante núcleo urbano que ligava Salvador a essas capitanias. No século XIX, provavelmente entre os anos de 1817 e 1819 passaram por lá os viajantes naturalistas Joham Baptist von Spix, Karl Friedrich Phiplipp von Martius e também James Hendeson. Indo para o Maranhão, esses indivíduos documentaram em ricos detalhes a paisagem social e natural daquela região. Sobre a travessia, Karl Friedrich Phiplipp von Martius e Joham Baptist von Spix fizeram a seguinte descrição;

Essa passagem do Rio São Francisco é a mais frequentada de todo o sertão da Bahia, e mais importante do que as outras que ficam junto das Vilas de Pilão Arcado, de Barra do rio Grande e de Urubu. Por aí se faz comércio do interior do Piauí e Maranhão, assim como, por essas vilas acima mencionadas, aquela

160 SILVA, Fabiana da. O Trem das Grotas: Op. Cit., p. 223. 161 ABREU, João Capistrano de. Op. Cit., p. 244-245.

para Goiás e Mato Grosso. O mais importante e artigo do trânsito é gado para corte dirigido à Bahia.162

Além da Missão de Juazeiro foram construídas outras, as quais possibilitaram a evangelização dos ainda “selvagens” habitantes daqueles sertões adjacentes. Em 1758, o Desembargador Thomaz Roby de Barros Barreto, ao escrever sobre a navegabilidade do São Francisco, citou essas Missões. Segundo ele,

Este rio começa a encher comumente no mez de outubro e a mais segura e boa nevegação dele he de dezembro athe mayo: sahindo da Parateca ate o Paulista (viagens de muitos dias) não há risco em tempo algum; este lugar he um morro de arêias muy alto da parte de Pernambuco, ao pé dele faz volta o rio; fervem a fazem as agoas hum tal remanso, que nelle tem naufragado muitas embarcações[...]Porem os práticos e os que navegão com advertência encostão a esta parte da Bahia e passão a salvamento. Este lugar fica debaixo da Villa Nova do S. Francisco da Barra do Rio Grande do Sul 10 ou 11 legoa. Deste dito lugar seguese a mesma boa navegação, por espaço de 5 ou 6 dias até se tomar piloto para passar a primeira cachoeira [...]163 desta cachoeira athe São

Gonçalo não sey, que legoa medão: neste lugar se tirou em outro tempo salitre; nelle habitão huns poucos de Índios sem missionários. 5 legoa abaixo esta a primeira Missão do Joazeiro desta parte da Bahia, passagem Real, com estradas para todas partes. Segues-se a segunda sita na Ilha do Pontal, em distancia de 12 legoas abaixo, outras 12 na Ilha dos Caripôs esta a terceira. Segue-se a quarta Missão distante 2 legoas, sita na Ilha de Unhunhu: desta para baixo couza de hua legoa esta hum grande perigo, a que chamão a Panella, em que tem naufragado muitoa gente sempre nas faltas de agoa e pouca advertencia. Desta Ilha e lugar ate outra nossa do Sorobabé medião 24 legoas com pouca diferencia: neste espaço estão 6 missões, que regem os Religiosos Capuchinhos; nesta distancia tem varias cachoeiras, porem todas se passão com facilidade, porque nas ditas Missõens tem pilotos muy destros e peritos; 5 estão em Ilhas e só a ultima, que he Rodellas, esta em terra firme, parte da Bahia. Desta Ilha Sorobael são duas legoas e nella esta a nossa quinta Missão desta a Fazenda da Tocatiara fazem 6 ou 7 legoas ate esta dita Fazenda ou ainda mais ou duas legoas abaixo, podem chegar embarcaçõens e não mais. Daqui para baixo até o Jacare, a que chamão rio baixo, só se anda por terra e são menos de 40 legoas: depois da sobredita Fazenda 7 ou 8 esta a nossa sexta missão do Curral dos Boys, e he a ultima do Rio de cima.164

Nesse ritmo, ao principiar o século XVIII, quase todos os sertões baianos estavam recortados por esses caminhos em que transitavam não apenas tangedores de gado, mas também religiosos e muitos indivíduos em busca do ouro, do salitre, de mão de obra nativa, dentre outros bens naturais, e tropas para dar combates aos Tapuias arredios, como já visto. Dessa forma, os sertões baianos iam se constituindo pelos entrecruzamentos de vários percursos, onde os espaços iam sendo construídos/praticados

162 MARTIUS, Karl Friedrich Phiplipp von e SPIX, Joham Baptist von. In: SILVA, Leonardo Dantas;

MAIOR, Mario Souto. (Orgs.). A Paisagem pernambucana. Recife: FUNDAJ, Editora Massagana, Secretaria de Educação, Cultura e Esportes, 1993, p.84.

163 Hoje Cachoeira de Sobradinho

164 Relatorio do Desembargador Thomaz Roby de Barros Barreto, dirigido ao Rey D. José, sobre os

exames, que fora mandado na Serra dos Montes Altos para se avaliar a produção de salitre, a exploração e estudar os melhores meios de condução para a Bhia e outros portos da Costa em 14 de dezembro de 1758. In: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Vol. XXXI. 1909, p.314. Grifos meus.

pelos inúmeros indivíduos envolvidos nas interações de suas diferentes experiências. Nos espaços mais promissores daquela capitania, especialmente os situados à margem direita do rio, as populações ali concentradas assinalavam os “limites” fronteiriços dos chamados “sertões de dentro”. Uma vez transposto, abre-se os caminhos mais para o norte, em especial, o sul da província do Ceará.

A margem direita do São Francisco, significou um pouso, uma pequena pausa no ritmo de expansão. O rio, nesse momento, assume um caráter emblemático ao mesmo tempo em que se transforma num divisor, num marco, numa fronteira natural onde as possibilidades de interação com os povos da outra margem se tornava temporariamente uma “incógnita”. Assim,

O Rio e Sertão se configuravam, então, como espaço de fronteira, no sentido proposto por Russel Wood, de limites entre dois pólos, nem sempre antagônicos, e, também como fronteiras meteóricas, consideradas por aquele autor, como o lugar de encontro entre diferentes culturas. Quem eram os primitivos habitantes dessa região e como esse povoamento inicial sofreu impacto com a interiorização dos portugueses.165

Zona de conflitos e intercâmbio, o rio/fronteira não é passível de alargamento, deve ser transposto sobre suas águas ou por passagem, ponte que “ora solda ora contrasta insularidades. Distingue-as e as ameaça. Livra do fechamento e destrói a autonomia”166. Assim, transitando pelas águas/ponte/passagem, os caminhos do gado e seus agentes se libertam da margem que, por um momento, fechavam-lhes horizontes e perspectivas, e passam novamente a alargar novas fronteiras, destruir/construir novos espaços rumo aos sertões, especialmente os do Sul do Ceará. Para onde se convergiam outros caminhos.