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Nesta pesquisa trabalhei com as diferentes imbricações entre passado e presente, memórias, imagens e fatos que compõem a história e o histórico de vida de Fernando, entrecruzando-os com a história de Inácio, deste pesquisador, como a trajetória da Companhia de Jesus, do Colégio Anchieta e seu potencial (trans)formador.

Para construir este trabalho, fiz menção aos principais documentos da Companhia de Jesus: Fórmula do Instituto, Exercícios Espirituais, Congregações Gerais, Ratio Studiorum, Características da Educação da Companhia de Jesus, Pedagogia Inaciana e Projeto Educativo Comum, sempre atento ao carisma e espiritualidade fundacional visando a construir o cenário que abriga o professor Fernando. Também busquei nos materiais pedagógicos do Colégio Anchieta balizadores para formatar minhas respostas. Além dessa documentação, foi fundamental para a narrativa a escuta de diferentes atores que compuseram e compõem essa história: professores, ex-professores, diretores, ex-diretores e ex-alunos. A partir desses relatos, pude, ao entrelaçar os testemunhos, compor a narrativa numa linha de análise que me ajudou a revelar um retrato dessa história de (trans)formação. Os referenciais teóricos serviram como reforço para a narrativa do posicionamento e do vivido empiricamente.

A figura 7 retrata um importante momento dessa trajetória de vida, pois, como em toda narrativa, a subjetividade aflora e desvela o que o tempo não pode apagar e merece consideração na história da instituição bem como da história da educação. É o que percebo nesse registro de uma turma só de meninos e professores homens.

Figura 7 – Foto da turma de alunos Colégio Anchieta do ano de 1958 com professor Fernando

Fonte: Arquivo do Museu Anchieta de Ciências Naturais

Como expresso na foto, também ao longo do texto busquei as interconexões da tradição jesuíta e os processos de mudança necessários a cada época. Mais especificamente, busquei as relações com alguns aspectos típicos da vida de Inácio de Loyola, dos Exercícios Espirituais, considerando a apresentação filosófica da Pedagogia Inaciana praticada no Colégio Anchieta e acompanhando a trajetória do professor Fernando, além de assumir,, também, o percurso das minhas vivências e experiências como pesquisador. Parti do princípio de que essa proximidade com os jesuítas existe e se faz presente no cotidiano; mas, buscando rigor científico, senti a necessidade de conhecer em maior profundidade, e com isso pude destacar elementos significativos para compreender o processo e os efeitos singulares e plurais dos achados de pesquisa dessa história de vida. A escolha dos sujeitos das entrevistas dessa pesquisa foram ganhando significado e ressignificaram a opção dos conceitos teóricos adotados.

Assim, saliento que nesta dissertação trabalhei com a metodologia da narrativa em uma história de vida, depoimentos, entrevistas e outros documentos. São materiais de acervo do Museu de Ciências Naturais do Colégio Anchieta – trabalhos desenvolvidos ao longo dos 123 anos do Colégio Anchieta e do recorte de 54 anos de atuação do Professor Fernando em registros de fotos, publicações, depoimentos, entre outros.

A pesquisa autobiográfica é entendida como “[...] uma forma de história autorreferente, portanto, plena de significado em que o sujeito se desvela, para si, e se revela para os demais” (ABRAHÃO, 2004, p. 202). Para ser mais preciso:

As (auto)biografias são constituídas por narrativas em que se desvelam trajetórias de vida. Esse processo de construção tem na narrativa a qualidade de possibilitar a autocompreensão, o conhecimento de si, àquele que narra sua trajetória. (ABRAHÃO, 2004, p. 203).

Em relação à fecundidade e à potencialidade da abordagem autobiográfica da história de vida ou, mais especificamente, da pesquisa narrativa, busquei suporte teórico nas sistematizações construídas por Nóvoa e Finger (1988), Dominicé (1988, 2003) e Josso (1988, 2002, 2010), por compreender as contribuições e os avanços que esses autores apresentam frente às experiências desenvolvidas com pesquisas sobre histórias de vida.

Para Nóvoa e Finger (1988, p. 22) “[...] o método (auto)biográfico, que se veio a revelar não é apenas um instrumento de investigação, mas também (e sobretudo) um instrumento de formação”, entendendo como processo de (trans)formação que dá visibilidade às vivências e experiências ao percurso da vida. Escolhendo-se o método (auto)biográfico, é possível perceber frente a quais elementos se constroem a identidade e o sentimento de pertencimento, do ponto de vista do sujeito pesquisado e do próprio pesquisador ao dar-se conta de que, expressando em palavras o que são aspectos do autoconhecimento e autodesenvolvimento, falando de si, é que se dá forma e estrutura ao método.

A análise da entrevista, de acordo com Bardin (2010 p. 170), parte de uma concepção de discurso como palavra em ato, considera a produção da palavra como um processo.

[...] O discurso não é transposição transparente de opiniões, de atitudes e de representações que existam de modo cabal antes da passagem à forma linguageira. O discurso não é um produto acabado, mas um momento num processo de elaboração, com tudo o que isso comporta de contradições, de incoerências, de imperfeições.

Para Josso (2002), o método (auto)biográfico valoriza características essenciais como historicidade e subjetividade. Essa perspectiva abre campo para reflexão e narrativa sobre o vivido, acolhendo os movimentos desse desenvolvimento humano. A técnica do trabalho com história de vida, inerente ao método autobiográfico, constitui-se pela análise de narrativas em que se desvelam trajetórias de vida para uma melhor compreensão do processo (trans)formador.

Para Abrahão (2004, p. 203), “[...] esse processo de construção tem na narrativa a qualidade de possibilitar a (auto)compreensão, o conhecimento de si, àquele que narra sua trajetória.” Esse instrumento oferece ao pesquisador a oportunidade de trabalhar com emoções e intuições, expressas mediante rememoração dos fatos vividos. Assim, não se trata de considerar a análise como pressuposto de dados exatos, objetivos, mas de olhar para o que não pode ser concretamente visto, para as subjetividades.

Para Josso (2002), diante das reflexões sobre nossa vida, podemos torná-las, mais do que um discurso de si possível e necessário, “projetos de si” que fazem o sujeito reconhecer- se como único porque singular. Nesse sentido, há a opção pela prática dialógica entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa, dá a possibilidade de compreender a história de vida, através da narrativa e da memória, entendendo-a como um ato que faz reler a vida como um texto (RICOEUR, 2010).

Dessa forma, as entrevistas realizadas nesta dissertação compõem fontes importantes para a compreensão de (trans)formações das diferentes realidades, algumas, inclusive, fora do Brasil. Assim, realizei entrevistas semiestruturadas individuais, por e-mail, pessoalmente, e por telefone, especialmente com ex-diretores, reconhecendo-os como grandes gestores, que muito contribuíram para o êxito e a modernização da escola, com inovações na gestão.

Os nomes que têm relação direta com o professor Fernando Meyer, ainda hoje, e que fizeram parte dessa construção da sua história de vida, são: Pe. João Roque Rohr, Pe. João Claudio Rhoden e Pe. João Darci John. Destaco, também, Prof. Luiz Osvaldo Leite, na qualidade de colega e amigo, pesquisador do pensamento rio-grandense pela UFRGS, assim como: Emílio Jeckel, ex-aluno do professor Fernando, junto com Dorinha Müller, Silvia Cramer e Paulo de Tarso, colegas de trabalho, além de depoimentos de ex-alunos e de sua esposa, Isis Meyer.

Conforme quadro 2, com essas entrevistas, realizei novas descobertas sobre a influência da paixão e compaixão ao ensinar, como fator que gera identidade e sentimento de pertencimento, peculiares à Pedagogia Inaciana do século XVI e que continuam na à contemporaneidade no fazer pedagógico do Colégio Anchieta. Portanto, entendo a entrevista como uma fonte que evidencia a elaboração individual e coletiva do passado na sua relação com o presente, na qual as narrações entrecruzam-se e buscam fatos já passados entrelaçados com a memória de hoje.

Para concluir, como afirma Nóvoa (1988, p. 44) “[...] todas as narrações autobiográficas relatam, segundo um corte horizontal ou vertical, uma práxis humana

(Erlebnis)”, gerando assim, conhecimento científico que requer uma hermenêutica interativo- social.

Quadro 2 – Dos entrevistados

Nome Função Situação atual

Pe. João Roque Rohr, SJ

Diretor Geral de 1975 a 1982, reassume em 1987 a 1988 quando é eleito Provincial

Reitor do Pio Brasileiro, Roma, Itália.

Pe. João Cláudio Rhoden, SJ

Diretor do Curso Noturno de 1974 a 1983, de 1979 a 1984, Diretor do Ensino Médio.

Diretor Geral Colégio Anchieta desde Março 2012.

Ir. Celso Schneider, SJ Diretor Acadêmico de 1993 a 2009 e Diretor Geral interinamente em 1998, quando Pe. Franz, enfermo, deixa a Direção.

Diretor do Instituto Assistência e Educação São Canísio – IAESC, Sede Capela, Itapiranga, SC, desde 2010.

Fernando Rodrigues Meyer

De 1947 a 1956. aluno do Ginasial Colégio Anchieta da Av. Duque de Caxias (Antigo Anchieta); de 1958 a 2012, com vínculo profissional, torna-se educador do Colégio Anchieta, sendo professor do Primário de 2/1/1957 a 30/3/1984; Diretor do 2º grau de 1984 até 1987; Auxiliar Administrativo do Curso Noturno – Ensino Médio de 1987 a 1993; Professor do Ensino Médio1994; Diretor do Museu de 1995 até a atualidade (2012).

Diretor do Museu Anchieta de Ciências Naturais desde 1995 a 2012.

Raul Regadas Ex-aluno do Velho Anchieta da Duque de Caxias, 1958 a 1960

Diretor do Colégio Militar - aposentado.

Emílio Jeckel Ex-aluno de 1975 e ex-professor Diretor do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS

Sílvia Cramer Professora do Colégio Anchieta desde 1989

Professora do Colégio Anchieta. Dorinha Müller Professora do Colégio Anchieta desde

1985

Professora do Colégio Anchieta. Tatiane Ayala Waldow Professora do Colégio Anchieta desde

1998, hoje é Orientadora Religiosa de 1º ao 4º Ano.

Professora do Colégio Anchieta

Delvino Algieri Ex-professor do Colégio Anchieta de 1967

Professor aposentado

de 90 Anchieta

Sacha Ries Aluno do Colégio Anchieta Aluno do 3º Ano Ensino Médio do Colégio Anchieta

Gabriel Terra Aluno do Colégio Anchieta Aluno do 5º Ano Ensino Fundamental I do Colégio Anchieta

Isis Meyer Ex-funcionária do Colégio Anchieta de 1975 a 1988

Esposa de Professor Fernando Meyer

Ivone Meyer Ex-aluna de 1971 a 1982 Filha do Professor Fernando e de Isis Meyer; hoje trabalha como professora no Rio de Janeiro. Fonte: Elaborado pelo autor

4.4 SUJEITOS DA PESQUISA

Bardin (2010, p. 31) define a análise de conteúdo como um conjunto de técnicas de análise da comunicação. Tais técnicas visam a obter, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição dos conteúdos das mensagens, indicadores (quer quantitativos, quer qualitativos) que propiciem a inferência relativamente às condições de produção e de recepção dessas mensagens. Dessa forma, facilita o desenvolvimento e a abordagem das especificidades do sujeito pesquisado, permitindo utilizar o método (auto)biográfico e identificar os fatores constituintes da (trans)formação.

Ao revestir-me do meu papel de pesquisador, coloco-me, sobretudo, como autor da minha trajetória de formação. Assim, vivencio na investigação o meu percurso pessoal e profissional em uma (auto)leitura que me levou à construção do tema que me inquieta e me move a novas indagações, justificando e legitimando a escolha pelo sujeito a ser estudado com maior profundidade nesta dissertação de mestrado.

O sujeito da minha pesquisa, o professor Fernando Meyer, tem 54 anos de experiências vividas no Colégio Anchieta e é coordenador do Museu Anchieta de Ciências Naturais. Ele está ligado ao Colégio Anchieta desde 1957, quando era aluno e tornou-se discípulo do Pe. Pio Buck e do Pe. Balduíno Rambo (SPOHR, 2011), este referência internacional no meio científico com seus trabalhos na área das ciências naturais, mais especificamente a botânica. Foram essas as fontes que alimentaram o professor Fernando: ali estavam modelos de conhecimento, competência e autonomia a serem seguidos. Encontrou

Benzer Belgeler