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A visão de Jean Piaget observa algo que muitos estudiosos defendem e apregoam em suas teorias, que é, a considerável influência que o ambiente de convívio diário exerce na formação de uma pessoa. Sendo psicólogo e epistemólogo Piaget entendia que os valores morais são construídos a partir da interação do sujeito com os diversos ambientes sociais como: família, escola, amigos, sociedade e meios de comunicação.32

32 Yves de LA TAILLE; Marta OLIVEIRA; Dantas HELOYSA, Teorias psicogenéticas em discussão, p.

Ele argumenta que é durante a convivência diária, com adultos e seus pares em situações diversas e em meio a problemas diversos, que a criança irá construir seus valores, princípios e normas morais.

Esta afirmação coloca uma forte carga de responsabilidade sobre as pessoas envolvidas no convívio de alguém, sobretudo no período da infância, quando este ambiente passa a ser um dos responsáveis por grande parte da formação da mesma. Para Piaget todo o contexto relacional de alguém vem a ser fator fundamental na formação desta pessoa, em especial de suas concepções e assimilações sócio relacionais.

A obra de Levy-Bruhl, sobre a ciência dos costumes, escrita no início do século XX, parece ter inspirado Piaget. Ele criticava a chamada moral teórica, atribuindo a ela alguns erros, entre eles: a crença numa natureza humana, a conformação à consciência moral da época, a crença na harmonia da consciência moral humana e a confusão feita entre explicação e normatização.

Foi daí que Piaget procurou através do método científico pensar e explicar a moralidade humana dentro de relacionamentos interpessoais, utilizando em primeira instância, a observação e a pesquisa com o comportamento das crianças. Piaget lançou mão de situações de jogos com crianças para avaliar o respeito às regras, relacionando, posteriormente, seus resultados aos relacionamentos sociais e o respeito às suas regras.

Para ele toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras.33 Essa aquisição do respeito às regras foi o foco de sua pesquisa sobre o desenvolvimento da moralidade em relacionamentos.

Essas regras seriam transmitidas pelos adultos, sendo este, filtro ou fonte de regras. Após observação e pesquisa, Piaget concluiu que existe uma diferença entre a prática da regra e a consciência de mesma, e lançou a hipótese da existência de duas morais. A primeira, advinda da coação, a qual associa o bem ao que advêm de uma autoridade, e a segunda, proveniente de relações de cooperação e que associa o bem ao respeito mútuo.34

Neste sentido, pode-se observar a relação dos estudos de Piaget com os realizados por Emanuel Kant quanto aos fatores de formação social relacionados à autonomia e a heteronomia. O que seria para Piaget a moral advinda de uma ação de coação, pode ser o que Kant chamaria de ação heterônoma, que é imposta. E a moral advinda de uma ação cooperativa, que produz uma ação espontânea, seria o que Kant chamaria de autonomia.

A primeira moral advinda da coação, associa o bem, ao que advêm de uma autoridade, e tem como resultado a formação de uma moral heterônoma. E a segunda, proveniente de relações de cooperação, associa o bem, ao respeito mútuo e leva à formação de uma moral autônoma – uma assimilação racional do motivo da regra.35

Piaget identificou quatro estágios de prática de regras e três estágios de consciência de regras que de certa forma acompanham os estágios de desenvolvimento intelectual: na prática das regras, o primeiro estágio de 0 a 2 anos, chamado de motor e individual, a criança se comporta conforme seus desejos e hábitos, nele só existem regras motoras. O segundo estágio de 2 a 5 anos, o indivíduo é egocêntrico, imita regras, mas joga sozinho sem precisar vencer. O terceiro estágio de 7 a 8 anos, envolve cooperação, controle e unificação das regras,

34 Jean PIAGET, O juízo moral da criança, p. 40. 35 Ibid.

para este estágio vencer é essencial, porém há uma variação na interpretação das regras. O quarto estágio de 9 a 11 anos, faz a codificação das regras, há concordância em relação às regras e variações não são permitidas.

Quanto à consciência das regras, Piaget identificou três estágios. No primeiro estágio, a regra não é coercitiva, ela é puramente motora, no segundo, começa no meio da fase egocêntrica e vai até a metade do estágio da cooperação, a regra é sagrada, de origem adulta externa e a modificação desta significa transgressão, e no terceiro, a lei é advinda do consentimento mútuo, o respeito à regra é obrigatório e sua modificação deve ser consensual.36

Na prática das regras, a criança parte de uma anomia, que é a inconsciência de regras, passa pela simples imitação da regra à unificação da regra, até a codificação dela. Ela ignora a regra, depois a imita, pratica como pode e depois codifica e conhece a regra praticando-a.

Já quanto à consciência da regra, isto é, a compreensão do porque da regra, a criança inicia inconsciente à prática obrigatória da regra, depois passa do estágio onde a regra é sagrada até o estágio onde ela interioriza a regra coletiva, e esta aparece como livre resultado do consentimento mútuo e da consciência autônoma. A contribuição social é essencial para que a consciência da regra se desenvolva. Sem as relações sociais o indivíduo permanece egocêntrico e imitador.37

Por fim, Piaget afirma em uma máxima coerente com sua pesquisa que a consciência moral das regras nasce da cooperação entre indivíduos e do respeito mútuo. Neste sentido se observa que a presença da ação consciente de Kant é mais uma vez observada em Piaget, e justifica que o ato autônomo concebe segurança

36 Jean PIAGET, O juízo moral da criança, p. 297.

inter-relacional, produz a consciência de igualdade e evoca a idéia de justiça, que, por sua vez, leva à apreciação da razão das regras.

Por outro lado, a ação isenta desta consciência moral, que é a ação heterônoma, desenvolve o senso ego-centrado ou individualista, pois não é cooperativa, concebe tensão ao relacionamento, podendo ser produtor de conflito.

La Taille, comentando Piaget, descreve a fase denominada de “realismo moral”, como aquela onde a criança ainda não é consciente da intencionalidade por trás dos atos, no que diz respeito ao juízo moral e as regras ainda não compreendidas. Para ela o dever significa tão somente obediência a uma lei revelada e imposta pelos adultos, a qual ela deve obedecer.38 Da mesma forma como na relação heteronomia, onde o respeito à regra advêm da junção entre o amor e o medo que a criança sente pela autoridade produtora da regra, ela está diretamente relacionada à determinada sanção, o que por sua vez não produz resultados pacificadores no relacionamento.

Mais tarde, no estágio da autonomia, a criança compreenderá os deveres como decorrentes de obrigações mútuas que implicam acordos entre as consciências e não mera conformidade das ações a determinados mandamentos.39 Este respeito se desliga da autoridade e a relação de amor e medo se volta para o igual. A construção da autonomia, por conseguinte, exige interação e aprendizado da cooperação como base para bons relacionamentos interpessoais.

Quanto à relação entre moral e conflito interpessoal, Piaget entende que conflito ocorre tanto no interior do sujeito como entre os indivíduos, e os vê como necessários ao desenvolvimento através do processo de equilibração e assimilação que levaria à construção de conhecimentos, quer sejam cognitivos, afetivos ou

38 Yves de LA TAILLE, A dimensão ética na obra de Jean Piaget, p.79. 39 Ibid., p. 79.

sócio-morais.40 Pode-se concluir que para Piaget o conflito tem um valor construtivo

e pode ser visto como instrumento de amadurecimento interpessoal.

Através de suas pesquisas sobre o surgimento do respeito às regras e leis e construção da moralidade, Piaget também concluiu que a prática e a consciência das regras são duas coisas distintas, porém, em existindo a consciência das regras, um relacionamento social pode desfrutar do chamado processo de equilibração e assimilação (conflito e resolução) que leva à construção de conhecimentos.

Assim como Kant, Piaget entendeu também que um ato que não contemple a racionalidade, o que ele define como consciência de uma regra, compreensão do porque ela existe, não desenvolveria relações equilibradas, podendo este dar espaço para a origem e crescimento de desajustes relacionais. Para estes autores o cumprimento de regras deve considerar algo que vai além do conhecimento puro e simples das mesmas, ele deve partir da compreensão através da ótica racional cooperativa, onde o bem comum deve ser apreciado.

Piaget coloca a cooperação como fator primordial para o desenvolvimento da consciência das regras, ele define cooperação como sendo o estabelecimento de trocas equilibradas com o outro. Tal atitude provoca descentração, que resulta na diminuição do egocentrismo.41 É importante observar que na medida em que esta diminuição do egocentrismo se estabelece o senso de individualidade, competição e influência diminuem. E à medida em que esta diminuição acontece se afrouxa também a tensão relacional ou a ansiedade produzida pelo desequilibrio no relacionamento interpessoal.

E por fim, Piaget concebe a idéia de conexão, como resultante de um processo de relações interpessoais em superação e equilíbrio que é baseado no

40 Yves LA TAILLE, Marta OLIVEIRA, Dantas HELOYSA, Teorias psicogenéticas em discussão, p. 14. 41 Telma VINHA, O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista, p. 42-45.

conhecimento. Piaget formulou que é necessário que haja conhecimento para que exista desenvolvimento interpessoal. É necessário também que haja confrontação, comparação e reflexão do processo interativo para que haja avanço no entendimento coletivo.42

Estas assertivas sobre crescimento interpessoal e superação, em sua teoria do desenvolvimento, reafirmam o papel do conhecimento inter-relacional como fundamental. Assim sua dinâmica, seus conflitos e sua esperança são objetos de pesquisa necessários para o entendimento e superação dos conflitos.

Benzer Belgeler