2.2. Hegemonik ve “Öteki” Erkeklik Olgusu
2.2.1. Beden Sosyolojisi Bağlamında Hegemonik ve “Öteki” Erkeklik
Na América do Sul, encontram-se dois arranjos de transparência de expressiva importância para o relacionamento bilateral dos países envolvidos: o exercício realizado entre Argentina e Chile entre 1999-2001, com o apoio da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), para apresentação de seus gastos militares, e a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Materiais Nucleares (ABACC). Importante ressaltar, no entanto, que esta última não se refere estritamente ao campo militar. Seu objetivo visa garantir que todas as atividades nucleares de ambos os países estejam orientadas a fins pacíficos. Apesar de sua importância, nos limitaremos à análise das características técnicas e metodológicas do mecanismo entre Argentina e Chile. A experiência bilateral permite uma comparação com a ferramenta de medição de gastos militares do CDS, objeto de nossa pesquisa.
Tendo em conta os valores afirmados pelas Declarações de Santiago e San Salvador, na ocasião da quinta reunião do Comitê Permanente de Segurança (COMPERSEG), Argentina e Chile acordam requerer à CEPAL a realização de um estudo técnico referente ao estabelecimento de uma metodologia padronizada para a medição de gastos de Defesa entre os dois países que, eventualmente, poderia se estender para o âmbito regional. Apesar do otimismo com o qual a CEPAL recebeu tal tarefa, os desafios eram inegáveis. As diferentes estruturas burocráticas dos países demandavam a realização de um amplo estudo no sentido de encontrar uma arquitetura institucional que comportasse tais distinções. Assim sendo, um grupo técnico binacional foi reunido para a tarefa.
Na data de comemoração dos cem anos do “Abraço do Estreito de Magalhães”192,
os presidentes Carlos Saúl Menem e Eduardo Frei Ruiz-Tagle, respectivamente da Argentina e do Chile, firmaram uma declaração conjunta ressaltando a amistosa relação vivenciada pelos dois países naquele momento. No documento assinado em Ushuaia, foi saudada a iniciativa em conjunto com a CEPAL, assim como os avanços das reuniões dos Ministros de Defesa e Relações Exteriores dos respectivos países. Ressaltou-se ainda a importância da participação dos países nos mecanismos de transparência militar mantidos pelas Nações Unidas, demonstrando comprometimento com a questão.
192 Evento histórico que precedeu a assinatura dos Pactos de Mayo em 1902 para limitação de armamentos
Como já mencionamos anteriormente, a publicação dos Livros Brancos de Defesa (LBD) chileno (Libro de la Defensa Nacional) e argentino (Libro Blanco de la República
Argentina), de 1997 e 1999 respectivamente, representa um sinal da vontade política de
ambos os governos em fomentar a confiança regional e a transparência militar. No que tange aos gastos militares em perspectiva internacional, o LBD do Chile adianta-se na questão da transparência. Em seu texto, lemos: “cremos ser imprescindível um acordo internacional sobre a adoção de uma metodologia padronizada que permita a comparação de cifras e evite um debate suscetível à manipulação”193. Tal declaração indica o início
de um processo de maturação da proposta realizada posteriormente em conjunto com a Argentina.
No ano 1999, um documento informal relacionado ao projeto foi redigido por um grupo ad hoc de caráter consultivo. Por meio deste, foram apresentadas à CEPAL algumas diretrizes a serem seguidas na elaboração da metodologia em questão. Preliminarmente, o documento intitulado “Medição Padronizada de Gastos Militares” define que o termo “Defesa” refere-se “a todas as atividades que têm como efeito a salvaguarda da soberania nacional. É seu objetivo atingir um nível de segurança externa que irá permitir o país alcançar seus objetivos nacionais”194. Tendo em conta tal definição, depreende-se que o
entendimento de gastos militares refere-se a todos os investimentos realizados pelo Estado circunscritos no conceito de Defesa acima descrito195.
Seu objetivo também é clarificado: “o modelo deve ser desenhado para permitir uma comparação racional dos gastos, de maneira que sua utilidade enquanto medida de incremento à transparência e à confiança seja garantida”.196 Uma das metas principais da
iniciativa é a possibilidade da identificação de padrões e tendências nos gastos militares em perspectiva temporal. Não obstante, o documento exige que o mecanismo não seja analisado sozinho, mas sim contextualizado em um quadro mais amplo de medidas bilaterais de fomento da confiança já implementadas à época.
Dentre as diretrizes contidas no “Medição Padronizada de Gastos Militares”, é assinalado que na medição dos gastos militares todas as formas de financiamento das
193 CHILE. Ministerio de Defensa Nacional de Chile. Libro blanco de la defensa 1997. p. 14. Disponível
em: <http://www.defensa.cl//wp-content/uploads/LIBRO-DE-LA-DEFENSA-NACIONAL_1997.pdf>. Acesso em: 03 maio 2013.
194 ECONOMIC COMISSION FOR LATIN AMERICA AND CARIBBEAN. A common standardized
methodology for the measurement of defense spending. Santiago: Office of the Executive Secretary,
2001. Annex 2, p. 53.
195 Idem.
atividades de Defesa devem ser contabilizadas, ainda que não sejam procedentes do Ministério da Defesa. Essa especificação permitiu que fontes de financiamento da Defesa exteriores ao Ministério da Defesa fossem incluídas nos cálculos, como o regime especial de financiamento das Forças Armadas chilenas referente à Lei do Cobre. A legislação impõe uma taxa de 10% às vendas do cobre de maneira a gerar capital para a compra de armamentos197. O objetivo inicial da medida era prover às Forças Armadas uma fonte
perene de financiamento, incólume às mudanças políticas. Em 1985, uma modificação foi realizada na lei modificando o piso mínimo, que era de noventa milhões de dólares198,
para cento e oitenta milhões de dólares de repasse à Defesa199. Ademais, o mecanismo
permite que empréstimos sejam feitos sobre receitas ainda não geradas.
Outra adequação foi a dedução de alguns gastos executados sob o arcabouço institucional do Ministério da Defesa que, porém, não se relacionavam com a defesa do país. No exercício executado pelos dois países, por exemplo, os gastos realizados com Conselho de Aviação Civil e com o Conselho de Águas Territoriais foram deduzidos dos cálculos de gastos militares do Chile, ainda que estivessem subordinadas ao Ministério da Defesa. Os investimentos efetuados no Instituto Geográfico Militar, Serviço Hidrográfico e Oceanográfico, e Serviço Aerofotogramétrico da Força Aérea Chilena também foram deduzidos. No que concerne à Argentina, diversos ajustes referentes às cifras direcionadas aos privilégios e direitos dos militares, tais como, educação e saúde, também passaram por ajustes200.
Algumas categorias foram excluídas dos cálculos: atividades não militares (tais como as desempenhadas pelos Carabineros201 no Chile e a Gendarmería na Argentina);
Indústria de Defesa e Pesquisa e Desenvolvimento não relacionadas à defesa, Atividades
197 Inicialmente, a taxação limitava-se a 7,5%. Todavia, em 1973, sob o governo militar de Augusto
Pinochet, a taxa foi elevada ao patamar de 10%. Pinochet ainda estabeleceu uma divisão igualitária entre as três Forças das receitas geradas pela lei. BROMLEY, Mark; SOLMIRANO, Carina. Transparency in military spending and arms acquisitions in Latin America and the Caribean. SIPRI Policy Paper 31. Stockholm: SIPRI. january 2012. p. 12.
198 Idem.
199 O valor ainda passa por um ajuste baseado na variação do Índice de Preços Atacadistas dos Estados
Unidos entre 1987 (ano no qual a lei foi modificada, adicionando o presente ajuste), e o ano em questão. CHILE. Ley Reservada del Cobre, lei no. 13 196. Diario Oficial de la República de Chile, 29 de out. 1958
200 ECONOMIC COMISSION FOR LATIN AMERICA AND CARIBBEAN. A common standardized
methodology for the measurement of defense spending. Santiago: Office of the Executive Secretary,
2001. Annex 2, p. 21.
201 Na época da elaboração da metodologia, os Carabineros ainda se encontravam sob arcabouço
institucional do Ministério da Defesa. Entretanto, por meio da lei N° 20.502 de 2011, foram transferidos, juntamente com a Polícia de Investigação, para a jurisdição do Ministério do Interior e Segurança Pública, criado pela mesma lei. RESDAL. Atlas comparativo de la defensa el América Latina y Caribe 2012. RESDAL: Buenos Aires, 2012. p. 160.
produtivas das Forças não relacionadas à defesa; despesas administrativas; e controle de tráfego aéreo. Outras, o documento pontua que deveriam ser analisadas com mais cautela, pois poderiam ser consideradas ou não relacionadas à defesa: atividades de serviço social, gastos com pensão militar e segurança social, operações de controle fronteiriço e paz; e atividades marítimas202.
Outro ponto metodológico de interesse é a contabilização de Ajuda Militar Externa, o que mostra a função de destaque desempenhada por esse tipo de financiamento na região. Essa característica metodológica será incorporada ao mecanismo estabelecido pelo CDS. A questão do financiamento militar externo na América do Sul será desenvolvida no capítulo 3 com mais detalhes.
Para manter um maior grau de adaptabilidade frente a diferentes situações e países, a metodologia proposta pela CEPAL possui diferentes níveis de agregação. Em cada um deles, um grau diferente de informações é exposto. Ao todo, são três categorias - G1, G2 e G3 - distribuídas de maneira crescente. Ou seja, a quantidade de informações compartilhadas aumenta em função da categoria escolhida. A mais simples, a G1, possui uma definição limitada sobre gastos de Defesa. O nível G1 corresponde
[...] a todos os gastos governamentais envolvendo a administração e o gerenciamento das funções militares da Defesa, especificamente a administração, supervisão, e o gerenciamento das forças e assuntos militares da Defesa; forças de Defesa terrestres, marítimas, aéreas e espaciais; engenharia, transporte, comunicação, informação, materiais, pessoal, comando não-combatente e outras forças; forças de reserva e pessoal de Defesa auxiliar;
e estruturas militares e equipamentos de abastecimento. 203
O nível G2, por sua vez, inclui as categorias do nível G1 mas os gastos realizados com o pagamento de pensões, compreendidas como Gastos com Pessoal Militar e Aposentadorias na Argentina e Segurança Social no Chile. Finalmente, no nível G3, o mais amplo, é alcançado pela adição das categorias de gasto militar referentes à “Indústria de Defesa e Pesquisa e Desenvolvimento”; “Outras atividades produtivas”; “Atividades produtivas empreendidas por outros órgãos públicos”; e “Ajuda militar”.204
202 ECONOMIC COMISSION FOR LATIN AMERICA AND CARIBBEAN. A common standardized
methodology for the measurement of defense spending. Santiago: Office of the Executive Secretary,
2001, p. 54.
203 Ibidem, p. 17. (Tradução nossa)