• Sonuç bulunamadı

O ponto mais central desta dissertação, no entanto, não são exatamente os objetivos que Aristófanes tinha para escrever As Nuvens e figurar Sócrates da maneira que o fez, mas a razão pela qual ele caracteriza Sócrates de uma maneira tão contraditória. Podemos ver pela repetição dos mesmos temas em diversos momentos que a principal razão é o fato de existir na Comédia Antiga um lugar comum de caracterização do pensador e mesmo do “modernista”. Podemos ver uma caracterização semelhante nas referências a Protágoras n’Os

Aduladores de Êupolis e a Pródico n’As Aves e n’As Nuvens e nas referências a outras figuras

“pedagógicas”, tais quais os professores presentes n’Os Convivas e n’As Cabras, as quais possuem uma característica inovadora. Ora, isso só nos leva a crer que não se trata de uma criação original de Aristófanes, e sim do uso que ele faz de uma tradição cômica.

No quadro dessa tradição do pensador como “modernista” figurado pela comédia, dada a escassez de fragmentos, nos é praticamente impossível estabelecer as verdadeiras origens de tal caracterização do intelectual, embora nos seja mais fácil perceber que os cômicos aproveitam se de outras figuras para moldá la.

Podemos aqui voltar a uma comédia que já comentamos, Os Aduladores de Êupolis. A comédia também possui a mais importante descrição do parasita em todo o corpus da comédia grega: " = ,- # A / # @ # & ; $ , / & # ! * # A " # - " Y 2 $ + * " , " $ + " , -1 !

$ ! *# # - " F $ * - # , , ! % 4 ' * - " D 4 % F +I # # " / # ! F # F * % . ,- E + *

Mas vamos descrever o regime que os aduladores têm junto a vós; Mas ouçai como somos homens elegantes em relação a tudo, os quais primeiramente têm um escravo a meu pé,

Ele é dos outros em muitas coisas, mas uma coisa pequena e minha dele. Possuo estes dois mantos graciosos,

Os quais trocando, sempre conduzo o outro em direção à ágora. Lá, quando vejo algum homem Estúpido, rico, logo estou junto dele

E se acontece de o rico falar alguma coisa, isto eu elogio totalmente E fico estupidificado, parecendo alegrar me com o discurso.

Em seguida vamos, um de nós pra um lugar, outro pra outro, para um jantar, Para um pão de cevada estrangeiro, do qual o adulador deve logo dizer muitas coisas Agradáveis, senão é levado para fora.

Eu sei o que Acestor, o marcado por tatuagem (ie. Antigo escravo), sofreu:

Ele disse uma piada licenciosa e o escravo, expulsando o com uma coleira de madeira

Para fora das portas.

Que os parasitas dessa comédia não são figuras anônimas, mas provavelmente compostos de pessoas famosas, fica claro – conforme vimos no capítulo anterior – pela presença de Protágoras e Sócrates, assim como pela referência a esse Acestor, que teria sido um poeta trágico187.

Podemos ver aqui alguns paralelos entre os parasitas (cujo líder, nesta comédia, é sem dúvida Protágoras) e os personagens socráticos das Nuvens. Entre os paralelos, ambos parecem pobres; este parasita, por exemplo, possui apenas dois mantos, os quais ele troca dia sim dia não para ir à ágora, o que nos remete imediatamente a uma passagem que já citamos das Nuvens, onde Sócrates rouba na mesma ágora um manto. A referência a Sócrates e a sua forma de vestir também é reproduzida em outro fragmento188 de Amípsias, que pergunta a Sócrates onde ele conseguiu o seu manto. Não apenas Sócrates e Parmênides estão presentes nesses paralelos, mas também Pródico, cujas referências na comédia são extremamente reduzidas. Também possuímos um verso que se refere ao uso ou não de um manto na comédia de Aristófanes Ταγηνίσται, que significa “os fritadores” (τάγηενον é o nome da frigideira em grego) e provavelmente trata de aduladores e parasitas.

Parece nos uma questão demasiado obscura para ser repetida tantas vezes, mas há algo de comum em toda a mentalidade grega quanto ao fato de os mendigos e aduladores

187 Cf. Σ av, 31 E ' # +I # " Este é Acestor, poeta de tragédia. 188 Fr. 9 Kock

serem vestidos pelas pessoas a quem agradam, tendência que podemos verificar surpreendentemente desde a Odisséia.

Mas não há unicamente semelhanças nessa passagem, há também uma diferença fundamental: nas Nuvens, Sócrates e seus companheiros não são adeptos do elogio como forma de obtenção de alimento. Na verdade, a ausência de alimento é uma de suas características fundamentais. Pode se concluir que, embora haja semelhanças entre as duas figuras, o pensador e o parasita, pois ambos se aproximam pela pobreza, há uma distância de comportamento.

No entanto, é possível que haja uma influência do modelo do parasita na construção dos personagens “intelectuais”, pois as referências que encontramos nos fragmentos são bastante abundantes: Sócrates nas Nuvens, no Górgias e nas Aves, Protágoras e talvez Pródico nos Fritadores. Essa é praticamente a única maneira de se explicar a figura pobre e maltrapilha dos discípulos de Sócrates na comédia, uma vez que entre as figuras mais próximas ao Sócrates histórico estavam algumas das mais ricas de Atenas, como Crítias, Alcibíades e o próprio Platão. Outros personagens intelectuais comuns na comédia também dificilmente eram maltrapilhos ou eram cercados de πτωχοί (mendigos), caso confiemos nos valores cobrados por Protágoras e Pródico.

Na verdade, talvez seja exatamente a presença de Sócrates próximo a Crítias, de Protágoras próximo a Cálias e talvez de Diógenes próximo a Péricles que tenha formado este modelo. Basta imaginar que, para um antigo, a ligação seria justamente a oposta, seria o φροντιστής que viveria junto do aristocrata e não esse que buscaria viver perto do sábio. É certa a dependência econômica destas figuras e dos poetas, como é visto na referência a um dos poetas trágicos na passagem de Êupolis, ou seja, a dependência que filósofos e poetas tinham do mecenato e da patronagem dos ricos. Isso é demonstrado em atitudes como o suporte financeiro para o estabelecimento de coros, o financiamento da produção de obras literárias ou o pagamento das lições dos sofistas.

Isso explicaria principalmente as aparições de Sócrates e Protágoras nas comédias Os

Parasitas e Conno. No entanto, nas Nuvens a situação é um pouco diferente. Especialmente

importantes são os versos 175 9:

]H _ - * * ) #

]( _ F " ) , 4 # 7

]H _ % # 4

; 2 "# F 2 2 <

Aluno: Ontem à noite não tivemos jantar

Estrepsíades: O que então arranjastes como alimento? Al: sobre a mesa, espalhando uma sutil cinza,

tendo sovado o pãozinho e em seguida, tomando um compasso, roubou o manto da palestra.

Pela citação do manto e da comida fica claro que Aristófanes está trabalhando com a tradição, basta lembrar do fragmento 9 de Amípsias que citamos no segundo capítulo. Aqui, no entanto, Sócrates – que sofre dos dois problemas básicos do parasita, quais sejam, comida e roupa – não atua como um parasita, mas vale se de outro tipo de artifício: o roubo. Ou seja, Sócrates deixa de ser um parasita, ou um mau parasita como no fragmento de Amípsias, e torna se uma espécie de marginal.

A caracterização de Eurípides e de outras figuras culturais certamente também ajudou a compor a figura do ‘intelectual’ na comédia. Nos Acarnenses, por exemplo, Eurípides surge em cena vestido de mendigo e falando sobre pensamentos refinados e com distância das coisas terrenas, o que tem uma semelhança mais do que tópica com a entrada de Sócrates nas Nuvens. Além disto, a posição de Eurípides como representante de uma vanguarda cultural faz com que ambas as figuras freqüentemente sejam colocadas em paralelo.

Benzer Belgeler