Como está previsto no ECA, o retorno da criança e do adolescente que está acolhido em abrigo deve ocorrer após um trabalho com a família, para que ela busque ressignificar as situações que estavam vivenciando e que levaram ao afastamento de seus filhos do convívio familiar.
Davi relata que esta é a esperança das crianças que vivem em abrigo: que ao retornar ao convívio de sua família de origem, as situações estivessem mudadas para melhor. Conta que, em seu caso, não foi o que aconteceu:
E quando eu saí de lá eu entrei em choque com a realidade, até mesmo com a minha família, porque minha família entrou na justiça pra poder tirar a gente de lá. Então, quando eu saí de lá foi outro choque, porque eu achava que seria diferente quando voltasse pra minha família. Porque a gente sempre acredita nisso, que quando sair do orfanato vai ser diferente, que vai ser melhor, e não foi. Quando eu saí de lá eu estava pra fazer 10 anos.
Nem sabia como eram (a família). Nem lembrava a afeição da minha mãe e nem da minha avó. E aí saí do abrigo aos dez anos e fui morar com minha avó. Mas não sabia nada, nem o nome da minha mãe eu sabia.
Vemos, assim, o menino do abrigo que não conhecia a família e que retorna ao seu convívio na esperança de encontrá-la em uma situação diferente, mas tal desejo subjetivo encontra impasse frente à realidade objetiva concreta:
Pra gente do orfanato, a gente sempre tinha essa vonta de de poder sair, ir pra rua, poder fazer o que quiser na rua, então pra mim foi novidade, e eu achava que iria ser melhor. Achava que seria melhor porque eu achava que ia conseguir a liberdade que eu tanto queria, de poder sair pra rua, soltar uma pipa, jogar uma bola, fazer outras coisas. Então eu achava que seria positivo. Mas a s dificuldades foram de adaptação, que eu sempre tive.
Podemos aqui abrir um espaço para pensar na saída de Davi do abrigo e em seu retorno à família com 10 anos de idade. Conforme já apontamos, existe um conjunto de normativas que preveem que, ao se afastar uma criança para inseri-la em uma instituição de acolhimento, não apenas a criança seja trabalhada pela política de assistência, mas também, e com mesma proporção de importância, sua família, com vistas a que esta família possa encontrar recursos para ressignificar sua história e novamente acolher os filhos em seu convívio, trabalho este que já deveria ter sido iniciado com a família antes mesmo do afastamento; mas retomemos o relato de Davi:
O Conselho Tutelar que fui buscar a gente e não tinha ninguém em casa, e só estava eu e minha irmã. A gente estava no pasto, que era um sítio, brincando com os cavalos, eu morava com minha mãe, ela e meu padrasto eram caseiros nesse sítio, e a gente estava sozinho, não tinha ninguém em casa, e o Conselho Tutelar foi buscar, e há uns dois dias atrás a gente tinha apanhado, a gente apanhou do meu padrasto, e foi por conta disso que os vizinhos denunciaram. A gente estava cheio de marcas, de vergões na perna, várias marcas de butuca de cigarro, no braço. Olha essa aqui que ainda tenho {mostra a mão com a cicatriz}, isso foi queimadura. E éramos eu e minha irmã.
Os motivos do afastamento de Davi da convivência de sua família são justificáveis, conforme as prescrições do ECA. Entretanto, vemos que houve a intervenção do CT para afastar as crianças do convívio familiar e, pelo relato de Davi, não houve contato algum entre a família e seus filhos por cerca de 7 anos.
Como narra, seu retorno se deu por conta de a família recorrer à justiça por sua guarda e de sua irmã. Com seu retorno, concluímos que a família teve êxito. Sabemos, porém, pelo relato de Davi, que ele e sua irmã ficaram privados do contato com a família até o retorno à sua convivência. Assim, podemos levantar algumas indagações: se a família de Davi é uma família que luta pela convivência com os filhos, por que, em outro momento, não houve busca
de outras possibilidades de preservar as crianças no seio familiar? Ou, em sua impossibilidade, por que não foi garantido o contato entre as crianças e seus familiares?
Vemos, assim, a intervenção do Estado no cotidiano da vida familiar de Davi para afastar as crianças da convivência com a família e que, posteriormente, permite sua reintegração a ela, no caso, para viver com a avó, devido à família que, depois de anos, consegue recorrer à justiça pela guarda das crianças. Os motivos para a não permissão da convivência das crianças com a avó no momento do afastamento ou a possível não busca ativa por parte da família extensa podem ser muitos. Porém, o que sabemos é que as crianças não tiveram contato algum com a família até o retorno, o que nos leva a pensar, conforme o ECA, que o que justificaria o não contato com a família deveria ser algum impedimento judicial que o determinasse. Mas isso levanta a indagação: se a família estivesse impedida do contato, como, então, conseguir a guarda das crianças novamente? E, se a família não poderia dar conta de cuidar dos filhos, por que, então, retornaram ao convívio familiar, sendo que a situação continuava a mesma, como destacou Davi, inclusive a mãe ainda convivendo com o padrasto?
Ouçamos Davi contar o que aconteceu depois que retornou à convivência familiar.
4.7 Quando o retorno à família exige que Davi trabalhe ainda menino para garantir a