A ode à velocidade e à máquina característica do movimento futurista iria se fazer presente em variadas formas artísticas, com destaque especial para o teatro. Dois anos depois da publicação do Manifesto Futurista (1909) por Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) no diário francês Le Figaro, seria assinado em Milão o
Manifesto dei drammaturghi futuristi (“Manifesto dos dramaturgos futuristas”)50, o qual estabelece uma profunda fenda entre a antiga “arte dramática” e seus novos formatos advindos da nova era tecnológica.
O novo teatro deveria, pois, refletir as transformações resultantes das inúmeras invenções técnicas que fizeram parte desse momento singular da história do Ocidente: suas velocidades nunca antes experimentadas, seu movimento desenfreado em direção a um futuro de grandes triunfos e a suas novas concepções e percepções da própria realidade do homem deveriam estar presentes numa arte dramática nova, que descartasse de vez a “fotografia psicológica”, fazendo uma verdadeira síntese da vida nos seus elementos mais relevantes e utilizando-se, para isso, da poesia, do verso livre – “mobile orchestrazione di immagini e di suoni” –, das formas desapegadas dos modelos prosódicos regulares. Como é reportado no manifesto:
Il dramma moderno deve riflettere qualche parte del gran sogno futurista che sorge dallanostra vita odierna, esasperata dalle velocità terrestri, marine e aeree, e dominata dal vapore e dall'elettricità.
Bisogna introdurre nel teatro la sensazione del dominio della Macchina, i grandi brividi che agitano le folle, le nuove correnti d'idee e le grandi scoperte della scienza, che hanno completamente trasformato la nostra sensibilità e la nostra mentalità d'uomini del ventesimo secolo51
(MARINETTI, 1911).
Esses novos formatos dariam fluidez ao novo teatro, permitindo à palavra correr veloz acompanhando o ritmo cadente e esfuziante da máquina a todo o seu movimento. Os futuristas viam justamente no teatro o meio de comunicação a partir do qual a palavra poderia alcançar essas dimensões com mais eficiência. E é sob
50 Os que desejarem conhecer o Manifesto dei drammaturghi futuristi, encabeçado por Marinetti e
publicado em 1911, podem acessar o PDF com o texto na íntegra, disponível em: <http://digilander.libero.it/sitographics/doc%20fut_pdf/m-drammaturghi-marinetti.pdf>. Acesso em: 18 mai. 2013.
51 “O drama moderno deve refletir alguma parte do grande sonho futurista que surge da nossa vida
atual, exasperada pelas velocidades terrestres, marinhas e aéreas, e dominada pelo vapor e pela eletricidade. / É necessário introduzir no teatro a sensação do domínio da Máquina, as grandes excitações que agitam as multidões, as novas correntes de ideias e as grandes descobertas da ciência, que têm transformado completamente a sensibilidade e a mentalidade dos homens do século XX”. (Tradução nossa).
essa ideia que o teatro futurista ganhará ainda mais sete publicações, entre as quais se destacariam o Manifesto del teatro sintetico e o manifesto Il teatro di varietà (“O
teatro de variedades”, em português)52.
Além da palavra livre, o teatro futurista também imprimirá sobre a sua estrutura dramática o senso da economia de tempo industrial, defendendo a elaboração de peças rápidas. A repercussão dos novos espetáculos cresceu principalmente depois de um concurso organizado por Marinetti e que tinha por exigência fundamental peças que não excedessem as 50 linhas de texto.
A partir da ideia da síntese e da poesia como recurso à reflexão sobre a vida, o teatro futurista posicionava-se num claro contraste ao teatro de entretenimento, ao drama burguês que imperava nos grandes teatros de então. O teatro deveria, pois, despir-se daquele círculo de frivolidades, “I leit-motivs dell'amore e il triangolo dell'adulterio”, e demonstrações de status social nas quais havia se transformado. Já nessa época a crítica contra um teatro “supérfluo” e como mero “produto industrial” figurava na retumbância dos manifestos de Marinetti.
Noi futuristi insegniamo anzitutto agli autori il disprezzo del pubblico e specialmente il disprezzo del pubblico delle prime rappresentazioni, del quale possiamo sintetizzare così la psicologia: rivalità di capelli e di toilettes femminili, - vanità del posto pagato caro, che si trasforma in orgoglio intellettuale, - palchi e platea occupati da uomini maturi e ricchi, dal cervello naturalmente sprezzante e dalla digestione laboriosissima, che rende impossibile qualsiasi sforzo della mente53 (MARINETTI, 1911).
Todas essas transformações defendidas pelos futuristas sobre os formatos da nova arte dramática, bem como a crítica que farão aos vícios do teatro burguês, parecem se relacionar de forma muito próxima à complexidade de uma nova época
52 O manifesto Il teatro di varietà estreou como artigo do jornal britânico Daily Mail em 21 de
novembro de 1913. Seu texto completo pode ser acessado no endereço a seguir: <http://italpag.altervista.org/5_futurismo/futurismo25.htm>. Acesso em: 19 mai. 2013.
53 “Nós, futuristas, em primeiro lugar, ensinamos aos autores o desprezo pelo público e,
especialmente, o desprezo pelo público das primeiras representações, do qual podemos sintetizar a psicologia da seguinte forma: rivalidade dos cabelos e das toaletes femininas, - vaidade pelo lugar caro, que se transforma em orgulho intelectual, - palcos e plateias ocupados por homens mais velhos e ricos, de cérebro naturalmente insolente e de digestão extremamente trabalhosa, o que torna impossível qualquer esforço da mente”. (Tradução nossa).
que se inaugura com as primeiras décadas do século XX. Tal complexidade seria caracterizada por uma série de vertiginosos cismas que acometeram as dimensões política, social e econômica desde o século XVIII, mas que tiveram no século XIX, com a completa derrocada dos Estados absolutistas e da economia agrícola, sua explosão mais desestabilizadora. O século XX nasce nesse movimento de contraposição às antigas tradições e valores, num turbilhão de “destruição criativa” (HARVEY, 2010) que nas artes seria muito bem retratado pelas vanguardas históricas, em especial pelo futurismo.
Essa ânsia pelo novo, “gli autori non devono aver altra preoccupazione che quella di un'assoluta originalità novatrice”, somada ao momento de resistência às
antigas formas artísticas54, catalisa-se por meio do deslumbramento com as novas
tecnologias, invenções com efeitos e dimensões jamais conquistados pelo homem. Em certa medida, a crença nas capacidades humanas e a utopia da ideia gradativa de evolução, catapultadas pelos iluministas, ganha nesse momento um fôlego tão novo quanto a máquina, a qual, agora impulsionada não mais pelo vapor mas pela eletricidade, alçava (inclusive literalmente) voos a espacialidades e tempos jamais explorados. Era preciso dar conta de absorver tudo isso. E Marinetti pretendia, no limite, ser um dos principais arautos dessa missão.
Será justamente a eletricidade a brilhar com destaque nos manifestos do teatro futurista. Em Il teatro di varietà, ela será elevada a um dos emblemas da nova forma teatral. Esse “teatro de variedades”, imbuído da dinâmica da eletricidade, representaria um teatro sem tradições, sem dogmas, desvinculado totalmente de qualquer legado do teatro burguês. Como o próprio manifesto exalta:
54 A questão da resistência às antigas formas artísticas é muito visceral nos manifestos do teatro
futurista, em especial naqueles escritos somente por Marinetti. Interessante é perceber nessas obras que a abertura para o “novo” aparece acompanhada de uma aceitação das possíveis reações negativas que todas essas experiências artísticas poderiam suscitar: a saída do nível de conforto, da estabilidade, haveria de pagar um preço. Todos esses esforços, portanto, pressupunham uma “lógica do fracasso” como parte da aventura vanguardista. Marinetti chega a dizer que os autores e atores deveriam mesmo buscar a vaia, indicativo de que suas obras realmente estariam conquistando os efeitos a que se propunham. Como esclarece, nem tudo o que é vaiado é belo ou novo. Mas a obra que recebe o aplauso fácil, certamente será medíocre, já conhecida, “bem digerida” pelo público. No original de Marinetti: “Noi insegniamo infine agli autori e agli attori la voluttà di essere fischiati. Tutto ciò che viene fischiato non è necessariamente bello o nuovo. Ma tutto ciò che viene immediatamente applaudito, certo non è superiore alla media delle intelligenze ed è quindi cosa mediocre, banale, rivomitata o troppo ben digerita” (MARINETTI, 1911).
Il teatro di varietà, nato con noi dall'elettricità, non ha fortunatamente tradizione alcuna, né maestri, né dogmi, e si nutre di attualità veloce.
(...) Gli spettacoli di caffè-concerto all'aria aperta sulle terrazze dei Casinosoffrono una divertentissima battaglia tra il chiaro di luna spasmodico, tormentato da infinite disperazioni, e la luce elettrica che rimbalza violentemente sui gioielli falsi, le carni imbellettate, i gonnellini multicolori, i velluti, i lustrini e il sangue falso delle labbra. Naturalmente l'energica luce elettrica trionfa, e il molle e decadente chiaro di luna è sconfitto55
(MARINETTI, 1913).
É nesse contexto que a tecnologia do cinema também ganhará espaço especial na obra teatral futurista. Nesse mesmo manifesto, Marinetti ainda reforça que a obrigação que o teatro de sua época mantém com a imitação da vida, “riproduzione fotografica della nostra vita quotidiana”, deveria dar lugar à cena abstrata, que valorizasse a expressão, o movimento e a interdisciplinaridade. O cinema, símbolo da modernidade, teria lugar especial nos espetáculos futuristas, concretizando, por meio da tecnologia, os ideais de velocidade na era da máquina. Mais do que isso, ainda teria a capacidade de trazer à cena, por meio da projeção de imagens, episódios ou situações inexequíveis no palco de um teatro.
Il Teatro di Varietà, solo, utilizza oggi il cinematografo, che lo arricchisce d'un numero incalcolabile di visioni e di spettacoli irrealizzabili (battaglie, tumulti, corse, circuiti d'automobili e d'aeroplani, viaggi, transatlantici, profondità di città, di campagne, d'oceani e di cieli)56 (MARINETTI, 1913).
Mais tarde, em 1916, como afirma Oliver Grau, Marinetti dispensaria atenção especial ao cinema, afirmando-o como o mais dinâmico dos meios pelos quais o homem poderia se expressar, devido a sua “capacidade de compor formas
55 “O teatro de variedades, nascido conosco pela eletricidade, não conta, felizmente, com tradição
alguma, nem mestres, nem dogmas, e se nutre de atualidade veloz. / (...) Os espetáculos de café- concerto ao ar livre nos terraços dos Cassinos oferecem uma divertidíssima batalha entre a luz do luar espasmódica, atormentada pelo desespero sem fim, e a luz elétrica que faz saltar violentamente sobre jóias falsas, carnes maquiadas, as saias multicoloridas, os veludos, os brilhos e o sangue falso dos lábios. Naturalmente, a energética luz elétrica triunfa, e a branda e decadente luz da lua é derrotada”. (Tradução nossa).
56 “Somente o Teatro de Variedades usa, hoje, o cinematógrafo, que o enriquece de um número
incalculável de visões e de espetáculos irrealizáveis (batalhas, revoltas, corridas, circuitos de automóveis e aviões, viagens, transatlânticos, profundidades de cidades, campos, oceanos e céus)”. (Tradução nossa).
tradicionais de arte e mídia” (GRAU, 2005, p. 169), o que vai justamente ao encontro da ideia de um teatro interdisciplinar defendida pelos futuristas. Em seu Manifesto da Cinematografia Futurista, Marinetti declara que, a partir do cinematógrafo, seria possível ultrapassar as antigas estruturas literárias que davam articulação ao teatro tradicional, apresentando, por meio das imagens em movimento e de suas gigantes e impressionantes dimensões, um novo efeito sensorial sobre a plateia, algo que as
formas convencionais da arte não davam conta de acessar nos espectadores57.
Todos esses princípios sobre o novo teatro defendidos pelos futuristas e, em particular, pelo próprio Marinetti serão reafirmados e complementados no Manifesto do teatro sintético58, publicado em Milão em 1915. No documento, os futuristas assumem uma posição ainda mais enfática com relação à derrubada completa dos antigos padrões que, desde o teatro grego até as formas de então, predominavam na arte dramática.
Pretendendo realizar um teatro “atécnico, dinâmico, simultâneo, autônomo, alógico e irreal”, os futuristas preconizam contra o que afirmam ser uma cena lenta, prolixa e cheia de previsibilidades. Formatos convencionais como a farsa, o vaudeville, a comédia e a tragédia deveriam ser abolidos das salas de espetáculos, em favor de uma encenação que possibilitasse o improviso, o imprevisto e os incorporasse à própria ação dos atores, daí também a noção de “simultaneidade”, defendida logo no início do manifesto.
Il TEATRO FUTURISTA saprà esaltare i suoi spettatori, cioè far loro dimenticare la monotonia della vita quotidiana, scaraventandoli attraverso un
57 No tocante a essa influência particular do cinema sobre os sentidos humanos, vale citar Walter
Benjamin, que constrói uma análise extremamente interessante relacionada ao “efeito disruptivo” que as imagens do cinema teriam sobre o espectador. Benjamin, também bastante impressionado com os avanços da técnica cinematográfica, irá costurar uma defesa do cinema como um meio de deslocar o espectador do estado de letargia em que se encontrava. As imagens marcantes, potencializadas pelos efeitos de luz da projeção, seriam como verdadeiros bombardeios sobre a plateia, mobilizando- a em direção à mudança da condição de vida alienada. Mais sobre essa análise específica em BENJAMIN, 2012.
58 Uma das edições do Teatro futurista sintetico, assinado por Marinetti, Emilio Settimelli e Bruno
Corra, pode ser encontrada na íntegra, em italiano, no portal Internet Archive. Além do texto do manifesto, a versão disponibilizada, de 1921, também apresenta uma série de peças curtas, várias delas resultantes do concurso de textos dramáticos sintéticos promovido por Marinetti anos antes. A obra está disponível em: <http://archive.org/details/ilteatrofuturist00mar >. Acesso em: 20 mai. 2013.
LABIRINTO DI SENSAZIONI IMPRONTATE ALLA PIÙ ESASPERATA ORIGINALITÀ E COMBINATE IN MODI IMPREVEDIBILI.
Il TEATRO FUTURISTA sarà ogni sera una ginnastica che allenerà lo spirito della nostra razza ai veloci e pericolosi ardimenti che quest'anno futurista rende necessari59 (CORRA, MARINETTI, SETTIMELLI, 1921, p. 18-19)
Por fim, vale ressaltar o clima em meio ao qual Marinetti, Settimelli e Corra finalizariam seu manifesto do teatro sintético: a retumbância de suas ideias e o frenetismo de sua elaboração seriam muito bem expressos pelo derradeiro parágrafo do documento, algo que parece anunciar uma relação a se estreitar cada vez mais ao longo do século XX: o “grande edifício metálico” do teatro e os novos aparatos tecnológicos responsáveis por fazer daquele universo espaço de inovação e liberdade.
Ecco le prime nostre parole sul teatro. Le nostre prime 11 sintesi teatrali (...) Presto avremo in Milano il grande edificio metallico, animato da tutte le complicazioni elettromeccaniche, che solo potrà permetterci di attuare scenicamente le nostre più libere concezioni60 (CORRA, MARINETTI, SETTIMELLI, 1921, p. 20).
Nosso caminho de reflexão que busca relacionar a cena teatral às invenções tecnológicas das primeiras décadas do século XX, em particular àquelas propulsionadas pela revolução da eletricidade, é traçado ainda por um outro episódio notável sob a singular direção de Erwin Piscator. Façamos então considerações sobre algumas de suas principais contribuições.
59 “O TEATRO FUTURISTA saberá exaltar seus espectadores, ou seja, fazê-los se esquecerem da
monotonia da vida cotidiana, incursionando-os através de um LABIRINTO DE SENSAÇÕES MARCADAS PELA MAIS EXASPERADA ORIGINALIDADE E COMBINADAS DE MODOS IMPREVISÍVEIS. / O TEATRO FURURISTA será, a cada noite, uma ginástica que exercitará o espírito de nossa raça nas velozes e perigosas ousadias que esta época futurista torna necessárias”. (Tradução nossa).
60 “Aqui estão as nossas primeiras palavras sobre o teatro. As nossas primeiras 11 sínteses teatrais
(...) Em breve, teremos em Milão o grande edifício metálico, animado por todas as complexidades eletromecânicas, que só poderá permitir-nos implementar cenicamente as nossas mais livres concepções”. (Tradução nossa).