Nesta seção analiso as vozes das parturientes, dos médicos e das médicas. O propósito é relacionar discursos e identidades, focalizando como a interação médico-paciente perpassam as relações sociais assimétricas (políticas, institucionais, médicas obstétricas, assistenciais etc) e constituem identidades. Lembrando que identidades são construções discursivas e no Gonzaguinha apresentam um elo comum entre médicos, médicas e mulheres: a vulnerabilidade. Afinal, a maternidade para parto de baixo risco padece de muitas condições favoráveis ao bom atendimento obstétrico, considerando que mesmo o parto de baixo risco prescinde de uma sustentabilidade logística e assistência de alta complexidade a depender das intercorrências e evoluções, e complicações no parto.
Os médicos, médicas e mulheres enfrentam o dia a dia da atenção ao parto sob forte carga emocional de estresse, frustrações, aflições, que permeiam o quadro
sintomatológico do perfil político da saúde pública e do SUS no Brasil, principalmente no contexto periférico o Sul do sofrimento.
Por outro lado, as parturientes carregam o sofrimento que impregna uma cadeia complexas de ‘momentos’ das práticas sociais do atendimento médico e político ao parto, às suas vidas em riscos em estado de muitas vulnerabilidades: ir e voltar inúmeras vezes; bater às portas das maternidades; serem examinadas pelo doloroso mecanismo de toque vaginal; “não está na hora”; voltam ao lar; retornam; gastam com transportes e às vezes andam de bicicletas, carroças, quando escasseiam os últimos centavos de uma corrida de táxis. Sempre abraçando os ventres revoltos em contrações, caminham em busca de assistência e socorro. Para além das contrações que evoluem em dores de parir, carregam outros matizes existências de suas vidas atribuladas, conforme constatei na pesquisa74.
Para a análise selecionei alguns Relatos que são pertinentes ao objetivo de minha reflexão. A seguir, os Relatos com grifos meus.
Nádia: O que não foi legal no teu parto?
Maria das Rosas ... teve uma hora que chega eu... Pensava que eu não ia aguentar.
Toda mulher tem dor de parto né. Pedindo muita força a Deus e a Nossa Senhora do Bom Parto que me desse, pensava que não ia aguentar (suspiros). Mas graças à Deus deu tudo certo. Teve uma hora que achava que ia morrer de tanta dor. Aí eu peguei
na mão da minha mãe. Na hora que eu peguei na mão da minha mãe (...) e naquela
hora que aquela enfermeira falou que normal era coisa da natureza, uma coisa bem legal. Todo mundo conversando comigo. Foi bem legal. Aí o dotor entrou e
mandou minha mãe sair aí eu comecei a chorar bem alto. Eu pensava que não
aguentasse a dor e o dotor... (...) fosse dá um carão em mim. Minha mãe saiu
com o rabo entre as pernas... Eu fiquei com muito medo de não aguentar e gritar e ele brigar comigo, fechasse a perna ou alguma coisa acontecesse. - acho
que... de assim de prejudicar a neném. Mas graças a Deus deu tudo certo foi bem rápido.
Relato 29.
Quero ter um bom parto.
Nádia: E aí Cícera das Lages, o que você tá pensando sobre o seu nenê que tá bem
pertinho de nascer?
Cícera das Lages: Tudo que mais quero na vida é ter um bom parto, sair legal, não
quero de bunda não. Minhas colega teve de bunda e o dotor cortou ela todinha, puxou o menino pelos alicates, ainda hoje tá com dois anos ainda tem marca na cabeça do bichim, diz que ele é meio fraquinho, por isso. Só veve doente o bichim. Aí eu fui perguntá o médico se fosse de bunda ele ia me cortar ele disse que era
um problema dele. Agora eu tô com vergonha de perguntar de novo e ele brigar comigo.
Relato 32. Escapei fedendo!
Nádia: E aí Raimunda da Papara, o que você tá pensando ?
RAIMUNDA DA PAPARA: No meu último parto. Foi triste. Minha nenê nasceu roxa, a nenê morreu, foi pra incubadora e tudo, mas morreu. Eu fui bater lá
74As parturientes, chamadas por mim de peregrinas, um termo que eu ouvi muito amiúde no cotidiano das andanças dessas mulheres em busca de parir.
prá Fortaleza, num vi mais nada, apagou uma tonteira na cabeça, e acordei auperada. Sem saber de nada fiquei ainda um bucado de dia interna, acordei com uns dotor em cima de mim dizendo que eu escapei fedendo, e que eu só podia ter filho bem muito tempo depois, eu tive eclâmpsia. Tá com dois anos por isso eu quero ligar.
Ele brigou foi muito comigo agora, me chamou até de irresponsável, disse que eu não tinha consciência, do mal que eu fiz porque engravidei. Mas eu num
sabia não mulher que tava grávida. Eu não era pra ter ficado grávida. Agora ele vai me mandar pra Fortaleza que eu posso até morrer, e dessa vez é pior. Eu não posso ter mais normal não é já tô sentido muita dor de ter menino. Tô esperando o
negócio da da central de leito. Ele disse , ....Ai, lá veio a dor de novo...Ele disse
o dotor que ainda não tem vaga por isso ele não pode mim mandar. To esperando a vaga. Eu tô muito triste e com muito medo.
Relato 33.
Vou aguentar a dor bem calada.
Nádia: E ai Angélica do Rato de Baixo, dessa vez como acha que vai ser seu parto? ANGÉLICA DO RATO DE BAIXO:Tem dotor. Aqui e em todo o canto né, tem dotor... bom, calmo, e tem dotor nervoso. Deus a livre.Tem aqui um dotor muito, assim... mulher sei não... Ele dá uns carões na gente, essa noite tinha uma
mulher gritando ai ele disse que ela tinha de calar a boca porque estava fazendo medo a todo o mundo né. Nessa parte eu acho que ele tá certo, nóis num é
mulher! Nóis temos que passar puressa dor, não dá como não se vê livre dela e gritar é só pra levar carão mermo, por isso que quando chegar a minha hora eu não quero gritar. Vou aguentar as dor bem calada.
Relato 34.
Madalena
Nádia: Conte pra mim como foi esse parto?
Madalena: Esse parto foi o pior da minha vida, dos 4 que eu tive esse foi o pior.
Relato 10.
Os textos dessas mulheres, em seus breves fragmentos compartilhados com a pesquisadora, sinalizam muitas esferas encobertas de questões relacionadas à conjuntura do evento de forma que a interação médico paciente nos revelam algumas dessas facetas sugestivas de marcas interacionais de mulheres em situação de vulnerabilidades. O parto com direito que a parturiente tenha um acompanhante de sua escolha é um ponto importante nas prescrições protocolares do Ministério da Saúde, que alguns médicos e médicas compartilham.
Outros não acatam essa determinação. Podemos inferir que a escolha pelo modelo tradicional de realização do parto como um evento médico privado às portas trancadas da sala de parto reflita a opção pela intervenção medicalizada da prática obstétrica científica dominante na ordem discursiva médica sobre a qual as prescrições do Ministério da Saúde afrontam. No geral, as mulheres conseguem deixar claro que a interação médico-mulheres no parto é passível de constrangimento ou bem estar.
O estilo de médicos e médicas não é um texto semiótico único. Em algumas situações, muito frequentemente, marca-se com mais intensidade os campos assimétricos constitutivos dessa interação. O estilo dos médicos sugere uma forte impregnação de identidades profissionais de legitimação comprometidas com os protocolos de um parto medicalizado como ressaltamos anteriormente.
Entender o uso da linguagem como prática social implica compreendê-la como um modo de ação historicamente situado. Ela constituída socialmente, mas também é constitutiva de identidades sociais, relações sociais e sistemas de conhecimento e crenças.
As práticas médicas são fortemente impregnadas desse poder da Medicina científica, e para além desse poder legal, os papeis sociais médicos e médicas são claramente autoritários. As mulheres parturientes submetem-se passivas (em sua grande maioria) aos rituais dos sofrimentos com medo, restando-lhes apenas os recursos das boas sortes.
5.5.2 Análises dos significados (ação) inclui a análise das categorias de funções do discurso