Dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) apontam que o preço dos alimentos com base nos 60 itens alimentícios
comercializados internacionalmente saltou 37% em 2007. Essa condição levou alguns países a controles mais rígidos de sua produção: o governo do Egito proibiu a exportação de arroz para garantir seu consumo interno; o governo chinês impôs controle de preços ao óleo de cozinha, cereais, carne, leite e ovos para tentar controlar a alta dos alimentos e com isso não abalar as estruturas sociais e econômicas do país (BRADSHER, 2008).
Alguns fatores podem ser enumerados como sendo legítimos e diretamente relacionados ao aumento de alguns gêneros alimentícios: as mudanças nas estruturas da dinâmica de cultivo e transporte de alimentos nos mercados mundiais; o aumento dos preços dos combustíveis; a imensa demanda por biocombustíveis aumentou a competição entre o uso da terra para produção de combustível e de alimento; o crescimento do poder de compra dos países em desenvolvimento e a intensificação de fenômenos decorrentes das mudanças climáticas globais. Este último começa a afetar a produção e o cultivo de alimentos em alguns países e, portanto, caracteriza-se como mais um fator de impacto no aumento dos preços dos alimentos.
No entanto, há quem aponte erros na afirmação: a produção de bioenergias está ampliando a fome no mundo (BRADSHER, 2008). Isso porque a alta nos preços dos alimentos é o principal responsável pela verdadeira fome. Porém, a maior parte dos cidadãos famintos do mundo não obtém seus alimentos no mercado mundial e a maior parte dos dependentes do mercado global não é pobre ou vulnerável à fome. No sul da Ásia e na África subsaariana os níveis de fome são duas vezes mais elevado que nos países em desenvolvimento do Leste da Ásia e quatro vezes mais que na América Latina. Mesmo assim, essas duas regiões com muitos famintos importam poucos alimentos do mercado mundial. Apenas 16% do total de consumo de grãos pelos países da África subsaariana vêm do mercado mundial, assim como menos de 10% do total de calorias consumidas. Os países em desenvolvimento do sul da Ásia satisfazem apenas 4% do seu consumo de grãos por meio de importações. Com isso, a variação no preço internacional dos alimentos terá pouco impacto nessas regiões. Por sua vez, a alteração nos níveis de chuva (em consequência das mudanças climáticas), perda de empregos ou conflitos civis podem ter um impacto mais significativo para essas
regiões. Países profundamente imersos na pobreza dependem muito pouco das importações de alimentos; em parte porque a eles faltam divisas estrangeiras ou simplesmente o poder de compra, mas também porque eles consideram o mercado mundial instável e não confiável - e as atuais altas de preços ilustram a razão (BRADSHER, 2008).
No entanto, Roberts (2008) afirma em seu livro “O fim do Petróleo” que:
A crise energética atual marca a sincronicidade entre consumo de energia e seus reflexos na produção e distribuição de alimentos. Com isso, é fácil afirmar que a crise de uma levaria à outra. Consequência de uma estrutura econômica baseada no uso dos combustíveis fósseis extremamente baratos que quase não era levada em conta na equação. Ou seja, obedecendo toda a cadeia de produção de alimento, isto é: todo o sistema de fertilizantes baseados em petróleo, o sistema de distribuição baseado em caminhões e aviões, tudo depende pesadamente do combustível fóssil. Portanto, essa sincronicidade remete-nos a atual crise dos alimentos e dos combustíveis.
Segundo o autor há um agravante na equação alimento-energia. Isto porque os programas de bioenergias pressionam o setor de alimentos, já que antes as estruturas socioeconômicas de produção e distribuição de alimentos estão vinculados ao petróleo, como fontes geradoras de energia que mantêm essa dinâmica em movimento. Atualmente a manutenção desse complexo sistema tem nos biocombustíveis agente direto de competição, uma vez que a produção das bioenergias concorre com áreas agricultáveis para a própria produção de alimentos. Na opinião de Roberts (2008), essa dinâmica não faz sentido uma vez que:
Do ponto de vista de segurança alimentar, trocamos um sistema que se baseia numa fonte limitada, que é o petróleo, por outro, de outra fonte limitada, que é a terra arável. Uma hora os dois acabam. O biocombustível pelo menos torna o problema mais evidente, por ser visível. Quando você vê uma plantação de cana, ela está lá, ocupando espaço. Você é obrigado a enfrentá-lo, a pensar a respeito. O petróleo vem do fundo da terra e do mar, oculto. Do ponto de vista do público parece que vem de fonte inesgotável. É óbvio que acabará, mas não é tão visível.
No entanto, a problemática frente a essa discussão dos biocombustíveis, produção de energia e escassez de alimentos, remete-nos a questões que vão além de substituir uma matriz energética pela outra. Ou seja, trocar gasolina por álcool não resolverá o
problema, frente a um aumento constante da demanda. Isso porque, como apontado anteriormente as causas do aumento do preço dos alimentos não estão atreladas apenas à produção de bioenergias. A produção do arroz teve sua maior alta acentuada entre 2007 e 2008 e sua produção não é diretamente influenciada por pressões dos biocombustíveis, mas diretamente pelo preço no mercado global elevado em resposta a ações de muitos países asiáticos produtores de arroz (Índia, Vietnã, Camboja, Indonésia e China) frente aos temores de inflação, restringiram suas exportações. Ou seja, tal sincronismo acabou por criar uma escassez artificial e os preços internacionais dos alimentos registram altas históricas.
Portanto, há sérios desafios para o aumento da produção e distribuição de alimentos e, consequentemente, das bioenergias: limitação de terras disponíveis, degradação do solo e acesso à água, mudanças climáticas e urbanização. Por um lado, o desenvolvimento de novas tecnologias, o melhoramento genético, novas técnicas de plantios, entre outros, estão aumentando a produção. Por outro lado, é necessário assegurar a geração de energia de forma constante e continuada, mantendo a produção e a distribuição local de alimentos e envolvendo outros segmentos da sociedade. Os esforços para ampliar o número de acessos a alimentos básicos deverá ser uma constante ao longo dos próximos anos. Os governos que estão subsidiando os biocombustíveis e a agroindústria, precisam ajudar a financiar também programas mundiais de combate a fome no mundo.
No entanto, dentro da problemática relacionada à produção de bioenergias, segurança energética e alimentar, está um fator indissociável: a competição entre as terras agricultáveis e a água. Com os avanços das monoculturas (soja, cana, milho, entre outras), os processos tecnicistas de produção e cultivo acabam por acarretar consequências ambientais e sociais maiores que almejam minimizar. No sentido social, as monoculturas afetam diretamente a agricultura familiar e o pequeno produtor, que não possui condições técnicas e financeiras de competir com os grandes latifúndios e, por isso, acaba por abandonar a produção, vendendo suas terras e acentuando ainda mais a concentração entre os grandes latifundiários. Esses produtores migram para as cidades, passando a viver em condições precárias. No sentindo ambiental, esse modelo
promove a extinção de áreas florestais, aumenta a demanda por água, a degradação/empobrecimento do solo e o assoreamento de rios entre outros.
3 TENDÊNCIAS ENERGÉTICAS E SUAS IMPLICAÇÕES NO BRASIL E NA ALEMANHA