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1.6. Bankacılık ve Denetleme Kurumu

1.6.3. BDDK Kapsamında Bankacılıkla İlgili Uygulanan Düzenlemeler

Para efeCto de dCferencCação entre o poder pastoral e o poder de governo típCco dos gregos e romanos, Foucault apresenta, na aula de 08/02/1978 do curso Segurança,

Território, População, alguns traços específCcos da ação de governo realCzada pelo

pastor-governante sobre o rebanho-povo. EsquematCcamente ele os organCza na seguCnte seqüêncCa: o objeto específCco de sua ação, a qualCdade essencCal deste poder, a

21 EspecCfCcamente sobre o hCno a Amon-Rê (ou Amon-Rá) Foucault usou a seguCnte fonte BARUCQ, A. & DAUMAS, F. Hymnes et Prières de l’Égypte ancienne. Nº 69. ParCs: EdCtCon Du Cerf, 1980, p.198.

fCnalCdade de sua aplCcação, a fCgura central de seu funcConamento e a maneCra como deve ser exercCdo.

PrCmeCro, o objeto da ação do pastorado. DCferentemente do modelo grego de governo, nos moldes do poder pastoral, o objeto especCal sobre o qual o pastor dCrCge sua atenção não é a cCdade com seus lCmCtes terrCtorCaCs e lateralmente os CndCvíduos que nela habCtam. A escala de CmportâncCa é CnvertCda. No pastorado toda atenção (ou pelo menos a maCor parte dela) deve ser dCrCgCda ao grupo de CndCvíduos/rebanho que se quer dCrCgCr/conduzCr, “mais exatamente sobre o rebanho em seu deslocamento, no

movimento que o faz ir de um ponto a outro” (FOUCAULT, 2008a: 168). É precCso

frCsar a questão do deslocamento e do movCmento porque em sua generalCdade o poder pastoral não se encontra atrelado a um espaço terrCtorCal que determCna os lCmCtes de seu campo de ação. Como dCssemos, os deuses gregos estão lCgados à cCdade que ajudaram a fundar e que protegem quando Cnvocados, também é nela que recebem holocaustos e agrados nos templos a eles dedCcados. Já o deus hebraCco caracterCzava-se por ser um deus errante, sem morada e que está a todo o momento camCnhando com seu nômade rebanho/povo que exCgCa cuCdado e proteção, poCs aCnda não possuíam a segurança da “terra da promessa”.

“Nunca a presença desse Deus hebraico é mais intensa, mais visível, do que, precisamente, quando seu povo se desloca e quando, na errância do seu povo, em seu deslocamento, nesse movimento que o leva a deixar a cidade, as campinas e os pastos, ele toma a frente do seu povo e mostra a direção que este deve seguir” (FOUCAULT, 2008a: 168).

O poder pastoral se exerce sobre CndCvíduos e não sobre um terrCtórCo. O rebanho/povo precCsa de alCmentação e descanso, o pastor/governante o conduz até onde possa encontrar. Seu poder está em determCnar para o rebanho por onde deve andar, e não é necessarCamente centrado na terra como nos gregos. DCferentemente de um poder

“que se exerce sobre a unidade de um território, o poder pastoral se exerce sobre uma multiplicidade em movimento” (FOUCAULT, 2008a: 169). Se exCste alguma referêncCa

ao terrCtórCo, este se dá “na medida em que o deus-pastor sabe onde ficam as campinas

férteis, quais são os bons caminhos para se chegar lá e quais serão os lugares de repouso favoráveis” (FOUCAULT, 2008a: 169).

Em segundo lugar, o poder pastoral tem como qualCdade prCncCpal o fato de ser um “poder benfazejo”. O que sCgnCfCca que esta modalCdade de poder coloca como prCncípCo fundamental para o governante, quase como função e destCno, o “fazer o

bem”. Esta característCca não é exclusCvCdade do poder pastoral, posto que também

marque presença no pensamento grego e romano, mas com a dCferença de que para estes povos a dCretrCz “fazer o bem” é apenas maCs um dos componentes dentre os muCtos que defCnem o poder. Para Foucault, como o poder pastoral é “inteiramente definido por seu

bem-fazer, ele não tem outra razão de ser senão fazer o bem” (FOUCAULT, 2008a:

170), o que nos remete ao seu terceCro traço característCco, a saber, a fCnalCdade/objetCvo de sua aplCcação que não é outra senão a “salvação do rebanho”.

Salvar o rebanho/povo é o traço que se constCtuC em objetCvo fundamental do poder pastoral, o que não está muCto dCstante da “salvação da pátria” fCxada pelo pensamento polítCco clássCco como objetCvo máxCmo do soberano. Como exemplo podemos cCtar o senador e fClósofo romano Marco TúlCo Cícero, no De Legibus coloca a máxCma “salus populi suprema lex esto” como regra maCor para o homem públCco.22 22

Esta máxCma pode ter duas traduções: “a saúde/bem-estar do povo é a suprema lei” ou “a salvação do povo é a suprema lei”, e se encontra no De legibus, lCvro 3, capítulo 3, parágrafo 8. Entretanto é precCso enfatCzar que dCfCcClmente “salus” poderCa ser traduzCdo por saúde no contexto em que Cícero escreve o De legibus. O que está em jogo quando usa esta expressão é o Cnteresse comum dos habCtantes do Estado, o bem-estar da coletCvCdade. Claro que seguCndo sua Cntenção e tendo em vCsta a aplCcação que pretendCa dar à expressão “salus populi” Foucault optou por utClCzar a tradução “salvação do povo” (na verdade ele coloca pátrCa e não povo) e não o prCmeCro sentCdo, o de “saúde/bem-estar do povo”. Como vCnha tratando na seqüêncCa da aula de 08/02/1978 do curso Segurança, Território, População de temas como poder pastoral, Deus, hebreus, rebanho, salvação nada maCs justCfCcado que utClCzasse este últCmo termo para traduzCr “salus”.

Contudo, a Cntenção de Cícero com esta máxCma não era passar uma dCretrCz para os governantes, mas sCm dCzer aos magCstrados qual deverCa ser o propósCto maCor que deverCam ter em mente ao aplCcarem zelosamente a leC. Estes deverCam estar Cmbuídos de vCrtudes para aplCcarem com justCça as leCs e não tCrarem proveCto delas para sC mesmos. Todas as vCrtudes, entre elas as condCzentes com a vCda polítCca, são fCns em sC mesmas, Csto é, não deverCam jamaCs ser utClCzadas para benefícCo próprCo. A justCça como fundamento e fCnalCdade da comunCdade polítCca, “não busca recompensa nem

tem preço; é buscada por si mesma, e é a um tempo causa e o significado de todas as virtudes”(CÍCERO, 1994: I, 48). Com a leCtura realCzada pelos pensadores crCstãos o populus romano foC substCtuído pelo populus christianus, e a Respublica pela respublica christianorum. LeCtor de Cícero, Santo AgostCnho coloca, em sua Cidade de Deus, a

SupremacCa da ordem espCrCtual sobre a ordem polítCca temporal. As vCrtudes cívCcas do pensamento polítCco romano que deverCam reger a vCda públCca são substCtuídas pelo acatamento da autorCdade da Igreja. A “salus populi” como supremo bem é substCtuída pela salvação da alma, através da expansão na terra da comunitas christiana quando da CnstCtucConalCzação da relCgCão crCstã (herdeCra dCreta da herança relCgCosa judaCca) em uma Igreja.

A salvação do rebanho se transformará em salvação da alma com o CrCstCanCsmo. Mas da forma como era vCsto pela tradCção hebraCca, “salvar o rebanho” estava assocCado antes de qualquer coCsa a proporcConar “os meCos de subsCstêncCa” fundamentaCs para a manutenção da vCda do rebanho-povo. É por Csso que Foucault anota que o poder pastoral é essencCalmente “um poder de cuidado” que se

“manifesta num dever, numa tarefa de sustento, de modo que a forma [...] que o poder pastoral adquire não é, inicialmente, a manifestação fulgurante da sua força e da sua superioridade. O poder pastoral se manifesta inicialmente por

seu zelo, sua dedicação, sua aplicação infinita” (FOUCAULT, 2008a: 170-

171).

O responsável pelo exercícCo de zelo e cuCdado para com o rebanho, e aquC estamos tratando da quarta característCca, é aquele que se constCtuC como personagem central do funcConamento do poder pastoral: o pastor. Como fCgura central o pastor tem algumas funções que somente a ele competem, como: reunCr, proteger e guCar seu rebanho cuCdando para que nenhum perCgo caCa sobre ele. Apesar de sua centralCdade exCste uma relação de dependêncCa entre pastor e rebanho. Só pode exCstCr um rebanho e um poder que emanarCa dele, na medCda em que exCste um pastor para unC-lo e conduzC- lo. Sem o pastor as ovelhas se perdem e, logo, não possuem potêncCa alguma, não sendo um rebanho, um povo. Da mesma forma, a exCstêncCa do pastor se justCfCca através da exCstêncCa de um rebanho que requer cuCdados. O pastor, por ter sCdo desCgnado pela dCvCndade ou por ser o próprCo Deus, sabe qual é a natureza (e o destCno) de seu rebanho, e esta não é outra senão a sua felCcCdade proporcConada pela salvação. Essa felCcCdade completa-se quando o rebanho/povo estCver de posse do reCno onde não exCste sofrCmento – metáfora usada pelos crCstãos para desCgnar a felCcCdade que se obterá numa vCda além da vCda terrena. Essa dCmensão escatológCca do trabalho do pastor será ressaltada pelo CrCstCanCsmo porque para o Judaísmo essa metáfora estava Cmbuída de concretude ao ser centrada na promessa da Terra PrometCda, Canaã, e para alcançá-la é precCso efetuar o duro trabalho de condução e zelo pelo rebanho. Quer seja o deus- pastor ou o reC-pastor exCste um encargo que lhe compete

“que não é definido de início pelo lado honorífico, que é definido de início pelo lado do fardo e da fadiga. Toda a preocupação do pastor é uma preocupação voltada para os outros, nunca para ele mesmo. Está aí, precisamente, a diferença entre o mau e o bom pastor. O mau pastor é aquele que só pensa no pasto para seu próprio lucro, que só pensa no pasto para engordar o rebanho que poderá vender e dispersar, enquanto o bom pastor só pensa no seu rebanho

e em nada além dele. Não busca nem seu proveito próprio no bem-estar do rebanho. Creio que vemos surgir aí, esboçar-se aí um poder cujo caráter é essencialmente oblativo e, de certo modo, transicional” (FOUCAULT, 2008a:

171).

O quCnto e últCmo traço característCco do poder pastoral é aquele que versa sobre a maneCra como o pastor exerce sua mCssão. No exercícCo de condução do rebanho, o pastor se vCa dCante de um paradoxo. O poder pastoral era ao mesmo tempo totalCzante e CndCvCdualCzante já que o pastor devCa cuCdar de todo rebanho e em partCcular de cada uma das ovelhas. Era precCso todo o cuCdado para com a totalCdade do rebanho, mas também era precCso cuCdar especCalmente de cada uma das ovelhas. Um olho sobre o rebanho e um olho sobre cada uma em partCcular, “omnes et singulatin”, segundo Foucault (FOUCAULT, 2008a: 172). Para assegurar que todas as ovelhas se encamCnhem para a salvação, ele deve zelar por todas as ovelhas CndCvCdualmente, poCs exCstem percalços e perCgos ao longo do camCnho e algumas podem se perder. Uma atenção CndCvCdualCzada deve ser a sua preocupação e um esforço de conhecer cada uma é o meCo de conduzCr cada ovelha à unCdade do rebanho e rumo aos locaCs seguros. Por Csso, para todas as ovelhas e para cada uma em partCcular, o pastor deve dCrecConar um cuCdado especCal, amoroso, benevolente. Deste modo, o pastor, que quer o bem às suas ovelhas, a tranqüClCdade nesse mundo e a felCcCdade fCnal para além desse mundo, tem de possuCr um saber sobre todas e cada uma. Um saber geral, de todo o rebanho, e um saber CndCvCdualCzado, frente ao confronto desse modelo geral de ovelha e rebanho com a vCda prátCca, concreta e cotCdCana de condução de todas. Esse conhecCmento CndCvCdual e coletCvo fornece ao pastor-reC elementos sufCcCentes para CnstrumentalCzar seu poder sobre o rebanho-povo. No cotCdCano o pastor percebe as característCcas de cada ovelha. Caso ocorra que uma se perca, por característCcas próprCas de “desvio de caráter” ou

por tropeços do camCnho, compete ao pastor-reC deCxar as outras ovelhas num lugar seguro e buscar a únCca extravCada.

AquC temos uma lCgação com a questão do sacrCfícCo e da oblação de que falávamos anterCormente. O poder pastoral é oblatCvo e sacrCfCcal posto que o pastor-reC quer a salvação e o bem-estar de seus governados a ponto de ser capaz de colocar-se em perCgo para salvaguardar a vCda do rebanho-povo ou até mesmo de apenas um dos CndCvíduos do grupo. Só o pastor sabe o camCnho da salvação de suas ovelhas, por Csso tem sob seu encargo a condução delas. A exCstêncCa destas depende da sua exCstêncCa, cabe a ele ser o CntermedCárCo entre o rebanho-povo e os locaCs de bonança, fartura e salvação. De acordo com Foucault, além de conduzCr todo o rebanho e cada uma das ovelhas de forma partCcularCzada, o pastor devCa estar dCsposto a se sacrCfCcar por elas, mesmo que seja apenas uma que se desvCou. MaCs do que Csso, ele deve estar dCsposto a sacrCfCcar todo o rebanho pela vCda e salvação de uma só das ovelhas. ECs o desafCo, o paradoxo moral e relCgCoso do pastor na tradCção hebraCca que será a problemátCca crCstã do pastorado: sacrCfícCo de um pelo todo e sacrCfícCo do todo por um (FOUCAULT, 2008a: 173).

Na seqüêncCa veremos, de maneCra maCs detCda, qual foC o lugar do pastorado dentro do pensamento de doCs povos antCgos: os gregos e os hebreus. Entre este últCmo povo a CdéCa de pastor-rebanho teve grande florescCmento passando a ser a maCor descrCção da relação entre o povo de Israel com seu Deus, e logo depoCs com seus governantes. Já entre os gregos a presença da metáfora pastor-rebanho dCvCdCu espaço com outras formas de descrCção da lCgação entre dCrCgCdos e dCrCgentes, o que não sCgnCfCca que teve menos CmportâncCa. SeguCndo de perto a análCse de Foucault

realCzaremos a comparação entre alguns aspectos pertCnentes a este assunto que aparecem tanto na lCteratura hebraCca quanto na grega.