Antes de iniciar o debate sobre o artesanato como setor criativo, buscou-se entender sua origem e conceito como forma de analisar o desenvolvimento da atividade artesanal ao longo do tempo. Numa tentativa de buscar suas origens, autores como Chiti (2003) e Cardoso (2003) remontam a um passado no qual a história do artesanato se confunde com a história da
própria humanidade, em uma época em que o ser humano passou a criar objetos com suas próprias mãos para garantir sua sobrevivência e bem-estar individual e coletivo. Os autores destacam que os primeiros artefatos feitos pelo homem eram artesanais, em um período pré- histórico, denominado neolítico (6.000 a.c).
No decorrer dos longos anos da história, os grupos humanos continuaram a produzir objetos artesanais, imprimindo em suas peças importantes detalhes de suas culturas – valores, costumes e hábitos -, os quais, se analisados em conjunto, permitem compreender o processo de evolução da humanidade (LIMA, 2005). Nesse âmbito, Barroso (2001) associa o surgimento da atividade artesanal, no ocidente, ao desenvolvimento das cidades e ao aparecimento de atividades urbanas necessárias à vida e coletividade.
Kubrusly e Imbroisi (2011, p.11) argumentam sobre a importância da atividade
artesanal para o processo civilizatório: “ferramentas e habilidades foram se aperfeiçoando, e os
artesãos em seus diferentes ofícios, tornaram-se responsáveis pela fabricação de todos os
objetos, o que lhes conferiu certo poder e representatividade política e social”.
Os autores lembram que a produção artesanal foi a única forma de fazer e construir tudo o que era necessário até meados do século XVIII, quando a invenção de máquinas que substituiriam mãos e ferramentas – como os teares mecânicos – desencadeou uma das maiores transformações na estrutura da civilização ocidental até então: a Revolução Industrial, que teve início no setor têxtil da Inglaterra. Percebe-se que, a partir desse momento histórico, a função produtiva do artesanato começou a se modificar, passando de único meio de fabricação para uma forma alternativa de produção. Com o desenvolvimento industrial, o artesanato entrou em um processo lento de decadência e marginalização social econômica, sobrevivendo como alternativa de consumo para as populações periféricas, afastadas, ou de menor poder aquisitivo, impossibilitadas economicamente de acesso aos bens e serviços produzidos pelas indústrias (BARROSO, 2001).
Esse cenário de marginalização da atividade artesanal, destacado por Barroso (2001), tem perdurado nas últimas décadas, sobretudo devido à existência de barreiras e entraves que dificultam as pequenas unidades produtivas artesanais de competir com o produto industrial de larga escala. Contudo, o intuito de avivar o debate sobre as condições atuais do setor artesanal será discutido em outro momento da presente pesquisa.
Após a identificação de suas origens, algumas definições de artesanato serão apresentadas, enfatizando determinados aspectos componentes da atividade artesanal. O conceito utilizado pelo Conselho Mundial de Artesanato (World Craft Council- WWC) foi proposto pelo brasileiro Eduardo Barroso Neto, por ocasião do Seminário Internacional
“Design Sem Fronteiras”, realizado em 1996, na cidade de Bogotá – Colômbia. Segundo esta definição, “podemos compreender como artesanato toda atividade produtiva de objetos e
artefatos realizados manualmente, ou com a utilização de meios tradicionais ou rudimentares,
com habilidade, destreza, qualidade e criatividade”.
Lima (2005) argumenta que o objeto artesanal é definido por uma dupla condição:
“primeiro, o fato de seu processo de produção ser essencialmente manual; segundo, a liberdade
do artesão para definir o ritmo da produção, a matéria-prima e a tecnologia que irá empregar, a forma que pretende dar ao objeto, produto de sua criação, de seu saber, de sua cultura”.
O Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), em sua base conceitual, define o artesanato como:
Toda a produção resultante da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas, aliando criatividade, habilidade e valor cultural (possui valor simbólico e identidade cultural), podendo no processo de sua atividade ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios (BRASIL, 2012, p. 12).
Um aspecto a ser ressaltado da definição do PAB para o artesanato, é a possibilidade de uso limitado de instrumentos e máquinas aplicadas na criação dos artefatos, uma vez que a destreza manual do homem é que dará ao objeto uma característica própria e criativa, refletindo a personalidade do artesão e a relação deste com o contexto sociocultural do qual emerge (BRASIL, 2012). Lima (2005) também identifica que o emprego de equipamentos e máquinas é subsidiário à vontade de seu criador. Nesse sentido, sobre a relação artesão/artesanato/contexto, Sales (1983) confirma que o artesanato, por definição, é o fazer diário, necessário e comum. A habilidade de trabalhar qualquer matéria-prima ao alcance das mãos para afeiçoá-la e torná-la útil ao bem-estar dos indivíduos confere a cada peça ou objeto oriundo desse processo características de quem o cria, assim como pode identificar ou caracterizar a região em que se expande.
Para Tedesco (2005, p. 223), o artesanato resulta “[...] de uma relação dinâmica
entre o espaço cultural dos sujeitos, com sua dimensão ecológica, com o ambiente com o qual imprimiu e imprimiu-se de história, em geral no âmbito coletivo da família e estendida às redes
de reciprocidade”. Nesse sentido, Prudêncio (2012, p.49) argumenta que “parte daquilo que
compõe [...] as tradições culturais do Brasil não são, necessariamente, originárias do lugar, mas foram construídas, ganhando significados, representando o pensamento, o modo de vida,
compondo uma ideia de nação brasileira”.
Kubrusly e Imbroisi (2012, p.21) analisam o processo de formação de uma identidade cultural brasileira com o foco sobre o artesanato têxtil. Segundo os autores, a história
do artesanato têxtil brasileiro acompanha o perfil de formação da cultura brasileira:
“conhecimentos indígenas se misturam àqueles trazidos pelos portugueses, recebendo
contribuições africanas e de outros europeus”. Para os autores, esse é um dos diferenciais do artesanato brasileiro, que o destaca internacionalmente e que torna ainda mais essencial o resgate e a valorização de técnicas tradicionais e sua renovação por meio de parcerias construtivas.
Canclini (1983) aborda, em sua definição de artesanato, o modo como se dá aprendizagem do ofício artesanal: o desenvolvimento da atividade passa de geração em geração, com técnicas rudimentares que refletem uma cultura, seus hábitos ou cotidiano, através de suas experiências de vida e que são fonte de renda, utilizando quase sempre matérias-primas disponíveis facilmente ao seu alcance.