Além do Instituto Ethos, para se ter uma idéia da dimensão que atingiu o movimento pela RSE no Brasil, a cada dia são novas organizações – empresas, associações, institutos, universidades –, que passam a tratar da questão, cada uma tentando dar um enfoque particular e sua própria contribuição ao tema. Cada uma busca imprimir seus interesses na definição da RSE. Nos últimos anos tem se formado uma "indústria" da RSE no Brasil, no sentido de que
46 Prêmio Ethos-Valor – Concurso Nacional para Estudantes Universitários sobre Responsabilidade Social das
Empresas, em sua 5ª Edição, tem por objetivo incentivar e aprofundar o debate sobre a responsabilidade social das empresas na comunidade acadêmica, envolvendo professores e alunos de todas as áreas, nos cursos de graduação e pós-graduação, em todo o território nacional. A evolução do número de trabalhos inscritos no Prêmio Ethos-Valor manifesta o aumento do interesse pelo tema. Em sua primeira versão, teve 105 trabalhos inscritos; em 2001, 185; em 2002, 295; em 2003, 358.
47 Em sua 4a edição, o Prêmio Ethos de Jornalismo – Empresas e Responsabilidade Social tem como objetivo
distinguir jornalistas que tenham produzido trabalhos concebidos segundo o conceito de responsabilidade social empresarial. Prestigia matérias que contribuam para estimular empresários a investir em práticas socialmente responsáveis, como preservação do meio ambiente e do patrimônio cultural; promoção dos direitos humanos e das relações com acionistas, funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade e meio ambiente. O Instituto Ethos, realizador do concurso, acredita que a imprensa, por ser formadora de opinião e difundir informações, tem papel fundamental na responsabilidade social empresarial, uma vez que pode contribuir para que as empresas e toda a sociedade estabeleçam padrões éticos de relacionamento e promovam o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.
48 O Prêmio Balanço Social, criado em 2001, é uma iniciativa conjunta da Associação Brasileira de
Comunicação Empresarial (Aberje), da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, da Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social (Fides) e do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), com o patrocínio do Sesi, do Sebrae e da Petrobrás. As empresas vencedoras da 3a edição, em 2004, que
contou com a participação de 167 empresas, foram: CPFL Energia (Destaque Nacional); Banco do Brasil S/A (Centro-oeste); Natura Cosméticos S/A (Estado de SP); CELPE - Companhia Energética de Pernambuco (Norte/Nordeste); Usinas Siderúrgicas de Minas (Sudeste), Milenia Agro-Ciências S/A (Sul); e, Skill Contabilidade (Micro, pequena e média empresa).
movimenta recursos expressivos em sua volta, como cursos, consultorias, departamentos, projetos etc. – revelando um jogo de interesses em sua institucionalização e perpetuação.
Como exemplo de organização que passou, recentemente, a inserir-se no movimento pela RSE, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC)49 promoveu pesquisa sobre o tema e lançou um Guia de Responsabilidade Social50, em agosto de 2004. Em menos de um mês, mais de 6,4 mil downloads tinham sido feitos do Guia (IDEC, 2005), evidenciando que muitas organizações estão demandando informação sobre o tema, sinalizando sua intenção/ação de se inserir no movimento pela perspectiva que elegeram, no caso, o consumo responsável.
Além disto, a questão da RSE ganhou maior relevância na sociedade brasileira principalmente com a intensificação de suas interações com a opinião pública, principalmente por meio da mídia. Muitos exemplos podem ser buscados, como o Guia da Boa Cidadania Corporativa, publicado desde 2000 pela Revista Exame, que avalia os melhores projetos sociais empresariais, por categorias; o já citado Prêmio Valor Social, uma parceria do Instituto Ethos com o Jornal Valor Econômico; um suplemento mensal denominado “Empresas e Comunidade” divulgado pelo Jornal Valor Econômico, entre muitos outros desta natureza, como os cadernos publicados pelos Jornais O Globo e Jornal do Brasil, como exemplos.
Desta forma, ao final da década de 90, a RSE, e principalmente os investimentos em programas sociais, passou a ser uma questão de debate público (CAPPELLIN e GIULIANI, 2002), passando mesmo a se tornar, gradativamente, um valor para a sociedade. E quanto mais isto é percebido pelas empresas, mais investem na questão, alimentando a institucionalização da prática social. Nesse sentido, muitas empresas buscaram aumentar sua
49 O Idec começou a atuar em relação ao tema Responsabilidade Social com o projeto Avina (Idec) "O
Consumidor e a Responsabilidade Social Corporativa", que teve início em janeiro de 2003, que consiste em desenvolver uma metodologia para avaliar a responsabilidade social corporativa. O Idec estabeleceu relacionamento com outras organizações que trabalham com o mesmo tema ou com assuntos correlatos, como meio ambiente. Além disso, o Idec está participando de um grupo técnico da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que está discutindo uma norma de responsabilidade social e inclui representantes de ONGs, empresas e órgãos governamentais. O Idec participa também do Grupo de Trabalho sobre Fronteiras de Relatórios de Sustentabilidade (Boundaries Working Group) do Global Reporting Initiative (GRI), que tem o objetivo de preparar um protocolo sobre como as empresas ou organizações devem definir sobre quem reportar, complementar ao Guia do GRI para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade (IDEC, 2005).
50 O Guia aborda a evolução dos movimentos dos consumidores no Brasil e no mundo, o panorama atual da
responsabilidade social mundial, as diferentes visões empresariais e o papel dos consumidores nessas ações. Entre os deveres dos consumidores, o guia destaca a reflexão sobre os hábitos de consumo e a escolha de produtos de empresas reconhecidas por suas práticas responsáveis e pela postura ética.
visibilidade na promoção de iniciativas sociais51, seja com a criação de departamentos específicos dentro da empresa responsáveis pelas iniciativas e programas sociais, seja pela criação de institutos ou fundações com esse objetivo específico. Estas diferentes opções, segundo Cappellin e Giulliani (2002), refletem diferentes estratégias de atuação e uma forma específica de ver a questão. O primeiro combina estratégia econômica com a social, mantendo a estrutura dentro da empresa. O segundo procura profissionalizar as ações sociais e separá- las da gestão da empresa (CAPPELLIN e GIULIANI, 2002). Ainda, inicia-se um processo de cumprimento de provas estabelecidas para legitimar a RSE, alimentando ainda mais o fenômeno.
No meio empresarial, a atuação das entidades associativas e de representação de empresários é crucial para esta disseminação, como veremos a seguir.
4.3.3.1 Associações Empresariais
Segundo Cappellin et al. (2002), as mudanças da última década, a rápida liberalização da economia, as reformas estruturais e a reorganização do mercado face à globalização têm levado o mundo empresarial a repensar os modelos de produção, os mecanismos de gestão e de regulação institucional, incentivando os empresários a buscar novos modelos e alternativas. Neste novo contexto, os empresários recorrem sempre mais às suas entidades associativas e de representação, que se colocam como veículos de intermediação privilegiados nas relações entre os empresários, a sociedade e o Estado. Segundo os autores:
Uma entidade de representação empresarial de sucesso é aquela que sabe sintonizar-se com o seu entorno, harmonizando sua fisionomia com as variações que este lhe solicita ou sabendo agir como uma “caixa de ressônancia” para ações capazes de plasmar o próprio ambiente [...] desempenhar três funções importantes para as empresas: ser reserva de
51 Nesse sentido, o Ipea realiza a pesquisa Ação Social das Empresas, em sua segunda edição, para saber quantas
empresas e quanto investem, por região, identificando razões pelas quais declaram se preocupar com a responsabilidade social – questão de imagem, de ampliação das relações da empresa com a comunidade, lucratividade, motivação interna, produtividade, entre outros. Os dados preliminares da segunda edição da pesquisa apontam um crescimento da participação da iniciativa privada no Brasil no atendimento dos problemas sociais. Segundo o levantamento, 74% das empresas da região Nordeste e 71% da Sudeste afirmaram realizar algum tipo de investimento comunitário em 2003. As ações variaram desde uma simples doação até complexos projetos de desenvolvimento humano. Para se ter uma idéia deste crescimento, no final dos anos 1990, os números eram respectivamente 55% e 67%. Minas Gerais se manteve como o estado com maior índice de participação, 81%. O combate à fome foi um dos destaques do levantamento. Perguntados de forma específica se realizavam algum tipo de ação voltada para esse campo, 31% dos empresários do Nordeste e 28% do Sudeste afirmaram que sim (IPEA, 2001; WOLFFENBÜTTEL, 2005).
recursos, ser fonte de informações e ser um campo simbólico relevante [...]” (CAPPELLIN et al., 2002, p.258-9) (grifo nosso).
Segundo Cappellin et al.(2002), as entidades associativas e de representação dos empresários passam a ser agentes privilegiados nas relações entre os empresários, a sociedade e o Estado: “Por fim, estas organizações se comunicam com o ambiente por meio de símbolos e valores, não esgotando a relação em uma simples troca de mensagens, mas realizando uma contínua e inovadora interação” (CAPPELLIN et al., 2002, p.258). Assim, a complexidade de suas ações mostra seu duplo caráter, um agir politicamente regulado e, ao mesmo tempo, tendo a capacidade/objetivo de participar dos processos decisórios coletivos, buscando interferir nas propostas de governos e orientando os investimentos do setor que representam, as entidades associativas podem vir a exercer influência política sobre a sociedade. Os autores acrescentam que, nas últimas duas décadas, surge outra função motivadora da formação de entidades associativas de empresários, que é incentivar as empresas a envolver-se em programas que compensem a postura neoliberal do Estado e seu progressivo desinvestimento na questão social.
Segundo pesquisa realizada pelos autores, em 1999, com cinqüenta e seis representações empresariais, as atitudes empresariais com relação à responsabilidade social iam desde o desconhecimento da problemática, ou ao simples desinteresse por esta, até sua compreensão ou ao empenho intelectual e prático nesta direção. Nas conclusões da pesquisa relatam que contribuem para essa diversidade de atitudes atores que mantêm interlocução com os setores empresariais: a imprensa, as organizações internacionais, as ONGs com suas campanhas, os pesquisadores e os organismos do Poder Executivo. Concluem também que diversas são as motivações que levariam as associações empresariais a formatar ações socialmente responsáveis, sobressaindo-se a convicção de que muitas operações não passam de meras operações de marketing (CAPPELLIN et al., 2002).
A Febraban, considerada um ator-chave para o movimento no Campo das Organizações Bancárias, como veremos no capítulo 6, aparece na análise dos resultados da referida pesquisa inserida na categoria de entidade que considera que a responsabilidade social “é uma opção pessoal” (CAPPELLIN et al, 2002, p.266). Essa categoria reconhece a importância e a pertinência das questões relativas ao tema, no entanto, não pretende assumir um envolvimento direto como instituição, acreditando que, se esta assumisse a iniciativa de propor ou coordenar
ações sociais da própria entidade, poderia ter o efeito de inibir ou atrapalhar as ações individuais já em curso (CAPPELLIN et al., 2002).