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Consoante fora exposto no tópico anterior, a omissão do legislador em não estipular um prazo de duração para a causa suspensiva da prescrição prevista no artigo 366 do Código de Processo Penal, tornou-se uma discussão recorrente não só a nível doutrinário como jurisprudencial. As variadas interpretações deram azo a uma diversidade de julgados conflitantes, tendo sido a matéria submetida a apreciação do Supremo Tribunal Federal.

No ano de 2007, a Primeira Turma do Supremo, por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário 460.971/RS148, debateu a matéria e, com base na orientação firmada

146 RE 460.971-1, julgado em 13.02.2016, Relator Min. Sepúlveda Pertence.

147 LOPES JÚNIOR, Aury. Direito Processual Penal. 11 ed. São Paulo: Sarava. 2014. p. 776.

148 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário. 1. Conforme assentou o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Ext. 1042, 19.12.06, Pertence, a Constituição Federal não proíbe a suspensão da prescrição, por prazo indeterminado, na hipótese do art. 366 do C.Pr.Penal. 2. A indeterminação do prazo da suspensão não constitui, a rigor, hipótese de imprescritibilidade: não impede a retomada do curso da prescrição, apenas a condiciona a um evento futuro e incerto, situação substancialmente diversa da imprescritibilidade. 3. Ademais, a Constituição Federal se limita, no art. 5º, XLII e XLIV, a excluir os crimes que enumera da incidência material das regras da prescrição, sem proibir, em tese, que a legislação ordinária criasse outras hipóteses. 4. Não cabe, nem mesmo sujeitar o período de suspensão de que trata o art. 366 do C.Pr.Penal ao tempo da prescrição em abstrato, pois, "do contrário, o que se teria, nessa hipótese, seria uma causa de interrupção, e não de suspensão." 5. RE provido, para excluir o limite temporal imposto à suspensão do curso da prescrição. Recorrente: Ministério Público do Rio Grande do Sul. Recorrido: Valdemar Brito da Silva. Relator: Min. Sepúlveda Pertence. Brasília,

13 de fevereiro de 2007. Disponível em: <

http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28RE%24%2ESCLA%2E+E+460971 %2ENUME%2E%29+OU+%28RE%2EACMS%2E+ADJ2+460971%2EACMS%2E%29&base=baseAcordaos &url=http://tinyurl.com/be4yupm>. Acessado em: 06 jun. 2016.

pelo Tribunal Pleno quando da apreciação da Extradição executória 11.042/RP, entendeu que a Constituição Federal não proíbe a suspensão da prescrição por prazo indeterminado.

Na época, a sentença, que promovendo insatisfação culminou no Recurso Extraordinário em análise, argumentava que a ausência de prazo limite para a situação de suspensão da prescrição proposta pelo artigo 366 do Código de Processo Penal, embora não instituísse propriamente novo caso de imprescritibilidade, pois não fora esse o nome dado a figura, resultava em situação equivalente que recebia o mesmo tratamento dispensado aos crimes imprescritíveis, em manifesta afronta à Constituição Federal. Com base nos referidos fundamentos, o juízo defendeu a necessidade de estipulação de prazo para a duração nova causa suspensiva da prescrição, tendo julgado o caso em consonância com o teor da súmula 415 do STJ.

O Ministério Público, insatisfeito, interpôs recurso e quando do julgamento desse o STF argumentou que a indeterminação do prazo da suspensão não constitui, a rigor, hipótese de imprescritibilidade, pois não impede a retomada do curso da prescrição, apenas a condiciona a um evento futuro e incerto, situação que, segundo o entendimento firmado, é substancialmente diversa da imprescritibilidade. Entendimento do qual Tourinho Filho149 comunga.

Além disso, defendeu-se que sujeitar o período de suspensão de que trata o artigo 366 do CPP ao tempo da prescrição em abstrato é incabível, pois essa possibilidade configuraria a criação de uma causa de interrupção e não de suspensão.

No julgamento também se afirmou que a Constituição Federal quando especificou no artigo 5°, incisos XLII e XLIV, que os crimes de racismo e de ação de grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático não estão sujeitos a incidência da prescrição, não proibiu que a legislação ordinária crie novas hipóteses de crimes imprescritíveis, ou seja, posicionou-se no sentido de que seria possível a inclusão de novas hipóteses de crimes imprescritíveis no ordenamento nacional.

Os argumentos enunciados pelo relator do caso, Ministro Sepúlveda Pertence, emergiram em direção oposta ao entendimento doutrinário e jurisprudencial até então dominantes. Por essas razões, o julgamento do RE 460.971-1/RE firmou-se paradigma para a doutrina e jurisprudência nacional e formalizou a divergência entre a interpretação do Superior Tribunal de Justiça, favorável a limitação temporal da suspensão com base na pena máxima cominada ao tipo penal, Súmula 415, e a do Supremo Tribunal Federal, até o presente momento

149 Fernando da Costa Tourinho Filho afirma: “A suspensão do curso da prescrição por prazo indeterminado não implica imprescritibilidade de conduta, ao contrário daquelas hipóteses tratadas na Lei Maior.”. (Processo Penal. Vol. 3. 35 ed. São Paulo: Saraiva. 2013. p.21)

partidário do entendimento de que inexiste empecilho a aplicação da disposição do artigo 366 sem limitação temporal.

Entretanto, ressalta-se que as orientações esposadas no julgamento não convenceram e não foram suficientes para encerrar a controvérsia existente sobre a matéria.

No ano de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a existência de repercussão geral em Recurso Extraordinário (RE n° 600.851/DF – ainda em julgamento), em razão das discussões sobre a existência de limitação temporal acerca do prazo de suspensão do processo e do prazo prescricional nos casos do artigo 366 do Código de Processo Penal. Como a matéria ainda não foi julgada, continua sendo possível a alteração do entendimento do STF.

Vê-se, desse modo, que o assunto permanece controverso e longe de perfazer-se pacífico, mas espera-se que o Supremo Tribunal Federal quando julgar o RE n° 600.851/DF, atua com maior razoabilidade e siga a orientação do Superior Tribunal de Justiça, porque admitir a suspensão do prazo prescricional por tempo ilimitado, é, em outras palavras, admitir novas hipóteses de imprescritibilidade.