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Optei pela realização de uma pesquisa de natureza qualitativa utilizando metodologia biográfico-narrativa, por compreender ser essa a modalidade de pesquisa que permite captar aspectos e nuanças próprias ao fenômeno que estou investigando.

O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objeto de pesquisa, para extrair desse convívio só significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível e, após este tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competências científicas, os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa (CHIAZZOTTI, 2003, p. 221).

A metodologia biográfico-narrativa (BOLÍVAR, 2002) permite a identificação da trajetória profissional, reunindo, através das histórias de vida e auto-informações dos professores, saberes pessoais implícitos nem sempre conhecidos pelos mesmos.

De acordo com essa linha de pesquisa, para a produção de informações, considerei como instrumentos para coleta de dados: o questionário de caracterização e entrevistas estruturadas e biográficas.

A aplicação do questionário de caracterização possibilitou acessar informações mais gerais dos entrevistados por não contar com a intervenção direta da pesquisadora, pois as questões foram respondidas por escrito, antes da entrevista. Tal procedimento funcionou também como um aquecimento à entrevista.

Afetamos e somos continuamente afetados nas interações (ALMEIDA, 2008). Ao descrever suas trajetórias profissionais, os participantes, e não menos a entrevistadora, não sobrepairam incólumes às experiências compartilhadas. As entrevistas estruturadas possibilitaram a reunião de elementos-chave sobre a vida dos professores entrevistados e a organização esquemática de um biograma profissional.

O biograma refere-se a “linhas esquemáticas dos principais fatos ou acontecimentos, assim como incidentes críticos, divididos por segmentos que são interligados para receber um sentido de conjunto” (BOLÍVAR, 2002, p.178).

Por incidente crítico, Bolívar (2002, p. 191) entende:

O fato de um acontecimento, pessoa ou fase adquirir um caráter “crítico” não depende do pesquisador, mas de que o próprio sujeito lhe dê esse caráter – direta ou contextualmente – no seu relato (por exemplo, “foi uma coisa muito importante na minha vida”). As possíveis relações causais são estabelecidas pelo próprio informante, conquanto possam/devam ser induzidas a fim de precisá-las na parte de cada entrevista.

Nessa perspectiva, ao elaborar os biogramas das trajetórias profissionais docentes busquei a identificação de incidentes críticos.

Os incidentes críticos surgem nesse contexto como uma técnica que possibilita observar uma dada situação e, por meio dela, possa-se fazer induções ou previsões sobre a realização de uma ação. A trajetória de vida de um indivíduo – aqui consideraremos professores de Administração – é marcada por experiências significativas; revisar esse percurso pode contribuir para tornar conscientes elementos desencadeadores de suas práticas, bem como para revelar possibilidades de mudança.

Embora, ao montar os biogramas, o pesquisador possa indicar incidentes críticos através de entrevistas sucessivas, é o entrevistado que chancela ou não a indicação de tais fatos. Trata-se, pois, de uma leitura partilhada a fim de se alcançar uma síntese consensual.

3.1.1 Participantes

Os sujeitos desta pesquisa são três professores do Ensino Superior do curso de Administração oriundos de Instituição de ensino privada, sendo dois de área curricular específica

de Administração e outro da área de Conhecimentos Gerais, neste caso, Comunicação e Expressão.

Para investigar a trajetória profissional dos professores de Administração, o critério para seleção dos participantes da pesquisa foi o desenvolvimento de uma carreira docente sólida, visto estarem no magistério há mais de 20 anos, além de serem indicados pelo gestor da IES como sendo bons professores.

3.1.2 Instituição de ensino

Instituição privada de ensino que oferece cursos nas áreas de Ciências da Saúde, Ciências Exatas, Ciências Sociais, Comunicação, Educação, Engenharias e Tecnologias. A instituição atende um contingente razoável de estudantes do curso de Administração devido à sua tradição no ensino. Oficialmente, iniciou suas atividades em 1914, atendendo alunos no que hoje, denominaríamos ensino fundamental, e foi, com o passar dos anos, ampliando sua atuação. Atualmente, possui uma infra-estrutura que atende cerca de 8 mil alunos.

Para a área de Administração, a referida instituição de ensino superior (IES) oferece gratuitamente consultoria a empresas em São Paulo para o desenvolvimento de seu projeto pedagógico nas disciplinas de Administração Financeira, Recursos Humanos, Marketing, Produção e Logística pertencentes à formação acadêmica em Administração de Empresas.

No desenvolvimento desse projeto, que conta com o envolvimento docente em sua supervisão, os alunos vão até as empresas, realizam pesquisas e levam as informações para discussão com os professores em sala de aula.

Segundo informações colhidas no site da IES, a metodologia empregada nesse projeto recebeu elogios de órgãos significativos, cujas empresas associadas participam e recebem a consultoria anteriormente citada.

Foram esses os motivos, aliados à disponibilidade de um dos gestores, para a escolha da instituição.

3.1.3 Etapas para realização da primeira entrevista

Passos para sua efetivação:

Após a escolha da instituição, foi realizado um contato telefônico com um dos gestores da instituição com o objetivo de marcar uma visita. O caráter dessa visita seria fazer a apresentação breve do trabalho de pesquisa, e buscar a indicação de profissionais com carreira docente sólida e considerados bons professores.

Nesse momento, pude não somente conversar com um dos gestores sobre o trabalho que pretendo desenvolver, mas também conhecer a instituição. Assim, obtive os contatos de dois professores.

3.1.3.1 Realização dos primeiros contatos para agendar uma data para entrevista.

Um dia antes da data combinada, contatei os sujeitos para confirmar os horários. A disponibilidade de ambos para um determinado dia na semana fez ser possível o agendamento das entrevistas no mesmo dia. Dessa forma, combinamos os horários com intervalo de aproximadamente uma hora e meia entre uma entrevista e outra e, também o local. As entrevistas foram realizadas na própria instituição de ensino em que os participantes lecionam, em prédios distintos.

3.1.4 Roteiro da primeira entrevista

1. Por que você é professor de um curso de Administração? 2. Como você se formou professor?

3. Sua vivência enquanto aluno influencia sua prática enquanto professor? 4. Como você se sentiu ao entrar pela primeira vez em uma sala de aula?

5. Qual foi a primeira vez que você foi chamado de professor, e o que isso significou para você?

6. O que te levou a ser professor?

7. Qual foi o momento em que decidiu tornar-se professor?

8. No início da sua carreira contou com a ajuda de alguém? Quem foi? O que foi mais decisivo nessa ajuda?

9. Descreva uma aula que nunca esqueceu.

10. O que você acha que precisa saber para exercer sua função de professor? 11. Em sua opinião, o que o faz ser reconhecido como professor?

12. O que você julga imprescindível para ser um bom professor de Administração? 13. O que tem contribuído para ser um bom professor?

14. Há alguém que tenha sido referência para sua atuação docente? Por que? 15. Revendo sua trajetória profissional o que você sente? O que mudaria nela se

pudesse?

3.1.5 Primeira entrevista com P1

Para a realização da primeira entrevista com o primeiro participante, a quem denominei P1, cheguei à faculdade com aproximadamente vinte minutos de antecedência. O sujeito da pesquisa chegou com dez minutos de antecedência ao horário marcado.

Até nos instalarmos em uma sala de aula vazia, trocamos rapidamente algumas impressões sobre a realização da pesquisa. Localizada a sala, nos acomodamos e explanei brevemente sobre o objetivo da pesquisa, apresentei-lhe a Carta de Informação ao Sujeito da Pesquisa 5, o Termo de Livre Consentimento Esclarecido6 e o questionário de caracterização. Após isso, disse-lhe que iniciaríamos a entrevista. Foi pedido seu consentimento também para que a conversa fosse gravada. Liguei o gravador e ali permanecemos por cerca de trinta e cinco minutos.

Ao encerrar a entrevista com o primeiro professor, dirigi-me ao outro prédio. Apresentei-me à secretária que estava na recepção e fui direcionada a uma saleta, local em que permaneci por cerca de trinta minutos. Nesse intervalo, enquanto aguardava o outro participante, busquei registrar minhas impressões sobre a entrevista anterior e também o que estava sentindo.

5 Ver Apêndice A, p. 90 6 Ver Apêndice B, p. 91.

3.1.6 Primeira entrevista com P2

O segundo participante, P2, chegou ao local com dez minutos de antecedência ao horário marcado. Do prédio em que combinamos a realização da entrevista, seguimos até a sala do professor onde pudemos nos acomodar confortavelmente. Do mesmo modo em relação à entrevista anterior, apresentei os objetivos da pesquisa, apresentei-lhe o Termo de Livre Consentimento Esclarecido, o questionário de caracterização e também solicitei-lhe autorização para que a entrevista pudesse ser gravada. Após esses procedimentos, liguei o gravador. Este participante pediu que deixasse o aparelho bem próximo a ele. A entrevista estendeu-se por quarenta e cinco minutos.

3.1.7 Primeira entrevista com P3

A primeira entrevista com P3 foi marcada por interrupções. Após a indicação do gestor da instituição, que gentilmente me forneceu o telefone de contato do entrevistado, realizei, inicialmente, o contato telefônico com o professor, e procurei, a partir de sua agenda, marcar um dia disponível para a realização da entrevista.

A entrevista foi marcada na própria instituição de ensino. Cheguei ao prédio com cerca de dez minutos de antecedência, a secretária anunciou minha chegada e pediu que eu aguardasse. Em seguida, o professor dirigiu-se até onde eu o aguardava e me informou que precisava resolver um problema, mas que logo retornaria.

Passada uma hora, o professor retornou e fui conduzida até sua sala. Após nos acomodarmos, apresentei-lhe os objetivos da pesquisa, o Termo de Livre Consentimento Esclarecido, o questionário de caracterização, e também solicitei-lhe autorização para que a entrevista pudesse ser gravada. Da sua confirmação, liguei o gravador.

3.1.8 Ampliando a investigação

Até esse momento, havia realizado uma primeira entrevista com os dois participantes e me preparava para a Banca de Qualificação. Porém, antes de submeter o trabalho à apreciação, tive a oportunidade de apresentar a semente dessa investigação em dois congressos de abrangência significativa: CIP – Congreso Interamericano de Psicología, realizado na cidade de Medellín, Colômbia e, no 10º Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sudeste – Pós-Graduação em Educação na região sudeste em suas múltiplas dimensões, realizado no Rio de Janeiro.

Convém ressaltar que a troca de experiências com outros pesquisadores, quer fossem de áreas correlatas à Educação ou mesmo distintas, trouxe importantes contribuições para o momento em que me encontrava. Fez-me percebero quanto é vivo o desenvolvimento de uma pesquisa, e tornou o caminho menos solitário. A participação em congressos, encontros e mostras, entre outros eventos acadêmicos, possibilita a troca de saberes e o compartilhar de inseguranças, aprendizados entre pesquisadores de experiências diversas.

Após a participação nos referidos eventos, submeti o trabalho à Banca de Qualificação e recebi a sugestão de integrar às entrevistas mais um participante. Para chegar ao terceiro professor, refiz o caminho, recorri novamente a um dos gestores da IES, e busquei, embasada nos critérios anteriormente mencionados, chegar a um professor que atendesse aos critérios afixados.

A seguir, apresento as informações colhidas na aplicação do questionário de caracterização dos três participantes dessa pesquisa:

Quadro 1 - Informações colhidas com o questionário de caracterização

Nome Idade Formação

(Graduação) especialização Cursos de Leciona em outras

faculdades Tempo de atuação nesta faculdade Tempo de

magistério atividade além Outra

da docência

P1 59 anos Letras Sim, em uma

faculdade

26 anos 30 anos Não

P2 59 anos Economia Sim, em três

faculdades 8 anos 32 anos Sim, atua como consultor de Tecnologia da Informação P3 53 anos Tecnologia e Administração Didática e Ensino; Administração da produção; Engenharia de manutenção Sim, em oito faculdades

25 anos 25 anos Sim, na Diretoria da Faculdade de

Tecnologia

Benzer Belgeler