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Aos 25 anos, Rita conheceu sua mãe em Sobral, que, vendo a situação de penúria da filha, a convidou para vir a Fortaleza, mas lhe disse que não poderia ficar com ela e lhe indicou caminhos: mais tem três caminho pra você seguir um emprego, uma casa pra morar e uma pensão, uma pensão quer dizer o quê? Casa de mulheres, né? é dois caminho, eu escolhi um emprego e um canto pra mim ficar, aí foi quando eu vim pra cá, aí ela me trouxe.

Contou que ao chegar foi morar em Caucaia (cidade limítrofe com Fortaleza), num quartinho que alugou de um soldado. Sua mãe conhecia uma senhora que trabalhava pras banda da Aldeota, e minha mãe pediu pra arranjar um emprego pra mim. Ela conseguiu emprego e contou que para trabalhar precisava deixar o seu filho Rogério em casa trancado para poder sair e, quando recebeu o primeiro salário, alugou um quarto próximo ao seu local de trabalho.

A narração não tem uma linearidade, e os eventos nem sempre se ligam a uma ordem lógica e muito menos cronológica. Na sua fala, ela diz que estava trabalhando no bairro Aldeota e, ao receber os seus primeiros proventos, locou um quarto perto de onde trabalhava

lá pras banda do Aeroporto, na Vila União[bairro] , onde alugou um quartinho mesmo, era só eu e meu menino.

O narrador (BENJAMIN, 1983) não vem, necessariamente, de longe Ele é alguém que pode ser simples, como Dona Rita, mas é o recordador e na sua memória traz consigo o sentimento do grupo familial. A história de vida da narradora é a história da migração, da pobreza e da mulher que vem para a cidade se submeter a morar numa invasão e sonhar com um lar para sua família.

Morando perto do aeroporto de Fortaleza, ela trabalhava numa cantina da CAGECE Servia a comida de todo mundo, servia minha casa também, era pertinho eu ia deixar pra ele [filho Rogério] lá, assim eu vivi um bocado de tempo. O filho, porém, adoeceu de sarampo, e ela teve que deixar o emprego, pois não tinha meios da vizinha que lhe ajudava ficar com seu filho. Ele ficou de olho trancado [fortes sintomas do sarampo]. Como deixou do emprego, também saiu do bairro Vila União. Aí voltei pro Pirambu e aluguei de novo um quartinho e fui tratar do menino [Na sua narrativa, ela não contou que, quando chegou a Fortaleza, veio morar no Pirambu. A informação era do conhecimento deste estudo pelo ao fato de sua mãe ter uma casa no bairro].

Depois desse emprego, ela contou que arumou outros e voltou para Sobral. Seu filho já contava sete anos, quando apareceu um velho na minha vida. Ela ia fazer 26 anos e ele já era viúvo, 59 anos, e queria casar com ela, ao que ela respondeu que não, pois ele tinha idade e não aceitaria que maltratasse seu filho. Segundo ela, porque a maioria dos padrasto e madrasta maltrata, né? Decidiram então se unir maritalmente e ele ajudaria a criar o menino Rogério. O companheiro disse que não produzia mais filhos: Eu fui na onda do velho, o velho disse que não fazia mais nada, não fazia mais filho, eu fui na onda dele, mulher só que nessa onda eu arrumei mais 5, justamente essas bênçãos que eu tenho, é o Ricardo, o Ribamar, o Reinaldo a Rosana e a Regiane, cinco.

O companheiro trabalhava numa fazenda e ela o ajudava no trabalho pesado, durante anos, criando os filhos e trabalhando, mas segundo ela o homem bebia uma pinga, cachaceiro, ignorante, ciumento que eu não podia olhar pra cara de ninguém, eu tinha que ficar olhando pra cara dele, aí pronto passou essa onda, aí passamo uma fase boa.

Ela contou que também sofreu nas unha dele, e explicou que ele não lhe batia, mas sabia usar as palavras para maltratá-la na boca dele, de rapariga eu não passava.Depois de um tempo, ele ficou desempregado, e a família voltou para o sertão, pra roça de novo, fui trabalhar campinando, plantando, trabalho pesado, trabalho pesado de homem mesmo, aì eu tive esses menino tudinho sofrendo, aí melhorou mais uma coisinha aí quando ele se aposentou.

Voltou para a cidade de Sobral com o cônjuge sexagenário e os filhos e, depois de algum tempo, disse: Romilson, sabe de uma coisa, vou voltar pra Fortaleza de novo, aí voltei pra Fortaleza de novo e até hoje tô aqui. Chegando em Fortaleza, diz ela:

Fui morar de aluguel e fui trabalhar de cigarreira nas praia no Mucuripe, no Serviluz, e aí minha filha, todo dia eu tava com minha caixinha de cigarro pegava mercadoria alheia e ganhava o mundo trabalhando pra poder sobreviver pra sustentar meus filhos. O dinheiro dele não dava, o dinheiro dele só dava pra pagar a passagem e o cigarro que ele me dava durante o mês, e eu tinha que pagar aluguel de casa e sustentar os filhos que era tudo pequenininho. Até minha filha que um dia eu cheguei em casa, eu tinha tirado uma rede no galego e tinha guardado o dinheiro do aluguel da casa, aí saí fui trabalhar, quando eu cheguei o abençoado de Deus tinha ido embora. Mulher, já com 74 anos levou minha rede, levou o dinheiro do aluguel da quarto, foi embora, me deixou

Após esse episódio da sua vida, ela contou: Continuei a vida, continuei pelejando, trabalhando, ainda penei um bocado com aluguel de casa até que um dia invadiram acolá no

Pirambu, na Areia Grossa. Ela lembra que o lugar era rampa de lixo e até a construção das casas de mutirão foi muito trabalho.

Foto da autora, 2000.

A conquista da casa na Areia Grossa é motivo de orgulho para Dona Rita que contou: Ali foi planeado tudo pela nossas mãos, nós trabalhamo, puxamo, cavamo nós planeamos aquilo ali tudinho manual ai minha filha foi um pedacinho de chão que eu consegui aquela casinha que eu tinha.

Foto da autora, 2000.

As casas da Areia Grossa foram construídas em regime de mutirão pelos “sem- teto” que invadiram o lugar ocupado por lixo na beira da praia. Com a ajuda de uma associação comunitária, conseguiram o material para edificar as casas, que foram

autoconstruídas pelos futuros moradores. Desde o início do processo, os moradores foram avisados de que a área era passível de desabamentos, como aconteceu. Veja meu diário de campo após quatro meses das primeiras visitas às famílias da Areia Grossa.

Fui informada de que aquelas casas serão retiradas por estarem em situação de risco, inclusive ao entrar na Araia Grossa percebi que havia mudado alguns aspectos na frente da casa de Dona Rita, o que a ela confirmou. Foi um pequeno desabamento na parte da frente da casa onde foi feito um “remendo” de cimento para segurar as casas até a retirada deles, prevista para janeiro de 2001. (Diário de campo, 03/11/2000).

A construção das casas do conjunto tropical foi antecipada para receber as famílias da Areia Grossa, pois a área estava susceptível de novos desabamentos. Sendo assim, a Areia Grossa teve o primeiro grupo de famílias beneficiadas no então Projeto CostaOeste.

A casa na beira da praia era exposta a instabilidades da moradia, com lixo a céu aberto, mosquitos, bichos-de-pé (Tunga Penetrans) e outras ameaças à saúde ocasionadas pelas precárias condições do imóvel.

Foto da autora, 2000.

As imagens associadas às falas e histórias são narrativas da trajetória das famílias pobres e seu percurso de migração para o urbano em condições de extrema indigência, denotando a trajetória da pesquisa e seus conceitos-chaves: família e pobreza.

Benzer Belgeler