4. BULGULAR ve TARTIŞMA
4.7. Bal Örneklerinin Antioksidan analizleri
4.7.2 Bal Örneklerinin Demir (III) İndirgeme Kapasiteleri (FRAP)
LOCALIDADE UNIDADES LANÇADAS
Guarulhos 4.105 Parque Bristol 931
Osasco 2.816 Taboão da Serra 918
Cotia 2.735 Limão 797
Santo André 2.708 Mauá 767
São B. do Campo 2.541 São J. Clímaco 750
V. Prudente 2.213 São C. do Sul 669
Alphaville/Tamboré/Barueri 1.503 São Miguel Paulista 583
Morumbi 1.186 Penha 550
Itaquera 1.154 Barra Funda 550
F. de Vasconcelos 1.062 Campo Grande 522
Fonte: EMBRAESP in site http://www.revista.construcaomercado.com.br, edição 99, outubro/2009, acessado em 21/02/2010.
Tabela 9 - Municípios ou bairros com maior número de lançamentos de edifícios de apartamentos de dois dormitórios nos últimos 24 meses na Região Metropolitana de São Paulo.
LOCALIDADE NÚMERO DE
LANÇAMENTOS
LOCALIDADE NÚMERO DE
LANÇAMENTOS
Guarulhos 22 São M. Paulista 09
Itaquera 22 Mauá 09
São B. do Campo 21 Alphaville/Tamboré/Barueri 08
V. Prudente 18 Jaraguá 08
Cotia 17 Limão 06
Penha 16 São J. Clímaco 06
São C. do Sul 16 Taboão da Serra 05
Santo André 15 Parque Bristol 04
Osasco 13 Barra Funda 04
Morumbi 11 Campo Grande 04
Fonte: EMBRAESP no site http://www.revista.construcaomercado.com.br, edição 99, outubro/2009, acessado em 21/02/2010.
Dados relevantes apontados pelo setor da construção civil46 para o aquecimento da construção de apartamentos de dois dormitórios na região metropolitana de São Paulo: o aumento do poder aquisitivo de uma parcela da população (principalmente aquela correspondente à faixa entre 3 e 6 salários mínimos), associado à maior oferta de créditos para as construtoras, à diminuição das taxas de juros e às melhores condições de oferta de empréstimos, verificado principalmente a partir dos anos 2005 e 2006.
No entanto, se é fato que aumentou o percentual da população que registrou aumento em seu poder de compra, é também verdadeiro o registro de uma parcela significativa da população (pessoas responsáveis por domicílios permanentes) que se situa entre as faixas de menos de um salário mínimo e entre um e dois salários mínimos. No caso de Guarulhos, é possível observar que os bairros considerados mais centrais do município apresentam percentuais mais baixos nas duas faixas citadas, enquanto que bairros considerados mais periféricos registram um aumento do percentual de pessoas responsáveis pelos domicílios permanentes nas mesmas faixas.
Nas tabelas abaixo foram escolhidos, a partir do critério de presença de infraestrutura urbana em relação à população, quatro bairros considerados centrais e
quatro periféricos (do município de Guarulhos), com seus respectivos percentuais de pessoas responsáveis pelo domicílio permanente, nas faixas de até um salário mínimo e entre um e dois salários mínimos.
Tabela 10 - Percentual de pessoas responsáveis pelos domicílios permanentes com renda de até um salário mínimo, e entre um e dois salários mínimos, por bairro considerado periférico.
Bairro Percentual até um
salário Percentual entre um a dois salários Total de população Cabuçu 7,02% 14,00% 59.675 Bonsucesso 6,84% 15,33% 68.751 Pimentas 7,94% 17,53% 132.455 Cumbica 7,89% 18,46% 88.384
Fonte: Censo 2000 IBGE. Elaboração: A partir de dados da PMG – SAM – Sigeo: Sistema de Informações Georreferenciadas, in www.guarulhos.sp.gov.br, acessado em 20/08/2010.
Organização: André Luiz de Carvalho.
Tabela 11 - Percentual de pessoas responsáveis pelos domicílios permanentes com renda de até um salário mínimo, e entre um e dois salários mínimos, por bairro considerado central.
Bairro Percentual até um
salário Percentual entre um a dois salários Total de população Centro 3,45% 5,06% 16.382 Macedo 3,95% 4,63% 18.369 Maia 4,35% 5,59% 5.801 Vila Augusta 6,16% 8,43% 6.513
Fonte: Censo 2000 IBGE. Elaboração: A partir de dados da PMG – SAM – Sigeo: Sistema de Informações Georreferenciadas, in www.guarulhos.sp.gov.br, acessado em 20/08/2010.
Organização: André Luiz de Carvalho.
Esses dados mostram que, nas áreas periféricas, o percentual de pessoas que se encontram nas faixas salariais mais baixas é mais elevado, ocorrendo o inverso em relação ao percentual de pessoas que moram nos bairros mais centrais. No entanto, esses percentuais ficam sujeitos a alterações a partir da consideração de diferentes fatores. Um destes fatores diz respeito à possibilidade de transformações sócioeconômicas na própria área então considerada como periferia. Ou seja, a possibilidade de, a partir do processo de especulação imobiliária, ocorrer uma transformação no perfil
sócioeconômico da população de um dado lugar é uma realidade inerente à própria dinâmica do processo de metropolização. Trata-se de um fenômeno que aí está mais presente até em função da concentração populacional e das transformações funcionais decorrentes da maior centralização do capital.
O processo de ocupação do Cabuçu deve ser entendido enquanto um desdobramento desse processo de metropolização e suas recentes transformações.
Escreve Harvey que “a acumulação do capital, na ausência de fortes correntes de mudança tecnológica poupadora de trabalho, requer o aumento da força de trabalho, que pode acontecer de várias maneiras” (2005, p. 118)47. O autor aponta três caminhos que o capital pode optar para alcançar seu intento. Primeiro, o capital pode se favorecer do aumento populacional. O segundo seria a apropriação de excedentes latentes na forma de uma mão de obra campesina, o que redunda na utilização de mão de obra de colônias ou outros ambientes externos. Uma terceira opção seria adotar o rumo das mudanças tecnológicas e investimentos que induziriam ao desemprego.
Já foi abordado anteriormente o significativo crescimento populacional do município de Guarulhos principalmente a partir da década de 1980. Foi discutido também que esse crescimento está associado ao movimento que associa as transformações intrametropolitanas com a conjuntura do capitalismo na escala planetária. Enquanto fatos que se associam a estas transformações intrametropolitanas observaram-se a reestruturação produtiva e as transformações no uso e ocupação do solo a partir do núcleo da metrópole, que apresentará desdobramentos para o próprio núcleo bem como para seu entorno.
Com relação à conjuntura do capitalismo na escala planetária destaque-se o processo que intensifica a centralização ainda maior no controle do capital, processo esse calcado nas fusões, privatizações, incorporações, dentre outros procedimentos adotados pelo capital.
No âmbito da metrópole de São Paulo, esse processo se caracterizará a partir de uma combinação envolvendo uma relativa desconcentração industrial a partir das deseconomias que surgem no núcleo da metrópole, além da própria reestruturação produtiva, com a continuidade do aproveitamento de economias de aglomeração por parte da parcela de empresas que não têm o mesmo poderio econômico que as corporações para empreenderem uma reestruturação produtiva. Ao mesmo tempo, essa
parcela de empresas ocupa um lugar na nova divisão técnica do trabalho, por exemplo, executando etapas específicas do processo produtivo global, como se verifica com o crescimento da tendência na terceirização, em que as corporações transferem diferentes etapas de seu processo produtivo para empresas de menor porte.
Face ao movimento acima apontado, cabe novamente relembrar a nova posição do núcleo da metrópole (município de São Paulo) na divisão espacial do trabalho: destacadamente, a de exercer a função de gestão e abrigar o terciário avançado.
Em função desse novo quadro, consubstanciado principalmente a partir da década de 1980, como fica o município de Guarulhos?
Guarulhos vem apresentando uma situação peculiar no que respeita ao comportamento de seu processo de industrialização no período de pouco mais de duas décadas para cá, principalmente quanto ao seu crescimento e ao seu componente tecnológico. Especificamente relacionado ao seu crescimento, é possível verificar que, no período que de vai de 1985 a 2009, somente em três oportunidades (1992, 1998 e 2007) houve pequena queda nos totais de quantidade de estabelecimentos industriais. Se levarmos em conta que, no mesmo período, os índices de crescimento da população absoluta do município foram sempre positivos (segundo os dados do censo do IBGE, em 1980, a população absoluta do município era de 532.726; já a contagem populacional de 2006 registrou 1.283.256 habitantes) deduz-se que Guarulhos (guardadas as devidas proporções) assume uma tendência que se verificava em São Paulo até o início dos anos 70, em que se podia correlacionar industrialização com urbanização.
Logo, o movimento da atividade industrial no interior da metrópole deve ser analisado levando-se em conta o lugar enquanto componente. Mas é também preciso considerar que o lugar não se põe somente enquanto manifestação de um movimento que se dá internamente a ele. Na conjuntura de uma economia mundializada e, cada vez mais financeirizada, os fatores externos também concorrem de maneira decisiva.
Numa conjuntura como a brasileira, estas condições de reprodução do capital acentuam ainda mais o processo de acumulação por espoliação, caracterizado, segundo Harvey, pela necessidade de existência de um fundo de ativos ainda “fora” do sistema capitalista. Esse parece ser o fundamento que explica o afluxo de capitais registrados em direção ao Brasil nos últimos anos e que concorrem para os dados abaixo:
Tabela 12 - Guarulhos - Estabelecimentos industriais por setor de atividade48 Ano/Setor IBGE Extrativa mineral Indústria de transformação Serviço industrial de utilidade pública Total 1985 11 1207 08 1226 1986 11 1345 06 1362 1987 12 1417 04 1433 1988 12 1462 04 1478 1989 12 1554 08 1574 1990 12 1620 10 1642 1991 11 1644 09 1664 1992 10 1590 09 1609 1993 10 1609 10 1629 1994 11 1815 08 1834 1995 13 2544 11 2568 1996 14 2790 10 2814 1997 17 2867 15 2899 1998 12 2847 11 2870 1999 16 3027 14 3057 2000 21 3218 17 3256 2001 21 3348 16 3385 2002 22 3419 20 3461 2003 28 3557 22 3607 2004 31 3609 24 3664 2005 25 3764 24 3813 2006 28 3988 31 4047 2007 22 3901 33 3956 2008 22 4021 36 4079 2009 21 4140 38 4199
Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Econômico – Guarulhos, RAIS – Ministério do Trabalho e Emprego www.guarulhos.sp.gov.br, acessado em 20/08/2010.
Quanto ao crescimento do parque industrial guarulhense, os dados apontam um aumento expressivo justamente num período em que estaria ocorrendo a
desindustrialização em bairros de São Paulo. Tal verificação poderia simplesmente apontar para discurso da transferência ou o deslocamento de parte do parque industrial então alocado em São Paulo em direção a Guarulhos.
No entanto, o crescimento da atividade industrial de Guarulhos se deve principalmente à participação de empresas que apresentam estruturas com média baixa e baixa tecnologia. Em depoimento ao jornal Diário de Guarulhos, de 20/08/2010, Daniel Pestelli, diretor titular do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) Guarulhos, comentando o resultado do município ocupando a terceira posição no ranking nacional de empregos formais na indústria, com 107.435 empregados registrados até 31/12/2009, declarou: “A base industrial de Guarulhos é grande. As empresas instaladas na cidade caracterizam-se em estruturas de média baixa e baixa tecnologia, o que necessita de maior mão de obra e leva ao aumento da demanda de emprego” (2010, p. 13)49. Os dados acima apresentados também confirmam a declaração dada pelo diretor do Ciesp Guarulhos. Isso porque os dados da RAIS são apresentados em números absolutos, não havendo a distinção entre as empresas declarantes em termos de quantidade de funcionários devidamente registrados e aquelas de caráter micro empresarial em que nem sempre os empregados estão devidamente registrados. As micro empresas (em Guarulhos em quantidade expressiva) normalmente adotam estruturas de média baixa e baixa tecnologia.
A título de exemplo, podem ser tomados os resultados de 2009 (estabelecimentos por setor de atividade industrial) que aparecem na tabela acima. Do total de 21 empresas industriais ligadas ao extrativismo mineral, 10 não declararam a quantidade de funcionários devidamente registrados; do total de 4140 indústrias de transformação, 1596 também não o fizeram; dos serviços industriais de utilidade pública, 24 de um total de 38 também adotaram o mesmo procedimento.
Ao se comparar essa condição da atividade industrial em Guarulhos com a interpretação de Lencioni50 a respeito da motivação e o tipo de empresa que se deslocou para fora da cidade de São Paulo, é possível deduzir que, ao menos a maior parte das empresas que surgiram no município de Guarulhos nas duas últimas décadas não é originária de São Paulo, já que, para a autora, foram principalmente as corporações, aquelas que tiveram condições de aplicar inovações tecnológicas, possibilitando, inclusive, a separação entre o “chão de fábrica” e a parte administrativa, as que,
49 Jornal Diário de Guarulhos, 20/08/2010. 50 LENCIONI (1998)
majoritariamente, transferiram esse “chão de fábrica“, destacadamente, para o interior do estado de São Paulo.
No entanto, o aumento da demanda de empregos ora apontado apresenta já a contrapartida assinalada pelo mesmo diretor do Ciesp Guarulhos ao informar que: “nossa meta é mudar o perfil dos equipamentos e possibilitar crescimento e inovação” (2010, p. 13)51. De acordo com as alternativas apontadas por Harvey acima, e conciliando com a declaração do representante do Ciesp Guarulhos, a atividade industrial deste município já estaria no caminho da mudança tecnológica que induziria, no futuro, ao desemprego.
Ao discutir a tese de Rosa Luxemburgo, Harvey aponta que o capitalismo requer algo “fora de si mesmo” para acumular. Nesse caso, ocorre a expulsão do trabalhador do sistema num dado momento e, num período seguinte, a sua re-inserção já sob a pressão de uma tendência de baixa dos salários do setor. Cabe ainda assinalar, com relação à entrevista do diretor do Ciesp, que o mesmo apontou ainda que “a economia guarulhense é baseada na indústria, que paga duas vezes melhor que o comércio e dinamiza a cidade” (2010, p. 13)52. Ao se verificar o total das receitas do município, contata-se, de fato, essa fundamental participação da atividade industrial: conforme dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, o percentual de participação da atividade industrial nas arrecadações ultrapassa a casa dos 60%.
Esse expressivo resultado deve ser associado também à participação de um ramo de atividade industrial em específico: a indústria da construção civil.
Guarulhos vem se viabilizando enquanto importante área de produção de moradias (a partir principalmente da produção de edifícios de apartamentos), notadamente para o extrato social considerado como classe média. Mesmo sendo verificado um acelerado processo de especulação imobiliária, a crescente oferta de imóveis em Guarulhos ainda se apresenta com preços menores que os verificados em São Paulo, quando comparados imóveis que tenham os mesmos padrões (como metragem e número de dormitórios).
Aqui também deve ser levada em conta a questão da logística. Ao ser cortado por duas importantes rodovias federais (Dutra e Fernão Dias) e uma estadual (Ayrton Senna), o município se viabiliza tanto para as empresas aí instaladas, quanto para os habitantes, em função da proximidade de São Paulo. Conforme já apontado, também
51 Jornal Diário de Guarulhos (2010) 52 Jornal Diário de Guarulhos (2010)
deve ser levada em conta a presença do Aeroporto Internacional e, futuramente, o trem expresso.
A presença desta logística favorece a acumulação por espoliação. Por ser a metrópole um espaço melhor dotado desse tipo de infraestrutura, os arranjos territoriais gestados principalmente a partir de grandes interesses econômicos possibilitam uma combinação de diferentes casos. Ao se analisar a metrópole a partir dos “pedaços” que a compõem, verificam-se tendências diferenciadas aqui e acolá. Entenda-se aqui por tendência o estabelecimento de padrões de uso e ocupação do solo. No caso de Guarulhos, ocorre, neste atual recorte, um padrão que combina a presença de uma expressiva atividade industrial com uma média de componente tecnológico considerado baixo, além da produção, também expressiva, de edifícios de apartamentos um terceiro fator seria a indústria hoteleira que, no entanto, não se apresenta tão disseminada em função da necessidade de uma logística em específico. Insiste-se aqui que essa tendência no uso e ocupação do solo em Guarulhos intensificou-se a partir da década de 1980.
No entanto, o território de Guarulhos é inserido na lógica da modernização metropolitana ao menos desde a década de 1950, momento em que a inauguração de importantes vias de comunicação ao mesmo tempo representaram esse processo, bem como abriram o flanco para sua intensificação: em 1951 foi inaugurada a rodovia Presidente Dutra, ligando as duas metrópoles nacionais; em 1959 foi inaugurada a rodovia Fernão Dias (a rodovia Ayrton Senna, mais recente, foi inaugurada em 1982).
A importância destas datas está na lógica de valorização do solo que, por sua vez, viabiliza a ampliação do banco de terras a partir do núcleo da metrópole e que, agora, deve se estender em função do próprio processo de esvaziamento dos bairros tradicionais de São Paulo, conforme apontado anteriormente. A intensificação do processo de modernização em Guarulhos vem possibilitando, conforme já apontado acima, o predomínio do uso e ocupação de seu solo a partir da atividade industrial e da produção de edifícios de apartamentos. Com relação a esse último, deve ser assinalado que uma de suas principais consequências é fazer surgirem tanto outras centralidades, quanto o seu corolário, as outras periferias. A esse respeito, cabe ressaltar que a mundialização da economia vem acelerando a participação do capital internacional também no processo de endividamento de longo prazo no mercado imobiliário
brasileiro. Recorre-se aqui às constatações preliminares de Flávia Martins53 a esse respeito:
A pressão sobre os terrenos urbanos, na formação de bancos de terras, aumentou os seus preços; os bancos de terras são formados em terras periféricas disponíveis, provocando a formação de novos centros, implicando em ‘expulsões’ e intensificando as grandes distâncias urbanas. Esta pressão se dá de forma simultânea em muitas metrópoles brasileiras, apresentando o processo de forma generalizada às diferentes realidades urbanas. (2009, p. 31)
No percurso do que aqui se denomina reposição da periferia, está a intensa circulação do solo urbano a partir de sua inclusão na lógica do processo de compra e venda e da necessidade de sua constante valorização. Daí que, na metrópole, o título de propriedade acaba por se transformar, em muitos casos, numa verdadeira abstração. A abstração dos títulos de propriedade não se dá somente em função das manobras no mercado de ações, já que investir na reprodução do solo urbano é, na maioria dos casos, um negócio rentável. É possível constatar, dentro da realidade urbana brasileira, a combinação de processos capitalistas com processos “não capitalistas”. A formação do banco de terras na forma descrita por Flávia Martins segue o padrão da legalidade dos títulos de propriedade urbana, ainda que a sua intensa circulação leve à condição de abstração (no sentido da dificuldade de identificação dos seus verdadeiros proprietários).
Por outro lado, a formação das periferias urbanas no Brasil segue, em princípio, baseada numa regra: a da formação de um banco de terras a partir do processo de grilagem. A grilagem apresenta-se enquanto um fenômeno complexo e contraditório Na metrópole paulista essa regra é, até o momento, recorrente. A área aqui abordada, o Cabuçu, apresenta os mesmos mecanismos de parcelamento e comercialização das frações de solo: trata-se de uma região que apresenta restrições54 quanto ao seu uso e ocupação pelo fato de ser classificada como área de preservação. Normalmente, atuam aí grileiros, com ou sem o consentimento dos proprietários destas áreas, que se encarregam de estabelecer o loteamento e a comercialização dos lotes. A população de
53 MARTINS, Flávia Elaine da S. A produção da escala metropolitana e do seu pesquisador: elementos de
ritmanálise, in GEOUSP Espaço e Tempo, São Paulo, Ed. Especial, 2009, p. 29-39.
54 O bairro do Cabuçu localiza-se junto à serra da Cantareira, originalmente florestada e abrigando
baixa renda, atraída pelos preços dos lotes, adquire-os através de um contrato simples de compra e venda.
Uma das contradições a serem aí assinaladas diz respeito à realização da propriedade privada levando-se em conta o processo de valorização do solo inerente a uma área metropolitana, por um lado, e, por outro, as restrições quanto ao seu uso, no caso aqui estudado, pelo fato de se tratar de uma área de preservação, o que inibe a sua otimização do ponto de vista do mercado imobiliário. Do ponto de vista de seu proprietário, esta propriedade não se realiza, pensando-se aqui no sentido da lógica da especulação; ela se encontra amortizada por força da legislação. É então que a grilagem deste solo surge como uma solução, ao menos momentânea, para a resolução dessa negação.
São já conhecidos os procedimentos de inúmeros proprietários de parcelas do solo urbano que se inserem em zonas de uso restrito (por exemplo, as ZPA’s zonas de proteção ambiental e as ZPP’s, zonas de preservação permanente), estabelecidas pelas legislações municipais. Muitos destes proprietários estabelecem uma pessoa de sua confiança para promover uma “invasão” em sua propriedade. Isso se deve ao fato de ele, enquanto proprietário, estar proibido de desmatar sua propriedade além dos 30% estabelecidos pela legislação. No entanto, o avanço da mancha urbana em direção às zonas de uso restrito da área metropolitana, faz avançar também a pressão do mercado imobiliário sobre estas, apresentando como resultado o aumento dos preços dos terrenos.
Concluída a “invasão”, o processo de desmatamento ocorre sem que o mesmo represente um problema judicial para o proprietário da área, já que, para todos os efeitos, foram os “invasores” que realizaram o desmatamento. Há o parcelamento do solo na forma de lotes, que são vendidos aos “invasores” que, de acordo com suas