Pobreza; analfabetismo e baixa escolaridade; desemprego e precarização do trabalho; precárias condições de moradia e drogadição, compreendem as principais situações de vulnerabilidade social identificadas pelos(as) profissionais dos CREAS. Estas não podem ser compreendidas separadamente, mas sim identificando as mediações presentes entre cada um desses elementos.
A pobreza, “um dos problemas mais sérios de demonstração da desigualdade social e da questão social no nosso país” (ALBUQUERQUE, 2011, p. 73) constitui-se enquanto expressão “da exploração, da concentração de riqueza, da não distribuição da riqueza bruta ou relativa. [...] é manifestação de não distribuição ou de concentração/acumulação de riqueza” (SPOSATI, 2011, p. 42). Com base nisso a pobreza não pode ser atribuída a causas individuais, mas a aspectos estruturais do sistema social.
Para Silva (2010, p. 157), pobreza não pode “ser considerada como mera insuficiência de renda. É também desigualdade na distribuição da riqueza socialmente produzida; é não acesso a serviços básicos; à informação; ao trabalho e a uma renda digna; é não participação social e política”.
Além disso, é preciso considerar que a pobreza, na sociedade burguesa não resulta de um quadro geral de escassez, pelo contrário a pobreza cresce na razão direta em que aumenta a capacidade social de produzir riquezas (NETTO, 2001). Para exemplificar:
Produzimos três vezes mais comida do que o necessário para todos na face da Terra se alimentarem de modo a satisfazer todas as suas necessidades. A fome, hoje, não é mais uma dimensão insuperável da vida humana, é uma questão de opção histórica entre distintos modos de produção. Enquanto a produção for uma mediação para o lucro, colocar toda a produção à disposição da população significa ofertar a mais que a demanda, derrubando preços e travando a reprodução do capital (BEHRING; NETTO, 2007, p. 7).
Com base nas respostas dos(as) profissionais pode-se perceber que a pobreza aparece associada à baixa renda e consequentemente às dificuldades de
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acesso ao mercado de consumo, como se observa na fala a seguir: “Acho que a vulnerabilidade social poderia ser um dos ou o principal fator, já que se observa baixa renda, habitação precária, falta de acesso ao mercado de consumo” (PROFISSIONAL 04).
Em relação ao analfabetismo e baixa escolaridade dos pais, estes também se articulam às demais situações de vulnerabilidade social evidenciadas pelos profissionais. Quando as condições de sobrevivência de uma família são limitadas, estudar nem sempre constitui-se numa estratégia imediata para a solução dos problemas, mas sim o trabalho. No entanto, este trabalho, carente de qualificação, conhecimento e profissionalização caracteriza-se muitas vezes, por um trabalho precarizado, informal, destituído de direitos.
Acredita-se que o analfabetismo é um dos fatores da vulnerabilidade social [...], haja vista que não ter educação compromete outras etapas da vida [...] já que a educação é a fonte de maior qualificação da força de trabalho, e, assim, determina a renda, a qualidade de vida e as taxas de crescimento econômico (SILVA, 2007, s/p).
Além disso, é preciso considerar que foi a partir da Constituição Federal de 1988 que a educação passou a ser assegurada como um direito social, ou seja, um direito de todos, dever do Estado e da Família. No entanto, cabe ao Estado um maior investimento na política de educação, visando sua qualificação e a ampliação do seu acesso. A fala a seguir evidencia a inserção precária no mercado de trabalho:
Precário também, eles não têm qualificação. Geralmente são diaristas, catadores de material reciclável (homens e mulheres), lenheiro, pescador, aquele que faz bicos ou serviços gerais. Dificilmente você vai encontrar que a mãe seja professora e o pai trabalhe numa empresa. Geralmente é uma profissão precária, de baixa renda (PROFISSIONAL 6).
Alves (2013, s/p.) ao se referir a precarização do trabalho, destaca que esta se constitui da precarização salarial, “tendo em vista o desemprego, baixos salários, rotatividade do trabalho, contratos salariais precários e frustração de expectativas de carreira profissional” e também da precarização existencial “que ocorre com a
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precariedade dos serviços públicos nas cidades brasileiras – transporte público, saúde, educação, espaços públicos – e o modo de vida just-in-time”.
Condições de moradia precária também foi evidenciado pelos(as) profissionais:
Há sempre muita pobreza, falta de condições de higiene, condições de moradia, de estrutura, de não ter um quarto, de não ter um banheiro, e são muitas casas que não possuem as mínimas condições. E quando você chega para fazer a visita e começa a perguntar sobre quem mora na casa, alguns ficam sem jeito, com vergonha, por causa da situação em que vivem (PROFISSIONAL 6).
Diante do exposto, é importante destacar que
A baixa qualificação da mão de obra, o analfabetismo (total ou funcional), a suscetibilidade e a prevalência de doenças e outros acometimentos ligados à sobrevivência, somados à inconstância do trabalho, criam no cotidiano dessas famílias uma situação opressiva de penúria e precarização da capacidade de manter atingidos e protegidos os adultos e sua prole (ALMEIDA; GUIMARÃES, 2010, p. 130).
Ou seja, situações como as evidenciadas pelos(as) profissionais e aqui contextualizadas, não são as únicas determinações da exploração sexual, no entanto, dificultam e desafiam as famílias para o exercício de suas funções primordiais de proteção, de educação, de socialização dos filhos, entre outras. À medida que a família encontra dificuldades para cumprir suas tarefas básicas de socialização e de amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade (PETRINI, 2003). Quando a família está no seu limite, não conseguindo mais dar conta de suas responsabilidades e obrigações, entra em cena o Estado por meio de suas políticas sociais. Como refere Mioto (2011) a intervenção pública só acontece quando a família fracassou na provisão de bem-estar de seus membros, infelizmente.
Além disso, considerando os limites das políticas de proteção social, devido ao retraimento do Estado na área social, a família é chamada a responder por esta deficiência. No entanto, para acolher e criar seus filhos, as famílias precisam de
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condições básicas e quando estas são precárias ou inadequadas “é obrigação do Estado apoiar a família em seu papel parental” (RIZZINI et al, 2006, p. 22).
A drogadição é outro fator que compreende o conjunto de situações de vulnerabilidade social e que contribui para produção e manutenção da exploração sexual. Como destaca Childhood (s/d, p. 8) na pesquisa realizada em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, a dependência química pode atuar como um dos fatores associados ao ingresso na exploração sexual. “Diante da “fissura” por consumir droga, o comportamento mais citado pelos participantes (36%) foi o de “transar” a fim de conseguirem dinheiro que lhe permitissem ter acesso à droga”.