O princípio da irretroatividade tributária veda que se exija o pagamento de tributos em relação a fatos jurídico-tributários “ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado”.
O princípio da irretroatividade tributária está situado nas dobras do princípio da anterioridade tributária, onde se proíbe a aplicação da norma instituidora de determinado tributo:
(a) no mesmo exercício403 financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou;404
(b) antes de decorrido 90 (noventa) dias da data em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou,405 observado o acima disposto;406
402
Exemplo: tributos instituídos anteriormente ao advento da norma imunizante, que manteriam seu vigor e perderiam sua vigência, na distinção preconizada por TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR.
403
Artigo 150, inciso III, alínea “b”, da Constituição Federal de 1988.
404
Esta vedação não se aplica aos tributos previstos nos artigos 148, inciso I (Empréstimo Compulsório decorrente de despesas extraordinárias), 153, incisos I (Imposto de Importação), II (Imposto de Exportação), IV (Imposto sobre Produtos Industrializados) e V (Imposto sobre Operações Financeiras) e artigo 154, inciso II (Impostos Extraordinários). Cf. artigo 150, § 1º, da Constituição Federal de 1988.
(c) no prazo de 90 (noventa) dias da data de publicação da lei que as houver instituído ou aumentado, tratando-se de contribuições para a seguridade social previstas no artigo 195 do texto constitucional.
A imunidade tributária, diferentemente dos princípios da irretroatividade e anterioridade tributárias, podem atuar em momento lógica e cronologicamente anterior à instituição de tributos: isso não ocorrerá caso a norma instituidora do tributo “X” for produzida anteriormente ao advento da imunidade tributária “-X”.
O que poderíamos tirar de semelhança entre os princípios da irretroatividade e anterioridade tributárias e as imunidades tributárias é que as primeiras, necessariamente, e esta última, ocasionalmente, obrigam a não-aplicação407 de normas instituidoras de tributos. O fazem, contudo, de forma distinta.
Os princípios da irretroatividade e anterioridade tributária carecem, para sua aplicação, do cotejo entre a data de introdução, em nosso ordenamento jurídico, do veículo introdutor que pôs enunciado que instituiu ou majorou um dado tributo e o tempo no fato jurídico constituído com a sua aplicação.
Imunidades tributárias não: basta que ocorra o fato previsto em seu antecedente para que esta seja aplicada. Neste caso o tempo no fato será relevante apenas para identificar qual das normas será aplicável, se a que instituiu o tributo ou a que veiculou a imunidade tributária.
A observância dos princípios da irretroatividade e anterioridade tributárias não é garantia de cumprimento da norma instituidora de imunidade tributária: basta que se observem as balizas temporais fixados pelos primeiros e se exija o pagamento de tributo em
405
Artigo 150, inciso III, alínea “c”, da Constituição Federal de 1988.
406
Esta vedação não se aplica aos tributos previstos nos artigos 148, inciso I (Empréstimo Compulsório decorrente de despesas extraordinárias), 153, incisos I (Imposto de Importação), II (Imposto de Exportação), III (Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza) e V (Imposto sobre Operações Financeiras) e artigo 154, inciso II (Impostos Extraordinários). Cf. artigo 150, § 1º, da Constituição Federal de 1988.
407
Abordando a relação princípio da anterioridade / exercício da competência constitucional-tributária primária, assim se posicionou o Ministro CELSO DE MELLO, do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: “A razão histórica e o significado político-jurídico subjacentes a esse princípio – quer se trate da regra pertinente à anterioridade comum (CF, art. 150, III, „b‟), quer se cuide da cláusula referente à anterioridade mitigada (CF, art. 195, § 6°) – revelam o sentido teleológico de que se acha impregnada essa importante garantia de ordem tributária: o de inibir a eficácia imediata de leis, que, ao instituírem ou majorarem os tributos, frustrem a possibilidade de o contribuinte programar-se mediante adequado planejamento de suas atividades financeiras, protegendo-o, desse modo, contra a cobrança inesperada de exações fiscais (...)” (STF, Tribunal Pleno, RE 566.032/RS, rel. Min. Gilmar Mendes, DJe 200, de 22.10.2009).
relação a fato previsto na hipótese de incidência de normas imunizantes e que tenha ocorrido (tempo no fato) posteriormente ao início de sua vigência.
Outras distinções entre estes institutos podem ser vislumbradas no texto constitucional. Deixaremos, contudo, de analisá-las em razão dos fins propostos neste trabalho.
3.8. Imunidades tributárias e princípio da uniformidade da tributação
O artigo 151, inciso I, da Constituição da República, diz que a União Federal é obrigada a instituir ou proibida de não instituir “tributo que não seja uniforme em todo o território nacional ou que implique distinção ou preferência em relação a Estado, ao Distrito Federal ou a Município, em detrimento de outro, admitida a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento sócio-econômico entre as diferentes regiões do País”.
Imunidades tributárias proíbem a instituição de tributos em relação a determinadas hipóteses fáticas: não há critério quantitativo possível em normas desta natureza. O artigo 151, inciso I, da Constituição da República, pelo contrário, exige que o critério quantitativo das normas instituidoras de tributos federais não varie de acordo com os Estados, Distrito Federal ou Municípios insertos em seu critério espacial.
Desse modo a violação à regra da uniformidade geográfica carece da produção de duas normas decorrentes do exercício da competência-constitucional tributária primária e que seu critério quantitativo varie na medida em que se alterem os Estados, Distrito Federal ou Municípios insertos em seu critério espacial: as imunidades tributárias, pelo contrário, exigem apenas a produção de uma única norma para que sejam violadas e o critério quantitativo, para tal fim, é irrelevante.
Por conseguinte não são necessárias maiores considerações para se perceber que o princípio da uniformidade geográfica da tributação diferencia-se, em tudo e por tudo, das imunidades tributárias.
A última parte do artigo 151, inciso I, da Constituição da República, permite que a União conceda concessão “incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento sócio-econômico entre as diferentes regiões do País”. A diferença de modal deôntico é bastante para diferenciá-las das imunidades tributárias.
3.9. Imunidades tributárias e o artigo 151, inciso II, da Constituição Federal de