• Sonuç bulunamadı

Relatar uma pesquisa significa contar a sua história, com toda a riqueza de detalhes. Não basta expor somente os fatos, mas é preciso resgatar o fluxo, as trilhas e as paradas. É preciso ir além e desvelar as intenções.

Durante cinco anos estive trabalhando na supervisão das escolas municipais da região da Casa Verde, em São Paulo. No decorrer deste tempo acompanhei as ações de suas equipes de trabalho e testemunhei seu processo histórico. Foi por este motivo que escolhi desenvolver esta pesquisa com os diretores de escolas municipais de São Paulo, da região da Subprefeitura da Casa Verde.

Minhas experiências ocorreram com escolas de educação infantil e ensino fundamental, porém restringi o meu universo de pesquisa às escolas de ensino fundamental, abandonando as de educação infantil, dadas as peculiaridades desses dois segmentos de ensino, tanto em relação ao tamanho das classes quanto aos aspectos estruturais e funcionais. Além disso, trabalhei com uma amostra selecionada cujos critérios estão explicitados a seguir.

Como o propósito era captar características da cultura escolar que relevassem a ação gestora resultante de uma articulação pedagógico-administrativa, selecionei as escolas cujos diretores e equipes técnicas estivessem trabalhando juntos há pelo menos dois anos e cuja equipe docente apresentasse baixa rotatividade. Ouvindo a Coordenadora de Educação da Subprefeitura da Casa Verde/Cachoeirinha, concluí que, também, seria interessante manter, no grupo selecionado, as escolas de trabalho pedagógico diferenciado, ou seja, as que costumam estabelecer parcerias e desenvolver projetos para melhorar a qualidade de ensino. Coincidentemente, essas escolas são muito procuradas pela

comunidade e são chamadas de “escolas com matrícula preferencial”. Algumas delas se caracterizam por serem abertas para a comunidade, isto é, oferecem, nos fins de semana, atividades esportivas e culturais aos alunos, pais de alunos, moradores e entidades da redondeza.

A princípio entrei em contato com cinco escolas municipais de ensino fundamental, situadas próximas umas das outras, numa área administrativa do município de São Paulo, chamada Subprefeitura da Casa Verde – Cachoeirinha.

Quando comecei a conversar com os diretores, coordenadores pedagógicos e professores destas escolas, alguns fatos emergiram. Em três unidades, traços semelhantes foram sendo confirmados, como por exemplo, o tempo de magistério e função efetiva na direção da escola de seus gestores, uma boa integração da equipe técnica e a existência de ações voltadas para a integração com a comunidade. Também descobri que as equipes docentes destas três escolas preferem permanecer nelas, por gostarem dos colegas e por estarem desenvolvendo boas propostas de trabalho. Tal evidência surgiu no contato com os professores que, satisfeitos com o ambiente de trabalho, rejeitam a possibilidade de participar de concurso de remoção.

As outras duas escolas, das cinco selecionadas inicialmente, foram descartadas neste momento. Uma, por apresentar sérios conflitos pessoais entre o diretor, sua equipe técnica e a equipe docente, e outra pelo afastamento dos membros da equipe técnica, que foram trabalhar em outros órgãos municipais ou se aposentaram.

Nos primeiros momentos, visitei cada uma das escolas, com o objetivo de perceber o clima organizacional. O primeiro contato com os diretores e coordenadores pedagógicos foi para explicar a minha presença e a conversa girou sobre o tema apresentado: a articulação do administrativo e pedagógico na gestão escolar. Conversei também com os professores que se aproximaram e mostraram interesse em falar espontaneamente sobre o assunto. Não houve oposição ou reações contrárias à minha presença na escola com a intenção de coletar dados para desenvolver uma pesquisa. Pelo contrário, todos queriam externar suas opiniões e experiências. Essa boa disposição facilitou a coleta de informações sobre a demanda escolar, a estrutura física e funcional das três escolas, bem como sobre seus projetos político-pedagógicos.

Posteriormente, buscando entender as características do movimento pedagógico de cada escola e perceber como as equipes se articulam, senti necessidade de escutar as pessoas dentro de seu ambiente de trabalho e preferencialmente durante o seu fazer.

Retornei às escolas e gravei a fala de diretores, coordenadores pedagógicos, professores, pais e alunos. Participei de reuniões de professores, assisti a alguns momentos de aula, observei recreio, testemunhei conversas do diretor com pais, professores e outros funcionários, permaneci na secretaria, presenciei festas e eventos comemorativos e acompanhei um projeto de escola aberta à comunidade, num final de semana. Nesta ocasião, gravei a fala de uma assessora do gabinete da Secretaria de Educação, por achar importante sua visão a respeito do trabalho da escola aberta e seu diretor.

Registrei, em separado, a exposição dos diretores e dos coordenadores pedagógicos, ao relatarem sobre seu trabalho articulador do projeto pedagógico e sobre suas relações com a equipe técnica e docente. Solicitei que falassem livremente sobre o seu trabalho, sobre as suas relações com a equipe escolar e sobre o projeto pedagógico. A ausência de um roteiro de perguntas foi proposital, pois esperava que emergissem do discurso os pontos mais significativos para estes profissionais. Pretendia, com isso, coletar indícios de como o diretor trabalha com a sua equipe.

Sem estabelecer um roteiro de observação e perguntas, procurei estar junto dos professores, nos momentos de suas reuniões para ouvir a conversa espontânea sobre seus trabalhos. Aproveitando a disponibilidade de alguns deles para expor mais sobre a escola, gravei seus relatos com as suas impressões sobre a ação de articulação administrativo-pedagógica do diretor na escola e com relação ao trabalho coletivo. Nesta fase foram ouvidos um ou dois professores por escola.

Durante os horários de recreio, conversei com alunos, para ouvir suas opiniões sobre a escola e os professores. Aos pais de alunos, que estiveram presentes nas unidades escolares durante minhas visitas, perguntei sobre a qualidade de ensino da escola e seu grau de satisfação correspondente à equipe escolar.

Após esta primeira coleta de dados, as gravações foram transcritas e os discursos foram organizados. Para cada uma das três escolas, pus em ordem as falas do diretor, do assistente de diretor, dos coordenadores pedagógicos, de um ou dois professores, de um pai de aluno e de um aluno.

Neste ponto da pesquisa, as informações reunidas, ou seja, o conjunto de falas e observações feitas, permitiram a caracterização de cada uma das escolas. As falas registradas foram acrescentadas aos dados observados, para não reduzir esta exposição a um conjunto de especificações técnicas. Esta articulação fundamentou- se no desejo de retratar alguns aspectos do clima e da cultura organizacional das escolas, bem como contribuir para a compreensão do contexto de trabalho de seus diretores.

Dando continuidade a este trabalho, considerei que seria também muito oportuna a realização de uma análise dos relatos dos três diretores, além de uma visão da ação gestora de cada um deles no seu respectivo contexto escolar. Voltando ao conjunto das falas dos diretores, notei a possibilidade de agrupá-las em conformidade aos assuntos que surgiram nesta etapa, tais como: articulação da equipe técnica, o trabalho coletivo e o trabalho com a comunidade. Porém, no material organizado sobre os diretores, não havia informação clara sobre o uso do seu tempo, nem a respeito da utilização de recursos tecnológicos no trabalho de administração da escola. Para completar esse quadro informativo, preparei um roteiro de questões (Anexo A) e realizei entrevistas estruturadas com os diretores das três escolas selecionadas.

Após este percurso, os dados extraídos dos relatos dos três diretores foram ordenados em torno de cinco itens:

• a articulação da equipe técnica, • o trabalho coletivo,

• o uso do tempo do diretor, • o trabalho com a comunidade e

Organizei a exposição desses dados, iniciando com a caracterização das três escolas, para compor o cenário no qual os três gestores se apresentam. Esse texto tem por objetivo introduzir o leitor na análise da visão dos diretores.

Benzer Belgeler