A longa ditadura de Stroessner (1954-89) tinha como base de sustentação o apoio incondicional das forças armadas e do Partido Colorado. O governo desenvolveu um forte esquema de repressão aos descontentes com o regime militar e instituiu um verdadeiro culto a sua pessoa, comparando-o com os heróis nacionais do período do “Paraguai independente” - especialmente Doutor Francia e Francisco Solano Lopez. Nas escolas e nos livros didáticos, as
fotos de Stroessner geralmente estavam do lado das fotografias do herói nacional. A data do seu aniversário, denominada de “fecha feliz”, transformou-se em uma comemoração pública, um momento privilegiado de troca de presentes por cargos públicos e de demonstração de apoio ao ditador. Durante os 35 anos de mandato, ele criou e nomeou bairros e cidades com o seu nome e era reconhecido como o “patriarca do nosso progresso”66. O lema oficial era “Paz, Progresso e
Bem estar com Stroessner” (Vera, 2002). O governo se legitimava através de um nacionalismo
militar que reivindicava a memória dos “heróis nacionais”, mas ao mesmo tempo apoiava o capital estrangeiro e a entrada de imigrantes para desenvolver o país.
O apoio popular à ditadura aumentou durante o desenvolvimento econômico que o país experimentou na década de 1970, período de construção de Itaipu. A instabilidade econômica dos anos 1980 e o fim das ditaduras militares nos países vizinhos contribuíram para o fim dessa ditadura personalista. Mas o processo de democratização foi bastante incompleto. A ditadura acabou em fevereiro de 1989 através de um golpe militar em nome da democracia, feito pelo general Andrés Rodriguez. Todos os governos civis da década de 1990 e início dos anos 2000 pertencem a correntes distintas do mesmo partido político do período ditatorial. A corrente de apoio a Stroessner, no interior do Partido Colorado, continua tendo bastante prestígio político na sociedade paraguaia atual. Muitos paraguaios de distintas gerações dizem sentir saudade daquele período. Esses apoiadores não recordam os atos de violência, tortura e morte das lideranças políticas, populares e estudantis de oposição durante o regime de Stroessner, mas lembram de um período de paz, prosperidade, segurança e bem estar social. A justificativa principal é que a democracia piorou as condições de vida da população, pois aumentou a violência, a pobreza, a corrupção e a fome. Para esses setores seria preferível uma ditadura com bem estar a uma democracia formal sem garantias sociais (Vera, 2002).
A maioria dos imigrantes brasileiros apoiou a ditadura de Stroessner. Muitos deles costumam recordar os benefícios que receberam do ditador e principalmente a tranqüilidade nesse período em que “não havia roubo” e nem violência para os que “andavam dentro da lei do país”. Existe uma espécie de nostalgia em muitos relatos. Os imigrantes geralmente destacam o fato de terem sido convidados por Stroessner para desenvolver o Paraguai.
66 O jornal O País publicou em 21 de maio de 1959 uma matéria que fazia uma associação sagrada entre os heróis
nacionais e o “patriarca do progresso”. “aproximémonos a reverenciar al Padre, al Hijo y al Espíritu Santo de nuestra Trinidad Patriótica: al Doctor Francia, al Patriarca de nuestro Progreso y al Mártir de Cerro Corá” (Bareiro apud Vera, 2002, p. 164).
A história é comprida, mas isso aí os presidentes, o Stroessner e o Geisel, eles combinaram. Eu tenho um livro aí que explica tudo, que ia sair a empresa de Itaipu, que aqui do Paraná a Mato Grosso era mato, primeiro chamaram os brasileiros para abrir aqui. Eles pensaram, vamos chamar argentinos e brasileiros, não vamos chamar os brasileiros que tem mais coragem. Aí mandaram coletor pelo Brasil afora, tinha a propaganda de que no Paraguai tinha terra boa e barata (José Ladislaw Kuhner, comerciante, 25/11/2004).
As lembranças vivenciadas às vezes se misturam com versões pessoais dos relatos escritos e se constituem como um marco importante na construção das identidades coletivas. Esse imigrante mesclou os fatos aprendidos em um livro sobre a construção de Itaipu e a imigração brasileira67 com as recordações de sua própria experiência migratória. Tudo indica que a finalidade do relato era construir uma auto-imagem desses imigrantes como os “escolhidos” de Stroessner “porque têm mais coragem” através do contraste com os paraguaios e os argentinos. Os “escolhidos” do ditador geralmente enfatizam que ele foi o melhor presidente do Paraguai.
Eu acho que o melhor presidente para nós agricultores, nós imigrante aqui ainda foi o Stroessner. Ele era um presidente, todo mundo fala mal dele, o povo paraguaio fala mal dele, não sei porque, o motivo, cada um tem o seu motivo. Mas para nós, para os trabalhadores em geral, os que queriam trabalhar e produzir dentro do país, foi até hoje o melhor presidente do Paraguai (Jackson Bressen, agricultor, 17/11/2004).
Esse agricultor brasileiro diz que o ditador foi o melhor presidente e não compreende os motivos dos paraguaios não gostarem do governo que contribuiu bastante para o desenvolvimento da nação. Para ele, foi um governante que apoiou todos os trabalhadores. Nas entrelinhas de seu discurso, os descontentes não se dedicavam ao trabalho. Esses brasileiros assumem a identidade de “trabalhadores”, enquanto os paraguaios são classificados geralmente como “preguiçosos”, como analisarei no próximo capítulo.
Há uma auto-identificação com a ditadura por parte de vários imigrantes brasileiros, principalmente aqueles que conseguiram melhorar de vida e ampliar seus recursos econômicos durante o regime autoritário. Os setores de oposição na sociedade paraguaia vêem esses imigrantes como uma “herança da ditadura”, pois entraram no país a convite do ditador e continuam elogiando o governo de Stroessner. Para estes setores críticos, o ditador teria
67 O livro referido é a “Herança de Stroessner”, de Menezes (1987), após a conversa, ele me emprestou para que eu
pudesse tirar uma fotocópia. Na leitura do livro, percebi que não existia nenhuma referência à escolha entre os brasileiros e os argentinos.
presenteado terras para os brasileiros e hipotecado a soberania nacional. De “convidados” de Stroessner, esses brasileiros passam a ser vistos como “invasores” do território nacional no contexto democrático atual.
Desde o período da ditadura, os setores de oposição (Liga Agrária Cristiana, políticos liberais e febreristas, movimento estudantil) não concordam com a crescente influência política e econômica do Brasil em seu país. Para eles, a empresa hidrelétrica de Itaipu e o “derrame
migratório brasileiro” fazem parte de um plano do Brasil para se apoderar do Paraguai e acabar
de vez com sua soberania. O Brasil é, portanto, visto como um país com pretensões expansionistas e imperialistas. No contexto da assinatura do Tratado de Itaipu em 1973, houve protestos em Assunção condenando a postura hegemônica do Brasil. A concretização desse acordo “provocó en Paraguay una abierta reacción de importantes sectores sociales no
gubernamentales y partidos de oposición, que coincidieron en calificarlo como el hecho más lesivo a los intereses de la nación y la consagración de la hegemonía brasilera sobre el Paraguay (Galeano & Zarza, 1989, p.12).
No tocante à imigração brasileira, alguns líderes de oposição afirmavam que fazia parte da estratégia geopolítica da ditadura militar brasileira implementar as denominadas “fronteiras vivas” como uma forma de ampliar ainda mais o território brasileiro: primeiro a ocupação populacional de regiões pouco povoadas dos países vizinhos. Depois o Itamaraty reivindicaria aquele território através do Uti Possidetis, como já havia feito com a Bolívia em 1903. Ainda hoje existem jornalistas paraguaios que lembram o caso do Acre e alertam a sociedade paraguaia para o perigo do território nacional ser incorporado pelo Estado brasileiro.
Los últimos acontecimientos ocurridos en zonas fronterizas y que involucran a colonos brasileños y sintierras paraguayos (..) llevan a buscar similitudes con episodios ocurridos en el pasado y que tienen cierta semejanza con lo que se viene experimentando en la actualidad. Por culpa de un desatinado tratamiento del tema, Bolivia, un pequeño país, perdió una importante porción de su territorio en 1903 (..) a favor de un vecino cada vez más poderoso. La Guerra de Acre significó una humillante derrota boliviana frente a ya tradicional política hegemónica del Brasil (Verón, 26/08/2003).
O fim da ditadura em 1989 e a criação do Mercosul em 1995 não alteraram significativamente os questionamentos que os setores de oposição fazem ao Tratado de Itaipu e à imigração brasileira no Paraguai. A esses dois temas, somam-se as desavenças às políticas de
controle do “contrabando” de produtos vindo do Paraguai na alfândega brasileira. Portanto, Itaipu, “brasiguaios” e controle policial na Ponte da Amizade são temas diários na imprensa paraguaia e constituem os alvos principais das críticas à atitude hegemônica do Brasil no Paraguai.
Embora naquele país não tenha ocorrido uma mudança política significativa entre a ditadura e a democracia, os setores políticos de oposição se ampliaram e os movimentos sociais, principalmente o movimento camponês, estão mais organizados e criticam com intensidade as políticas brasileiras em seu país. O contexto democrático atual possibilita o aumento das reivindicações sociais e a necessidade de rever determinadas políticas executadas no período ditatorial. Neste sentido, esses setores clamam pela necessidade de rever os contratos de fornecimento de energia de Itaipu e pelo controle da migração brasileira através da faixa de segurança fronteiriça.