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Os imigrantes brasileiros no Paraguai incorporaram a ideologia do trabalho e sempre relatam as dificuldades iniciais de colonização naquelas terras, pois “tudo era bosque, nem sequer

70 Figuração ou configuração significa a relação dinâmica e interdependente entre os grupos sociais e as

representações que os indivíduos e os grupos fazem de si mesmos e dos outros conforme as disputas de poder (econômico, político, social, cultural ou simbólico) que estejam em jogo (Elias, 2000).

havia caminhos (...) Não existiam escolas, não havia nada, tudo era bosque e mais bosque” (Myrian Adam Rohring apud Gutiérrez, 22 /09/ 2003). Os “pioneiros” costumam afirmar que não havia ninguém naquelas regiões e que foram eles que trouxeram o progresso mediante muito sacrifício individual e familiar, embora se saiba que existiam vários grupos indígenas nos departamentos fronteiriços.

Na verdade, o discurso do imigrante sintetiza a imagem do “aventureiro” e do “trabalhador”. Para Holanda (1995), o tipo trabalhador “enxerga primeiro a dificuldade a vencer

do que o triunfo a alcançar”, é persistente e atua em espaços limitados. Já o aventureiro

ultrapassa as fronteiras, “vive em espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes

e seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore”71 (Holanda, 1995, p. 44). No contexto de

imigração esses dois tipos ideais não se constituem como conceitos opostos e com éticas distintas. O trabalho e a aventura fazem parte de uma mesma representação da saga dos imigrantes. Eles desbravam esses lugares inóspitos e “buscam novos horizontes, uma realidade

diferente, uma vida melhor” no meio das florestas tropicais no sul do Brasil e no interior do

Paraguai. Depois de se fixarem em um determinado lugar, “tinham que trabalhar dia e noite para

abrir o local, para poder ter uma casa” (Sérgio Kempf, líder do movimento jovem da Congregação

Scalabrini, 19/11/2004).

Neste tempo era tudo matão, sim aventureiro de sangue, eu acho que o sangue já vinha de aventureiro. Os avós dele [seu pai] vieram da Itália para o Sul, os pais dele já saíram do Sul e vieram para o Paraná que era puro mato. Então sangue de aventureiro, sangue de procurar lugar novo, de conquistar um novo lugar (Jackson Bressen, agricultor, 17/11/2004).

Esse imigrante relata o “sangue de aventureiro” de sua família através das gerações e das constantes migrações. Os bisavós vieram da Itália para o Rio Grande do Sul. Os avós migraram para o Paraná e seu pai veio para o interior do Paraguai. A cada geração, uma migração. Para ele, o espírito de aventura se combina com a obstinação pelo trabalho nesse

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Os tipos aventureiro e trabalhador são conceitos típicos ideais e, portanto, não se encontram de maneira “pura” na realidade social. Esses conceitos servem para classificar e ordenar uma realidade sempre mais dinâmica e confusa.

Na leitura de Sérgio Buarque, o tipo trabalhador teve um papel muito reduzido no processo de colonização do novo mundo. O aventureiro foi o tipo que predominou no processo de colonização portuguesa, espanhola e inglesa. A imagem que temos atualmente do inglês como um tipo metódico e trabalhador foi um produto recente da história inglesa. Somente a partir do contexto da industrialização na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX, o tipo trabalhador passou a ser predominante naquele país, antes o que predominava era o aventureiro (Holanda, 1995).

constante movimento migratório. A auto-identificação dos imigrantes como desbravadores e trabalhadores ajuda a legitimar sua presença naquele país, diminuindo o peso da classificação de “estrangeiro”, “invasor” ou “bandeirante”.

A imigração brasileira reproduz no Paraguai um conjunto de estereótipos formulados ao longo da história do Brasil. Imigrantes do Sul do país declaram que os nordestinos que vivem na nação vizinha não conseguem melhores condições de vida porque são “preguiçosos”. Para eles, os nordestinos não sabem acumular, tudo que ganham terminam gastando e por isso vão quase todos embora. Nesse discurso, os setores marginalizados dos imigrantes brasileiros são vistos como nordestinos. As desigualdades sociais são transformadas em diferenças regionais, capazes de produzir uma auto-imagem de superioridade dos imigrantes sulistas. Sabemos, por pesquisas realizadas nos acampamentos dos camponeses “brasiguaios” que voltaram para o Brasil em meados da década de 1980, que estes pertenciam a diferentes regiões brasileiras (Sprandel, 1992).

As discriminações em relação aos nordestinos já estavam presentes no contexto da década de 1970. Como convidados do presidente Stroessner, esses imigrantes do sul do Brasil iam para o Paraguai imbuídos da missão de "mostrar aos preguiçosos campesinos paraguaios e à

negrada do Norte e Nordeste brasileiros como se trabalha" (Wagner, 1990, p. 42). O imigrante

Djacir Tavares, cearense, conseguiu enriquecer no Paraguai, mas se considera uma exceção, pois para ele os nordestinos continuam sendo discriminados naquele país.

A situação dos nordestinos, dizem que não existe, eu vejo que os nordestinos são um pouco desprivilegiados. Eles vêm e pouco constroem porque eles sofrem um pouco. Eu penso que os nordestinos não só aqui, como tentaram em São Paulo, como tentaram em vários outros lugares, nós sofremos um pouco de um preconceito (Djacir Tavares, agricultor, 17/11/2004).

As imagens que fazem do nordestino, do caboclo e do índio no Brasil são transferidas para o camponês paraguaio72. Eles afirmam que os paraguaios são como índios e, portanto, preguiçosos. A missão dos imigrantes brasileiros é levar a civilização, o progresso e o desenvolvimento econômico para um país atrasado e com um povo de mentalidade indígena. “Os

paraguaios são como os índios no início da civilização, por isso os portugueses preferiram os

72 Talvez pelo fato de eu ser um pesquisador nordestino, os entrevistados não tenham feito mais comparações diretas

africanos, pois os índios não sabem trabalhar” (Dileta Zamchette, freira da Congregação Verbo Divino, 24/11/2004).

[Os paraguaios] são por natureza mais fracos no trabalho, não têm visão do futuro, são mais índios. O pensamento deles é poder ficar dentro do mato, de viver assim de caça, pesca. O trabalho deles é fazer alguma coisinha, plantar mandioca. Eles dizem que o trabalho mata, acham que a vida deve ser vivida diferente. Então eles acham isso, vendo como o brasileiro trabalha, para que trabalhar para fazer tanto dinheiro assim se vamos morrer um dia, tem que pensar pro dia de hoje, comer e dormir e ter sombra e água fresca. Essa é a mentalidade deles (Izalino Thomé, vereador, 26/11/2004).

Algumas explicações sobre a formação da sociedade paraguaia enfatizam a mestiçagem física e cultural entre índios e espanhóis desde o período colonial (Vera, 1996; Cardozo, 1996). Os brasileiros geralmente têm uma representação cristalizada dos habitantes dos países vizinhos, com exceção dos uruguaios e dos argentinos, como sendo predominantemente indígenas. No Brasil existe uma visão homogênea dos “outros” cidadãos dos países da América do Sul, pois freqüentemente os brasileiros não conseguem distinguir o boliviano, do peruano e do paraguaio. No contato cotidiano com os paraguaios, os imigrantes não apagam essas imagens cristalizadas, provavelmente por três motivos principais: os imigrantes são principalmente “brancos” e no contraste continuam vendo os mestiços como índios; os paraguaios falam predominantemente o guarani, uma língua de origem indígena, e talvez também reforce a associação entre paraguaios e índios; por último, os camponeses paraguaios se dedicam a uma agricultura de subsistência de matriz indígena, principalmente o plantio da mandioca. Desta forma, os estigmas em relação aos índios no Brasil são direcionados aos paraguaios de uma maneira genérica.

Alguns imigrantes brasileiros também comparam os paraguaios aos negros do Brasil. Como afirma esse imigrante descendente de alemão, “os paraguaios são que nem brasileiro

negro, que nem caboclo, não gostam de trabalhar” (Mauri Schmeider, agricultor, 16/11/2004). Esses brasileiros geralmente reproduzem no país vizinho estereótipos semelhantes àqueles que os colonizadores europeus dirigiam aos “selvagens”, “primitivos” e “escravos negros” na colonização da América, bem como os que seus avós europeus usavam para classificar os brasileiros nativos. Os estigmas são repassados por tradição oral e reforçados em algumas lições dos livros didáticos brasileiros. Nestes textos, várias gerações brasileiras aprenderam que os portugueses escravizaram os negros porque os índios eram “indolentes” e “preguiçosos”.

Desde o início do processo de colonização brasileira no Paraguai, os imigrantes

reproduzem esse discurso cristalizado, favorecidos inclusive pelo ditador daquele país. Tudo indica que existia um racismo declarado por parte do governo paraguaio ao incentivar particularmente os brasileiros descendentes de europeus.

Naquela ocasião já havia uma força do presidente Stroessner, o ditador, e que ele queria produzir no Paraguai elementos brancos, inclusive tinha certo..., não gostava dos negros, mas se fosse branco podia entrar e fazia questão que fosse o pessoal do Sul, era o mais acostumado a trabalhar com a agricultura (Izalino Thomé, vereador, 26/11/2004).

Stroessner é filho de pai alemão e mãe paraguaia, nascido no departamento de Itapúa, região de forte presença de imigrantes europeus desde o início do século XX. Além disso, viajava freqüentemente para a região Sul do Brasil e era um admirador do desenvolvimento das regiões brasileiras em que estavam presentes esses imigrantes europeus. Ele fazia uma associação direta entre imigrante, trabalho e desenvolvimento. Nesta associação terminava reproduzindo as teses racistas do século XIX. Parece que mais de um século após o predomínio destas teses que associavam a “raça branca” com a capacidade de trabalho e de progresso, elas ainda alimentam outros processos migratórios e novas ideologias desenvolvimentistas.

Benzer Belgeler