A expansão da frente de colonização brasileira em território paraguaio desde o início da década de 1970 tem gerado reação política de lideranças de partidos de oposição49. Líderes destes partidos tentaram em 1972 e 1974 aprovar uma lei proibindo a venda de terras para estrangeiros na zona de fronteira. Os projetos de lei representavam as primeiras reações ao Estatuto Agrário de 1963 que liberou a compra de terras por estrangeiros e favoreceu
49 O Partido da situação é o Partido Colorado desde 1954 e na oposição os mais representativos que existiam durante
a ditadura era o Partido Liberal Radical Autentico (PLRA) e o Partido Febrerista. Atualmente o Partido Febrerista foi desativado e outros pequenos partidos de oposição se estruturam como o País Solidário e Pátria Querida.
enormemente a entrada dos brasileiros nos departamentos que fazem limite com o Brasil. As tentativas de aprovação da lei foram frustradas, visto que a oposição era minoritária e não tinha poder decisório no contexto ditatorial. O governo de Stroessner, por sua vez, não via a presença dos agricultores brasileiros como uma invasão e ameaça à soberania nacional, mas como uma dádiva capaz de promover o desenvolvimento econômico da fronteira do Paraguai (Menezes, 1987).
Ainda na década de 1970, o líder do Partido Liberal, Domingo Laino, escreveu um livro denunciando a “penetração” e “invasão” brasileira no Paraguai. Sua análise indicava que a imigração brasileira no seu país ameaçava a soberania nacional e era fruto de uma estratégia geopolítica do “subimperalismo brasileiro”, articulado com o imperialismo norte-americano, visando dominar e colonizar o Paraguai (Laino, 1979). Em caráter de denúncia, o autor enfatiza o predomínio de brasileiros em toda a faixa de fronteira: a compra ilegal de terras e contrabando de madeiras, a influência da língua portuguesa e dos meios de comunicação e o fato das crianças paraguaias irem estudar nas escolas brasileiras das cidades vizinhas devido ao descaso do governo paraguaio. E sentencia: enquanto os brasileiros estão invadindo nosso território, os compatriotas estão sendo expulsos do próprio país e indo morar na Argentina.
O projeto de lei foi retomado quando terminou a longa ditadura de Stroessner em 1989. Muitos líderes de oposição que estavam exilados, principalmente na Argentina, voltaram ao país e novamente discutiram a denominada “invasão brasileira” no Paraguai. O projeto definia uma faixa de 50 km de fronteira a partir do limite internacional como zona exclusiva para os paraguaios, ou seja, os estrangeiros não podiam ter propriedades neste território. Os imigrantes brasileiros eram vistos pelos líderes do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) como uma herança perversa de regime ditatorial. Na concepção desses novos parlamentares, a ditadura de Stroessner colocou em xeque a soberania nacional do país, pois facilitou o enriquecimento dos estrangeiros e ocasionou a expulsão dos “compatriotas”. Rodolfo Rodriguez Garabelli, autor do projeto de lei, tinha uma visão bastante nacionalista. Em entrevista concedida ao pesquisador brasileiro José Luis Alves, Garabelli comenta as razões da construção desse projeto e a necessidade imediata de estabelecer limites a “invasão brasileira”:
Antes de começar a elaborar o Projeto percorri toda a costa do Paraguai com o Brasil para constatar e não cometer injustiça. Fiquei pasmado! Parecia que não estava em minha pátria e sim no Brasil. A cultura é brasileira, os costumes são brasileiros.
Enfim, é um novo Brasil só que dentro de outra nação. Na minha opinião não é correto e muito menos justo. Aquele que não desejar aceitar a cidadania paraguaia vai ter que deixar o nosso solo. Porém a família que se nacionalizar, cantando o nosso hino, respeitando a nossa bandeira e as nossas tradições, será mais um a ser bem- vindo, integrando-se ao nosso meio e incorporando-se ao nosso sistema produtivo (Rodolfo Rodriguez Garabelli apud Alves, 1990, p. 58)
O projeto foi aprovado pelas câmaras legislativas, mas, após intensos protestos dos imigrantes e da diplomacia brasileira, terminou sendo arquivado pelo então presidente do Partido Colorado, Andrés Rodriguez. Os discursos do presidente e de lideranças do Partido Colorado continuavam ressaltando a grande contribuição dos imigrantes para o desenvolvimento da nação.
A partir da assinatura do Tratado de Assunção em 1991, o qual previa a criação do Mercosul em 1995, mudou o foco político da discussão no tocante à problemática dos imigrantes. Os discursos políticos e diplomáticos do governo paraguaio passam a enfatizar a integração e os imigrantes brasileiros são vistos como um exemplo concreto de integração entre os dois países. Por sua vez, os setores de oposição (intelectuais, políticos e movimentos sociais) enfatizam que estes brasileiros não estão integrados à sociedade local, pois continuam vinculados econômica e culturalmente à sociedade brasileira. Para muitos, os brasileiros formam “enclaves econômicos e socioculturais” e não se integram em nenhum aspecto com o mercado interno e com a cultura nacional paraguaia.
O Mercosul foi formado por países com níveis de desenvolvimento bastante desiguais. O Brasil e a Argentina constituíram parques industriais importantes durante o século XX e contam com amplos territórios e grandes contingentes populacionais que possibilitam a formação de um complexo mercado interno. Mas o Uruguai e o Paraguai são relativamente bem menores nos aspectos territorial, populacional e econômico. Como já afirmei anteriormente, especialmente o Paraguai não desenvolveu um projeto nacional centrado na industrialização durante o século XX. O país entra como o sócio menor do Mercosul, aumentando os vínculos de dependência com o Brasil e a Argentina. A assimetria de poder entre essas nações no contexto de tentativa de integração regional fortalece a discussão sobre a soberania nacional. Provavelmente a dependência econômica do país em relação ao Brasil contribuiu para retomada da discussão e aprovação da lei que estabelece uma zona de fronteiras como área de segurança nacional em anos recentes.
Em 2002, o projeto foi novamente posto em votação, aprovado na Câmara dos Deputados, mas rechaçado pelo Senado no início de 2003. Um dos motivos para a aprovação do
projeto foi a proibição do Brasil de importar a carne bovina do Paraguai sob suspeita de febre aftosa. Segundo vários entrevistados, a aprovação da lei justamente naquele momento conflituoso seria uma espécie de reação e represália dos deputados ao bloqueio brasileiro à carne paraguaia. Para o vice-cônsul brasileiro em Cidade do Leste, esse projeto de lei funciona como uma moeda de pressão que é constantemente “desengavetada” pelos políticos paraguaios, conforme os interesses econômicos que estiverem em jogo entre os dois países (William Jaques Pereira, Vice- cônsul,19/01/2004). O principal argumento dos parlamentares favoráveis à aprovação naquele momento era que o Brasil e a Argentina também têm faixas de fronteira, onde os estrangeiros não podem comprar propriedades.
O projeto aprovado pelos deputados previa um prazo máximo de dez anos para os estrangeiros transferirem suas propriedades aos paraguaios na faixa de 50 km do limite internacional. Para os imóveis que não estavam sendo explorados racionalmente, o prazo seria de somente três anos. Todas as proibições estavam contidas no artigo 2 daquele projeto de lei com meia sanção da Câmara dos Deputados:
Articulo 2: Salvo autorización por decreto del Poder Ejecutivo, previo dictamen del Consejo de Defensa Nacional, queda prohibida a los extranjeros o personas jurídicas mayoramente integrados por estos, en la zona de seguridad, la práctica de hechos referentes a:
I. La concesión de tierras públicas, apertura de vías de transporte e instalación de medios de comunicación destinados a la explotación de servicios de radiodifusión de sonidos e imágenes.
II. La construcción de puentes, carreteras internacionales y pistas de aterrizaje
III. El establecimiento o explotación de industrias consideradas de interés para la seguridad nacional; y
IV. La instalación de empresas que se dediquen a las siguientes actividades:
a) La investigación, explotación y aprovechamiento de recursos minerales, conforme al artículo 112 de la Constitución Nacional.
b) La colonización y loteamientos rurales; las transacciones con inmuebles rurales que impliquen la obtención por personas extranjeras del dominio, de la posesión o de cualquier derecho real sobre el inmueble; la participación, bajo cualquier título, de personas extranjeras, sociedades por acciones extranjeras, cualesquiera otras personas jurídicas integradas total o parcialmente por aquellos, en actos que conlleven derecho real sobre el inmueble; serán autorizados por ley de la Nación (Proyecto de Ley, 10/10/2002 ).
Conforme esse artigo, os estrangeiros, além de não poderem mais ser proprietários de imóveis rurais e de indústrias na faixa de 50 km do limite internacional, também não poderiam possuir meios de comunicação, construir obras de infra-estrutura e nem explorar recursos
minerais em território paraguaio. Vários setores empresariais, que investem nessas zonas de fronteira, reagiram a esse projeto de lei e começaram a pressionar os senadores para que não o aprovassem. As principais entidades empresariais50 enviaram cartas em conjunto ao presidente do Senado apelando para que esta instituição política não fosse favorável a uma lei contrária ao desenvolvimento. As cartas freqüentemente destacavam que o projeto de lei estava na contra-mão da história, pois o momento atual é de integração supranacional, como está expresso neste trecho da carta do Colégio de Escribanos del Paraguay:
Creemos que si este proyecto se convirtiese en ley, estaría en abierta contradicción con el ideal de integración que se gestó hace más de 200 años con Simón Bolívar y se está tratando de concretar con el MERCOSUR. Tampoco es argumento válido, que nuestros vecinos cuenten con una legislación similar ya que ello no constituye fundamento para caer en la misma pequeñez de miras. Es menos válido aún, que las leyes sean medios de revanchismo y represalias, como se ha comentado, a conductas incorrectas de nuestros “socios” del MERCOSUR. Los modelos de Integración que han servido para el desarrollo integral de las naciones, como la Unión Europea, deben ser nuestros parámetros para hacernos ver que cuando las fronteras se abren las naciones prosperan (Carta do Colegio de Escribanos del Paraguay, 18/12/2002).
O senado rechaçou o projeto em 27/02/2003. Nesse contexto, o clima de tensão entre os dois países tinha sido amenizado, visto que o Brasil eliminou as barreiras em relação à importação da carne paraguaia. As pressões de setores empresariais, políticos e jurídicos também influenciaram na decisão dos senadores. O projeto volta então para a Câmara dos Deputados e aquelas diferentes entidades continuaram enviando cartas de repúdio agora para o presidente da Câmara dos Deputados. Somente em 29/05/2003 a Câmara aceita o rechaço e arquiva o projeto.
Entretanto, em 2004, novamente o projeto foi “desarquivado”, reelaborado e posto novamente em votação. Desta vez foi aprovado nas duas câmaras e se transformou na lei número 2532 em 09/12/2004, sancionada em seguida pelo presidente da República do Paraguai. A nova lei não atinge direitos adquiridos e está restrita à proibição da compra de imóveis rurais por estrangeiros dos países limítrofes numa faixa de 50 km a partir da linha de fronteira:
Articulo 1º – Se establece zona de seguridad fronteriza la franja de 50 kilómetros adyacente a las líneas de frontera terrestre y fluvial dentro del territorio nacional. Articulo 2º - Salvo autorización por decreto del Poder Ejecutivo, fundada en razones de interés público, como aquellas actividades que generan ocupación de mano de obra
50 A Cámara de Comercio e Industria Paraguayo-Alemana, Foro Brasil, Cámara de Comercio Paraguayo-
en la zona de seguridad fronteriza, los extranjeros oriundos de cualquiera de los países limítrofes de la Republica o las personas jurídicas integradas mayoritariamente por extranjeros oriundos de cualquiera de los países limítrofes de la República, no podrán ser propietarios, condóminos o usufructuarios de inmuebles rurales.
Articulo 3º- Las disposiciones del Artículo 2º de la presente Ley no afectarán los derechos adquiridos antes de la vigencia de esta Ley (Senado, Ley 2532, 09/12/2004) No período em que o projeto foi arquivado pelo Senado em 2003, o argumento principal era que se tratava de uma norma jurídica arcaica, nacionalista e que não estava em sintonia com os novos tempos de integração no contexto da globalização e particularmente do Mercosul. Em 2004, quando a lei foi aprovada por maioria no Senado, os discursos enfatizavam a nacionalidade e a necessidade de preservação da identidade e soberania nacional. Alguns dos senadores afirmam que a medida é legítima, visto que tanto a Argentina como o Brasil têm leis semelhantes. Por que os senadores mudaram radicalmente de opinião de um ano para outro? Por que passaram do argumento da integração e do desenvolvimento econômico, ocasionado pelos estrangeiros, para um discurso nacionalista em defesa da soberania nacional?
Talvez uma das razões seja a política de ação e reação entre o Brasil e o Paraguai no contexto do Mercosul. Quando o Brasil estabelece alguma proibição econômica ao Paraguai, seja o bloqueio à carne bovina, sejam as operações de controle do “contrabando”, este reage com medidas legais para atingir os imigrantes ou trabalhadores que vivem e trabalham em território paraguaio. Em 2004, o estado do Paraná tinha proibido a exportação de soja transgênica paraguaia pelo porto de Paranaguá. A medida provocou reações tanto dos próprios plantadores de soja, como do governo paraguaio, que tem na soja a principal pauta de exportação. Desta forma, o Senado, de maioria colorada, terminou votando a favor do projeto da lei fronteiriça.
O aumento dos conflitos rurais e as constantes publicações contra a “invasão brasileira” também contribuíram para a formação de uma opinião pública favorável à aprovação da lei. A reivindicação dos camponeses, que representam uma base política importante para muitos senadores, serviu como uma forma de pressão no contexto de discussão do projeto. Mas a lei foi facilmente aprovada porque não contraria vários interesses econômicos como na versão de 2002. Os estrangeiros que não pertencem aos países vizinhos continuam com todas as garantias de investimento nas regiões fronteiriças e os estrangeiros dos países limítrofes podem continuar comprando imóveis urbanos. Os proprietários rurais não perderão suas propriedades já adquiridas e o Poder Executivo pode autorizar um brasileiro a adquirir uma propriedade rural desde que este comprove as razões de “interesse público” do empreendimento.