• Sonuç bulunamadı

Este prolongado abraço do jornalismo às novas tecnologias está-lhe, de facto, na essência. Jane Chapman e Nick Nuttall consideram que a “formatação das notícias ao longo dos últimos 200 anos” tem dependido de “fatores institucionais” (as dimensões económica e política, essencialmente), mas também de “fatores tecnológicos”, reforçando a tese, que também já aqui expressámos no capítulo um, “de que as notícias são, mais do que qualquer outra coisa, uma categoria culturalmente construída” (2011: 2).

No final deste capítulo realçaremos os efeitos positivos que resultam dessa associação entre a Internet e o jornalismo, nesta fase expressamos os sinais negativos que realçam a deriva que temos vindo a caraterizar.

Combater o Excesso de Informação não Filtrada

A rede é um lugar de ilusão onde, como temos insistido, convivem todas as formas de comunicação. Mensagens jornalísticas disputam espaço com a propaganda, a publicidade, os interesses políticos, económicos, etc. As fronteiras diluem-se, desaparecem.

184

Ignacio Ramonet avalia esta perda de marcas identitárias imposta pela rede e conclui que o campo da comunicação se sobrepõe promovendo uma “confusão permanente entre informação e comunicação”:

“O mundo da comunicação93, cujo papel consiste em difundir mensagens complacentes e

laudatórias relativas às empresas que as emitem, tende a misturar-se com o mundo da informação. Entre as duas esferas, os diques começam a romper (…) Uma tal mistura de géneros degrada a confiança do público e impõe um sério golpe de credibilidade ao conjunto da informação” (2011: 36-37).

O jornalista e autor Michael Massing identifica e carateriza os dois lados da rede, por um lado, um lugar “pleno de vida e agradável”, por outro “um ninho de rumores, distorções e fabricações” (apud Downie Jr. e Schudson, 2009: 54 e 55).

A rede está, pois, povoada de armadilhas a que jornalistas e público devem estar atentos:

“Existem poucas marcas claras que permitam a distinção entre blogs, sítios financiados para promoverem pontos de vista e os sítios independentes de notícias que operam de acordo com as regras profissionais que enquadram a reportagem” (Starr, 2009: 3).

Os interesses invisíveis encontram nas redações mais permeáveis da era digital, com menos recursos financeiros e humanos, um terreno fértil para deixarem uma marca. Emitir mensagens através da rede, acreditando que elas alcançam os destinatários certos (jornalistas inexperientes que não conquistaram o hábito de verificar a origem e a veracidade das informações), é uma atividade que motiva os mais diversos interesses: “o novo ambiente atraiu grupos de interesse, cujo principal propósito não é produzir jornalismo, mas incluir” no alinhamento dos grandes meios de notícias “mensagens políticas” (Kovach e Rosenstiel, 2010: 50). Kovach e Rosenstiel exortam o público consumidor de notícias a escapar deste disfarce jornalístico:

"Quando todas as histórias apontam para uma mesma conclusão e as relações das organizações promotoras têm mais a ver com política do que com notícias, esses são os sinais de alerta que demonstram que entrámos na área de influência do jornalismo dos grupos de interesse” (idem, ibidem: 52).

O exercício de filtragem é, por isso, mais exigente. O selo de credibilidade, cada vez mais, precioso.

93

"Monde de la communication”, no original. A expressão utilizada pelo autor, e que optámos por traduzir de forma literal, parece-nos excessivamente redutora. O conceito de comunicação é interpretado de forma diferente por diversos autores ao longo desta investigação. Como assinalámos no capítulo dois, a nossa posição é a oposta à de Ramonet, uma vez que, ao contrário do que indicia a posição do autor, o campo da comunicação não se restringe às mensagens produzidas e emitidas por interesses particulares, é antes o campo da partilha e da interação comunicativa. Mantivemos a expressão original por entendermos, neste contexto, não existir qualquer indício de confusão com interação comunicativa, ou a troca racional de argumentos entre os membros de um público. Sobre esta temática conferir capítulo 2, nota 31.

185

Esta mistura de conteúdos provenientes das mais diversas fontes, patrocinadoras de interesses diversos, impõe novas responsabilidades aos jornalistas, ao público mas, igualmente, à universidade. Os currículos dos cursos de jornalismo devem fornecer ferramentas que auxiliem os alunos a descodificarem as características da rede, salvaguardando o jornalismo e os valores que o enformam. Os efeitos da tecnologia nas profissões da comunicação devem autonomizar-se numa área de estudos e as unidades curriculares da variante integrar a reflexão sobre os potenciais efeitos do digital na ação quotidiana; questionando, sobretudo, a aplicação dos métodos tradicionais de recolha de informação e contacto com as fontes, avaliando os processos de confirmação e verificação da informação, necessariamente mais complexos agora, dada a nova pressão do fator tempo, mas, essas unidades, devem discutir, também, novos modelos de estruturação e apresentação da matéria jornalística e posterior distribuição, que tenham em conta a interação direta e permanente com o público. A convivência, na rede, de conteúdos que refletem interesses particulares, mascarados de mensagens jornalísticas, essas sim promotoras da defesa do interesse público, sem constituir um momento novo na deriva que temos vindo a caracterizar, assume, agora, uma proporção com potencial devastador.

A Urgência da Medialiteracia

No modelo de formação, cujas bases definiremos no capítulo oito, iremos avaliar a introdução de uma unidade curricular que reflita sobre a interligação permanente e essencial que o jornalismo deve manter com o público. A este propósito, a problemática relativa à literacia (das notícias, dos media) assume especial relevância. Nos cursos de jornalismo nas universidades dos Estados Unidos da América, cujas marcas identificadoras adiante detalharemos, a adaptação dos currículos à era da Internet promoveu a introdução da literacia como disciplina de referência.

Howard Schneider, diretor da Escola de Jornalismo na Universidade de Stony Brook em Nova York, antigo jornalista e editor de jornais, criou, na escola que dirige, o primeiro curso em Literacia das Notícias. O curso haveria, mais tarde, de chegar a diversas universidades americanas. Schneider é, igualmente, o diretor executivo do Centro Escolar de Literacia das Notícias94.

94

186

A preocupação americana com o ensino da literacia das notícias e dos media é, todavia, transversal à sociedade, e não apenas apanágio dos cursos de jornalismo. No sentido de formar cidadãos mais despertos para as armadilhas da rede, Alan C. Miller, um jornalista de investigação do Los Angels Times, fundou, em 2008, o Projeto de Literacia das Notícias (NPL)95, destinado a alunos pré-universitários e apoiado por fundações não lucrativas, universidades e cerca de 185 jornalistas. O projeto, extracurricular, promove sessões de literacia das notícias em diversos liceus americanos nas cidades de Nova York, Chicago e Washington. A iniciativa pretende ajudar os alunos da era digital a usar os motores de busca, mas também as plataformas clássicas, no sentido de aprenderem a “separar factos de ficção”, “informação verificada de propaganda”, estimulando “técnicas de pensamento crítico” que lhes permita identificar a “informação credível” que circula na rede e que integra os alinhamentos dos meios clássicos. O projeto promove a interação crítica dos alunos com materiais recolhidos na rede, (emails virais, Wikipedia, motores de busca, YouTube e notícias clássicas) e apresenta-lhes, como modelo, conteúdos jornalísticos credíveis96

Em Portugal, existe um portal de literacia para os media administrado pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social e apoiado por um conjunto de entidades públicas com responsabilidades na área da comunicação. O sítio pretende inscrever a educação para os media na agenda pública, promovendo a participação dos cidadãos na vida democrática, através das plataformas digitais e das redes sociais, mas criando condições para que os cidadãos reforcem um juízo crítico face aos media97.

Como assinala João Carlos Correia, o propósito destes movimentos é o mesmo: "a necessidade de saber que tipo de conhecimento, atitudes e competências se tornam essenciais para se ser um cidadão na idade dos media (2000: 208).

A formação de jornalistas e cidadãos mais preparados para desvendarem as armadilhas e os buracos na rede advém, igualmente, da crescente responsabilidade que cada um de nós assume na interação com os conteúdos jornalísticos. De facto, ao mesmo tempo que as marcas jornalísticas de referência produzem, como já aqui assinalámos, o caudal informativo mais consultado na rede, protegendo a ação jornalística, tornando-a fundamental e, como tal, prolongando-lhe a vida, nada impede, como assinalam Bill Kovach e Tom Rosenstiel, que “os cidadãos, cada vez mais, filtrem

95

News Literacy Project (NPL), no original.

96

(http://www.thenewsliteracy.org/about/ consultado em Abril de 2012). 97

187

sozinhos a informação que lhes chega das mais diversas fontes”. Como insistem os autores, “estamos a tornar-nos os nossos próprios editores, os nossos próprios

gatekeepers, os nossos próprios agregadores” (2011: 7).

O jornalismo deve, pois, desempenhar papel fundamental para participar nesse processo de formação do público, assumindo um compromisso com a medialiteracia. A necessidade de existir uma cada vez maior responsabilidade dos cidadãos não nos deve deixar descansados; mesmo se o cidadão, crescentemente, souber assumir esse papel. A questão fundamental reside, afinal, no potencial inesgotável da rede para produzir uma miríade de mensagens, de interesses variados, por vezes divergentes.

Como reconhecem Jane Champan e Nick Nuttall,a sociedade de hoje “sofre de abundância de informação, mas isto não quer dizer que o público esteja apto a tirar sentido desse excesso”: “demasiada informação, na maior parte das vezes, encobre a verdade, ao invés de a revelar” (2011: 2). Importa pois, quebrarmos a redoma de ilusão em que a rede, por vezes, parece fechar-nos. Como insistem Chapman e Nutall, “a sofisticação tecnológica e a, legalmente definida, liberdade dos media não conduzem, necessariamente, a uma cidadania mais informada” (idem, ibidem).

Associado ao excesso de informação não filtrada, sobressai um curioso paradoxo: no alinhamento dos jornais televisivos e radiofónicos e dos próprios jornais, na organização dos sítios online das marcas de referência, impõe-se a cobertura noticiosa dos mesmos assuntos, com abordagens semelhantes e padronizadas. Como destaca Nélia del Bianco, referindo-se à informação radiofónica brasileira na era da Internet, “todos bebem da mesma fonte na hora de compor o seu noticiário, reproduzindo o mesmo discurso” (2004: 9).

A conclusão de Eric Alterman surge em jeito de alerta:

“Num mundo em que deixámos de poder depender de jornais, que nos ajudavam a descodificar a realidade, uma vez que deixaram de ter recursos e competência profissional para desempenharem, mesmo com algumas falhas, essa tarefa (...) é impossível não nos interrogarmos sobre o que estará para vir (...) não apenas no que concerne ao tratamento

das notícias, mas também sobre o que irá acontecer à própria democracia” (2011: 14).

Jornalismo de Verificação vai Dando Lugar ao Jornalismo de Afirmação

Uma das grandes marcas negativas da Internet no jornalismo, e que limita o papel que ele desempenha na formação da cidadania, são as barreiras que se erguem ao cumprimento de um dos seus valores mais distintivos, a verificação. Essas barreiras são

188

consequência da abundância de informação por filtrar. O excesso alimenta a fome de atualizações, de notícias novas, numa proporção nunca antes percecionada:

“O processo de checagem está debilitado e o jornalismo de verificação enfraquecido, ao permitir um fácil acesso às matérias e às declarações, sem trabalho de investigação (...) O fundamento histórico do jornalismo está no conhecimento da realidade, na apuração dos factos, e na apresentação da narrativa correta, crível, isenta de opinião e de parcialidades. Cabe aos jornalistas a verificação dos factos através da recolha dos dados junto das fontes” (Bianco, 2004: 6, 10 e 11).

Esta ação jornalística incompleta (ou deturpada), este jornalismo de secretária, está, de facto, a fragilizar as bases onde assenta o edifício profissional: "Os jornalistas que recolham informação diretamente da rede sem uma investigação associada (...) estão a rejeitar os princípios morais e profissionais” (Meyer, 2004: 226).

A recolha de informações dispersas, diretamente na rede, sobre o assunto que está a ser tratado, muitas delas provenientes de fontes indecifráveis e de interesses obscuros, perverte a ação jornalística, reduzindo a escombros a reportagem.

A rede promove o "caos informacional", impondo, como num "ciber-bazar", a mistura de "comentários", com as "notícias de corta e cola", com "testemunhos pessoais" (Neveu, 2001: 123); ocupam um mesmo espaço, onde as fronteiras e as marcas identificadoras, pura e simplesmente, se esbatem. Novas dificuldades de acesso à informação se impõem quando os navegadores da rede se deparam com tão extenso e abrangente leque de mensagens; muitas que se anulam, outras que, só em aparência, se complementam. Separar a informação fiável dessa miríade de mensagens

desinformativas, ou falsamente informativas é uma tarefa nova que os destinatários,

sozinhos, não terão condições de concretizar.

Madalena Sampaio considera existir uma “procura desenfreada pelo furo digital":

"Aposta-se em dar a informação em primeira-mão, sem estar completa ou totalmente confirmada. Um disparar constante de notícias para a web que não passa despercebido a

qualquer leitor atento” (2006: 158)98.

O reflexo dessa “velocidade” traduz-se no “aumento do risco de distorção” (Kovach e Rosenstiel, 2007: 166).

98Em Março de 2011, o autor participou numa conferência sobre “Jornalismo do Século XXI”, onde o diretor do

jornal "O Jogo" assumiu, perante a audiência, que a Internet estava a tornar mais complexo o exercício de verificação da informação publicada; como tal, o diretor assumiu que muitas informações veiculadas “estão a deixar de passar pelo crivo da verificação”. A concorrência entre jornais, comprometida pela necessidade de “matar a fome que a audiência revela ter por notícias frescas”, foi a razão que, para o referido diretor, justificou a prática editorial.

189

O excesso não filtrado gera, pois, uma espécie de desinformação, ao mesmo tempo que alimenta a nossa ilusão de liberdade; cada um de nós acredita estar mais perto da verdade, podendo evitar os efeitos do rolo compressor do jornalista e dos meios clássicos que oferecem uma informação selecionada (pré-definida), que escapa ao controlo dos recetores. Uma vez mais, a solução parece estar num meio-termo que nos abra um caminho que evite as ilusões provocadas pelo ruído do excesso, e as restrições impostas pela unidirecionalidade.

Bill Kovach e Tom Rosenstiel, apresentam-nos um exercício (2010: 1-7) que parece reclamar a necessidade de adotarmos esse meio-termo.

Os autores ficcionaram a cobertura mediática de um acidente nuclear em 2010, mas que, efetivamente, acontecera em 1979, na Pensilvânia. Esse exercício realça, de forma clara, as limitações à informação impostas na era da Internet, mas também as que, realmente, se registaram 31 anos antes.

Se, por um lado, a era da Internet retrata um universo informativo caótico, prestes a desagregar-se, potenciador de pânico, faminto de informação, mergulhado no excesso por filtrar e na contradição99, por outro, a verdadeira cobertura noticiosa do acontecimento depurou o cenário, purificando-o. Em vez de excesso de vozes e de informações, assistimos ao excesso de zelo dos jornalistas que relataram o acontecimento, ao compromisso (submissão) dos jornais, rádios e televisões, com a visão institucional do acidente100.

A cobertura de 1979 evitou que o pânico afetasse os trabalhos de minimização dos efeitos do acidente, que poderia, de facto, transformar-se num desastre nuclear. A cobertura informativa da era da Internet potenciaria a desinformação e o caos; mas os compromissos assumidos pelos jornalistas e pelos órgãos de comunicação social, em 1979, promoveram idêntico processo de desinformação, cujas consequências não foram avaliadas porque, felizmente, o acidente nunca assumiu a dimensão de um desastre.

99

O cenário recriado pelos autores descreve as fugas de informação por confirmar e a reprodução imediata das mesmas pelos diversos agentes implicados na cobertura do acontecimento e a cadeia de reações que essa reprodução ia gerando (“a blogosfera age ainda mais rápido do que os noticiários televisivos ou o YouTube”; “sítios

online auto classificados como independentes, mas controlados por grupos políticos, incluindo um com interesses

na indústria do nuclear, rebatem as críticas”. A informação veiculada por esses sítios é associada a palavras-chave que lhes permite localização destacada nos motores de busca. A rádio cria pontos de discussão, as televisões por cabo absorvem todo o tipo de informação, mesmo as contradições. Os habitantes vizinhos da central nuclear criaram comunidades fragmentadas de informação. Os jornais em papel oferecem uma cobertura mais aprofundada, mas “parecem lentos, perdem o pé, publicando apenas na manhã seguinte” (Kovach e Rosenstiel, 2010: 1-3).

100 A televisão ABC, por exemplo, decidiu “nunca usar um adjetivo que não tivesse sido usado pelas autoridades”; as

cadeias de televisão implicadas na cobertura decidiam, em reunião diária com as autoridades, que terminologia usar na descrição da tragédia (Kovach e Rosentiel, 2010: 5).

190

O Jornalismo do Cidadão

As novas tecnologias associadas ao jornalismo, ao mesmo tempo que abrem espaço à participação dos cidadãos no processo produtivo da notícia, também exigem que esses consumidores-produtores (pro-sumers) assumam novas responsabilidades. O jornalista, líder do fórum, deve iluminar a participação dos cidadãos no processo produtivo, identificando-lhe as armadilhas da rede (os interesses obscuros que se digladiam para encontrar plataformas mediáticas de acolhimento), mas deve, igualmente, interagir com os conteúdos gerados pelos membros desse fórum, filtrando- os, verificando-os e, se resistirem a esse crivo, integrá-los no processo. As novas responsabilidades dos cidadãos determinam que a participação, que deixou de lhes estar vedada, seja uma participação ativa, mas, igualmente, construtiva.

Cremos que um dos pontos mais sensíveis deste novo jornalismo resida, exatamente, no caráter da participação dos cidadãos.

Por um lado, a tecnologia tornou impossível contrariar o sonho de cada um de nós poder ser um “jornalista”, disponibilizando ferramentas que permitem a emissão e divulgação imediata de mensagens geradas por cidadãos; por outro, a tecnologia é cega aos conteúdos gerados pelos utilizadores, incapaz, portanto, de filtrar mensagens esvaziadas de sentido jornalístico.

A rede é, assim, a montra onde tudo se exibe. A força e o impacto da mensagem, a própria sustentabilidade económica dessa mensagem, passam a depender mais do número de cliques do que da credibilidade; mesmo quando a credibilidade se impõe como critério de acesso ( os estudos demonstram, como temos insistido, que esse é principal critério de acesso) qualquer conteúdo, a precisar de receitas para se autossustentar, deve sujeitar-se à ditadura do clique.

Uma rede inundada de mensagens, produzidas por indiferenciados cidadãos, é também fruto desse sonho concretizado de todos sermos “jornalistas”.

O sonho motiva o escritor espanhol Jordi Soler101 a desenhar uma caricatura eficaz do repórter cidadão:

“Imaginemos se cada cidadão exercer o seu direito de se converter em cidadão repórter e sair todos os dias armado com o seu telefone, que também é câmara, disposto a captar a notícia do dia, imaginemos, igualmente, que esta febre jornalística se estenderia a todos os habitantes da cidade. Em que se converte a informação quando todos a gerem e ninguém a

recebe?”.

101

A referência ao artigo do escritor espanhol foi originalmente localizada no blog Jornalismoe Comunicação, blog coletivo do projeto Mediascopio da Universidade do Minho.

191

Soler estende a caricatura, e a ação cidadã que lhe está associada, à captação de todos os factos do dia: 24 horas relatadas ao frame102 por cada um de nós (apud El País, 24 de Agosto de 2005).

A imagem de Soler aponta o foco para a banalização da informação, promovida pela necessidade que os indivíduos, em geral, demonstram pela partilha de factos privados do quotidiano. O Facebook e as redes sociais haveriam de dar contornos reais à caricatura desenhada pelo escritor espanhol em 2005. A seleção, feita em nome do interesse geral, não consta do mapa de ação desse ímpeto criador dos cidadãos, como não constará, igualmente, a verificação nem o restante quadro de valores do jornalismo.

Ao dissolver o jornalismo na realidade, suprimindo a mediação quando ela, motivada pelo excesso de mensagens por filtrar, maior relevo adquire, Soler parece ter encontrado inspiração no conto de Jorge Luís Borges, publicado em 1960103. Ao primeiro olhar, a assunção plena do jornalismo pelos cidadãos torná-lo-ia inútil, da mesma forma que um mapa que cobrisse todo o território também o seria.

A questão essencial, todavia, parece sobrepor-se à utilidade. Do nosso ponto de vista, a discussão deve centrar-se na consciência que os cidadãos têm acerca da necessidade do jornalismo.

Defender, como temos insistentemente feito, o jornalismo e o quadro de valores que o enforma, assumir o papel que um jornalismo independente tem na democracia, são argumentos relevantes, mas terão deles consciência os pro-sumers, que em blogs,