3.2. Ayak ve ayak bileği anatomisi
3.2.5. Fasya ve derin tabakalar (kas, tendon, damar ve sinir)
3.2.5.7. Bacak arkası ve ayak tabanı derin damar ve sinirleri
As doutrinas e argumentos utilizados por Lutero para defender sua posição foram fruto
do que ele próprio afirma ser sua maior descoberta: a Bíblia Sagrada. A palavra descoberta
deve-se tanto pelo fato de, por meio dela, Lutero ter encontrado as respostas às suas
indagações, como também pelo que consta em suas biografias sobre o seu encontro com esse
livro: “Lutero, com vinte anos não tinha ainda lido a Bíblia. Por acaso, descobriu uma, numa
biblioteca; pôs-se a lê-la e relê-la com uma paixão que mergulhava o Dr. Staupitz num
verdadeiro espanto...” (FEBVRE, 1976, p. 34). Ela passa a ser, então, a base de tudo o que ele
reivindica e contra tudo o que se opõe:
Para Lutero, a Palavra de Deus era o começo e o fim da sua fé. Atacou os escolásticos porque eles tinham substituído a Palavra de Deus (Gotteswort) pelo ensinamento dos homens (Menschenlehre). Opôs-se analogamente à autoridade do papa porque ele estava em conflito com a Palavra de Deus. (GREN, 1984, p. 140).
Para Lutero as Escrituras Sagradas deveriam ser a norma determinadora para as
decisões da vida e de fé. Além disso, afirma-se que “a desilusão de Lutero com o papado
evoluiu de sua descoberta do evangelho, baseada em seu estudo da Bíblia” (GEORGE, 1993,
p. 88); sendo assim, ela estava acima de papas e concílios e tinha Cristo como centro e Senhor
das Escrituras. Essa base cristocêntrica e de superioridade às autoridades religiosas não
significava um afrontamento contra a Igreja ou às suas tradições, mas apenas contra suas
práticas abusivas e doutrinais, que excediam ao que nela estava registrado:
Sola scriptura não era nuda scriptura. Nunca era simplesmente uma questão de Escritura ou tradição, escritura Sagrada ou igreja sagrada. A suficiência das Escrituras funcionava no contexto em que a Bíblia era reconhecida como o Livro dado à igreja, a comunidade da fé, reunida e guiada pelo Espírito Santo. (Ibid., p. 82).
A própria descoberta e entendimento da justificação pela fé foi conseqüência de sua
leitura e estudo da Bíblia. Lutero formou-se doutor nas Escrituras Sagradas e o estudo delas
não somente serviu para alterar suas concepções sobre Cristo e sobre a própria Igreja, como
suscitou nele a convicção de que a mediação da Igreja para sua interpretação era
desnecessária. Dessa constatação surge um dos maiores e mais reconhecidos trabalhos de
Lutero: a tradução da Bíblia para a língua alemã.
A tradução dos textos do Antigo e do Novo Testamento para uma língua acessível a
uma população e não somente aos estudiosos e religiosos foi acompanhada pela questão da
liberdade de interpretação das Escrituras o que “acabou alterando o monopólio estatal de
interpretação da Bíblia” (ALTMANN, 1994, p. 104).
O fato é que, traduzida, a Bíblia poderia ser compreendida por qualquer pessoa que a
ela tivesse acesso, mesmo que não soubesse grego, hebraico ou latim, podendo assim
compreender seu texto sem depender da interpretação dada a ele pela Igreja, afinal,
Lutero estava convicto de que a Escritura é clara, não tanto num sentido formal, como passou a ser entendido, mais e mais, na ortodoxia posterior, mas no sentido de que a Escritura se auto-evidencia pelo Espírito Santo, em seu conteúdo fundamental, a quem com ela lida. (Ibid., p. 105).
Apesar das críticas e diferentes posições sobre a acessibilidade à nova Bíblia traduzida
para a língua vernácula, são inegáveis os ganhos obtidos por essa obra de tradução. Alguns
autores localizam principalmente nesse fato a oportunidade de a Bíblia ser colocada à
disposição de toda a população, favorecendo-se sua leitura e interpretação, o que teria
contribuído para uma religião mais individual e pessoal: “A invenção da imprensa, juntamente
com a Bíblia Alemã de Lutero, em certo sentido, desacorrentaram as Escrituras, tornando-as
disponíveis não apenas a estudiosos e monges, mas também a lavradores nos campos e
Walter Altmann (1994, p. 115) concorda com esse caráter popular que a leitura da
Bíblia ganhou após sua tradução por Lutero: “(...) tudo isso dá uma incrível e peculiar
liberdade e vida no lidar com a Bíblia. A Bíblia na mão do povo, isso a Reforma viveu em
grande medida”.
Em contraposição a esses argumentos, Antônio Frago (1993, p. 48) afirma que o
acesso das populações camponesas à Bíblia não foi tão simples assim, visto que as tiragens da
Bíblia eram escassas e os seus exemplares tinham um valor muito alto, o que reduzia sua
clientela às instituições públicas e eclesiásticas e às classes que dispunham de recursos.
A forma como Lutero traduziu as Escrituras, ou seja, o método e língua usados para o
desenvolvimento desse trabalho, representando uma novidade para a sociedade da época,
apresentam-se como outro argumento que fomenta a discussão de que a interpretação da
Bíblia por ele realizada tinha objetivos de alcançar a toda a população, inclusive as camadas
populares. A fala de Lutero (OSel, 6, p. 26) transcrita a seguir explicita sua preocupação com
uma linguagem popular que fosse entendida por todos:
[...] não se deve falar alemão como se encontram as letras na língua latina. Isso fazem esses asnos. Ao contrário, devemos perguntar à mãe em casa, às crianças na rua, ao homem comum no mercado, olhar atentamente para suas bocas, como costumam falar, e traduzir correspondentemente. Aí essas pessoas entendem e notam que se fala alemão com elas.
Entretanto, além do alto custo da Bíblia, Vanderlei Defreyn (2004) afirma que ela não
pôde se tornar um livro popular, pois, depois de freqüentar a escola tempo suficiente para
aprender a ler e escrever, não se pode inferir que a pessoa já dominasse a leitura a ponto de ler
e entender a Bíblia; soma-se a isso o fato de que um estudo realizado pelo historiador Rolf
Engelsing aponta que o alemão utilizado por Lutero na tradução da Bíblia, ainda que tenha
sido determinante para a uniformização da língua alemã, não tinha se tornado domínio
popular no século XVI, mas sim posteriormente, fazendo com que a questão lingüística
Autores como Jean-François Gilmont (1999, p. 54) avaliam que, se Lutero se fez um
promotor de uma leitura popular da Bíblia, isso teria acontecido somente antes da Guerra dos
Camponeses, pois após essa revolta “e sob o efeito da proliferação de interpretações
heterodoxas da Escritura, seu discurso evolui. Ele insiste em um controle da Igreja no acesso à
Bíblia”.
Sendo assim, ainda na visão de autores que defendem essa posição, Lutero destinaria
ao povo a leitura dos Catecismos (que ele mesmo classifica como “a Bíblia do leigo”) e o
aprendizado das Sagradas Escrituras ouvindo-se as pregações:
Lutero considera que a pregação constitui o canal normal da difusão da boa doutrina. Para ele, as obras teológicas não são, pois, destinadas ao homem do povo; elas têm por função permitir ao teólogo e ao bispo que sejam bem e abundantemente formados, de tal sorte que sejam capazes de expor a doutrina da devoção. (GILMONT, 1999, p.66).
Contudo, apesar dessas discussões, a tradução da Bíblia e o apelo (mesmo que
considerado inicial) de Lutero para sua leitura por todos representam, sem dúvida, um ganho
social na questão, não especificamente de sua posse, naquele período, mas de seu uso e livre
acesso através dos tempos.