O objetivo geral deste trabalho foi analisar os aspectos sociais, econômicos e ambientais que constituem as práticas e relações das SoLaWi e das CSA.
Os objetivos específicos foram, a construção dos indicadores qualitativos para cada aspecto considerado, representados através das falas e interpretações dos dados para os dois países, separadamente. Realizar uma comparação qualitativa dos aspectos sociais, econômicos e ambientais entre as SoLaWi e CSA, e a descrição das estratégias e dificuldades das comunidades, para comunicar, entender, comparar e colaborar seu fortalecimento tecendo contribuições acerca dos principais desafios destacados para os aspectos estudados.
Ao final das análises é possível destacar que há uma heterogeneidade nas relações das CSA o que é importante para a garantia da resiliência deste modelo centrado na contextualização dos aspectos sociais, econômicos e ambientais, no entanto, o movimento já demonstra indicadores de uma coesão dentre estes aspectos, mesmo que incipiente.
Ao longo de observações foi possível visualizar que os contextos sociais distintos dos agricultores têm relação com o contexto social da agroecologia nos países, as CSA atuam como uma opção de organização comunitária em torno da produção agrícola fortalecendo a agroecologia na Alemanha e Brasil. O apoio e empoderamento dos agricultores, a militância e oportunidade de trabalho para membros, a autogestão e autonomia dos agricultores são indicadores dos aspectos sociais transformadores das comunidades e este aspecto é constantemente desafiado pela dificuldade na participação dos membros e gestão do trabalho voluntário.
Alternativas abordadas pela literatura são a profissionalização de um Comitê de Gestão, tornar as reuniões de trabalho agradáveis, mesclando atividades artísticas e culturais, culinárias e intelectuais e buscar estratégias de motivação e aproximação de consumidores e produtores de forma continuada contando também com a formação educativa do consumidor consciente. Ao longo de minha experiência nos últimos 4 anos observando o forte desenvolvimento das CSA em São Paulo e em Brasília acredita-se que as redes tenham impacto positivo no alcance destes objetivos, principalmente se
contam com financiamento para os cargos necessários para a articulação e capacitação dos agricultores e membros. O intercâmbio de experiências, através de eventos e cursos articulados pelas redes CSA Brasil e CSA Brasília durante estes 4 anos que acompanho o movimento, criou um laboratório para o desenvolvimento de estratégias, metodologias e ferramentas de forma contextualizada e criativa empoderando agricultores e membros a superar os desafios encontrados em suas comunidades.
A busca pela sustentabilidade econômica é representada de forma heterogênea devido aos distintos contextos das comunidades e de forma geral de seus respectivos países, principalmente no que se refere às políticas públicas voltadas aos circuitos curtos de comercialização e a economia solidária.
A dificuldade na precificação é indicadora de um desafio na busca de uma sustentabilidade econômica. A valorização do trabalho do agricultor, a solidariedade entre agricultores e membros, a busca pela autogestão financeira e compartilhamento dos riscos são indicadores de aspectos econômicos transformadores das comunidades, que são desafiados pela dificuldade no estabelecimento das relações de confiança e transparência. Para superar esta dificuldade e fortalecer a confiança é preciso ir além do aspecto econômico passando pelas relações sociais e de ajuda mútua entre as pessoas, neste sentido a responsabilidade do agricultor é produzir com diversidade, regularidade, qualidade apropriada e acertar no planejamento das quantidades para estabelecer o primeiro vínculo com os consumidores.
Quando as comunidades encontram membros com capacitações para as diversas atividades necessárias além do plantio e manejo das culturas novas oportunidades são criadas para sua organização, em contrapartida torna a comunidade mais dependente do trabalho voluntário. Estas atividades devem ser delineadas e concretizadas de forma menos voluntária. Como exemplo cito o trabalho de Serafim (2007) que destaca três componentes básicos adotados pela rede CSA em Portugal através de políticas públicas, sensibilização e organização dos consumidores, apoio técnico para a organização dos grupos (produtores e consumidores) e a troca de experiências e diálogos entre os atores. Neste sentido, apesar de não possuir o apoio de políticas públicas, a CSA SP indicou que busca, através da oficialização de um CNPJ, editais para auxiliar a estruturação de
uma equipe para o processo de consolidação da comunidade através de metodologias e ferramentas já desenvolvidas de forma voluntária.
Acredita-se que, para que os agricultores possam cumprir com estas atividades e estabelecer os vínculos necessários com a comunidade é necessária uma capacitação, este é o principal grande contexto sociocultural observado que diferencia os dois países estudados, o processo de formação dos agricultores ocorre de forma mais concreta e contextualizada na Alemanha através das várias modalidades (técnico, tecnólogo, bacharel) nos diversos planos da agricultura (agricultura orgânica, horticultura, agricultura ecológica). Há de se considerar as diferenças socioculturais entre um país que enfrentou duas guerras mundiais, como a Alemanha e um país rico em recursos alimentares como o Brasil. A organização local e participação das pessoas nas esferas políticas de segurança alimentar refletem nos maiores investimentos em formação e financiamento para a agricultura. Falar de dinheiro deve também ser algo prático e natural, feito de forma transparente através de ferramentas que façam sentido para cada caso, a agricultura solidária não pode cair em uma forma de auxílio paternalista para pequenos agricultores, deve ser libertadora, e para isso devemos nos preparar para ressignificar o dinheiro como os meios e não os fins da atividade agrícola.
Os indicadores dos aspectos ambientais das comunidades são representados pelos modelos de produção orgânicos e agroecológicos, e a busca pela biodiversidade, preservação do solo e saúde das pessoas e dos ecossistemas. Alguns desafios para a sustentabilidade ambiental são enfrentados através da prática da agricultura orgânica, encontrando limitações na conservação do solo, que podem ser superadas por meio do aprofundamento nas práticas agroecológicas de manejo do solo.
O grande privilégio na realização desta pesquisa foi conhecer tantas experiências, observar a diversidade e a criatividade das comunidades, sentir que compartilhar tudo isso nos aproxima de um horizonte comum e aprender que não estamos sozinhos e juntos somos mais fortes! Saber que este trabalho feito à muitas mãos e cabeças pensantes me deixa confiante para oferecê-lo como uma contribuição, um guia para um modelo de construção e fortalecimento das comunidades através da organização da gestão e logística, uma fonte de inspiração para todas as pessoas que buscam na agricultura solidária uma forma de vida coerente.
A principal dificuldade enfrentada na execução da pesquisa foi o tempo necessário para garantir a participação dos membros e suas validações, ferramentas virtuais como e-mail e Whatsapp foram utilizadas para superação destas, no entanto, o cronograma de pesquisa precisou ser alterado em função da pouca disponibilidade de alguns participantes. A pesquisa sobre Comunidades que Sustentam a Agricultura ainda é pouco explorada, principalmente no Brasil, a literatura existente sobre experiências na Europa e outros países desenvolvidos muitas vezes não reflete os aspectos sociais, econômicos e ambientais do nosso país, e as contextualizações são importantes para evitar análises qualitativas incompatíveis.
Nesse sentido, são indicados estudos futuros sobre o processo de formação e construção de comunidades no contexto da América Latina, pois aproximar fisicamente campo e cidade não é o bastante para a consolidação das CSA, um grande esforço sobre as relações pessoais, capacitação de agricultores e membros para a gestão e o investimento na educação crítica dos membros com relação aos riscos da agricultura são fundamentais para o fortalecimento e consolidação das comunidades ao longo do tempo, e as políticas públicas têm sido uma medida importante neste processo em alguns lugares, evidenciando a importância de suas ampliações.