Para melhor caracterizar o objeto de estudo, retomamos a sua definição inicial como o novo padrão de ocupação litorânea decorrente do desenvolvimento da atividade turística, verificado na RM de Fortaleza a partir dos anos 1980. Esse novo padrão apresenta-se, sobretudo, articulado à produção imobiliária destinada aos mercados local e global, constituindo-se numa das vertentes da estruturação metropolitana de Fortaleza.
1
A formulação da hipótese geral afirma de que: há um processo de reestrutura ção produtiva no Estado
do Ceará, iniciado no final dos anos 1980 que atingiu Fortaleza em sua dimensão metropolitana, provocando alterações no comportamento dos agentes imobiliários quando da produção do espaço urbano para o turismo.
São considerados padrões porque se repetem superpondo-se á morfologia urbana da metrópole em transição, a partir de um formato paralelo à linha da costa, estruturado para atender à mesma lógica de valorização das terras litorâneas destinadas à reprodução do capital globalizado. Esse padrão linear adota também novos padrões,
conceitos e tipologias arquitetônicas e urbanísticas consideradas “inovadoras” e que são
reproduzidas em outros locais do Brasil e do mundo, como carimbos, constituindo-se em novos nichos padronizados pelo mercado global. Por ocasião da crise financeira internacional que alcançou maior visibilidade a partir de 2008, no entanto, o processo sofreu uma mudança no ritmo de implantação e passou a ser adaptado, no caso do Ceará, ao mercado nacional e local, diante do recuo dos investidores estrangeiros. Abaixo, um exemplo do padrão de ocupação reproduzido no mundo inteiro como um
novo conceito de vida metropolitana que associa “natureza, esporte e qualidade de vida”. O empreendimento Alcacer Art & Golf Resort é um padrão consagrado, adotado
na costa Atlântica e mediterrânea da Europa, especialmente em Portugal e Espanha, e transposto também para o Ceará, por um grupo de investidores portugueses no empreendimento Aquiraz Riviera.
No mapa, abaixo, verificamos como os empreendimentos imobiliários se aproximam dos empreendimentos hoteleiros, como o Hilton, o Marriot e o Four Seasons,
configurando uma região turística e imobiliária, padrão consagrado utilizado como diferencial de mercado e testado no território cearense.
Esses novos padrões de ocupação são resultantes também da implantação de novos produtos que mesclam características de empreendimentos hoteleiros, imobiliários e de lazer, tais como: cond-hotéis, apart-hotéis, vilas turísticas, golf-clubs, country-clubs, resorts integrados em regime “all inclusive” ou “time-sharing”, parques temáticos, condomínios de turismo residencial ou de segunda residência, entre outros, que interagem com o meio urbano, social e natural provocando inúmeras repercussões. No caso de Aquiraz verificamos em que contexto esses empreendimentos foram idealizados e implantados, analisando como se configuraram as transformações socioespaciais e produtivas no âmbito local. Verificamos também como a adaptação ao novo contexto internacional de crise diminuiu o ritmo de implantação, diferenciando-se ao encontrar com outras dinâmicas de expansão urbana e turística locais, enfrentando os novos impasses relacionados à questão ambiental. Abaixo a maquete eletrônica do
Fig. 3.2 – Localização do Alcacer Art & Golf Resort (em vermelho) na Região litorânea do Alentejo,
empreendimento Aquiraz Riviera, com todas as fases implantadas. Ele parte do mesmo conceito de vila turística em torno do campo de Golf, como no caso português, implantado agora em território brasileiro.
Fig. 3.3 Maquete eletrônica do empreendimento Aquiraz Riviera com oito empreendimentos hoteleiros
previstos, na faixa litorânea. Atrás, o campo de golf permeando a malha da vila turística. Fonte: www.aquiraz-riviera.com.
Fig. 3.4 Imagem de satélite atual do Aquiraz Riviera mostrando o primeiro hotel em funcionamento (em
amarelo) e uma parte do campo de Golf já construído (em vermelho). Os demais empreendimentos estão em fase de projetos e captação. Embora tenha sido vendido algo em torno de 50% dos lotes para as vilas turísticas, não há ainda nenhuma casa construída. Fonte: Google Earth - 2012
Fig. 3.5 Padrão de ocupação encontrado no litoral do Porto das Dunas, diferente do conceito de Golf
Club, mas que também mescla empreendimentos turísticos e imobiliários. Nesse caso, foram implantados em loteamento de veraneio aprovado na prefeitura de Aquiraz, ainda em 1979 que se
adequou ao incremento do turismo dos anos 1990. Fonte: Skyscrapercity.com – Foto 2008
Fig. 3.6 Novos padrões de ocupação no Porto das Dunas: em vermelho - cond-hotel vinculado ao
Beach-Park (administrado em regime de pool); em amarelo: condomínio fechado tradicional; em verde:
Hotel Resort, integrado ao complexo Beach Park; em azul: o parque aquático. Nos demais lotes vê-se o
padrão de residências de veraneio, padrão típico dos anos 1980-1990. Fonte: Skyscrapercity.com – Foto
2009
Fig. 3.7 Maquete eletrônica do Golf Ville Resort Residence. Empreendimento com incorporação e
construção promovida por empresa cearense. O conceito é o mesmo padrão internacional, mas adaptado ao perfil econômico da elite local e regional, diante da crise internacional. Fonte: Skyscrapercity.com
Fig. 3.8. Empreendimento Golf Ville Resort Residence com obras em andamento, acima à esquerda. Ao
lado, à direita, o estande de vendas. Abaixo à esquerda o Outdoor do Estande de vendas e à direita uma maquete eletrônica em foto montagem hiper-realista do projeto, para ajudar a alavancar as vendas. Fonte: Fotos do autor: 2012 e fotomontagem do material publicitário, cedido pelo corretor.
As fotos dos novos padrões de ocupação, mostradas até o momento, tiveram o objetivo preliminar de caracterizar o objeto de estudo, do ponto de vista espacial, proporcionando uma primeira aproximação.
No entanto, o objeto de estudo se justifica por provocar uma discussão em torno dos conceitos de “padrão de ocupação” e “estruturação espacial”, com o intuito de compreender o papel dos agentes imobiliários articulados ao turismo, no contexto da
“transição metropolitana” das cidades brasileiras, como apontado por Pereira (2008). Desse modo, Pereira indaga se essa transição metropolitana pode ser vista como a produção social de uma forma de espaço separado, distinto, e transterritorial, interpretada como um novo espaço homogêneo, relacionado a um estilo de vida metropolitana emergente. Esse padrão, portanto, diria respeito a formas espaciais de uma economia que se manifesta como ordem urbana que, na verdade, se comporta como uma (des) ordem, na medida em que representa a desagregação social da ordem existente, respaldada por uma ideologia de uma nova sociedade constituída por aglomerações cada vez maiores, mais excludentes e segregadas. No nosso caso, manifestam-se nos projetos de condomínios de lazer e empreendimentos de uso misto, como as vilas turísticas e “resorts residences”, entre outros, comercializados como segunda residência, na perspectiva de se tornarem permanentes ou quase permanentes.
De certa maneira pode-se dizer que se trata de construir novas cidades, como se fossem ilhas, dentro da cidade já existente (ou por cima, da pré-existente, tal como ocorreu com algumas cidades pré-colombianas na colonização). Assim, o sentido da transição metropolitana pode não ser negar a cidade, mas negar a sua história e, com ela a ordem socioespacial existente. Fundamentalmente, a força dos fluxos da globalização na transição metropolitana subordina a cidade existente, preside a questão urbana pela ocultação dos problemas, sobretudo, da miséria da sua população e das mazelas da injustiça urbana, para promover globalmente espaços que, glamorizados e valorizados atinjam um mercado e preços maiores. (PEREIRA, 2008)
No nosso caso, optamos por enfocar preferencialmente o litoral de Aquiraz porque ele manifesta de uma forma mais evidente o fenômeno em discussão, apoiando-se também em duas referências analíticas formuladas por Lefebvre (1980) e revistas por Lencioni
A primeira diz respeito à importância da análise da tríade: estrutura, forma e função, compreendidas como elementos em permanente movimento, cujo equilíbrio provisório é resultante das novas e antigas relações entre as partes, constituindo-se num “constante movimento de estruturação-desestruturação-reestruturação” (idem p.54). Na nossa análise, essa referência ajuda a explicar as diversas adaptações dos padrões espaciais às mudanças nas novas demandas do mercado, sejam por motivações locais ou em articulação com as mudanças globais.
Com isso, damos suporte à proposta de interpretar essa recente “urbanização litorânea” na RM de Fortaleza, cujas características “metropolitanas” levam a nos indagar se elas podem ser entendidas como a representação de uma espécie de “economia de arquipélago” tal como expõe Olivier Mongin (2006 p.233, apud Pereira 2008).
No nosso caso, é perceptível a implantação de uma estruturação espacial prevista para atender às novas funções atribuídas ao turismo global e regional, enquanto vertente de desenvolvimento, nos planos de governo do Estado do Ceará. Essa estruturação acabou se conformando, por suas características particulares, a uma função intimamente articulada à promoção imobiliária, apresentando-se como conjuntos urbanos
“insulares” participando ao seu modo e em seu nível, de setores secundários da rede de
fluxos da economia global, nacional e local.
Essa nova forma de urbanização metropolitana parece dissolver o antigo e incompleto modelo de urbanização precedente, cuja transição se reveste de um sentido de conformação de uma nova ordem espacial. Entretanto, os conflitos com as estruturas socioespaciais anteriores, promovem mudanças na morfologia urbana a partir da adoção de uma nova forma padronizada de ocupação espacial transformada, nesse caso, em nicho de oportunidades de negócios para o mercado global e local.
A segunda referência analítica, também apoiada em outra tríade lefebvriana, é originada de uma discussão formulada pelo autor sobre o trabalho social, uma categoria central da teoria de Marx (LEFBVRE, 1980, p.135-178 in LENCIONI, 2011, p.57). Nesse caso, Lefebvre deriva e cria uma nova tríade constitutiva do espaço na sociedade capitalista, apresentando-o também como sendo: homogêneo, fragmentado e hierarquizado.
Portanto, as referências analíticas adotadas na pesquisa servem para auxiliar a organização e interpretação do material coletado, na perspectiva de compreender a
transição metropolitana de Fortaleza a partir da discussão do papel dessa suposta
“metamorfose socioespacial” (idem p. 57). Esse fenômeno se manifesta também em várias cidades brasileiras e, em particular, no caso em estudo, quando observamos uma evidente homogeneização verificada na semelhança dos processos de expansão urbana: seja, na arquitetura dos edifícios, nas soluções para reabilitação urbana, como também na marcante fragmentação e segregação dos novos padrões de ocupação litorâneos, voltados para o desenvolvimento do turismo.
Partiremos no próximo segmento à introdução do recorte espacial estudado, a partir das informações básicas necessárias a sua caracterização e identificação.