• Sonuç bulunamadı

É bem verdade que na maioria das bibliografias a respeito do processo de participação das comunidades afetadas por um empreendimento, é referido que essa participação é dada durante todo o processo de implantação, desde a fase dos estudos iniciais (testes e sondagens), elaboração do EIA/RIMA e dos projetos de engenharia, se estendendo até a fase de implantação do empreendimento e posteriormente sua operação.

Na prática, no entanto, não é bem isso que acontece. De acordo com muitos relatos e até mesmo em virtude da observação que se fez em audiências públicas, pode-se constatar que a comunidade, na maioria das vezes, é totalmente excluída de todo o processo de consulta, tanto durante a fase dos estudos iniciais, como na confecção do EIA/RIMA até a implantação e operação do empreendimento.

Na realidade, o que acontece, na maioria dos casos, é que a comunidade só fica realmente sabendo de algo quando é “convocada” pelo empreendedor e possível empregador para o processo de audiência pública e isso só ocorre porque é necessário um quórum para que essas reuniões sejam válidas. Dessa maneira, os possíveis candidatos a futuros funcionários são praticamente obrigados a comparecerem a essas reuniões. Como a audiência pública fica por conta do empreendedor, ele mesmo deverá fazer a divulgação do ato e torná- lo público, e assim fica livre para fazer toda a propaganda em favor do seu projeto.

Mesmo o processo de audiência pública, porém, sendo caracterizado como um espaço para se debater e discutir o que está presente no EIA/RIMA e quais as reais aplicações e consequências da instalação de um determinado projeto na comunidade, ela ainda se trata de uma reunião totalmente unilateral, na qual poucas vezes a participação popular com questionamentos e discordâncias ocorre realmente. Em relação a esse assunto, Agra Filho (1993) declara que: “na maioria das audiências públicas realizadas, há um unânime sentimento de frustração dos participantes e atores envolvidos”. Pensa-se que tal afirmação pode ser plenamente justificada em razão da metodologia de apresentação do empreendimento

nessas reuniões, que não exibe uma linguagem acessível e também por não incitar o diálogo e a discussão entre os presentes, principalmente a comunidade envolvida.

Ainda segundo Agra Filho (1993), em sua pesquisa intitulada Os Estudos de Impacto Ambiental no Brasil: uma análise de sua efetividade, os principais questionamentos sobre as audiências públicas no Brasil são:

o RIMA não se apresenta em linguagem acessível para a devida compreensão e discussão;

o prazo entre a disponibilidade e a convocação da audiência e a sua realização é extremamente curto para que haja conhecimento necessário dos problemas ambientais apresentados no Rima;

os procedimentos de condução e participação durante a audiência são, em geral, inadequados em relação à pauta e ao tempo disponível, além de serem estabelecidos sem prévia discussão;

a realização de uma única audiência pública tem-se mostrado insuficiente para uma discussão plena de um RIMA;e

as entidades ambientalistas têm preferido as questões consideradas mais secundárias

Para reforçar o primeiro item abordado por Agra Filho (1993), alguns outros autores, como Sánchez (2006), esclarece que o EIA e o RIMA devem servir como base para uma discussão pública e para o “uso público da razão” no processo decisório, e que devem apresentar uma redação que busque sempre a redução no nível de ruído e a redução da interferência na comunicação.

Além desses aspectos, outro fator que deve ser ressaltado e que dificulta ainda mais a participação popular durante o processo de confecção do EIA, e posteriormente na sua aprovação, está relacionado ao caráter eminentemente técnico e científico no qual esse estudo é confeccionado. Sobre esse assunto, Wunder (2003) apud Karpinski (2007), esclarece que “o caráter eminentemente técnico e científico do EIA é também motivo de muita discussão”.

sobre os demais aspectos inerentes à cultura popular das comunidades que habitam próximo a esses projetos. Segundo Karpinski (2007), o saber local pode e deve contribuir para a elaboração de qualquer estudo de viabilidade sobre empreendimentos que trarão impactos ao meio ambiente. Estudos realizados com um elevado grau de discussão técnica dificultará ainda mais o entendimento por parte do público em geral, e este somente ajudará no processo de decisão se ele estiver devidamente informado sobre a que se refere.

Outro aspecto que também merece destaque, por influenciar diretamente na participação das comunidades envolvidas, está relacionado à divulgação da audiência pública. Muitas vezes para o empreendedor, não fica bem claro que ele é o responsável por essa publicidade e que ele deverá fazê-lo da melhor maneira possível, pois, do contrário, o quórum não é formado e outra audiência pública terá que ser convocada, acarretando assim no retardamento do processo e em maiores despesas, tanto para o órgão ambiental como para o próprio empreendedor. Como diria Sánchez (2006), porém, “a comunicação com o público requer atenção e dedicação”.

Em relação ao aspecto de como a comunidade afetada pela carcinicultura foi tratada no EIA, a análise desse estudo mostrou que, como já discutido quando analisadas a AID e AII e também durante a análise do diagnóstico ambiental, a comunidade “Boca do Forno”, diretamente afetada pelo projeto de carcinicultura, nem sequer foi citada. Assim, fica- se sem saber se ela foi consultada ou até mesmo entrevistada durante a confecção do estudo. A hipótese mais plausível para essa questão é a de que ela nem sequer foi visitada; de outra maneira, por que os dados referentes a essa pesquisa não estariam disponíveis no estudo? Pensando assim, como se terá a certeza em relação ao real sentimento dessa população em função da instalação desse empreendimento? Como as suas dúvidas e questionamentos serão ouvidos? Talvez a própria comunidade pudesse dar algumas dicas, mas, onde estaria essa fala se não no EIA? Nesse aspecto, no entanto, o EIA é surdo e mudo, e não deixa-se perceber nada a esse respeito.

No que diz respeito ao processo de audiência pública do referido EIA/RIMA, segundo entrevista realizada com a funcionária da SEMACE responsável por esses processos, ela ocorreu, contudo, os dados referentes a esse projeto não foram encontrados neste órgão e assim não teve como ser realizada uma análise mais específica dessa questão.

É necessário salientar, entretanto, que o processo de participação das comunidades residentes na área de implantação de um empreendimento é de enorme importância para que melhores resultados sejam obtidos. Sendo assim, ele deveria ser incentivado com o intuito de melhorar a participação popular e emular a gestão participativa dessas áreas. Se ações assim

ocorressem, os conflitos sociais em decorrência da implantação de alguns empreendimentos, principalmente os relacionados às fazendas de carcinicultura, passariam a ocorrer em menores proporções.