O mergulho no mundo desapropriado do tempo (não fora do tempo, uma vez que somos seres sem qualquer possibilidade extratemporal), a uma velocidade de sua duplicação, se deve, principalmente, às tecnologias eletrônica e informática que permitiram que passássemos a viver um tempo que nos parece fazer coincidir com o tempo real, quer dizer, dentro dos limites de nosso próprio corpo, ainda que fora dele.
O mundo está disponível aos nossos sentidos e as tecnologias do virtual podem nos fazer viver o lugar de diferentes outros, com suas sensações, nos colocando no corpo do outro, vivendo o espaço da obra e da catástrofe. Isto é, desapropriados do tempo, o que se apresenta é uma vivência (Erlebins) que não se qualifica como experiência (Erfahrung), quer dizer, que não exerce uma força da qual se possam tirar conseqüências dessa nova forma de viver o mundo. O que podemos pensar de novo quando assistimos, em tempo real, esse desenrolar de narrativas humanas? O que resulta de peculiar em nossas experiências aos sermos cúmplices desses fatos?. Muito pouco, insuficiente.
Observamos as terríveis imagens de pessoas correndo aflitas, tendo às suas costas a iminência da morte, por exemplo, com a destruição das torres em Nova Iorque ou as imagens do desespero de milhares de pessoas vitimadas pelas ondas gigantescas e violentas do maremoto que arrasou a costa asiática, matando mais de 220 mil de pessoas. Assistimos a torturas e maus-tratos a prisioneiros iraquianos, cometidos por soldados norte-americanos, que invadiram o país sob a alegação da existência de armas químicas, biológicas e nucleares, de destruição maciça e, depois a apenas um constrangedor reconhecimento público, dado as evidências dos fatos, de que nenhuma arma tinha sido encontrada que ameaçasse à humanidade. Constatamos que em lugar das terríveis armas, encontraram-se as resistências humanas, organizadas em grupos dispostos a dar suas vidas contra o inimigo invasor e que estão a por em risco a superioridade bélica americana. O que tudo isso resulta como pensamento próprio à existência contemporânea? De que modo tantas ameaças à existência da vida nos mobilizam? Muito pouco, quase nada, e amanhã e depois, e
assim continuamente, outros fatos nos atropelam, sem que estejamos à altura desses acontecimentos. Quais movimentos são capazes de organizar uma resistência a esse mundo-imagem? Não que não sejamos afetados por eles, ao contrário, somos emudecidos, paralisados. Mas não resulta daí um pensamento, uma ação mobilizadora, nenhum novo projeto coletivo de habitar o Planeta que se devasta, aquece, polui; nenhum acordo sobre as novas relações entre as Nações. Ao contrário, vemos o desrespeito às decisões da Organização das Nações Unidas (ONU), organismo internacional até então mais efetivo no equilíbrio das forças mundiais; não vemos traçadas novas estratégias de existência que congreguem as forças da vida e não as do capital acumulador e cego que domina o mundo.
Não há, portanto, experiência. Ressaltamos aqui, particularmente, o sentido da Experiência (Erfahrung)32, tal como Benjamin o formulou para enunciar o ocaso da narração, através do emudecimento que os soldados traziam consigo dos campos de batalha no pós-Guerra33; do fim do personagem do Narrador, devido à minguante
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encontro com as pessoas que sabem narrar alguma coisa direito. É cada vez mais freqüente espalhar-se em volta o embaraço quando se anuncia o desejo de ouvir uma história. É como se uma faculdade, que nos parecia inalienável, a mais garantida entre as coisas seguras, nos fosse retirada. Ou seja: a de trocar experiências” (1983:57). “Narrar histórias é sempre a arte de as continuar contatando e esta se perde quando as histórias já não são mais retidas” (1983:62). Há uma diferença em Benjamim, entre Erlebins e Erfharung. A primeira significa viver uma experiência como aventura, que se dá de forma imediata como choque, algo que se vive com absoluta imediatez para logo ser abandonada por uma nova vivência, a menor moeda do atual.
“Com a Guerra Mundial começou
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a fazer-se evidente um processo em face do qual ainda não nos detivemos sobre ele o suficiente. Não se notou que as pessoas voltavam emudecidas do campo de batalha? Em lugar de retornar mais ricas em experiências comunicáveis, voltavam empobrecidos. Tudo aquilo que dez anos mais tarde se converteu em uma maré de livros de guerra, nada tinham que ver com experiências que se transmitem de boca em boca. E isso não surpreende, pois jamais as experiências resultantes da refutação de mentiras fundamentais, significaram um castigo tão severo com o infringido a estratégica pela guerra de trincheiras, a economia pela inflação, a corporal pela batalha material, a ética pelos detentores do poder. Uma geração que havia ido a escola em transportes a cavalos, se encontrou subitamente à intempérie, em uma paisagem em que nada havia ficado igual à exceção das nuvens. Entre elas, rodeado por um campo de força de correntes devastadoras e explosões, se encontrava o minúsculo e quebradiço corpo humano”. (O Narrador, Walter Benjamim). Vale sublinhar que Benjamin não viu essa redução da capacidade de narrar como decadência, mas como resultante de forças produtivas históricas, seculares, que vinham deslocando a narração do
capacidade da comunicação de experiências, e da predominância das formas de produção de informação (medida, na linguagem, pelo valor transitório - atualização e desatualização que ocorrem ao mesmo tempo), que se dá com a criação dos meios técnicos de reprodutibilidade, em especial, com a invenção da imprensa, que impõe velocidade à comunicação. São vivências (presentes) que se dão em forma de choques, que não resultam em experiências (articulações temporais) comunicáveis, portanto, sem sugestões de continuidade (futuro), quer dizer, desconectadas no tempo. São imagens que aparecem como auto-suficientes, que se auto-explicam. Não há a composição de um plano outro onde possam transitar múltiplos tempos, presentes conectados com suas multiplicidades temporais.
Ora, se Benjamin identifica a redução da capacidade de narrar, é também ele que observa o surgimento de fendas que se abrem das potencialidades do inaudito através de seus trabalhos sobre Baudelaire, é preciso que perguntemos também onde se abrem desvios às imagens em desaparecimento. Quais são as veias por onde transita a pujança desse tempo contemporâneo. Não há um lugar determinado, mas talvez possamos apanhar da velocidade do tempo real, da adequação do tempo aos movimentos do presente, de codificação do real em uma temporalidade on-line, o que porta uma potencialidade criadora precisamente pelo que tem de ligação a um caos intensivo e produtivo. Afinal, diante de imagens em tempo real o que ocorre é o descarrilamento do tempo, o fim do tempo, ou ainda, a sua absoluta suspensão. Uma situação na qual os fatos se tornam inenarráveis, inefáveis, completamente descodificados, insólitos, extraordinários, inexprimíveis, que exorbitam ao estado de âmbito da fala, e que fazia surgir como uma nova beleza no que desvanece. Lembramos aqui o tipo singular de amor moderno, a fugitiva beleza, descrito na poética de Baudelaire.
coisas. Um tempo fabuloso. Apesar de surgir como uma força desmobilizadora, que tenta despotencializar qualquer vontade de experimentação, de invenção do novo. Mesmo que se apresente como efetivação de um processo de homogeneização das experiências, tanto do ponto de vista das efetuações dos modelos de integração mundial do capitalismo, que tem entre suas conseqüências nefastas o combate e a destruição das diferenças (basta ver os enfrentamentos éticos, religiosos, culturais e os terrorismos de grupos e de Estado), quanto da ausência de construções de novos sentidos, sejam coletivos ou individuais. É inegável que se trata de um tempo presente em estado de puro espaço de desaparecimento e que, portanto, ressaltamos, sem valor de acontecimento (aquilo que não permite o inesperado nem a formação de novos sentidos). Uma experiência de caos que não resulta senão em mais caos.
No entanto, é possível pensarmos em um caos produtivo, e até mesmo identificarmos a transformação desse caos em cosmos, em criação de linguagens. Como ocorre nos gestos imprescindíveis de Malévitch, no branco sobre o branco, ou no silêncio, em John Cage, estes que são marcos na pintura e na música de nossa contemporaneidade, e que são trajetos que podem ser comparados à luta pela qual passaram Cézanne e Klee até fazerem o salto à composição. O que fazem a arte, a ciência, a filosofia é mergulharem no caos para, como diz Joyce, construir um caos composto, que provoca a redução da velocidade infinita (tempo do caos) a um tempo da criação. Pois não é exatamente isso que fez o cinema ressurgir depois da Segunda- Guerra? Saiu do caos absoluto, com uma nova função, como bem se pode ver com o Neorealismo, na qual a imagem passa a ter outro desempenho, uma nova estética, outra ética. A obra fundamental de Resnais, com suas novas formas de composição e
de associação. Ou na cinematografia de Orson Wells, que num golpe de vista faz sucumbir a profundidade de campo e com ela toda uma relação com o movimentos dos corpos. Foi então quando pudemos ver o cinema como uma arte que incluía o risco.
São essas forças que permitem transformar as existências, no mundo contemporâneo, em desdobramentos de singularizações, de produção de acontecimentos, e não apenas de sofrimento e angústia que vêm da desproteção do caos, que tornam as variabilidades infinitas, onde a aparição e desaparição coincidem. Variabilidades estas formadas por velocidades também infinitas, tal como explicam Deleuze e Guatarri, “cujo instante não sabemos se é longo demais ou curto demais para o tempo. Onde perdemos sem cessar nossas idéias, onde o pensamento escapa a si mesmo” (DELEUZE/GUATARRI, 1992, págs. 259,260). É por isso, ou seja, é para nos proteger do caos, que se faz necessário um pensamento que trace planos. Mas não quaisquer planos, não planos que, à custa de nos proteger, nos sufocam. É preciso que os planos resultem de um mergulho no caos. “A filosofia, a ciência e a arte querem que rasguemos o firmamento e que mergulhemos no caos. Só venceremos a este preço. Atravessei três vezes o Aqueronte como vencedor” (DELEUZE/GUATARRI, 1992, p.260). É preciso encontrar brechas nas imagens contemporâneas que nos permitam, como explica Deleuze, em “Lógica do Sentido”, exercer o único princípio ético: estar à altura dos acontecimentos.